domingo, 8 de novembro de 2015

Era uma vez um sistema de metas de inflação


Há muito tempo atrás reinava no Brasil um sistema de metas de inflação eficaz. O País crescia em velocidade satisfatória, a inflação estava em declínio e começava oscilar em torno da meta de 4,50% (como foi em 2007 e 2009) ou mesmo abaixo dela (como foi em 2006). Esses dois fatores foram essenciais para o enriquecimento da população, o que inclusive permitiu uma relevante ascensão de famílias de classes D e E para a classe C.

As pessoas estavam felizes. Quem se dispunha a trabalhar ganhava um bom dinheiro e conseguia elevar o seu padrão de consumo. Mas, infelizmente, a alegria de um País de educação pobre durou pouco.

O choque veio, para muitos, somente em 2015, pois o governo se esforçou ao máximo para prorrogar esse impacto. Os erros grosseiros de política econômica começaram a surgir com mais frequência a partir de 2011, quando a presidente Dilma tomou posse com a promessa de implementar uma nova matriz econômica no Brasil.

A atuação do Banco Central era parte importante desse processo. Não seria possível dar prosseguimento à nova matriz econômica sem a importante contribuição da política monetária.

Nesse texto, vamos relembrar trechos importantes extraídos das atas do Copom (Comitê de Política Monetária) para exemplificar como o Banco Central deixou de ser uma instituição de credibilidade, respeito e confiança entre os agentes e, também, para entendermos por que estamos atolados no atual lamaçal macroeconômico.

Tudo começou em 2011, quando as decisões do Copom deixaram de ser aparentemente condizentes com o quadro inflacionário. Observem a promessa da autoridade monetária, destacada no próximo parágrafo, para a convergência da inflação ao centro da meta.

Na a ata de reunião dos dias 19/04/2011 e 20/04/2011, o Banco Central afirma que: “considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que, neste momento, a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012.”

Na reunião realizada nos dias 30/08/2011 e 31/08/2011, o Banco Central iniciou o polêmico processo de afrouxamento monetário, alegando que “o ambiente macroeconômico se alterou substancialmente desde sua última reunião, de modo a justificar uma reavaliação, e, eventualmente, reversão, do recente processo de elevação da taxa básica.”

Vale relembrar que, neste mesmo ano, o IPCA fechou exatamente no teto da margem de tolerância do sistema de metas de inflação, aos 6,50%. No ano anterior, a inflação já estava longe do centro da meta, aos 5,90%. Ou seja, não havia refresco na inflação doméstica, embora a inflação global estivesse, na época, em níveis muito baixos.

Se em abril de 2011 o Banco Central justificava o aperto das condições monetárias como necessário para convergência da inflação para a meta em 2012, em outubro deste mesmo ano a autoridade monetária já estava fazendo o contrário (afrouxando as condições monetárias), mas ainda assim afirmava que sua (nova) política era consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012.

Os meses seguintes foram marcados pelos sucessivos e agressivos cortes na taxa básica de juros. Em agosto de 2012, quando a taxa Selic caiu para 7,50% ao ano, o Banco Central descartou, na ata, cenário de convergência da inflação para a meta neste mesmo ano e passou a considerar apenas que “a inflação tende a se deslocar na direção da trajetória de metas.”

Já a reunião de outubro deste mesmo ano, marcada pela redução da taxa Selic para 7,25% ao ano, por cinco votos a favor (incluindo o do presidente Alexandre Tombini) e três votos contra, terminou com suspeita de um clima tenso dentro do Copom, pois o placar ficou muito apertado.

Os diretores que votaram a favor de um novo corte na taxa Selic argumentaram que “restavam incertezas quanto à velocidade de recuperação da atividade, em grande parte, decorrência das perspectivas de que o período de fragilidade da economia global seja mais prolongado do que se antecipava, com repercussões desinflacionárias sobre a economia doméstica. Além disso, foi destacado que as recentes pressões de preços decorrem, principalmente, de choques de oferta, internos e externos, que tendem a reverter no médio prazo. Portanto, no entendimento desses cinco membros do Comitê, o cenário prospectivo para a inflação ainda comportava um último ajuste nas condições monetárias.”

Pode ser que até hoje esses membros do Copom estejam procurando as tais repercussões desinflacionárias sobre a economia doméstica. O tempo mostrou que estavam redondamente enganados, o que culminou na lamentável perda de credibilidade do Banco Central.

