quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ciclo de aperto monetário continua, mas ritmo tende a ser menor


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta quinta-feira revelou uma série de novos detalhes importantes para o desenvolvimento da política monetária nos próximos meses.

O Banco Central acrescentou um parágrafo na ata para dar mais ênfase ao relevante movimento de preços no mercado de commodities, especialmente sobre o petróleo. Na avaliação dos diretores do Copom, “independentemente do comportamento dos preços domésticos da gasolina, a evolução dos preços internacionais tende a se transmitir à economia doméstica tanto por meio de cadeias produtivas como a petroquímica, quanto por intermédio das expectativas de inflação.”

Em outras palavras, o Banco Central reconhece os efeitos estimuladores em determinadas cadeias produtivas, bem como impactos positivos nas expectativas de inflação, provocados pela expressiva queda do barril de petróleo, que por sua vez não se caracteriza como movimento pontual, de curtíssimo prazo.

O segundo detalhe importante refere-se à estimativa para o desempenho da economia brasileira este ano. Até o final de 2014, havia perspectiva de retomada da trajetória de recuperação do crescimento no segundo semestre deste ano. Entretanto, no documento divulgado hoje, a autoridade monetária reconsiderou sua estimativa de crescimento e, agora, afirma que o ritmo de expansão da atividade doméstica este ano será inferior ao potencial. Isso significa que o Banco Central está mais pessimista com o PIB (Produto Interno Bruto) de 2015.

O terceiro ponto a ser destacado refere-se ao casamento da política fiscal com a política monetária. No passado, essas duas políticas se deslocavam em direções opostas. Enquanto o Banco Central pisava no freio, o ministério da Fazenda pisava no acelerador. Felizmente esse quadro incompreensível se reverteu. Hoje, tanto o ministério da Fazenda, quanto o Banco Central, pisa no freio. Essa direção única permite a correta transmissão dos efeitos da política monetária aos preços, fato que também não ocorria no passado.

Destaque para o aumento de 1,5% para 3% do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em operações de crédito para pessoas físicas com prazo de até 365 dias. Medida “aplaudida” no parágrafo 25 da ata, com a menção do novo trecho “a exemplo de ações recentemente implementadas”, em substituição ao “atribui elevada probabilidade a que ações nesse sentido (referindo-se a iniciativas no sentido de moderar concessões de crédito) sejam implementadas no horizonte relevante para a política monetária.”

A próxima mudança na ata está na mensagem divulgada logo após a reunião do Copom. “...avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação...”

Esse trecho é cópia da mensagem utilizada na reunião do mês de setembro do ano passado, que precedeu a elevação de 0,25 p.p. em outubro.

O comunicado curto deixaria as portas abertas para subir 0,25 p.p. ou 0,50 p.p. na próxima reunião a ser realizada nos dias 3 e 4 de março. Mas o Banco Central eliminou completamente o antigo parágrafo 31 da ata:

“O Copom destaca que, em momentos como o atual, a política monetária deve se manter especialmente vigilante, de modo a minimizar riscos de que níveis elevados de inflação, como o observado nos últimos doze meses, persistam no horizonte relevante para a política monetária. Entretanto, considerando os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores, o Comitê avalia que o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia.”

O Banco Central também não utilizou nesta ata do mês de janeiro o seguinte trecho mencionado no último Relatório de Inflação (divulgado no final de dezembro do ano passado):

“... Nesse sentido, o Comitê irá fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio, que a levará à meta de 4,5% em 2016.”

Nada de especialmente vigilante, nada de parcimônia e nada de fazer o que for necessário. Para ocupar este vácuo, o Banco Central acrescentou um novo parágrafo na ata:

“A propósito, o Copom avalia que o cenário de convergência da inflação para 4,5% em 2016 tem se fortalecido. Para o Comitê, contudo, os avanços alcançados no combate à inflação – a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo – ainda não se mostram suficientes.”

Ao somarmos todas as novas sinalizações dovish da ata (efeitos positivos causados pela queda do preço do petróleo, casamento da política fiscal com a política monetária, aumento do IOF em operações de crédito, menor perspectiva de crescimento para este ano), juntamente com a substituição de trechos importantes para futuras ações de política monetária, chega-se a conclusão de que o Banco Central está mesmo preparando o terreno para reduzir o ritmo de aperto monetário de 0,50 p.p. para 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê.

A pretensão de reduzir o ritmo, mas não interromper o ciclo de aperto monetário, é importante para o Banco Central acompanhar, a certa distância, as movimentações do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).

O comunicado divulgado ontem após a reunião do Comitê de Política Monetária do FED revela que a autoridade monetária norte-americana continuará paciente para subir os juros, conforme antecipado pela chair Janet Yellen na entrevista concedida à imprensa no final do ano passado.

