terça-feira, 24 de novembro de 2015

Que se vayan todos


A histórica vitória do candidato pró-mercado, Mauricio Macri, como presidente da Argentina marca o início de uma nova era na América Latina, a do tão esperado fim do populismo (leia-se irresponsabilidade) fiscal, que por sua vez vem acompanhado por uma relevante mudança no perfil da nova classe política.

Macri se tornará o primeiro presidente depois do retorno da democracia na Argentina (em 1983), que não é peronista nem radical. Seu perfil, portanto, se distancia, e muito, de seus antecessores no cargo. Macri, atual prefeito de Buenos Aires, construiu sua carreira longe da política, no setor produtivo, e passou a liderar o partido PRO (ou “Propesta Republicana”) em 2007.

A criação de seu atual partido é fruto da severa crise que atingiu o País na década passada, época que ficou marcada pelos protestos de massa. Os argentinos gritavam nas ruas “que se vayan todos” (traduzindo: fora todos os políticos), numa clara sinalização de insatisfação e irritabilidade com o perfil político tradicional das lideranças políticas e partidárias, algo parecido com o que acontece atualmente no Brasil.

A proposta do partido de centro-direita de Macri atende aos anseios da população: renovar a política nacional, acabar com o discurso do “nós contra eles”, revitalizar a economia e, o mais importante, acabar com kirchnerismo.

Os argentinos não agüentam mais ver ou escutar mentiras e discursos autoritários de Cristina Kirchner nas redes de rádio e televisão. Numa dessas aparições, Kirchner criticou um cidadão que tinha apelado à justiça para comprar dólares sob o argumento de que seriam para a poupança dos netos. “Esse avô além de tudo é bastante amarrete” (expressão popular semelhante ao “pão duro” no Brasil), disse a presidente.

A destruição do kirchnerismo na Argentina marca a contagem regressiva para a queda do bolivarianismo e outros regimes de esquerda semelhantes, apoiados sob a irresponsabilidade fiscal, na América Latina.

Já prevendo uma possível derrota nas eleições do mês que vem na Venezuela, o presidente Maduro tem demonstrado que, no caso de uma derrota, “não vai entregar a Revolução” e que “vai governar com o povo, em uma união cívico-militar.”

Na prática, o bolivarianismo já se esgotou na Venezuela. A permanência dos atuais líderes no poder poderá sinalizar fraudes eleitorais gritantes. O País, atolado no seu pior momento econômico histórico, com uma inflação estimada de 200% ao ano, em meio a uma crise de desabastecimento e autoritarismo político, clama por mudança.

O Brasil também está em processo de mudança. Em meio ao esgotamento fiscal, históricos escândalos de corrupção e ineficiência dos gastos públicos, os partidos de esquerda tendem a encolher, mas o vácuo de poder ainda persiste. Tal como os argentinos, os brasileiros não agüentam mais o jogo político atual, onde a oposição tradicional também joga como titular.

“Que se vayan todos” também no Brasil. O País caminha para uma renovação político-econômica e não somente uma troca de partido do poder. A figura que irá nos retirar do buraco ainda não é conhecida, mas tem que ter afinidade com o setor privado, assumir uma posição de centro ou centro-direita e, possivelmente, surgir em 2018 como um fator surpresa, pegando as lideranças políticas tradicionais desprevenidas.

9 comentários:

  1. Espero que seja o primeiro adeus de muitos... estamos precisando fazer uma faxina na América do Sul..

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    1. Sim, a faxina já começou. Muito serviço pela frente rs..

      Abs, bons investimentos

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  2. FI, como vc vê a situação do Paraguai atualmente e num futuro próximo?

    Pelo pouco que li a respeito do presidente deles, o cara me pareceu um Trump sem os excessos e polêmicas. Um "capitalista opressor" que quer botar o país nos trilhos.

    Acha que o Paraguai deu esse pontapé inicial pra diminuir o populismo na AL? O trabalho do Padre não foi mto bem visto pela população.

    Abraço!

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    1. O caso do Paraguai é mais complexo, pois essa foi a primeira eleição após o rápido processo de impeachment que tirou o presidente Fernando Lugo do poder em 2012. O presidente que tomou posse em 2013 é do partido Colorado, tem postura conservadora, bem diferente dos seus antecessores recentes. Acontece que o partido Colorado governou o Paraguai entre 1947 e 2008, portanto do ponto de vista político não é uma mudança significativa. Renovaram o político, mas o partido que sempre esteve no poder no Paraguai está de volta.

      Abs, bons negócios

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  3. Cuidado com essa de "que se vayan todos". Em 1989 o Brasil experimentou isso e deu Collor, que era o queridinho do mercado naquela eleição. A ala liberal do PSDB (Aécio ou Alckmin) continua sendo a melhor alternativa para o país. Historicamente, talvez o governo mais liberal que o Brasil já teve foi o governo de FHC. Ficar procurando outsiders na política é o caminho mais rápido para surgir outro aventureiro. Cabe notar que a direita no Brasil é nacionalista, estatista, adesista e corrupta. A direita é tão ruim quanto a esquerda.

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    1. Exatamente. Nada garante que a surpresa ou renovação será positiva, mas é um risco que deve ser tomado, já que a continuação é garantia de retrocesso. Acho que muitos irão votar em 2018 pela alternância de poder, independente de quem quer que seja, o que também não deixa de ser bem perigoso. Mas não podemos depositar todas as esperanças num partido politicamente incompetente como o PSDB. O PT conseguiu se sustentar por tanto tempo no poder muito mais pela fraqueza de seus adversários do que por mérito de gestão. Acho que se o Alckmin conseguir se distanciar um pouco de algumas figuras do PSDB, poderá ter mais chances de sucesso se conseguir se candidatar para 2018, apresentando um plano de governo com mais cara de Alckmin e menos cara de PSDB.

      Abs, bons investimentos

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    2. FHC foi o mais liberal? A primeira medida no governo dele foi uma "canetada" que subiu pra 70% a alíquota de antes 20% sobre os carros importados...

      Resultado: quem comprou carro de qualquer marca que não as 4 grandes daqui (Volks,Chevrolet,Ford,Fiat) se FUDEU bonito com FHC. Mania desse povo comprar o discurso petralha que o PSDB/FHC são de direita...

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    3. Desde a dissolução do partido conservador e liberal, no golpe contra a família real, o país não tem partido de direita, só fisiologista como o PMDB, que tem a raíz lá atrás com o partido republicano, claro que apareceu um ou outra excessão tipo o Roberto Campos pelo caminho...Mas é mais facil dizer que é tudo ruim.

      Tem o partido novo,centro direita, quem sabe daqui uns 15 anos...

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  4. Nesse cenário, tem um risco em 2018 não negligenciável: a Marina Silva ressurgir com uma bandeira verde, reunindo as viuvinhas do PT que preferem acreditar em socialism magico. Uma sociedade daltonica facilmente enxergara o verde onde na verdade é vermelho.

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