Na ata de reunião dos dias 27/11/2012 e 28/11/2012, o Banco Central passou a afirmar que “a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta, ainda que de forma não linear”. Nessa época, a taxa Selic estava sendo mantida na mínima história, aos 7,25% ao ano, e ninguém (ou quase ninguém) conseguia entender a tal da convergência não linear, bem como os motivos que justificassem uma taxa básica de juros tão baixa num quadro de inflação elevada e distante do centro da meta.

Em abril de 2013 o Banco Central pareceu ter se convencido de que o experimento da nova matriz econômica falhou. Apesar da chuva de críticas do mercado (justificadas) e avisos de analistas, economistas e agentes, ainda havia uma brecha para a autoridade monetária recuperar sua credibilidade num curto espaço de tempo. Bastaria reconhecer o erro e consertá-lo. Talvez um choque de juros para cima (na faixa de +5 p.p.) seria suficiente para colocar a casa em ordem. Entretanto, o Copom decidiu, neste mês, aumentar a taxa Selic em apenas 0,25 p.p., para 7,50% ao ano, ainda assim com dois votos contra.

Na reunião seguinte, realizada nos dias 28/05/2013 e 29/05/2013, o Copom decidiu aumentar o ritmo do ciclo de aperto monetário para 0,50 p.p., alegando que “essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano.”

Essa nova promessa foi sendo mantida até a reunião dos dias 08/10/2013 e 09/10/2013. Já na reunião dos dias 26/11/2013 e 27/11/2013, o Banco Central mudou o discurso, deixou uma mensagem curta, sem mencionar novos prazos. A inflação não entrou em declínio e a tendência (ascendente) persistiu no ano seguinte.

Em maio de 2014, os diretores do Copom demonstraram estar satisfeitos com a taxa Selic aos 11,00% ao ano e decidiram interromper o ciclo de aperto monetário. Em mensagem na ata, “o Comitê avalia que os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação tendem a ser potencializados.”

Já na reunião realizada nos dias 28/10/2014 e 29/10/2014, “curiosamente” logo após as eleições presidenciais, o Banco Central voltou a subir a taxa básica de juros, alegando, na ata, que “a intensificação dos supracitados ajustes de preços relativos na economia tornou o balanço de riscos para a inflação menos favorável.”

Na reunião seguinte, realizada no mês de dezembro de 2014, o Banco Central ressaltou na ata que “não descarta a ocorrência de cenário que contempla elevação da inflação no curto prazo, e antecipa que a inflação tende a permanecer elevada em 2015, mas ainda no próximo ano entra em longo período de declínio.” Neste mês, o Copom enxergava convergência da inflação para o centro da meta em 2016.

Pouco tempo depois, em março de 2015, o Banco Central se viu forçado a mudar o discurso novamente, já que não havia menor sinal de a inflação entrar em declínio neste ano. A partir de então a autoridade monetária passou a afirmar que a inflação tende a permanecer elevada em 2015.

Na ata da reunião seguinte, realizada nos dias 28/04/2015 e 29/4/2015, o Banco Central empurrou o prazo de convergência da inflação para o centro da meta de 2016 para o fim de 2016. A nova promessa foi mantida até outubro, quando o Banco Central se viu forçado novamente a empurrar o prazo de convergência da inflação para o centro da meta, desta vez para o horizonte relevante para a política monetária, o que, em outras palavras, significa 2017.

Durante toda essa novela do Banco Central, de expectativas frustradas, de promessas não cumpridas e de prazos prorrogados, a inflação jamais se aproximou da meta de 4,50%. Desde 2010 o IPCA fecha ano após ano acima e distante do centro da meta. Durante todo esse período o Banco Central pareceu ter se esforçado mais em encontrar vilões (ou desculpas esfarrapadas, na tentativa de justificar sua incompetência) do que trabalhar para cumprir com eficácia seu dever de garantir estabilidade do poder de compra da moeda.

Não dá mais para engolir uma nova promessa de cumprimento da meta em 2017. Não dá mais para acreditar no novo vilão (fiscal) encontrado para justificar uma ineficiente política monetária. Aliás, a política fiscal é apenas parte do problema da inflação elevada no Brasil, e não o centro. Há cinco anos não sabemos o que é um IPCA próximo do centro da meta, e, ao que tudo indica, vamos continuar não sabendo por um bom tempo.

