sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Esqueceram de ouvir a opinião do Sr. Mercado


Como de costume, as notícias negativas do quadro doméstico foram predominantes neste mês. Os novos assuntos que vieram à tona, como a derrota do governo na Câmara, substituição da diretoria da Petrobras, rebaixamento da Petrobras e greve dos caminhoneiros se juntaram aos velhos e conhecidos problemas nos déficits públicos, corrupção, inflação elevada, baixo crescimento, risco de racionamento de água e energia elétrica, juros altos, ambiente de negócios desfavorável, infraestrutura deficitária, excesso de burocracia, carga tributária elevada e baixo nível de educação.

Notícias volumosas e pesadas que permitiram a mídia “especializada” em mercado financeiro vender o sentimento de revolta, indignação e pessimismo aos seus leitores. Publico este, que por sinal, procura informações com objetivo de rentabilizar seu patrimônio. Não existe outro objetivo ao investidor/operador no mercado financeiro que não seja o de ganhar dinheiro, independente do cenário X ou Y.

Revolta, indignação, pessimismo (ou mesmo otimismo) são sentimentos que podem se manifestar em qualquer lugar, menos no mercado financeiro. Um bom negociador de ativos sabe que precisa filtrar, o tempo todo, as informações despejadas no mercado. Focar na evolução dos indicadores econômicos, nos movimentos dos Bancos Centrais, dos governos, dos ministros de Finanças/Economia/Fazenda e das principais instituições globais, para conseguir fazer a leitura correta do quadro macroeconômico e traçar perspectivas.

O filtro dos investidores/operadores passou por mais uma dura prova de teste neste mês de fevereiro. A mídia brasileira ouviu todo mundo, menos a opinião do “Sr. Mercado”. Análises e comentários rotineiramente errados e de elevada carga emocional, totalmente desconectados do ambiente de negócios do mercado financeiro.

O mercado financeiro brasileiro não é uma ilha fechada movida ao sentimento vendido pelos “jornais do bairro”. O mercado é aberto. O fluxo entre compradores e vendedores, que define os preços dos ativos, vem de todos os cantos do planeta. A decisão, portanto, de comprar ou vender determinado ativo não é fruto único e exclusivo do noticiário bairrista. É o resultado de um emaranhado de informações avaliadas de sob diversos pontos de vista entre investidores/operadores.

O ponto de vista que prevaleceu neste mês jogou os preços para cima, ao contrário do que sugeriam os “jornais do bairro”. Bolsa de valores em forte alta e baixo rendimento dos títulos soberanos são resultados de uma grande onda compradora que atingiu ativos de diferentes segmentos no nosso mercado.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2018, por exemplo, encerrou o mês em 12,52% ao ano, o que significa prêmio nulo, levando em consideração que a taxa Selic subirá 0,25 p.p. na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) a ser realizada na semana que vem. Já o contrato de juros futuros com vencimento em 2019 encerrou o mês em 12,44%, o que representa prêmio negativo, levando em consideração a nova taxa Selic em 12,50% na semana que vem. A partir de 2019, todas as curvas de juros operam com prêmios negativos. A ausência de prêmio nos contratos de juros futuros revela como está o apetite do mercado.

O índice Bovespa fechou o mês de fevereiro com significativa valorização de 9,97%, registrando o maior ganho mensal desde janeiro de 2012. Esta é a terceira vez, nos últimos dois anos, que o mercado brasileiro reage ao aproximar-se da região de suporte dos 45k.


Destaque para nova medida de ajuste fiscal anunciada nesta sexta-feira. O governo reduziu a ineficiente desoneração da folha de pagamentos da lista de beneficiados criada na gestão do antigo ministro da Fazenda, que, por sua vez, não gerou impacto positivo na economia. Empresas que pagavam 1% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 2,5%. Empresas que pagavam 2% do faturamento à Previdência Social passarão a recolher 4,5%. As novas alíquotas serão válidas a partir de junho e as empresas beneficiadas poderão optar entre recolher o imposto sobre a folha de salários (como as demais não beneficiadas) ou pelo faturamento.