Entretanto, o FED melhorou sua avaliação da economia e do mercado de trabalho, o que sinaliza possibilidade de aperto monetário no futuro próximo. Ao invés de considerar que a atividade econômica vem se expandindo a um “ritmo moderado”, Banco Central dos Estados Unidos avalia, agora, que a atividade econômica vem se expandindo a um “ritmo sólido". Com relação ao mercado de trabalho (importante fonte de pressão inflacionária), o FED reconhece que as condições melhoraram ainda mais, com fortes ganhos de emprego e uma taxa de desemprego mais baixa.

Por outro lado, o Banco Central dos Estados Unidos acrescentou no comunicado uma curta menção ao resto do planeta que segue patinando, ao afirmar que levará os desenvolvimentos financeiros e internacionais em consideração para determinar quando elevar a taxa básica de juros. O FED também reconheceu que a inflação se afastou ainda mais da meta de 2%, mas que tende a subir gradualmente em direção a meta no médio prazo.

São dois pontos hawkish e dois pontos dovish, que mostram, na verdade, que o FED continua em cima do muro. Ou seja, ainda não bateu o martelo (justificadamente) para definir o timming do aperto monetário. Mas o fato de o FED ter dado mais atenção no comunicado aos dois pontos hawkish (melhora da economia e do mercado de trabalho), sinaliza que o aperto monetário pode estar no futuro próximo. O mercado, por outro lado, segue subestimando a velocidade com que a autoridade monetária possa elevar a taxa básica de juros.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão de lado, mostrando novamente reação ao testar a primeira linha de suporte da zona de congestão na região dos 47.3k. Linha insistentemente testada durante todo esse ano, mas sem força vendedora suficientemente capaz de rompê-la. Mercado segue travado.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 1,31%, mostrando forte reação após testar a primeira linha de suporte da zona de congestão na região dos 17.3k. Apesar deste importante alívio, mercado segue congestionado no curto prazo.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Atualização do cenário macroeconômico


A delicada situação da economia russa complicou ainda mais nesta segunda-feira. A agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor's) cortou o rating da Rússia de “BBB-“ para "BB+", destituindo-a do grau de investimento. A perspectiva continua negativa, o que sinaliza possibilidade de novos cortes no futuro.

Cerca de um mês atrás a S&P havia alertado que poderia tirar o grau de investimento do País a partir de meados de janeiro, reagindo à rápida deterioração da flexibilidade da política monetária em meio ao enfraquecimento da economia.

Sem observar indicação de melhoras, a S&P cumpriu o prometido. A forte queda do barril de petróleo pode ter sido a gota d´água para agência de classificação de risco, devido à elevada dependência econômica ao setor energético. A Rússia voltará a experimentar o gosto amargo de ser classificada como grau especulativo pela primeira vez em mais de dez anos.

A perda do grau de investimento deverá agravar a situação da Rússia. O País possui alta dependência de fluxos de capital externo e pouca margem de manobra. No final do ano passado o Banco Central russo se viu forçado a dar um choque de juros para impedir uma fuga de capitais. Com a perda do grau de investimento, alguns fundos de investimento não poderão comprar ou mesmo manter posicionamento em títulos russos. Consequentemente, os custos de financiamento na Rússia (atualmente elevados), tendem a subir ainda mais, para atrair capital de fundos que compram títulos de grau especulativo.

O fato de o BCE (Banco Central Europeu) ter anunciado na semana passada um programa de relaxamento quantitativo agressivo de 1,1 trilhão de euros (aumenta consideravelmente a liquidez global), pode amenizar um pouco os impactos no mercado russo a médio prazo.

O novo programa do BCE está dentro dos moldes daqueles feitos pelo FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) e BoE (Bank of England – Banco Central britânico). Apesar de poder oferecer alguma ajuda indireta aos russos, o BCE está mais preocupado com o crescimento e a inflação andando para trás na zona do euro.

A liquidez no mercado financeiro europeu é abundante o suficiente para fazer a economia crescer. Esse fato pode ser constatado pela expressiva valorização dos ativos na bolsa de valores e no mercado da dívida soberana, sustentando algumas “bizarrices” como as taxas de juros de títulos soberanos espanhóis serem menores do que as taxas de juros de títulos soberanos norte-americanos (os mais seguros do mundo). Apesar da liquidez abundante na Europa, estava faltando “alguém” apertar gatilho para o crescimento. Ou, em outras palavras, dar o famoso empurrão.

Como os governos europeus estão amarrados em políticas de austeridade fiscal, sobrou para o BCE apertar o gatilho. A arma utilizada pelo Banco Central chama-se Euro. O simples fato de ter existido uma forte expectativa no mercado de novos estímulos monetários a serem implementados pelo BCE provocou o derretimento Euro frente ao Dólar, conforme podemos constatar no gráfico abaixo.


A decisão da semana apenas confirma a expectativa do mercado, fato que deverá manter o Euro desvalorizado frente ao Dólar. O deslocamento da taxa de câmbio é importante para aumentar a competitividade dos produtos europeus. Atualmente, o comércio exterior é a única rota de saída de curto/médio prazo para retomada do crescimento na zona do euro.