A manutenção de um longo quadro de inflação persistentemente elevada afetou a credibilidade do sistema de metas de inflação (que por sinal é utilizado, com seriedade, por vários países), tornando-o desacreditado no Brasil. Se os agentes não confiam mais no sistema de metas, nem depositam credibilidade no Banco Central, muito dificilmente a inflação retornará ao centro da meta. Como se não bastasse, a ineficiência da autoridade monetária está contribuindo para provocar, com preocupante rapidez, o empobrecimento da população brasileira, afetando, principalmente, justamente aqueles que engodaram a classe C na década passada.

27 comentários:

  1. Como se dá esse empobrecimento se o salário é corrigido pela inflação ?

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    1. Em cenário de inflação elevada as empresas (iniciativa privada) encontram muita dificuldade para repassar integralmente a inflação aos salários. Quando atingem esse limite, começam a demitir e, consequentemente, as negociações futuras ficam mais favoráveis ao empregador. Com aumento da taxa de desemprego e queda real dos salários, as famílias empobrecem. É o que está acontecendo nesse momento, em velocidade alarmante.

      Abs, boa semana

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    2. Sabe de nada inocente.
      Existe uma coisa chamada inflação real... A outra chamada inflação oficial.
      Para calcular a inflação real você precisa mensurar seus gatos comparando com um período de amostragem por exemplo 1 ano.
      A gasolina sofre repasse do índices inflacionários correções , assim como alugueis e diversos itens da cesta de serviços.
      Portanto a inflação real é muito acima dos índices inflacionários oficiais que vão repassar 10% este ano.
      A inflação pessoal ou real aquela que realmente acontece na sua vida vem com o repasse nos produtos pode variar: de 15% até 30%.
      Imagine uma cadeia produtiva aonde todos os produtores vão repassando inflação em cada estágio da produção.
      No final da cadeia produtiva a inflação foi repassada em todos processo da produção portanto este produto quase dobra de preço.
      O efeito é em cascata , portanto não é algo linear.
      Ex: A inflação não é repassado sobre o valor final do serviço ou produto.
      Mas sim em toda cadeia produtiva do mesmo, portanto a inflação real aquela que acontece mesmo é muito maior do que os parcos 10% citados pelo IBGE.
      Se você ganha 2000 mil reais e tem repassar de 10% teria aumentando em 200 reais para acompanhar a inflação oficial correto.
      Aqui é onde mora malandragem do governo: A inflação é repassada sobre o valor nominal do salário .
      Já nos produtos ela é repassada por toda cadeia produtiva de tal modo que para comprar as mesmas coisas que tu comprava antes vai precisar de muito mais do que um aumento de 200 pilas.
      Se resta dúvida faça o monitoramento da suas contas acredito que só a conta de luz já subiu mais de 100% em alguma regiões .
      Fora os combustíveis etc.

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    3. Em que país o sr Hudson mora pra dizer uma bobagem desse tamanho? Onde está a garantia de reajuste salarial com base na inflação integral? Ohhh meu deus....

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    4. Hudson, aqui tem uma explicação:
      http://www.drmoney.com.br/economia/estado/populismo-e-inflacao-o-caso-argentino/

      Mas vc pode ler muito mais sobre inflação neste mesmo blog:
      http://www.drmoney.com.br/?s=infla%C3%A7%C3%A3o

      E se tiver desconfiança, procure por artigos acadêmicos ou livros sobre economia.

      []s!

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    5. Caro Hudson,
      O salário é corrigido pela inflação na teoria, pois na prática a inflação é sempre acima do que é divulgado pelo Governo.
      Isso quando os aumentos conseguidos pelos sindicatos não ficam abaixo da inflação, o que já vi acontecer por diversos anos.

      Parabéns pelo blog FI. Acompanho sempre.

      P. Eduardo.

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    6. Anônimo8 de novembro de 2015 22:44: Concordo contigo sobre a gravidade do caso.


      A inflação "pessoal" pode ser menor que a oficial. Difícil num quadro desse, mas possível.
      Essa coisa de dizer que a inflação real é maior porque vai se propagando por toda a cadeia e aí vai se "multiplicando" não faz muito sentido.
      Os preços da pesquisa de inflação são feitos sob os produtos e serviços finais. Mas sim, o governo pode maquiar alguns índices ou mudar o método de cálculo. Num dos anos do governo Dilma a inflação oficial foi de exatos 6,50%. Que coincidência, hein?

