sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Chocamos com o iceberg


Lá se foi o último fiapo de esperança da economia brasileira. Joaquim Levy deixou o comando do Ministério da Fazenda no pior cenário possível. Frustrado, Levy não teve outra opção a não ser abandonar o barco.

Levando em consideração a chuva de derrotas sofridas nos últimos meses, pode-se afirmar que o ministro fez o que pode para resistir e convencer o governo (e a população) sobre a importância de se fazer o dever de casa.

A lamentável saída de Levy ocorre justamente no momento em que o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) inicia o processo de normalização das condições monetárias, após o maior ciclo de afrouxamento monetário da história. A meta da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) subiu da faixa de zero a 0,25% para 0,25% a 0,50% ao ano.

O sucesso da comunicação do FED, bem como a concretização da promessa de um ciclo de aperto bastante gradual, reduziram drasticamente os impactos no mercado financeiro global. Além disso, o Banco Central norte-americano confirmou, via comunicado emitido na quarta-feira após a reunião de Comitê, que sua política existente de reinvestir os pagamentos do principal de suas posições em dívida de agências e de títulos de agências lastreados em hipotecas e de rolar títulos do Tesouro que estiverem vencendo em leilões, continuará sem alterações até que a normalização do nível da FFR estiver em fase bastante avançada.

Portanto, apesar de o aperto monetário quase meramente simbólico, o sistema financeiro norte-americano permanecerá, por algum tempo, ainda muito irrigado, em terreno expansionista, até que a FFR encontre certo nível de consolidação, o que abrirá espaço para a segunda parte do processo de normalização das condições monetárias via desalavancagem do significativo balanço do FED (mais preocupante). Essa postura tranqüilizou muitos investidores/operadores que seguem resistindo suas posições em títulos da dívida soberana.

No mesmo dia em que o FED decidiu subir os juros, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou o Brasil de “BBB-“ para “BB+”, confirmando, oficialmente, a perda do status grau de investimento brasileiro, já que a Standard and Poor’s já havia rebaixado o País para grau especulativo em setembro deste ano.

Permanece análise de que os impactos de curto prazo causados pela perda do grau de investimento são ridiculamente desprezíveis perto das consequências negativas para o médio e longo prazo. O custo de captação de recursos no mercado tende a ficar mais elevado, prejudicando, principalmente, as empresas brasileiras, não só pelas futuras dificuldades a serem enfrentadas nesse ambiente, como pelo impacto cambial nas obrigações com os credores internacionais. Além disso, fundos impedidos de possuir bônus com grau especulativo poderão provocar uma onda bilionária de liquidações rápidas e antecipadas.

Esse quadro inviabilizará qualquer tentativa de retomada da economia, já que as empresas brasileiras, duramente penalizadas pelo péssimo ambiente interno, serão, também, afetadas pelas novas dificuldades do ambiente externo. É provável que muitos empresários passem adotar estratégias cada vez mais defensivas (abortar investimentos, reduzir quadro de funcionários, limitar participação no mercado, por exemplo) para tentarem sobreviver às dificuldades internas e externas.

Com mais uma porta se fechando para o extremamente necessário ressurgimento da oferta no Brasil, a inflação tende a continuar alta e distante do centro da meta, o que forçará o Banco Central manter a taxa básica de juros em patamares elevados, dando a sua contribuição para que o empresário pise no freio. Em suma, a perda do grau de investimento exercerá mais peso para que a economia do País continue se afundando.

Para complicar, fazer negócios com o gingante asiático ficará mais difícil, já que na mesma quarta-feira em que o FED subiu os juros e a Fitch tirou o grau de investimento brasileiro, o Banco Pouplar (Banco Central da China) anunciou que o crescimento econômico da China deve continuar desacelerando em 2016, atingindo a marca de 6,8%. Já a Academia Chinesa de Ciências Sociais (um dos principais institutos de pesquisa do governo) estima que a economia pode expandir a um ritmo ainda mais lento em 2016, na faixa de 6,6% a 6,8%.

Como se não bastasse lutar para sobreviver no longo e agonizante lamaçal de problemas do quadro doméstico, vamos ter que agüentar a China soluçando com mais força ao nosso lado, o FED aumentando os juros, notas de crédito em grau especulativo (e com perspectiva negativa) e Nelson Barbosa no lugar de Joaquim Levy.

Barbosa ao comando do Ministério da Fazenda pode ser a gota d’agua para alguns brasileiros. A volta da política desenvolvimentista, se confirmada, será como um choque ao iceberg. Infelizmente, alguns desse grupo (que inclui empresários, empreendedores, investidores, profissionais qualificados, entre outros) abandonarão o barco. Outros resistirão, mas adotarão hedges pessoais para terem condições de sobreviver à tormenta brasiliense.