Já o fator Grécia não pesa tanto quanto no passado. A reestruturação da dívida grega tirou o peso dos grandes bancos europeus posicionados em títulos da dívida soberana do País, eliminando o risco de uma catástrofe no sistema financeiro.

Mas a vitória do Syriza (primeiro partido antiausteridade a chegar ao poder na zona do euro) trás um recado importante aos líderes europeus: partidos de postura radical estão crescendo rapidamente em vários países da União Europeia. Inexpressivos no passado, hoje esses partidos estão ocupando cada vez mais cadeiras em Parlamentos.

A conquista do poder pelo Syriza carrega um importante fator emocional. Será a grande motivação para os demais partidos radicais espelhados na União Europeia traçarem o mesmo caminho. O simbolismo da vitória do Syriza é mais forte do que os possíveis impactos a serem causados na zona do euro em caso de ruptura com a Grécia.

Alexis Tsipras, líder do partido grego de esquerda radical, firmou rapidamente aliança com o partido Gregos Independentes (direita nacionalista) para formar maioria no Parlamento e governar o País.

A Grécia vai enfrentar a troika (formada pelo BCE, FMI e Comissão Europeia), mas provavelmente terá pouco sucesso nas negociações. Com o sistema financeiro menos exposto ao risco grego, não há razões para troika ceder às reivindicações "lunáticas" de Tsipras.

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão desta segunda-feira em leve baixa de 0,41%, mostrando recuperação na parte da tarde. Mercado segue congestionado, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, mostrando recuperação logo após a abertura negativa do pregão. Wall Street também segue congestionada no curto prazo, sem apresentar novidades.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

0,50 p.p. a mais de credibilidade


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu manter o ritmo de alta da taxa Selic nesta quarta-feira. A decisão foi acompanhada pelo seguinte comunicado: ”Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,25% a.a., sem viés

A decisão era amplamente esperada e não surpreendeu o mercado. O Relatório de Inflação, divulgado no final do ano passado, alterou oficialmente a mensagem de política monetária constatada na última ata divulgada no dia 11 de dezembro.

Banco Central afirmava que “considerando os efeitos cumulativos e defasados da política monetária, entre outros fatores, o Comitê avalia que o esforço adicional de política monetária tende a ser implementado com parcimônia.”

Este trecho foi totalmente removido no Relatório de Inflação e deu lugar a uma nova afirmativa: “o Comitê irá fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio, que a levará à meta de 4,5% em 2016.”

A mensagem é mais firme e sinaliza possibilidade relevante de continuação do ritmo de aperto monetário em 0,50 p.p., fato confirmado na noite desta quarta-feira.

As últimas projeções do Banco Central para a taxa inflação subiram para 6,4% em 2014, 6,1% em 2015 e 5,0% em 2016, levando em consideração a manutenção da taxa de câmbio em R$ 2,55 e taxa Selic em 11,75% (cenário de referência). Não há espaço para parcimônia com a taxa inflação acima do centro da meta em todo o horizonte de projeções.

Além de combater a pressão natural da inflação, a continuação do ritmo de aumento de 0,50 p.p. na taxa Selic tem a função de recuperar a credibilidade perdida nos anos anteriores, ponto de extrema relevância para impedir uma possível fuga de capitais na fase de normalização das condições monetárias nos Estados Unidos e Inglaterra.

O Banco Central transmite entender, através de suas últimas ações, risco não desprezível de novos choques no mercado global da dívida soberana. O momento atual é delicado, pois mostra excesso de otimismo nos preços dos ativos espalhados mundo afora, acompanhando o deslocamento da taxa de juros do título de 10 anos do Tesouro norte-americano (referência).


No gráfico acima podemos observar o intenso movimento corretivo da Treasury. Os juros futuros nos Estados Unidos caíram abaixo do patamar marcado pelo discurso de anúncio antecipado do tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários) do então presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, em 2013.

A Treasury devolveu todo o movimento de pânico observado nos meses seguintes ao anúncio do Bernanke. Os preços praticados hoje refletem uma expectativa irreal de que a Federal Funds Rate (taxa básica de juros norte-americana) não vai subir esse ano e nem no ano que vem.

O mercado está claramente subestimando a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros. A reversão desta expectativa extremamente otimista do mercado, provada pela aproximação do aperto monetário nos Estados Unidos, tem potencial de provocar uma nova onda de pânico nas praças financeiras mundias.

Quanto mais a Treasury ceder, maior será a dificuldade para o FED e demais banqueiros centrais mundiais (principalmente de países emergentes) administrar choques de mercado.

Nos meses que sucederam o anúncio do Bernanke em 2013, o Banco Central brasileiro fazia o possível para frear a fuga de capitais (em versão “light”) com ritmos de aperto de 0,50 p.p. Mas a taxa Selic só chegou aos dois dígitos no final de 2013, e ainda assim não fez muito efeito. O alívio no mercado da dívida soberana brasileira só veio no mês de fevereiro de 2014, quando a taxa Selic saltou para 10,75% ao ano.