A medida é mais uma bela jogada do ministro Joaquim Levy, pois não só corrige parte das distorções causadas pelo intervencionismo ineficiente do passado, como aumenta o caixa do governo. Somente no ano passado o governo queimou mais de 21 bilhões de reais com as desonerações. É mais uma injeção fiscal que joga o País na rota do superávit primário de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015. É mais uma reafirmação de autonomia da Fazenda, reafirmação de abandono das infrutíferas políticas anticíclicas predominantes no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, reafirmação de apoio e comprometimento do governo federal com uma nova política econômica e, por fim, reafirmação da nossa atual classificação de risco (grau de investimento).

Aos poucos, o ministro da Fazenda vai derrubando teses daqueles que não prestaram atenção ou não confiaram no que foi revelado ano passado após as eleições. A casa está sendo parcialmente arrumada para que o País volte a crescer no médio prazo. Muito ainda precisa ser feito, mas felizmente entramos numa nova rota.

A onda compradora que atingiu o mês de fevereiro não foi uma particularidade do mercado brasileiro. Ativos de outras praças financeiras também experimentaram valorizações expressivas no mês, influenciados, sobretudo, pelas orientações/atuações de política monetária dos principais banqueiros centrais mundiais.

Wall Street segue bull. Os principais índices da bolsa de Nova York fecharam o mês em forte alta, renovando a máxima histórica.


O mesmo quadro pode ser constatado nos mercados europeus. Na Alemanha, o índice DAX fechou mais um mês em forte alta, apesar do elevado nível de sobrecompra, acelerando o rali.


O índice Nikkei, da bolsa de Tóquio, no Japão, disparou neste mês, rompendo a máxima registrada em 2007. Mercado segue numa forte tendência de alta, com boa perspectiva para superar a máxima histórica ainda este ano. Nikkei em bull market é mais um feito histórico.
  
  
O desempenho da bolsa de Xangai, na China, é, também, um feito histórico. O mercado fechou o mês em forte alta, recuperando as perdas registradas no mês anterior, mostrando a força do rali iniciado no final do ano passado.


Na Índia, a bolsa de Bombay fechou o mês em leve alta, mostrando forte recuperação na última semana. Apesar do elevado nível de sobrecompra, não houve surgimento de força vendedora suficientemente necessária para forçar o mercado trabalhar uma correção natural desde o rompimento da máxima histórica, na virada de 2013 para 2014.


A bolsa do México também disparou no mês de fevereiro, após registrar três meses consecutivos de perdas relevantes. O movimento de recuperação marcou fundo na região dos 240 pontos.


Bom final de semana!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Yellen prepara o mercado para mudança no comunicado do FED


O discurso da chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, no Comitê Bancário do Senado, realizado nesta terça-feira, revelou o grau de cautela adotado pela autoridade monetária norte-americana quanto à orientação futura de política monetária.

Yellen adiantou que o Banco Central vai, provavelmente, agir nos próximos meses para, primeiramente, remover a famosa palavra "paciente" dos comunicados. Este termo é utilizado para orientar o mercado sobre a aproximação do processo de aperto monetário.

Entretanto, a chair do FED frisou que os investidores/operadores não devem interpretar a mudança no comunicado como um sinal de que o Banco Central está comprometido com o aumento dos juros em qualquer reunião. Quando a palavra “paciente" desaparecer dos comunicados, significará que a autoridade monetária vai apenas ter flexibilidade para agir conforme os indicadores econômicos aproximem das metas previamente estabelecidas. Yellen ainda afirmou que a modificação da orientação futura não deve ser vista como uma indicação de que o FED vai, necessariamente, aumentar os juros nas em duas reuniões.

Traduzindo para linguagem do mercado, Yellen quer mostrar que não há motivos para os investidores/operadores se preocuparem quando a palavra “paciente” sumir dos comunicados do FED (poderia resultar numa reação exagerada, com forte impacto nos preços dos ativos). Será uma sinalização de que o aperto monetário está próximo, mas não iminente.