No mercado de capitais, o dólar x real iniciou rompimento ascendente da zona de congestão de curto prazo, confirmando formação de novo fundo ascendente na região dos R$ 3,72, fato que sustenta a tendência de alta de médio e longo prazo.


Já o Ibovespa fechou a semana em forte baixa, testando a região de suporte intermediário dos 43.8k. Mercado de ações segue enfraquecido desde as sucessivas tentativas de rompimento dos 49k, favorecendo abertura de posições vendidas. O principal suporte está localizado na faixa dos 42.7k, mas poderá ser duramente fragilizado em caso de ruptura dos 43.8k.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou em baixa pela segunda semana consecutiva, após tentativa de retomada, reforçando a formação de topo duplo bem na máxima histórica.


24 comentários:

  1. FI, chegaremos a bancarota? Olhando as contas do brasil, nao sei como pagaremos a divida e salarios do inss. Como o investidor que tem titulos do governo deve ver interpretar isto tudo? Agradeco.

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    1. Sobre a dívida, não, até porque, por força da Constituição, o Estado é obrigado a honrar suas obrigações com os credores. Ainda assim, pode-se considerar que existe uma pequena parcela de risco presente na dívida soberana emitida em moeda estrangeira, isso porque, no vencimento da mesma, o Estado deverá quitá-la em moeda "não fabricada pela sua máquina". Nós temos a impressora do Real, mas não a do Dólar, Euro, Libra, Iene, etc. Como não possuímos impressora em moeda estrangeira, é interessante possuir reservas internacionais para tranquilizar os investidores em dívida externa. Exemplo: caso o Estado encontre dificuldade de captação externa próximo à data de vencimento de um título já existente da dívida externa, parte das reservas podem ser utilizadas para quitar as obrigações com os investidores estrangeiros. Atualmente, há bastante folga nas reservas para honrar o pagamento da dívida externa. Poucas horas depois de perder o status grau de investimento, tanto o BC quanto o Ministério da Fazenda emitiram notas para tranquilizar o investidor estrangeiro, ressaltando a robustez das reservas. Segundo o BC, as reservas internacionais do País são cerca de dez vezes maiores que o estoque da divida soberana externa. Já com relação à previdência, cedo ou tarde uma reforma impopular será realizada, já que o rombo custa muito caro ao Tesouro (ou seja, a todos nós).

      Abs, bons investimentos

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    2. FI,

      Boa resposta. Mas mesmo assim, não dá para assumir que a capacidade de endividamento relativa à dívida interna é ilimitada.

      No andar da carroagem talvez o desfecho final disto tudo pode não ser tão tranquilo...

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    3. Com certeza não, até porque, com o aumento da dívida, cada vez mais sobrará menos recursos para serem utilizados em outras áreas. O desfecho disso tudo é bastante claro e já está acontecendo há um bom tempo, via aumento da inflação. Entre 01/2010 a 11/2015 a correção pelo IPCA foi de 47,48%. Número assustador, isso significa que parte considerável da população (entre os que não poupam recursos, ou mesmo entre os que poupam mas desconhecem os mecanismos de proteção e/ou não souberam gerenciar com eficácia seu patrimônio nesses últimos cinco anos) está empobrecendo em velocidade preocupante.

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    4. Porque o aumento do endividamento do governo gera inflação? O governo paga os credores com a emissão de moeda?

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  2. Ao anunciar Nelson Barbosa o governo acelera em direção ao iceberg. É como anunciar a contratação de Ronaldinho Gaúcho ou Adriano hoje para o seu time.

    Definitivamente esse é um governo que se supera. Ainda bem que grande parte dos pré-fixados de TD vencem agora no início de 2016. A taxa: entre 11 e 12% nominais, o que parecia bom em 2013. Afinal o máximo do sistema de metas de inflação está estabelecido em 6,5%. Resultado: no último ano, inflação será de quase 11%, o que significa que emprestei ao governo nos últimos meses com taxa de juros real negativa (descontado o IR).

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    1. Sim, por isso é muito importante trabalhar proteção contra inflação em qualquer tipo de portfólio. Estamos em estagflação há um bom tempo e, lamentavalmente, ainda em processo de agravamento.

      Abs, bons negócios

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  3. Olá dia!!
    Sou leitor de suas análises, e gosto bastante do seu blog!
    Bom, ultimamente temos que ter cuidado em solicitar algo, para não se confundir e criar problemas com a CVM!

    Mas eu gostaria, se possível, que fizesse uma exposição dos ativos que devem ser favorecidos pela tendência alta do dólar.

    Mas que fossem acessíveis para os pequenos investidores brasileiros... nesta faze de queda apos chocar no iceberg!
    Abraços!

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    1. Obrigado! Identificar o setor a ser favorecido pela alta do dólar é fácil (exportadores), mas fazer stock picking é altamente inviável ao investidor pessoa física. O fato de as equipes de análises de fundos de investimentos em ações estarem nessa busca há anos e continuarem sofrendo na grande maioria dos casos, é sinal de que ainda existem muitas minas no campo minado do mercado de ações. É muito melhor focar no timming da alocação, via ETFs ou nos próprios fundos das assets, do que se aventurar num stock picking.