Hoje a taxa Selic está em 12,25% ao ano e o Banco Central começa fazer contas para encontrar um patamar suficientemente elevado para frear/suavizar uma possível nova fuga de capitais, fruto da complexidade em torno da normalização das condições monetárias nos dois principais polos financeiros mundiais.

Importante destacar o fato de a política fiscal estar se deslocando na mesma direção da política monetária, fato que não ocorria no passado. Ponto para nova equipe econômica, que tem objetivo de retomar a confiança de investidores e empresários. A definição de rumo, transparência de ações e planejamento de médio prazo são outros fatores relevantes para que os agentes saibam as condições gerais do País para poderem assumir riscos.

No mercado de capitais o índice Bovespa mostrou novamente reação ao aproximar-se da linha de suporte dos 47.3k. No curtíssimo prazo, mercado permanece travado dentro de uma zona de congestão entre 46k a 51k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leva alta, sem apresentar novidades. Mercado também trabalhando dentro de uma zona de congestão entre 17k a 18.1k.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Golaço do Levy


Em conversa a jornalistas na semana passada, o ministro Joaquim Levy usou o futebol para fazer uma analogia às mudanças a serem implementadas pela Fazenda durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Levy afirmou que vai acertar o jogo no segundo tempo para sair do zero a zero e começar a fazer gol. Algumas medidas anunciadas anteriormente, tais como mudanças nos benefícios sociais, elevação das taxas de juros subsidiadas pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e aumento do IPI para automóveis sinalizavam que o jeito de jogar (ainda utilizando a analogia do ministro) é realmente diferente daquele time “perna de pau” do passado.

O segundo tempo começou com pressão total do time de Levy. O goleiro do “time rival” já havia defendido uma cobrança de falta do ministro do Planejamento. Nelson Barbosa realizou uma cobrança precipitada, favorecendo a defesa do goleiro.

Mas a pressão continuou e nesta segunda-feira Joaquim Levy conseguiu marcar seu primeiro gol. E foi um golaço. O ministro da Fazenda anunciou hoje que vai restabelecer a alíquota de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em operações de crédito para pessoas físicas com prazo de até 365 dias, elevando-a de 1,5% para 3%. Com essa medida, o governo espera arrecadar 7,38 bilhões de reais neste ano.

Além de aumentar a arrecadação, o governo vai corrigir (em parte) o grande desequilíbrio (entre oferta x demanda) criado pela gestão anterior focada no incentivo insustentável do consumo a qualquer custo. Haverá importante reflexo positivo na inflação, mostrando, na prática, que a política fiscal desloca-se na mesma direção da política monetária.

Levy também anunciou que vai subir o PIS/Cofins e a Cide sobre os combustíveis. O impacto será de 0,22 real/litro para a gasolina e de 0,15 real/litro para o diesel. A expectativa é arrecadar 12,18 bilhões de reais com o aumento da tributação sobre combustíveis.

A expressiva desvalorização do preço do barril de petróleo abriu espaço para elevação dos impostos sobre os combustíveis, sem que os preços sejam repassados às bombas. Há gordura de sobra para a Petrobras “bancar” este aumento de impostos (até mais, se for necessário) e ainda manter boa margem de lucro na revenda do combustível importado.

O ministro da Fazenda também anunciou a criação de um decreto para equiparar o setor atacadista e o industrial no IPI incidente sobre cosméticos. Segundo Levy, a medida apenas equaliza a tributação ao longo da cadeia de produção e distribuição desse setor. A medida deve criar arrecadação extra de 381 milhões de reais neste ano.

Nas importações, o ministro informou que está elevando o PIS/Cofins de 9,25% para 11,75%. O objetivo, segundo o ministro, é compensar a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que excluiu o ICMS das importações. O aumento da alíquota tende a gerar arrecadação extra de 694 milhões neste ano.

O pacote com as quatro medidas fiscais deve elevar a arrecadação em 20,63 bilhões de reais em 2015. É mais uma importante atitude tomada no sentido de colocar as contas públicas em ordem e, por tabela, reconquistar a confiança dos agentes econômicos.

Totalizando tudo o que foi feito pelo time do Levy até agora (ou seja, levando em consideração outras medidas já anunciadas), houve uma melhora da ordem de 70 bilhões de reais no quadro fiscal, entre medidas para aumentar as receitas e cortar gastos.

Novas ações deverão ser tomadas nas próximas semanas/meses com objetivo de aumentar a cifra do parágrafo anterior. O novo ministro da Fazenda começou muito bem. Não só está mostrando comprometimento com o enorme desafio de arrumar a casa, mas também contribuindo com a sua parte para recuperação da credibilidade do governo entre investidores, consumidores e empresários.