De olho na forte arrancada dos juros futuros ocorrida nas últimas semanas, Yellen adotou um discurso no Senado norte-americano para amenizar o nervosismo do mercado. O rendimento da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) recuou para 1,99% nesta terça-feira. É o maior alívio registrado desde o início do movimento altista.


A jogada da Yellen revela que o FED quer que o inevitável movimento ascendente do rendimento da Treasury seja menos traumático possível, ou seja, altas graduais no médio e longo prazo.

O recuo no rendimento da Treasury influenciou a correção nas taxas dos títulos soberanos dos demais países, incluindo o Brasil. O otimismo também atingiu o mercado de câmbio, em correção, e a bolsa de valores, em movimento ascendente.

O índice Bovespa fechou o pregão em alta de 1,16%, distanciando-se da linha de resistência da antiga zona de congestão. Mercado em tendência de alta de curto prazo.


No início da noite, a agência de classificação de risco Moody's rebaixou o rating da Petrobras para lixo (ou grau especulativo), citando pressão de liquidez no curto prazo e perspectiva de que a empresa pode levar mais tempo do que o esperado anteriormente para reduzir sua alavancagem. A perspectiva segue negativa, o que significa que novos rebaixamentos podem ocorrer.

A notícia é negativa para a empresa, com potencial de exercer pressão no custo para captação de recursos no mercado. Apesar de a Petrobras não ter obrigação de quitar antecipadamente sua dívida por conta da perda do grau de investimento (conforme nota divulgada pela empresa), o quadro pode se agravar caso uma segunda agência de classificação de risco rebaixe a Petrobras para lixo, seguindo os passos da Moody’s.

O risco é relevante. A agência de classificação de risco S&P atribui grau de investimento à Petrobras, em perspectiva positiva. Já a agência de classificação de risco Fitch atribui grau de investimento à Petrobras, porém em perspectiva negativa.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou mais um pregão em alta, renovando a máxima histórica.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Eurogrupo derruba máscara da esquerda radical grega


“A Grécia deixou para trás a austeridade desastrosa e acabou a troika”, disse Alexis Tsipras, líder do partido de esquerda radical grego Syriza, no seu primeiro discurso como vencedor das eleições legislativas realizadas no final do mês passado.

O pronunciamento de Tsipras, bem como as propostas do seu partido, que incluem o fim das medidas de austeridade fiscal e renegociação significativa da dívida pública do País, criou um clima de instabilidade na zona do euro, com os possíveis impactos causados pela adoção de medidas radicais na Grécia, fato que resultaria na sua expulsão do bloco.

Passado a fase de comemoração da vitória, o jovem sonhador Tsipras percorreu uma maratona na zona do euro. Conversou rapidamente com os principais líderes europeus. Nesse momento, Tsipras ainda tinha esperança de convencer a Europa aceitar as propostas de seu partido.

Tsipras deve ter levado uns belos puxões de orelha em sua maratona, pois a cada dia que passava o seu sorriso diminuía, escondendo uma angústia por dentro. A ficha estava começando a cair.

A Grécia precisa firmar um acordo com a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) até o fim deste mês para garantir o recebimento da última parcela do programa de resgate. Para receber a nova parcela de ajuda, os gregos precisam cumprir os compromissos firmados anteriormente com a troika.

Tsipras não pode acabar com as medidas de austeridade fiscal e muito menos cortar suas relações com a troika, pois o País precisa das parcelas do pacote de ajuda para honrar seus compromissos com a sociedade e as medidas de austeridade fiscal são condições necessárias para que o dinheiro da troika continue pingando na super-endividada Grécia.

A reunião com o Eurogrupo nesta sexta-feira simbolizou a queda da máscara do partido Syriza. Esquerda radical que nada. Tudo não passava de um discurso “bonito” para vencer as eleições. Tsipras se curvou à troika. Vai ter que apresentar na próxima segunda-feira detalhes de novas reformas e medidas de cortes orçamentários para continuar recebendo ajuda financeira dos europeus por mais quatro meses.

Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, disse no final da tarde desta sexta-feira que a Grécia se comprometeu a promover reformas estruturais mais amplas e profundas. Isso significa que o partido “radical de esquerda” prometeu aos líderes europeus ser mais austero do que o partido conservador Nova Democracia, do ex-primeiro-ministro Antonis Samaras, que ocupava o poder na Grécia até o final do mês passado.

Ao Alexis Tsipras, resta agora procurar um buraco para enterrar sua cabeça e esconder de seus eleitores iludidos. A máscara do Syriza caiu num piscar de olhos. Esse acontecimento nos faz lembrar o que foi o processo pós-eleitoral brasileiro.

No mercado de capitais, as principais bolsas de valores mundiais fecharam em alta nesta semana. A bolsa de Frankfurt, na Alemanha, renovou, mais uma vez, a máxima histórica.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones também fechou a semana registrando novo recorde de alta. Destaque para melhora na prévia do Índice Gerente de Compras, subindo para 54,3 pontos no mês de fevereiro, frente aos 53,9 pontos registrados no mês de janeiro, mostrando fortalecimento do ritmo de expansão da atividade manufatureira.


No Brasil o índice Bovespa fechou a semana em leve alta, iniciando rompimento da zona de congestão de curto prazo.
  

Bom final de semana!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Paciência continua sendo o melhor caminho para o FED


A ata do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) divulgada nesta quarta-feira revelou preocupação dos integrantes do Comitê com a possibilidade de que a elevação precipitada dos juros jogue “água fria" sobre a recuperação econômica norte-americana.

A discussão centralizou-se na manutenção ou retirada do termo “paciente”, utilizado para orientar o mercado sobre a aproximação do processo de aperto monetário. Na entrevista coletiva concedida no mês de dezembro do ano passado, a chair do FED, Janet Yellen, disse que ser "paciente" significa que o Banco Central não elevará a taxa básica de juros pelo menos nas próximas duas reuniões.

Ao optarem pela manutenção do termo “paciente” nos comunicados da autoridade monetária, os membros votantes do Comitê confirmaram a dica fornecida pela chair no final do ano passado e também mostraram receio em alterar precocemente as expectativas do mercado quanto ao timming do aperto monetário.

O momento para subir a taxa básica de juros está próximo, mas ainda não chegou. Caso a maioria dos integrantes do Comitê optasse, na última reunião realizada nos dias 27 e 28 de janeiro, por retirar o termo “paciente” dos comunicados da autoridade monetária, o mercado poderia ser duramente impactado pela precificação de juros mais elevados num curto espaço de tempo, fato que poderia provocar choques relevantes nos preços dos ativos.

Apesar de classificarem o mercado de trabalho norte-americano como forte, os membros votantes do FED sinalizaram que o balanço de riscos (inclui fraqueza da inflação doméstica, dólar fortalecido frente às demais moedas, tensões geopolíticas no cenário internacional, entre outros) ainda exige manutenção da taxa básica de juros na mínima histórica por um período mais longo.

Entretanto, a maioria dos integrantes do Comitê espera aumentar a taxa básica de juros neste ano. A próxima reunião de política monetária será realizada nos dias 17 e 18 de março, onde novamente será discutida entre os membros a manutenção ou retirada do termo “paciente” nos comunicados do FED. A ata sugere que a maioria ainda votará pela manutenção do termo na próxima reunião.

A reação do mercado foi imediata. A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano, referência no mercado global da dívida soberana) recuou nesta quarta-feira para 2,07%. É o primeiro alívio desde a arrancada iniciada em 1,68%, no começo deste mês.


No quadro doméstico, destaque para o discurso do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em apresentação a investidores nos Estados Unidos. Levy (re) afirmou que está deixando para trás as tão criticadas medidas anticíclicas (marca do antigo ministro da Fazenda) e mostrou confiança no seu objetivo inicial de colocar a casa em ordem. As palavras seguem em linha com as atitudes tomadas, diferentemente do que ocorria no passado.