      Abs, bons investimentos

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  4. Excelente análise. Muito obrigado !

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    1. Não é mais o risco de perder uma década, mas sim de uma geração.

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  6. Definição perfeita.
    Estávamos à deriva já há algum tempo e navegando numa tempestade, o choque era praticamente inevitável, ainda mais com as demonstrações de irresponsabilidade fiscais reiteradas.
    Mas o que mais me perturba é constatar que a população está insanamente entorpecida, não percebendo o que verdadeiramente está em jogo nesse momento, bem como suas gravíssimas e prolongadas consequências que se avizinham no horizonte.
    Parece que, como está acontecendo na situação política brasileira, nosso "Titanic" está afundando rapidamente enquanto as duas orquestras do Salão de Baile continuam brigando entre si para ver quem tem o melhor repertório.
    E não há barcos salva-vidas para todos......

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    1. Exatamente, o que está em jogo vai muito mais além da figura de quem governa hoje e quem governará amanhã. O que precisa ser feito não é discutido com seriedade, nem no ambiente político e muito menos na sociedade. Existe uma meia dúzia de analistas, economistas, agentes, entre outros, sussurrando o que precisa ser feito no meio de um show lotado de heavy metal. Se não aparecer alguém desse pequeno grupo para roubar o microfone, a multidão não vai escutar o que a meia dúzia está dizendo e muito menos entender pra onde iremos se nada for feito. Além disso, a pessoa que roubar o microfone tem que ser capaz de convencer a multidão dos sacrifícios necessários a serem enfrentados para a coisa poder andar. Ultimamente está mais fácil acreditar em Papei Noel rs...

      Abs, bons negócios

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  7. Não que eu estou otimista e muito menos que confio no Barbosa, mas pelo menos ele ainda reforçou a necessidade do ajuste. Desenvolventismo não cabe mais.

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    1. Ele não poderia falar outra coisa num momento como esse. O mercado, por outro lado, já está bastante vacinado contra os discursos do governo há muitos anos. Existe risco considerável, na minha avaliação, de que Barbosa se transforme numa versão Mantega 2.0. Ou seja, quem comandará a Fazenda na prática será a Dilma.

      Abs, bons investimentos

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  8. Quais ativos vc considera passar por esse periodo turbulento e ainda ganhar da inflação?obrigado

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    1. Cabe notar que o período turbulento não é recente, começou com o experimento da nova matriz econômica. Foi e continuará sendo essencial manter posições em ativos indexados à inflação, no Tesouro Direto existe essa opção (NTNB) acessível a qualquer investidor. Interessante, também, manter caixa reforçado para aproveitar oportunidades.

      Abs, bons negócios

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  9. FI,

    Replico a reuters de hoje: "BC vê dívida bruta acima de 70% do PIB em 2016 mesmo se meta fiscal for alcançada". http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0UC18120151229?sp=true.

    A situação do Brasil está horrível. Como que fica agora? Teremos dinheiro para pagar ? Recorrer ao FMI ?

    Abs.

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    1. O dinheiro é "infinito" para a dívida interna. Haveria necessidade de recorrer ao FMI caso as reservas estivessem muito baixas num momento de vencimentos relevantes de parcela da dívida externa, o que não é o caso.

      Abs, bons investimentos

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  10. Caro, FI, você sabe onde posso conseguir informações sobre a situação financeira das corretoras? Vi em alguns sites que algumas corretoras têm apresentado prejuízos com frequência. Assim, gostaria de saber quais estão "saudáveis", a fim de evitar possíveis prejuízos. Obrigado!

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    1. Sim, no próprio site do Banco Central. Mas não acho interessante abrir relacionamento com nenhuma instituição de pequeno porte, é melhor arcar com os custos de uma corretora de grande porte. O caso da TOV só reforça essa necessidade. O Banco Central encontrou motivos para decretar liquidação extrajudicial da TOV (instituição de pequeno porte), investigada na Lava Jato, mas não encontrou motivos para "mover uma palha" no BTG (instituição de grande porte), que teve seu presidente e acionista controlador preso em novembro do ano passado por suspeita de planejar obstruir as investigações da Lava Jato. Precisamos confiar no Banco Central, mas, pelo sim, pelo não, é melhor ficar do lado mais forte da corda.

      Abs, bons negócios

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    2. Segue uma matéria recente que saiu no "O Globo" sobre os prejuízos das corretoras em 2015...

      Com queda na Bolsa, 15 corretoras acumulam prejuízos em 2015

      http://oglobo.globo.com/economia/com-queda-na-bolsa-15-corretoras-acumulam-prejuizos-em-2015-18491465

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