Uma pena que o golaço do Levy foi ofuscado pelo apagão que atingiu pelo menos 10 Estados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além do Distrito Federal, fato que alimenta temores de racionamento de energia este ano.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 2,57%, aproximando-se, novamente da região de suporte dos 47.3k, com risco não desprezível de rompimento. Mercado segue congestionado no curtíssimo prazo, sem apresentar novidades.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Principal acrônimo da década passada corre risco de sumir


O visionário economista Jim O'Neill, ex-presidente do poderoso Goldman Sachs, ficou conhecido no início da década passada ao criar a famosa sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), em 2001, quando poucos no mercado financeiro enxergavam, na época, potencial relevante de crescimento destas quatro economias mundiais.

Os países do BRIC deixaram de ser meros coadjuvantes emergentes para se tornaram potências globais. Empresários e investidores que apostaram no BRIC na década passada se deram muito bem.

Mas a lua de mel do mercado com o acrônimo BRIC, que estava sofrendo desgaste nos anos anteriores, chegou ao fim. Não se observa mais toda aquela empolgação da década passada quando o assunto era discutido no mercado financeiro. O BRIC deixou de ser uma sensação e se tornou numa sigla que às vezes passa despercebida, como outra qualquer.

O desânimo do mercado com o BRIC não está relacionado à reestruturação do modelo de crescimento na China (onde existe o custo da desaceleração do crescimento) ou ao pouso suave da economia indiana (hoje em rota de reformas). O mercado está decepcionado com Brasil e Rússia.

O super ciclo de alta das commodities, predominante na década passada, beneficiou fortemente os grandes exportadores, como Brasil e Rússia. Com a casa arrumada pelo governo anterior, o Brasil pode tirar longas férias e surfar até a última espuma da onda das commodities. Trabalhamos pouco e aproveitamos muito.

O período de extrema bonança escondeu os problemas do passado negligenciados pelo governo. Não estávamos fazendo o dever de casa, mas o mercado pouco se importava, pois os preços das commodities subiam dia após dia. Entretanto, com fim do período das vacas gordas, os problemas da década anterior passaram a ser notados pelo mercado, incomodando cada vez mais os investidores. Para piorar, deveres de casa não feitos se juntaram aos novos problemas criados pela desarrumação da casa.

Perdemos o diálogo com o mercado. Promessas do governo são palavras ao vento. Cobra-se atitude. Resultados. Tanto o Brasil quanto a Rússia (que passa por problemas semelhantes aos nossos, porém em maior intensidade) precisam mostrar ao mercado capacidade para retomar o crescimento de forma sustentada na segunda metade desta década.

A nova equipe econômica vai fazer o possível para arrumar algumas dependências desta casa bagunçada. As políticas econômica, fiscal e monetária tendem a apresentar ligeiras melhoras. Bom sinal, mas insuficiente para retomar a rota de um satisfatório crescimento sustentado. A forte dependência do mercado de commodities e dos financiamentos externos não só expõe nossa vulnerabilidade, mas também dificulta a implementação das importantes reformas estruturais (necessárias para retomada do crescimento sustentável).

O Brasil está com suas poucas peças encurraladas no tabuleiro de xadrez do mercado. Se não fizer nos próximos cinco anos o que não fez nos últimos dez, vai levar xeque-mate.

O próprio criador do BRIC pensa em acabar com o acrônimo. Perguntado se ainda agruparia Brasil, Rússia Índia e China como potências do mercado emergente, O'Neill respondeu que teria vontade de chamar o grupo de “IC” se nos próximos três anos as coisas permanecerem iguais ao ano passado para o Brasil e a Rússia.

No passado o mercado avaliava o BRIC dentro do contexto de um grupo. Os quatro participantes recebiam praticamente a “mesma nota”. Assim, os membros que não faziam seus respectivos deveres de casa eram beneficiados. Hoje o mercado continua avaliando o grupo, mas com “notas diferentes” entre os participantes. As duas primeiras letras recebem um olhar desconfiado, com certa irritação. As duas últimas letras recebem um olhar mais amigável.

Pior do que ser um dos responsáveis pelo risco de divisão do BRIC, é estar ao lado da Rússia. Ser comparado indevidamente com a Rússia. O Brasil tem mais condições de fazer o BRIC se transformar em BIC do que a Rússia de fazer o BRIC se transformar em RIC.

Abaixo, segue análise gráfica dos principais índices mundiais. Veja aqui as características principais da plataforma.

No mercado de capitais, o índice Bovespa segue trabalhando dentro de uma tendência de baixa, sem apresentar novidades. A tentativa de reversão verificada na semana passada pode ser invalidada caso a linha de suporte dos 47.3k seja rompida.


Embora mais veloz, a bolsa da Rússia segue o mesmo caminho. Mercado em tendência principal de baixa, aliviando nas últimas semanas após a pancada dos meses anteriores.


Situação diferente na Austrália, que apesar de ter uma economia de certa forma dependente das exportações de commodities, tem, pelo menos, a casa arrumada. O principal índice da bolsa de Sydney não está tão longe da máxima de 2007/2008 em relação ao topo histórico do mesmo período dos mercados russo e brasileiro. No momento o mercado australiano trabalha dentro de uma zona de congestão entre os 5.100 pontos aos 5.500 pontos.