A bolsa de valores brasileira fechou em alta pelo terceiro pregão consecutivo, iniciando rompimento ascendente da zona de congestão de curto prazo. Movimento relevante que pode resultar no nascimento de uma nova tendência de alta.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones aproximou-se da segunda linha de resistência da zona de congestão de curto prazo, com boa possibilidade de rompimento ascendente. A resistência da zona de congestão do índice S&P500 foi levemente superada nesta semana.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Treasury desperta após 12 meses de sono tranquilo


Nem parecia que o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) tinha uma estratégia traçada para normalizar a política monetária. O recuo exagerado dos Yields (taxa de juros) pagos pelas Treasurys (títulos públicos do Tesouro norte-americano, referência no mercado da dívida soberana) nos últimos 12 meses mostrou como o mercado subestimou a velocidade com que o FED possa elevar a Federal Funds Rate (taxa básica de juros).

A correção foi tão intensa que os Yields caíram abaixo do patamar marcado pelo discurso de anúncio antecipado do tapering (redução gradual no volume dos programas de estímulos monetários) do então presidente do FED, Ben Bernanke, em 2013. A Treasury devolveu todo o movimento de pânico observado nos meses seguintes ao anúncio do Bernanke. Os preços praticados até o final do mês passado refletiam (e ainda refletem) uma expectativa irreal de que a Federal Funds Rate não vai subir esse ano e nem no ano que vem.

Mas o sono tranquilo dos últimos 12 meses da Treasry parece ter chegado ao fim. Influenciado pelas entrevistas de alguns diretores regionais do FED, os Yields voltaram a subir fortemente, causando impactos nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais.


O marubozu de alta registrado na semana passada é o mais forte desde o início do movimento corretivo (janeiro de 2014), seguido de uma nova máxima logo no início desta semana, o que sinaliza possível “efeito despertador”. 

Apesar de não haver divergência de expectativa entre as entrevistas de alguns membros do Comitê de Política Monetária e o que consta nos documentos do FED, as declarações dos diretores regionais do Banco Central serviram para emitir um sinal de que o mercado estava errado ao subestimar o cronograma de normalização da política monetária nos Estados Unidos.

Os indicadores econômicos seguem mostrando números que estão dentro da expectativa do FED. A continuação dessa trajetória positiva permitirá ao Banco Central iniciar o tão aguardado ciclo de aperto monetário este ano e, talvez, já no próximo trimestre. Apenas uma surpresa negativa poderá atrasar a implementação do longo processo de normalização da política monetária.

O despertar da Treasury atingiu em cheio o mercado da dívida soberana brasileira. Os Yields dos títulos públicos formaram novo piso ascendente e voltaram a subir fortemente nos últimos dias, corrigindo o excesso de otimismo (ou otimismo precoce) na correção de curto prazo das curvas longas. O contrato de juros futuros com vencimento em 2018, por exemplo, saiu da região dos 12% ao ano, patamar de prêmio negativo (inferior à taxa Selic), para a região dos 12,84%, patamar de prêmio positivo (porém ainda baixo).


O movimento vendedor em títulos da dívida soberana brasileira causa inevitável impacto no mercado de câmbio. Com investidores estrangeiros liquidando posições em títulos públicos, os “primeiros” dólares começam abandonar o Brasil sob os olhares atentos de Tombini e sua equipe, preocupados com os novos impactos sobre a inflação persistentemente elevada, insuficientemente combatida nos últimos anos.

O dólar a R$ 2,83, ou acima, acompanhado de uma dolorosa inflação de 1,24% em janeiro/2015, pode atrasar o timming para redução do ritmo de aperto monetário. Na última reunião de política monetária, realizada no mês passado, o Banco Central traçou projeção para inflação até o fim de 2016 com o dólar ancorado em R$ 2,55 durante todo o horizonte de previsões. Os cálculos, portanto, estão bastante defasados.

O índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira em baixa de 1,77%, após aproximar-se da primeira linha de resistência da zona de congestão de curto prazo. O surgimento da força vendedora, no mesmo local dos últimos dias/semanas, revela manutenção do movimento lateral, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 0,79%, realizando nova tentativa de aproximação na linha de resistência da zona de congestão de curto prazo.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Surpresa companheiro


O segundo mandato da presidente Dilma começou marcado por ajustes (ainda em fase inicial) na política fiscal. Com as atenções focadas no trabalho do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi possível esquecer, em alguns momentos, a ideologia do partido que havia vencido as eleições presidenciais no ano passado. Parecia até que o outro partido havia levado a melhor.

