quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Preocupação com taxa de equilíbrio reforça era de juros ultra baixos


A ata do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) não apresentou novidade quanto à expectativa de elevação da FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) já na próxima reunião de política monetária a ser realizada nos dias 15 e 16 de dezembro.

Entretanto, uma nova informação, de alta relevância, referente ao futuro de longo prazo da política monetária norte-americana, foi debatida nesta última reunião de Comitê. Os diretores do FED demonstraram preocupação com a chamada taxa de equilíbrio (ponto em que a FFR deve se encontrar para garantir o duplo mandato do FED: pleno emprego e inflação estável).

Os cálculos da equipe técnica do Banco Central norte-americano apontam para uma taxa de equilíbrio próxima de zero. Isso significa que, quando a inflação nos Estados Unidos atingir a meta de 2% a ser perseguida pela autoridade monetária, a FFR deverá estar na faixa de 2% ao ano, portanto, em ponto de equilíbrio.

O fato que justificaria FFR acima de 2% no longo prazo seria justamente a velocidade de recuperação da economia norte-americana. Caso o ritmo de crescimento intensifique acima do esperado, a taxa de equilíbrio futura provavelmente será positiva, justificando, portanto, uma FFR mais elevada (ou acima de 2%).

Mas os membros do Comitê não estão tão otimistas quanto ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no médio e longo prazo. O documento divulgado hoje mostrou que houve debate sobre as evidências de que o potencial de longo prazo da economia norte-americana pode ter se movido permanentemente para baixo.

Caso estas novas expectativas do FED se concretizem, haverá pouquíssima margem de manobra para evolução do ciclo de aperto monetário, o que reforça a ideia de que a crise do sub-prime, estourada em 2008, jogou o sistema financeiro global numa era de juros ultra baixos.

As preocupações constatadas na ata divulgada nesta quarta-feira são, também, compatíveis com a interminável sequência de revisões negativas para o futuro da FFR, seja em 2016, 2017 ou 2018.

Juntamente com as ininterruptas revisões negativas da FFR, o alcance da meta de inflação segue cada vez mais distante. Na última projeção divulgada ao mercado, no mês de setembro, a meta de 2% não deve ser atingida antes de 2018. Isso significa que a FFR poderá demorar três anos ou mais para atingir o ponto de equilíbrio, o que também reforça a postura cautelosa e gradualista por parte do FED quanto ao ciclo de aperto monetário a ser implementado.

O surgimento de preocupações com relação a taxa de equilíbrio e potencial do crescimento futuro também recoloca o FED na rota seguida por outros importantes banqueiros centrais: a dos juros baixos e políticas de estímulos ao crescimento.

Na zona do euro, o BCE (Banco Central Europeu) está disposto a não só manter juros baixos por muito tempo, como também aumentar a potência de seus programas de estímulos, caso necessário. No Reino Unido, o BoE (Bank of England) tem sugerido que não há possibilidade de aumentar a taxa básica de juros até 2016 e alguns membros do Comitê esboçam que esse ciclo não se iniciará em 2017. No Japão, o BoJ (Bank of Japan) já prometeu flexibilização adicional da política monetária ao primeiro sinal de necessidade. Na China, o Banco Popular segue operando sob uma forte política de afrouxamento monetário, onde a taxa básica de juros segue renovando mínimas históricas. Novos cortes de juros são esperados também na Austrália, Nova Zelândia e em algumas economias emergentes.

Entre as principais economias emergentes e desenvolvidas, as únicas, no mundo, que operam ciclos de aperto monetário são a brasileira e a sul-africana, por questões internas de desequilíbrio macroeconômico.

A era dos juros ultra baixos está derrubando teses econômicas e deixando um grande ponto de interrogação nas reuniões de política monetária mundo afora, já que não há menor condição de as economias retornarem aos patamares de juros considerados padrões nas últimas décadas.

Apesar dos níveis recordes entre os mais diversos programas de estímulos monetários, o crescimento a nível global permanece frágil, bem abaixo do esperado. Além disso, quadros deflacionários ou desinflacionários persistem em diversas economias, o que abre espaço para manutenção e reforço das políticas de estímulo.

Portanto, a era dos juros ultra baixos, iniciada com a crise de 2008, parece longe de acabar. Mesmo que a FFR alcance 1% ou 2% ao ano, ainda assim será considerado um patamar insignificante, fato que confirmaria a irrelevância do ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos em relação aos possíveis impactos nos preços dos ativos.