Na Índia, a bolsa de Bombay opera dentro de uma forte tendência de alta de médio e longo prazo. No curto prazo, o mercado trabalha movimento natural de correção, sem sinalização de reversão na tendência principal.


Na China a bolsa de Xangai segue dentro de um forte rali, impulsionado pela abertura de mercado aos investidores estrangeiros.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Lamaçal de problemas versão 2015


Ambiente de negócios desfavorável. Infraestrutura deficitária. Excesso de burocracia. Carga tributária elevada. Baixo nível de educação. Velhos e conhecidos problemas brasileiros. Elevado grau de intervenção do Estado na economia, inflação em nível persistentemente elevado e distante do centro da meta (4,5%), crescimento ridiculamente baixo, péssima gestão dos recursos públicos, estratégias equivocadas de política econômica e perda de confiança e credibilidade entre investidores e empresários. Novos problemas criados pela gestão de um governo que conseguiu, mais uma vez, manter-se no poder.

O lamaçal de problemas, resultante da junção do velho e conhecido com o novo e destrutível, permanecerá incomodando a vida de todos nós brasileiros em 2015. Novas parcelas da conta que está sendo paga pela ineficiência administrativa do Estado continuarão chegando sem atraso neste ano. Intervenções desastrosas que resultaram em mais aumento do gasto público, alavancaram o nosso endividamento, elevaram o déficit fiscal e destruíram até mesmo as “metas fictícias” de superávit primário.

Nada deu certo e o que estava ruim, piorou. O PIB (Produto Interno Bruto) anda para trás, a inflação anda para frente. As exportações andam para trás, o câmbio anda para frente. A taxa de poupança interna anda para trás, a taxa básica de juros anda para frente. A confiança anda para trás, a dependência de financiamento externo anda para frente.

Precisamos reverter o rumo das coisas. A sinalização de aperto monetário preventivo e ajuste fiscal são importantes para suavizar ou mesmo impedir a velocidade de afundamento no lamaçal de problemas, mas insuficientes para uma total correção de rumo. As reformas estruturais são a única rota de saída deste lamaçal. Reformas que, infelizmente, não estão na agenda deste novo mandato. Parece haver interesse apenas naquilo que é de benefício próprio (a reforma política).

O discurso de posse da presidente Dilma Rousseff ressaltou a necessidade de ajustes nas contas públicas, com o menor sacrifício possível. Isso significa, em outras palavras, reversão gradual de uma política fiscal expansionista para uma política fiscal contracionista.

Entretanto, para atingir a nova meta de superávit primário (1,2% do PIB), o novo ministro da Fazenda vai ter que aumentar a velocidade da reversão gradual, a contragosto da presidente. Em tese, para garantir o menor sacrifício possível, o ajuste terá de ser feito em primeira marcha. Mas para garantir a meta de superávit de 1,2% do PIB, o ajuste terá que ser feito em terceira marcha.

Eis o primeiro embate entre Ministério da Fazenda e Palácio do Planalto. A definição de velocidade do ajuste. Levy dificilmente se submeterá às ordens da presidente. A sua brilhante reputação no mercado está em jogo. Engatar a terceira marcha não será um problema, mas os atritos podem encurtar sua permanência na Fazenda.

Levy é o pingo de esperança do mercado. É o nome forte da equipe econômica. Nesse embate a presidente vai espernear, mas terá que ceder. Diferente do que aconteceu no último final de semana. O novo ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Nelson Barbosa, afirmou, após a cerimônia de posse na sexta-feira, que o governo iria enviar ao Congresso, no momento oportuno, uma nova regra para o cálculo do salário mínimo para o período de 2016 a 2019. Medida altamente necessária.

A presidente Dilma não gostou. No dia seguinte (sábado à tarde) Barbosa divulgou nota constrangedora afirmando que a proposta de valorização do salário mínimo a partir de 2016 seguirá a regra de reajuste atualmente vigente. O ministro voltou atrás no que disse, a mando da presidente.

Essa é uma importante e infeliz demonstração de permanência da centralização de certas decisões nos próximos quatro anos, indo na direção contrária do que parte do mercado esperava (descentralização de certas decisões). Tal fato é de vital relevância para reversão das expectativas, que tendem a esfriar, antes mesmo de aquecerem, com este lamentável episódio.

O Banco Central também está na mira mercado. Precisa passar no teste. Precisa entregar resultado (inflação na meta). A primeira sinalização (centralização ou descentralização / submissão ou autonomia) será emitida na reunião de política monetária dos dias 20 e 21 de janeiro. O ritmo de aperto monetário deve ser mantido, no mínimo, em 0,50 p.p., tanto para combater a inflação persistentemente elevada, quanto para atuar de maneira preventiva frente à normalização das condições monetárias nos países desenvolvidos (Estados Unidos e Inglaterra).

Eis a primeira e mais importante contribuição externa ao nosso lamaçal de problemas. A elevação do custo de capital no mundo, consequência da desalavancagem do sistema financeiro. Movimento ainda não devidamente precificado no mercado, já que a Treasury (título de 10 anos do Tesouro norte-americano) segue muito baixa em relação aos objetivos de longo prazo da Federal Funds Rate (taxa básica de juros nos Estados Unidos), o que evitou nocauteamento sobre a já debilitada, desajustada e vulnerável economia brasileira.

A combinação de dependência de financiamento externo com redução da liquidez global é extremamente grave para os atuais fundamentos domésticos. Este é um dos motivos pelo qual o novo ministro da Fazenda não pode se dar ao luxo de fazer um ajuste gradual em primeira marcha. O FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) não vai esperar o Brasil mostrar consistência no processo de arrumação da casa para subir os juros. O FED também não vai esperar o Banco Central brasileiro deslocar a taxa Selic para um patamar atrativo o suficiente que impeça uma potencial fuga de capitais.

O FED também não vai esperar a inflação nos Estados Unidos ultrapassar o centro da meta para iniciar o ciclo de aperto monetário. Com o mercado de trabalho aquecido, deslocando-se rapidamente ao objetivo da instituição, o aperto monetário torna-se praticamente inevitável até o final do primeiro semestre deste ano.

É preciso entender que a dinâmica da inflação norte-americana é bem diferente da brasileira. Nos Estados Unidos a inflação é basicamente de salários, onde a pressão do câmbio e dos preços de petróleo são bem menores, comparando com a pressão exercida por estas duas fontes na inflação brasileira. Portanto, nos Estados Unidos, a inflação reage imediatamente à elevação dos salários. É a grande fonte de pressão dominante no cálculo do índice de inflação. Com a significativa queda da taxa de desemprego em curso, o aumento dos salários é fato irreversível, o que exigirá atuação do FED, independente do patamar de câmbio ou do preço do barril de petróleo.

A chair do FED, Janet Yellen, praticamente confirmou o inevitável em sua última entrevista. Não é mais segredo que a continuação do processo de retomada econômica exigirá aumento da Federal Funds Rate. O aperto monetário só será evitado caso a economia norte-americana leve outro tombo, o que é improvável no momento.

O aviso de Yellen é importante para o Banco Central brasileiro atuar preventivamente nos próximos meses. Sai muito mais barato subir a taxa Selic antecipadamente, como está sendo feito, do que dar um choque de juros em momentos de desespero.

Entretanto, a fonte do principal problema externo que afeta o Brasil é também a solução para continuarmos, pelo menos, respirando neste mar agitado. O processo, em curso, de reorganização da economia chinesa (mais voltada ao mercado consumidor doméstico e menos dependente de investimento Estatal) é uma paulada aos países exportadores de commodities. Mas o Brasil tem a chance de se reaproximar dos Estados Unidos e expandir as relações comerciais com uma economia em rota ascendente. Para isso, basta remarcar a importante visita de Estado à Washington o mais rápido possível, o que felizmente parece estar na agenda do governo.

Líderes anti-americanos (assumidos e não assumidos) da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) ficaram de queixo caído ao descobrirem, pelos jornais, que seus companheiros de Cuba estão se reaproximando dos Estados Unidos. Cuba pode puxar a fila dos países que apresentam alguma sanidade.

Pelo lado da insanidade, a Venezuela está muito próxima de uma ruptura que pode ser dramática e violenta. Milícias chavistas fortemente armadas de um lado e população pronta para sair às ruas do outro. O anti-chavismo é, atualmente, maioria na Venezuela, mas a militarização dos apoiadores do governo é um problema extremamente grave que pode resultar até mesmo numa guerra civil. O papel das forças armadas venezuelanas será importante. Os militares podem partir para um golpe de Estado. Podem escolher um lado e lutar. Ou ficar de braços cruzados (improvável).

O Brasil, como líder regional, não está preparado para fazer o seu papel e atuar como mediador na Venezuela. Não está preparado para receber eventual imigração na fronteira. Não está preparado para dar suporte às empresas brasileiras que abastecem a Venezuela. Não está preparado para recusar os pedidos de socorro político do presidente Maduro, que fez questão de conversar em particular com Dilma Rousseff na cerimônia de posse.

Maduro está enfurecido com os árabes, pois a queda abrupta do barril de petróleo acelerou o processo de implosão do sistema na Venezuela. A jogada política da Arábia Saudita virou o planeta de cabeça pra baixo. A manutenção do ritmo de produção de barris árabes visa eliminar, no médio prazo e longo prazo, alguns concorrentes de custos elevados e prolongar, ao máximo, a posição do barril de petróleo como principal fonte de geração de energia.

A eliminação de alguns concorrentes é um processo lento. A tendência é de persistência dos produtores em novas perfurações, numa disputa em que o melhor sobrevive. Ninguém quer perder fatia de mercado e muitos, que estão na corda bamba, estão dispostos a brigar pelo preço.

O reequilíbrio entre oferta e demanda, que proporcionará condições para retomada gradual do preço do barril de petróleo, está longe de acontecer. A Rússia, outro importante player global, atingiu novo recorde de produção na era pós-soviética, com uma média de 10,58 milhões de barris por dia no ano passado.

Se por um lado os produtores estão produzindo cada vez mais, os consumidores tendem a consumir cada vez menos barril de petróleo. A busca por fontes de energias renováveis é um processo que tende a ganhar cada vez mais força nos próximos anos/décadas, tanto por questões climáticas, quanto por questões geopolíticas (blindagem contra choques provocados por fontes de combustíveis fósseis, aproveitamento do enfraquecimento econômico de países rivais, etc).

China e Estados Unidos firmaram um acordo histórico no final do ano passado para redução de gases de efeito estufa. Até 2025 os Estados Unidos pretendem reduzir suas emissões de gases poluentes entre 26% e 28% em relação a 2005. Já a China planeja que, até 2030, ou um pouco antes, deverá ter 20% de combustíveis não fósseis em sua matriz energética. Hoje a proporção de energias renováveis na matriz energética chinesa gira em torno de 10%.

A Ìndia, outro grande consumidor global de combustíveis fósseis, vai investir cerca de 100 bilhões de dólares ao longo de sete anos para impulsionar a capacidade de geração de energia solar no País em 33 vezes, para 100 mil megawatts. A participação da energia solar na matriz energética indiana vai aumentar de 1% para mais de 10%. Para efeito comparativo, na Alemanha, líder em energia renovável, a participação da fonte solar era de cerca de 6% do total gerado em 2014.

O Brasil, como de costume, está perdido e fora de rumo. O rearranjo do mercado energético global chegou mais rápido do que a exploração do pré-sal. Perdemos o timming.

No oriente médio, os impactos são inevitáveis. A queda do preço do barril de petróleo aumenta o clima de tensão na região. A jogada da Arábia Saudita enfraquece, também, um importante inimigo (Irã). Somada às sanções do ocidente, o petróleo mais barato limita ainda mais as margens de manobras do Irã, que pode acabar sendo pressionado a assinar o acordo nuclear para evitar um colapso econômico.

Já no mês de março deste ano, haverá eleições antecipadas em Israel, dois anos antes do previsto. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu demitiu os ministros das Finanças e da Justiça devido a desentendimentos sobre o curso da política e da economia no País. Netanyahu pretende fortalecer a natureza judaica do Estado de Israel, o que pode favorecer adoção de posturas mais rígidas no Oriente Médio, ultrapassando até mesmo os limites da Palestina.

A delicada situação econômica na zona do euro receberá um “reforço” já no início deste ano com a volta da instabilidade política na Grécia. Eleições antecipadas foram convocadas para o próximo dia 25, onde o partido de esquerda Syriza é o favorito, com 3% à frente da coalizão de centro-direita Nova Democracia nas pesquisas de intenção de voto. O partido de esquerda liderado por Alexis Tsipras é uma tremenda dor de cabeça no bloco, pois rejeita as medidas de austeridade impostas pela UE (União Europeia) e FMI (Fundo Monetário Internacional).

O partido Syriza não quer abandonar o euro, mas quer renegociar o resgate grego, para que a dívida do país seja reduzida à metade. No entanto, as autoridades da UE e do FMI rejeitam a renegociação e afirmam que a Grécia deve continuar a implementar medidas de austeridade. Além disso, uma eventual vitória do Syriza poderá inspirar outras coligações de esquerda que vem ganhando força na Europa nos últimos anos.

Crises e/ou situações delicadas em diversas fontes do ambiente externo potencializam as dificuldades a serem superadas pelo Brasil em 2015. Os desafios são enormes frente à restrita margem de manobra. Há limite para elevação de impostos, reversão de subsídios, corte de gastos e alta dos juros, pois o efeito sobre a atividade econômica é tão negativo que acaba impactando negativamente a própria arrecadação, piorando ainda mais a situação fiscal, ao invés de melhorar.

Levy tem a competência necessária para desenvolver este trabalho cirúrgico, mas precisará do apoio da presidente e do Congresso, principalmente nos próximos três ou quatro trimestres. O mesmo vale para atuação do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Ponto ainda duvidoso e questionável. Está faltando o voto de confiança do governo, a ser transmitido pelas atitudes, e não por discursos políticos.

A conta que precisa ser paga nos próximos quatro anos é maior daquela que foi paga nos últimos quatro anos. Entretanto, assumir a responsabilidade do pagamento integral é um importante passo para criação do benefício futuro. O prêmio oferecido pelo mercado a todos que fazem seus respectivos deveres de casa.

Mudança para melhor é o que todos nós queremos, independente de quem está no poder. Não dá mais para esperar. É agora ou nunca. Sucesso à nova equipe econômica, o nosso pingo de esperança.