Levy conseguiu gerar certa distração positiva no mercado em meio ao lamaçal de problemas acumulados nos últimos anos. Mas infelizmente o esquecimento durou pouco. Alguns brasileiros deverão dormir preocupados nesta sexta-feira, como nos velhos tempos. A semana terminou com um lembrete de quem está no poder.

A substituição do alto escalão na Petrobras criou grande expectativa no mercado. Esperavam-se nomes com credibilidade semelhante aquela transmitida pelo novo ministro da Fazenda. Mas veio uma baita surpresa: Aldemir Bendine. Seguido de outra surpresa: Ivan de Souza Monteiro. E mais um quarteto para finalizar o pacotão: quatro importantes diretorias assumidas interinamente.

Bendine era Presidente do Banco do Brasil e assumirá o cargo de Maria das Graças Foster na presidência da Petrobras. Monteiro era Vice-presidente Financeiro do Banco do Brasil e assumirá o cargo de Almir Guilherme Barbassa na Diretoria Financeira e de Relacionamento com Investidores da Petrobras.

Dois executivos de um banco estatal que, como se especula no mercado, costumava atender todos os comandos vindos do Palácio do Planalto. Destaque aos episódios de redução das taxas de juros e aumento expressivo das concessões de crédito, na contramão dos bancos privados.

Como se não bastasse, Bendine assume o comando da Petrobras sob os olhares tortos do mercado. Imediatamente após os primeiros boatos, ressurgiram matérias na mídia de que Bendine era tido como demissionário da presidência do Banco do Brasil por causa do escândalo do empréstimo subsidiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de 2,7 milhões de reais concedido a socialite Val Marchiori. Além disso, os jornais também relembraram a abertura de investigação do MPF (Ministério Público Federal) contra Bendine por lavagem de dinheiro e a autuação da Receita Federal por não comprovar procedência de cerca de 280 mil reais informados na declaração do Imposto de Renda.

Esse não é o tipo de notícia que se espera ler ou ouvir de um executivo assumindo o cargo de presidência de uma empresa como a Petrobras. Esperava-se um processo de restauração da credibilidade na companhia, começando pela nomeação de profissionais mais próximos do mercado e menos ligados ao governo.

A migração dos ex-diretores do Banco do Brasil para a Petrobras, juntamente com a nomeação de mais quatro diretores interinos, aumenta as especulações de que o governo tomou uma solução improvisada por não querer abrir mão de sua influência na empresa.

A escolha dos novos diretores da Petrobras não foi aprovada por unanimidade no Conselho de Administração. Mauro Cunha e Silvio Sinedino, conselheiros que, respectivamente, representam os acionistas minoritários e os trabalhadores da companhia, afirmaram que votaram contra a eleição da nova diretoria.

Cunha afirmou em nota que "o acionista controlador mais uma vez impõe sua vontade sobre os interesses da Petrobras, ignorando os apelos de investidores de longo prazo”.

No mercado de capitais o Ibovespa fechou a semana em alta, sem apresentar novidades, ainda trabalhando dentro de uma congestão de curto prazo.


O mesmo quadro pode ser observado em Wall Street. O índice Dow Jones fechou a semana em alta, mas também sem apresentar novidades, ainda trabalhando dentro de uma congestão de curto prazo.


O mercado mexicano também está congestionado no curto prazo. O candle de alta desta semana não apresentou novidade.
  
  

Os mercados europeus, por outro lado, seguem em rali, influenciados pelo anúncio de novas medidas de estímulo monetário por parte do BCE (Banco Central Europeu). Na Alemanha, o índice DAX fechou mais uma semana em alta, renovando a máxima histórica.


Na Índia, a bolsa de Bombay fechou em baixa pela segunda semana consecutiva, num movimento de correção natural, fruto da tendência principal de alta de médio e longo prazo.


A bolsa de Xangai, na China, também fechou em baixa na semana, corrigindo parte do impressionante rali constatado nos últimos meses.


Bom final de semana!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Nova onda de busca ao risco mostra investidores mais seletivos


A nova orientação de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), apresentada ao término da reunião de Comitê do dia 17 de dezembro de 2014, contribui de maneira significativa para reabrir janelas de negócios nas principais praças financeiras mundiais, especialmente em países emergentes.

A famosa expressão “tempo considerável” (ou “horizonte relevante”), utilizada para caracterizar por quanto tempo o FED pretende esperar para elevar a taxa básica de juros após o fim dos programas de estímulos monetários, foi eliminada do comunicado do dia 17. Desde então, o Banco Central norte-americano segue afirmando que vai adotar uma postura "paciente" para decidir quando elevar os juros.

Apesar de o mercado subestimar a velocidade com que o FED possa elevar a taxa básica de juros, a paciência do Banco Central não deixa de ser uma garantia de tempo extra aos investidores que pretendem aproveitar retornos atrativos em ativos de risco nos países emergentes.

Entretanto, pode-se notar desde o final do ano passado, que o fluxo de capital não se deslocou em bloco aos países emergentes. Os investidores/operadores estão cada vez mais seletivos na escolha do destino. Índia, Indonésia, México e Taiwan estão entre as praças mais beneficiadas com a nova onda global de busca ao risco. A Rússia quase não se beneficiou e o Brasil recebeu alguns respingos, mas apenas direcionados para o mercado da dívida soberana.

Enquanto o índice MSCI (gráfico de candles), que reúne as principais ações das bolsas de valores em mercados emergentes, trabalha dentro de uma tendência de alta desde a mudança de orientação da política monetária do FED, o índice Bovespa (linha branca) trabalha dentro de uma congestão. Estamos praticamente no mesmo lugar.


A forte queda dos preços das commodities nos últimos meses pode ser uma das explicações pelo desânimo dos investidores/operadores com a bolsa de valores brasileira. Entretanto, a participação de empresas exportadoras de commodities é cada vez menor na composição da carteira teórica do Ibovespa. O setor de maior peso é o financeiro com 28,057%, seguido pelo setor de petróleo e gás com 8,213%, consumo não cíclico e bebidas com 7,721% e mineração com 7,399%.

O fato é que mesmo num ambiente de elevada liquidez, os investidores, operadores e players de mercado, de maneira geral, seguem justificadamente cautelosos com o mercado de ações brasileiro, devido aos infelizes acontecimentos dos últimos anos.

A entrada do Levy na Fazenda foi importante para permitir o acompanhamento da redução dos prêmios de risco da dívida soberana brasileira em linha com o movimento das Treasuries (título público do Tesouro norte-americano, referência mundial). Mas é preciso fazer mais para que a economia encontre a rota do crescimento sustentado no médio e longo prazo, fato com alto potencial de atração de capital num ambiente onde os investidores estão cada vez mais seletivos.

Já o nível de confiança, ponto fundamental para evitar a continuação do movimento contracionista do ano passado, mostra sinais de reação. Os indicadores mais recentes revelam que o choque de gestão no ministério da Fazenda animou os empresários. O Índice Gerente de Compras do Brasil, calculado pelo banco HSBC em parceria com o Instituto Markit, subiu para 50,7 pontos no mês de janeiro, atingindo o nível mais forte dos últimos 12 meses, confirmando ligeira expansão do setor industrial.

A bolsa de valores brasileira fechou em alta pelo terceiro pregão consecutivo, mostrando reação após testar a primeira linha de suporte da zona de congestão de curto prazo. Com esse movimento, o mercado aproximou-se da primeira linha de resistência da referida zona de congestão, sem apresentar novidades.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones, também congestionado no curto prazo, fechou de lado ao tocar a LTB do topo histórico. O mercado não se animou com o corte de 0,5 p.p. no compulsório anunciado pelo Banco Central da China. Alguns analistas esperavam novo corte na taxa básica de juros, dando sequência ao ciclo de afrouxamento monetário iniciado há cerca de três meses.