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    7. Anon o IBGE inclui na sexta uma gama de serviços ao qual estão sujeitas normas e metodologias do governo.
      Para saber inflação pessoal convém fazer uma continha básica de receitas - despesas ao longo do período de um ano, observe que a inflação pessoal ou real é muito maior que inflação oficial repassada sobre renda nominal do salário.
      Além de índice ser maquiado: Diversos itens da cesta não refletem alguma gamas de serviços terceirizados.
      Uma cesta incompleta que não abrange todos os serviços possíveis, o índice oficial dever ser usado como referência.
      A inflação que conta é a real aquele que realmente acontece na sua vida.
      Outra variável que tu precisa levar em conta: O produtor final pode não estar repassando a inflação integral para seu produto.
      Dados divulgados pelo governo não devem ser tomados como parâmetros como absolutos: Convém você mesmo fazer tua cestas de produtos e serviços comparando ao longo de um ano: verá o descascamento com os índices oficiais mesmo nos supostos itens da cesta.
      Sinceramente deve ter algum redutor nessa cesta de serviços do IBGE.





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  2. Eu imagino que devemos esperar até 2017 novos aumentos da selic, não?

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    1. Infelizmente não há mais espaço para aumentos. Teremos uma recessão brutal esse ano (no mínimo 3%) e 2016 não vai escapar de outra recessão. Os EUA aumentaram juros num ambiente recessivo nos anos 30 e deu no que deu...

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    2. O quadro é grave. Estamos em estagflação. Quanto mais o Banco Central demorar para fazer a inflação convergir para o centro da meta, mais persistente será o processo de indexação e maior e por mais tempo os juros ficarão elevados. Com isso, o setor produtivo perde tanto com a inflação alta, crescimento baixo (ou negativo) e juros elevados. É o tripé do retrocesso.

      Abs, bons negócios

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  3. Isso mesmo FI.
    Se a margem de lucro do empresário diminui, ele tende a cortar custos, começando pelo pessoal, onde o custo é maior.
    Além disso, eh interessante observar o parágrafo quarto do artigo primeiro da lei 13.152/15 e interpretá-lo. Estou no celular então não vou copiar e colar Pq dá trabalho. Mas sugiro a leitura é interpretação do dispositivo citado.
    Abraços...

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    1. Surgiu a dúvida: 2015 será crescimento negativo do PIB. O calculo do salário de 2017 será IPCA + (-3%) = IPCA - 3%?

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    2. Com relação aos benefícios, creio que será apenas IPCA, o crescimento negativo terá efeito nulo no cálculo.

      Abs, bons invesimentos

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    1. Galeão, Cumbica e mais alguns outros

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    2. Para que volte a ter uma perspectiva de melhora no futuro, as reformas precisarão ser feitas. Infelizmente o quadro ainda não piorou o bastante para a população e seus representantes políticos se convencerem disso.

      Abs, bons investimentos

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    3. O quadro piorou o bastante sim, mas os representantes políticos estão atualmente em briga de tapa e guerra de ego. Teremos que aguardar um adulto separar as crianças brigando e por ordem na casa para que algo aconteça.

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    4. Creio que vamos ter que aguardar por um bom tempo ainda. Essa figura (estadista) ainda não existe.

      Abs,

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  5. E se o Meirelles entrar no lugar do Levy e liberar crédito? O que será de nos?

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    1. Meirelles tem perfil semelhante ao do Levy. Mas devido às circunstâncias, não deixa de ser mais uma sinalização ruim.

      Abs, bons negócios

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  6. Somente quando tivermos um Banco Central independente que isso não mais acontecerá. O presidente jamais pode ter voz nas decisões do banco central, pois todo político vai querer ao máximo estender a bonança e nunca subir os juros. Na verdade a taxa selic só subiu pois temos instituições meio fortes, uma democracia meio desenvolvida. Caso contrário já estaríamos como a Venezuela e Argentina.

    Existem diversas críticas ao modelo americano, cujo Banco Central é uma instituição privada e não um órgão público. Mas considerando a incompetência e corrupção historicamente atrelada aos nossos órgãos governamentais, acredito que não seria uma má ideia.

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    1. Sim. Infelizmente a independência do Banco Central foi estraçalhada com grosseria na campanha eleitoral do ano passado.

      Abs, bons investimentos

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