Esse quadro poderá manter as anomalias de preços constatadas em títulos soberanos de vários países, onde as dívidas estão sendo roladas a custo real quase zero ou mesmo negativo. No mês passado, por exemplo, a Itália entrou para o rol de economias que conseguiram a proeza de vender dívida (neste caso, de 2 anos) com um rendimento negativo.

Em países onde ainda pode-se constatar prêmio nos títulos soberanos, tais como o Brasil, o cenário de juros elevados poderá se reverter à medida que o FED concentre seu foco na taxa de equilíbrio.

O bull market dos juros futuros, iniciado em 2013, pode ser interrompido. No Brasil, a sinalização técnica de esgotamento (e possível reversão da tendência) já está marcada em todos os gráficos dos contratos de juros futuros, tanto nas curvas curtas, quanto nas curvas longas.


Os juros futuros domésticos, que já operam onda corretiva via sinalização técnica, contam, agora, com o respaldo macro vindo do principal banqueiro central mundial para que a tendência baixista persista nos próximos meses.

A mesma onda corretiva também afeta o mercado de câmbio, embora a gordura para devolução do prêmio, neste caso, apresenta-se bem menor do que a verificada no mercado de juros futuros.

Já a correção da bolsa de valores (ascendente) permanece válida, sem alterações. A intensidade, porém, segue com potencial mais baixo entre as três frentes (juros, câmbio e bolsa), já que as empresas que compõe a carteira teórica do Ibovespa seguem com multiplus pressionados pelo quadro estagflacionário.


5 comentários:

  1. Postado por CRICRI

    Bom dia FI

    Muito esclarecedor seu texto.

    Estes detalhes não são esclarecidos na grande mídia.

    Então provavelmente senão houver mais turbulência política veremos uma baixa do dólar e uma alta da bolsa.

    Embora pareça que as commodities continuaram paradas.

    E vamos torcer para que agora o governo tome as medidas corretas visando as eleições de 2018.

    Entretanto estamos em um dilema. Se a economia melhora Lula leva 2018 e entraremos em um estado bolivariano.

    Obrigado pelo texto.

    Abraço



    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Cricri!

      Não há perspectiva de melhora a ponto de beneficiar o governo nas próximas eleições presidenciais, mesmo com alívio nas tensões políticas. Taxa de inflação e taxa de desemprego são fatores decisivos que tendem a se manter pressionados nos próximos anos. Mas, mesmo com a permanência do PT no poder em 2018 (algo que seria totalmente insano, depois de tudo que aconteceu), ainda assim não chegaríamos ao ponto de uma Venezuela ou Argentina. Estamos blindados por algumas instituições públicas e pelo próprio setor privado.

      Abs, bons negócios

      Excluir
  2. E parece que somente agora está se rendendo a tese do Mises?
    Sim, eu também errei, mas já comecei a admitir que o pessoal do Mises estava certo: os EUA não irão aumentar as taxas.
    Implantaram a mais perigosa bolha de ativos de todos os tempos com essa política comunista, e estão dilapidando aqueles que desejam poupar para a aposentadoria. Mas os investidores da RF nos EUA já detectaram essa palhaçada e começou o fluxo de saída de grana do Tesouro americano.
    Mas, não se preocupe, as taxas daqui ainda vão aumentar, ou se esqueceu que ano que vem o Huezil será rebaixado por segunda agência?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não acompanho muito o Mises, mas se eles afirmavam que os Estados Unidos não iriam aumentar as taxas, estavam errados, pois a FFR irá subir. O ciclo de aperto monetário irá ocorrer, de forma bastante suave, conforme o próprio FED já vinha antecipando desde o final do ano passado. Concordo quanto à dificuldade para o investidor estrangeiro trabalhar alocação da carteira de renda fixa, inclusive fundos de pensão no exterior estão em situação delicada, pois não há opção de bom retorno em renda fixa (nem razoável rs..), mas ainda não há sinalização de fuga dos títulos do Tesouro norte-americano.

      Abs, bons investimentos

      Excluir
  3. Tomara que os juros comecem a cair... comprei uns fiis ...

    Só a bolsa é que anda meio travadona ...

    Estou linkando seu blog no meu pra poder acompanhar com mais frequência aqui ... gostei do post. Se quiser dar uma olhada lá ..
    http://analiseinvestimento.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir