quinta-feira, 26 de março de 2015

As duas batalhas do Banco Central


O Banco Central voltou a reconhecer, desta vez pelo Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quinta-feira, que os “avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”, reforçando expectativa de nova alta da taxa Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) a ser realizada nos dias 28 e 29 de abril.

Não resta outra opção ao Banco Central, mesmo diante de um cenário econômico recessivo. As novas projeções de inflação feitas a partir do cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio constante no horizonte de previsão em R$ 3,15 e meta para taxa Selic em 12,75% ao ano) continuam mostrando quadro de inflação persistentemente elevada e distante do centro da meta.

A projeção do Banco Central parte de 8,1% no primeiro trimestre de 2015, desloca-se para 8,0% no segundo trimestre, para 8,2% no terceiro, e recua para 7,9% no final deste ano. Em 2016, a projeção recua para 5,9% no primeiro trimestre, segue em declínio para 5,4% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,9%. No primeiro trimestre de 2017, a projeção encontra-se em 4,7%.

Mesmo na estimativa mais distante, onde há maior possibilidade de erro, não é possível vislumbrar inflação ancorada no centro da meta (4,5%). Aliás, há bastante tempo o Banco Central tem errado para baixo nas projeções de inflação, principalmente no horizonte relevante para a política monetária.

A sucessão de erros provoca inevitável deterioração da confiança dos agentes econômicos. Os diretores do Banco Central seguem afirmando insistentemente que a política monetária permanecerá vigilante para garantir a convergência da inflação à meta no ano seguinte. É praticamente a mesma conversa dos últimos anos. O Banco Central prometeu e não cumpriu. Várias vezes.

Os agentes, justificadamente desiludidos, só voltarão a confiar na eficácia da política monetária quando puderem constatar que a inflação realmente está ancorada na meta. A batalha do Banco Central neste ano é para reverter os efeitos inflacionários negativos provocados pelo realinhamento de preços administrados em relação aos livres e realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais. Mas a batalha do Banco Central no próximo ano será ainda mais difícil: recuperar a confiança dos agentes.

A primeira batalha é bem diferente da segunda. A briga de 2015 é mais matemática (combater câmbio e preços administrados) e menos psicológica. Já a briga de 2016 será mais psicológica (combater indexação) e menos matemática. Entretanto, a guerra psicológica de 2016 vai depender do sucesso da guerra matemática de 2015.

Diante de uma esperada recuperação da economia brasileira em 2016, possivelmente acompanhada pelo ressurgimento do fortalecimento da demanda doméstica, os agentes tendem a subirem preços baseado unicamente no fato de que o teto da margem de tolerância (6,5%) foi rompido no ano anterior. Agir com firmeza para impedir o fortalecimento do processo de indexação será crucial para alcançar a meta no próximo ano.

Portanto, a política monetária pode criar efeito dominó de vitórias, ou manter a lamentável sequência de derrotas. Quanto mais se acumula derrotas, mais dolorosas terão de ser as vitórias. Há cinco anos não se aprecia fechamento da inflação ancorada no centro da meta. Esse ano infelizmente não será diferente. Atualmente, o preço a ser pago para conquistar vitórias nos diferentes campos de batalhas não é nada baixo. Se o Banco Central não fizer o "serviço bem feito", o preço que pagaremos no futuro para nos livrarmos da inflação será ainda maior.

No mercado de capitais o índice Bovespa fechou o pregão desta quinta-feira em baixa de 2,47%, formando topo duplo na região dos 52.4k. Abriu-se, portanto, uma nova perna de correção de curtíssimo prazo.


Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones fechou o pregão em leve baixa de 0,23%, reagindo ao teste da primeira linha de suporte de curtíssimo prazo localizada na região dos 17.6k. Apesar da manutenção do suporte, o mercado ainda não confirmou interrupção do movimento corretivo de curtíssimo prazo.


sexta-feira, 20 de março de 2015

A semana nas principais bolsas de valores mundiais


Impulsionadas pelas decisões e/ou orientações de política monetária de importantes banqueiros centrais, as principais bolsas de valores mundiais acumularam ganhos expressivos na semana, em alguns casos atingindo novas máximas históricas/anuais.

Nos Estados Unidos, os principais índices de Wall Street fecharam a semana em alta, aproximando-se da máxima histórica. Dow Jones e S&P500 recuperaram quase toda a desvalorização acumulada das últimas duas semanas, mostrando a força da tendência principal de alta.


Na Europa, o índice DAX (Alemanha) fechou em alta pela décima semana consecutiva, cravando nova máxima histórica. Mercado segue trabalhando dentro de um forte rali, apesar do insustentável nível de sobrecompra. O candle de fechamento desta semana sinaliza indecisão e pode abrir espaço para correções no curto prazo, apesar de não oferecer risco à tendência principal de alta.


A bolsa de Londres, na Inglaterra, disparou na semana, rompendo uma importante zona de resistência na região dos 6.9k e, consequentemente, superando a máxima histórica. As características técnicas do movimento agregam força e durabilidade à tendência de alta.


Em Paris, na França, o índice CAC segue em rali, renovando, pela sétima semana consecutiva, a máxima do ano. Apesar do elevado nível de sobrecompra, mercado ainda não sinalizou exaustão de curto prazo.


O principal índice do mercado canadense fechou a semana em alta, recuperando-se parcialmente de perdas recentes. Mercado em tendência principal de alta, com a máxima histórica de 2008 (período pré-crise) superada no ano passado.


A bolsa de Tóquio, no Japão, fechou mais uma semana em alta, renovando a máxima do ano. Mercado aproximando-se do recorde atingido em 2000, região caracterizada pela última zona de resistência abaixo da máxima histórica.


Na Austrália, o principal índice da bolsa de Sidney fechou a semana em forte alta, aproximando-se da máxima do ano. Bolsa em tendência de alta, a cerca de pouco menos de 1.000 pontos abaixo do recorde histórico. 


Na Índia, a bolsa de Bombay fechou a semana em leve baixa, trabalhando movimento de correção natural após atingir a máxima histórica aos 30.000 pontos duas semanas atrás. O antigo topo histórico, registrado em 2008 e rompido no início do ano passado, está posicionado na região dos 21.000 pontos. Mercado segue dentro da tendência principal de alta, com valorização significativa nos últimos 14 meses. 

  
Na China, a bolsa de Xangai disparou novamente, renovando a máxima do ano e máxima de 2009. Mercado em pleno rali, muito perto de atingir a marca de 100% de valorização desde a mínima registrada em meados de 2013.


A bolsa do México fechou a semana em forte alta, encostando na zona de resistência de curto prazo, com boa possibilidade de rompimento.  Mercado em longo movimento corretivo desde a máxima registrada em fevereiro de 2013, marcada pelo rompimento do recorde histórico de 2007 (período pré-crise).


Na Turquia, o principal índice da bolsa de Istambul subiu forte na semana, confirmando fundo ascendente na região dos 76.6k. Mercado em recuperação desde o início do ano passado, na tentativa de sair da congestão de longo prazo.
  
  
O principal índice da bolsa de Seul, na Coreia do Sul, disparou na semana, atingindo a máxima do ano. Mercado em forte tendência de alta de curto prazo, com boa possibilidade de atingir a máxima registrada no ano passado, considerada última resistência abaixo do topo histórico.


No Brasil o índice Bovespa fechou a semana em forte alta, trabalhando rompimento da importante linha de tendência de baixa iniciada na região dos 63.5k. Mercado em tendência de alta de curto prazo, tentando se livrar do movimento corretivo de médio prazo.


Bom final de semana!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Timming do aperto monetário nos Estados Unidos passa a ser desprezível


A famosa expressão “paciente", utilizada nos comunicados do FED (Federal Reserve - Banco Central norte-americano) para orientar o mercado sobre a aproximação do processo de aperto monetário, foi, enfim, retirada do comunicado emitido ao término da reunião Comitê nesta quarta-feira.

A simples expectativa da mudança na orientação de política monetária dos Estados Unidos pressionou ativos nas principais praças financeiras mundiais. A reação exagerada do mercado constatada nas últimas semanas foi se reduzindo com a aproximação da reunião de Comitê. Hoje, definitivamente contornada através do comunicado emitido ao final da reunião.

Janet Yellen, chair do FED, havia sinalizado no final do mês passado, em discurso no Comitê Bancário do Senado, que os investidores/operadores não devem interpretar a mudança no comunicado como um sinal de que o Banco Central está comprometido com o aumento dos juros em qualquer reunião. Quando a palavra “paciente" desaparecer dos comunicados, significará que a autoridade monetária vai apenas ter flexibilidade para agir conforme os indicadores econômicos aproximem das metas previamente estabelecidas.

Yellen estava mostrando que não há motivos para preocupações quando a palavra “paciente” sumir dos comunicados da autoridade monetária. Será uma sinalização de que o aperto monetário está próximo, mas não iminente. Contudo, comentava-se no mercado financeiro que o aperto monetário nos Estados Unidos era iminente.

A divulgação do comunicado do FED na tarde desta quarta-feira não só reafirmou o que a chair da instituição havia antecipado no mês passado, como apagou as inverdades que circulavam o mercado financeiro. No lugar da expressão “paciente”, o Banco Central dos Estados Unidos afirma, agora, “que será apropriado elevar a banda para a meta da taxa de juros quando vir mais melhora no mercado de trabalho e esteja razoavelmente confiante que a inflação voltará a seu objetivo no médio prazo.”

O documento ressalta ainda que um aumento dos juros continua sendo improvável na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de abril. Isso porque a média de projeções dos membros do Comitê para o PIB (Produto Interno Bruto) recuou para 2,3% a 2,7% em 2015, contra 2,6% a 3% estimado anteriormente. Para 2016, a estimativa é de expansão de 2,3% a 2,7%, frente aos 2,5% a 3,0% projetados anteriormente.

A inflação também seguiu a mesma tendência, ou seja, deve ser mais fraca do que se esperava. Para este ano, a previsão é de que a inflação oscile entre 0,6% a 0,8%, contra 1,0% a 1,6% estimado anteriormente. Diferença significativa. Para 2016, a inflação tende a subir para 1,7% a 1,9%, frente aos 1,7% a 2,0% projetados anteriormente.

O recuo nas projeções de inflação para este ano permitirá que o FED continue mantendo sua postura cautelosa na implementação da política monetária. Consequentemente, a estimativa para a FFR (Federal Funds Rate, considerada taxa básica de juros nos Estados Unidos) despencou de 1,125% para 0,625% ao final de 2015. Para 2016, a média de projeções dos membros do Comitê caiu de 2,500% para 1,875%. Para 2017, a FFR deve estar em 3,125%, contra 3,625% estimado anteriormente.

A drástica redução da estimativa para a FFR este ano é fator fundamental para suavizar, ou mesmo evitar, novos choques nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais. Com uma projeção tão baixa para o fechamento da taxa básica de juros este ano, pouco importa quando o FED iniciará o ciclo de aperto monetário, pois a melhora nos prêmios de risco dos títulos norte-americanos será pequena e, consequentemente, os impactos nos preços dos ativos nas demais praças financeiras também.

A sinalização de cautela na implementação da política monetária é seguida à risca pelo FED nos últimos anos. Essa postura foi, inclusive, reafirmada no mês de setembro do ano passado, quando o Banco Central divulgou ao mercado seu plano para normalização da política monetária. Entretanto, a precaução da autoridade monetária tem sido constantemente ignorada/questionada pelo mercado.

Os novos números do FED são gritantes. Será difícil ignorá-los. A FFR deve subir em doses bem homeopáticas, o que facilitará o enquadramento de risco a ser embutido nos ativos dos demais países. É o cenário perfeito para governos e banqueiros centrais, frente aos desafios a serem enfrentados no horizonte.

Inevitavelmente o Brasil tende a ser beneficiado pelo ciclo extremamente lento de aperto monetário nos Estados Unidos, não só porque a política monetária doméstica tem se antecipado à normalização das condições monetárias norte-americanas (estimulada pela inflação), mas também porque dará mais tempo ao Ministério da Fazenda fazer os devidos ajustes na política fiscal para colocar a economia em rota de crescimento no médio prazo.

O índice Bovespa fechou o pregão em forte alta pelo segundo dia consecutivo, impulsionado pelos investidores estrangeiros, que souberam se posicionar antecipadamente à decisão do FED. Com fundo ascendente formado na região dos 47.9k, o índice cria condições para testar a região de resistência dos 52.5k, com boa possibilidade de rompimento.


Destaque para total irrelevância do mercado frente aos protestos ocorridos em várias cidades brasileiras no último domingo, o que mostra, mais uma vez, onde está o foco da maior parte do fluxo financeiro. Os prêmios dos contratos de juros futuros voltaram para o campo negativo frente à projeção de 0,5 p.p. de aumento na taxa Selic na próxima reunião do Copom, mostrando que os títulos públicos e privados brasileiros continuam sendo muito procurados por fundos do mundo inteiro.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones subiu forte, mantendo movimento de recuperação de curtíssimo prazo. A máxima histórica pode ser testada nos próximos dias/semanas.


quinta-feira, 12 de março de 2015

12,75% ao ano não é suficiente


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta quinta-feira mostrou piora no quadro inflacionário para este ano. Puxada pela alta do dólar e realinhamento dos preços administrados, o Banco Central reconheceu que a inflação tende a continuar subindo no curto prazo e permanecer elevada em 2015.

Essa nova avaliação é bem diferente daquela apresentada na ata do mês de janeiro deste ano. Até então, o Banco Central afirmava que “a inflação tende a permanecer elevada em 2015, porém, ainda este ano entra em longo período de declínio”.

Para 2016, a perspectiva também mudou. O Banco Central assegurava no próximo ano a convergência da inflação para a meta de 4,5%. Agora, a autoridade monetária tem vistas a assegurar, ao longo do próximo ano, a convergência da inflação para a meta de 4,5%.

A avaliação de que a inflação permanecerá elevada em 2015 e o acréscimo da expressão “ao longo do próximo ano” demonstra que surgiram novas dificuldades para o Banco Central atingir seus objetivos previamente traçados para acalmar o mercado nos últimos meses. São fortes indicativos de impossibilidade na interrupção do atual ciclo de aperto monetário.

O cenário de referência foi traçado com a taxa de câmbio em R$ 2,85 e taxa Selic em 12,25% em todo o horizonte de projeções. Além da defasagem do câmbio em relação à cotação atual, a inflação de 2015 aumentou em relação ao valor considerado na reunião anterior. Para 2016, a projeção diminuiu, mas ainda encontra-se acima da meta de 4,5%.

Mais uma vez, logo no início do ano, o Banco Central volta a reconhecer cenário de inflação persistentemente elevada, sinalizando que vai passar longe do alvo (4,5%). A promessa de convergência para a meta vai sendo prorrogada novamente para o ano seguinte. Parece um filme repetido que não tem fim.

Permanece o risco de retroalimentação do clima de desconfiança e pessimismo entre os agentes. O País inteiro aguarda com extrema ansiedade o dia em que poderá vislumbrar a taxa de inflação em convergência para o centro da meta.

Até o momento o Banco Central tem demonstrado que está comprometido a entregar este resultado, mas, para isso, será necessário manter o ciclo de aperto monetário. Não tem refresco. A inflação não dá trégua, portanto, a autoridade monetária precisa continuar respondendo. Esse é o preço que se paga pelos erros cometidos no passado.

No mercado de capitais o índice Bovespa encerrou o pregão desta quinta-feira mostrando candle de pavio superior relevante, sinalizando falta de fôlego para manter o movimento de alívio nos preços iniciado no pregão da última quarta-feira. Bolsa segue na corretiva de curtíssimo prazo, enquanto juros futuros e dólar permanecem trabalhando em tendência de alta. Quadro segue inalterado.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em forte alta, formando piso na região dos 17.6k.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Dilma experimenta a fúria do tripé


O fato não deixa de ser curioso. Bastou o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, mostrar, na prática, que as chaves do cofre estão realmente em suas mãos para o País entrar numa crise política. Os 40 ministérios para cerca de 20 partidos da base aliada implodiram o atual modelo de presidencialismo de coalizão.

A “podridão” que gira em torno da política brasileira explodiu justamente no momento onde começaram aparecer os primeiros nomes de políticos a serem investigados num suposto escândalo de corrupção inimaginável.

Já a sociedade, irritada com o rumo da economia doméstica, perplexa com os acontecimentos no campo político e cansada de pagar algumas parcelas da conta nos últimos anos, volta a gritar.

A deterioração do ambiente político parece ter pegado o governo de surpresa, já que o cofre está fechado. Talvez a presidente Dilma tenha enxergado a possibilidade de restabelecer o tripé macroeconômico a tempo de suavizar os efeitos negativos provocados pelos experimentos realizados no seu primeiro mandato.

A verdade é que não há como fugir da conta. Não adianta correr, em algum momento ela irá te alcançar. Não é possível simplesmente apagar os erros cometidos no passado. Ou você conserta, ou você se afunda ainda mais. Como o governo demorou a agir, as consequências são inevitavelmente mais duras. O fato de a crise econômica ter contaminado o campo político mostra o endurecimento das consequências.

A primeira sinalização de que haveria consequências futuras surgiu há cerca de quatro anos atrás. O tripé macroeconômico (superávit primário, câmbio flutuante e inflação na meta) foi destruído no início do primeiro mandato do governo Dilma. As contas públicas foram maquiadas, o mercado de câmbio sofria demais com o dedo do então ministro da Fazenda e a taxa básica de juros desceu ladeira abaixo aos 7,25% ao ano.

Nada deu certo. O quadro fiscal se deteriorou rapidamente, o real se desvalorizou fortemente e a inflação disparou. No meio desse lamaçal, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro perdeu força. Não conseguia sequer ir pra frente e agora vai pra trás.

Essa á a fúria do tripé que a presidente Dilma está experimentando, com consequências que vão além do campo econômico. O baque foi tão grande, que o governo tenta reerguer o tripé da mesma forma que o desmontou: de maneira estabanada. A estratégia é soltar ao vento as amarras dos juros e do câmbio para ver no que vai dar. Acertar as contas para segurar o grau de investimento.

Falta planejamento de longo prazo. Faltam maiores esclarecimentos da nova política econômica. Falta diálogo com o Congresso, com os empresários, investidores e com a própria sociedade. O Planalto se isola (consequência de suas atitudes) e ninguém sabe qual é o plano de governo para os próximos três anos e sete meses.

A deterioração do ambiente político pressionou o índice Bovespa para baixo nesta segunda-feira. O movimento corretivo iniciado na região dos 52.5k ganhou forma e não há sinalização de reversão na tendência.


O dólar segue em rali, embora esticado no curtíssimo prazo, e os juros futuros seguem abrindo prêmio em relação à taxa básica de juros, eliminando o excesso de otimismo verificado no mês passado.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em alta de 0,78%, devolvendo parte das perdas registradas na última sexta-feira.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Paciência do FED está com os dias contados


A taxa de desemprego divulgada pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos mexeu com as principais praças financeiras mundiais nesta sexta-feira. A criação de empregos acelerou para 295 mil vagas no mês de fevereiro, após geração de 239 mil postos de trabalho no mês de janeiro.

As contratações surpreenderam as estimativas dos economistas, que esperavam algo em torno de 240 mil vagas. Com os novos dados do Departamento de Trabalho, a taxa de desemprego nos Estados Unidos caiu de 5,7% em janeiro para 5,5% em fevereiro, atingindo o menor patamar dos últimos seis anos e meio.

Os números sugerem continuação do processo de fortalecimento do mercado de trabalho, aproximando-se do objetivo do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) para iniciar o ciclo de aperto monetário.

A famosa expressão “paciente", utilizada nos comunicados do Banco Central para orientar o mercado sobre a aproximação do processo de aperto monetário, poderá ser retirada já na próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 17 e 18 de março. A simples expectativa da mudança na orientação de política monetária pressionou moedas e títulos da dívida soberana no mundo inteiro.

Entretanto, Janet Yellen, chair do FED, frisou no final do mês passado, em discurso no Comitê Bancário do Senado, que os investidores/operadores não devem interpretar a mudança no comunicado como um sinal de que o Banco Central está comprometido com o aumento dos juros em qualquer reunião. Quando a palavra “paciente" desaparecer dos comunicados, significará que a autoridade monetária vai apenas ter flexibilidade para agir conforme os indicadores econômicos aproximem das metas previamente estabelecidas. Yellen ainda afirmou que a modificação da orientação futura não deve ser vista como uma indicação de que o FED vai, necessariamente, aumentar os juros nas em duas reuniões.

Ao avaliar o impacto ocasionado nos preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais nesta sexta-feira, chega-se a conclusão de que o mercado desconsiderou as importantes afirmativas de Yellen. A chair do FED sinalizou que não há motivos para preocupações quando a palavra “paciente” sumir dos comunicados da autoridade monetária. Será uma sinalização de que o aperto monetário está próximo, mas não iminente. Contudo, o que se comentou incorretamente hoje no mercado é que os juros devem subir em duas reuniões após o mês de março, ou seja, que o aperto monetário nos Estados Unidos é iminente.

Como de costume, países que apresentam quadros domésticos mais vulneráveis (como é o caso do Brasil), sofreram mais com o impacto. O dólar subiu 1,49% frente ao real, atingindo a marca de R$ 3,05. No acumulado da semana, a divisa disparou 7,02%, maior valorização desde a semana encerrada em 21 de novembro de 2008, na crise do subprime.

Os contratos de juros inverteram a trajetória e subiram forte. Com isso, o pré-fixado voltou apresentar prêmio de risco (embora ainda modesto) em relação a nova taxa básica de juros. A curva que vence em janeiro de 2017 fechou a semana pagando 13,44%. O contrato com vencimento em janeiro de 2018 fechou aos 13,17%. Os juros com vencimento em janeiro de 2019 subiram para 13,05%.

A inflação do mês de fevereiro, divulgada na manhã desta sexta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), atingiu incríveis 1,22%, jogando a taxa acumulada dos últimos 12 meses para 7,70%, nível mais elevado em quase uma década.

O fim do represamento de preços e a rápida valorização do dólar tendem a continuar fazendo pressão sobre a inflação brasileira nos próximos meses, o que pode contribuir para aumentar a força do perigoso processo de indexação de preços. Diante deste elevado grau de deterioração dos fundamentos econômicos, bem como risco de nova contaminação nas expectativas dos agentes, o Banco Central pode ficar impossibilitado de encerrar o ciclo de aperto monetário na próxima reunião a ser realizada nos dias 28 e 29 de abril.

Já o Ibovespa encerrou o pregão desta sexta-feira em baixa modesta de 0,76%, levando em consideração os acontecimentos do dia. Entretanto, no fechamento acumulado da semana, o índice registrou baixa expressiva, caracterizada pelo marubozu, o que confirmou formação de topo na região dos 52.5k. Mercado segue em correção de curtíssimo prazo, mas ainda não invalidou a tendência altista iniciada na região dos 46k.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones mantém a correção de curtíssimo prazo. Mercado fechou a semana em baixa, formando resistência na região de máxima histórica dos 18.2k.
  


Bom final de semana!

quarta-feira, 4 de março de 2015

Taxa Selic vai a 12,75% ao ano. Copom quer a meta


Lá se vai a economia brasileira. Ajuste fiscal e aperto monetário são mais uma parcela da pesada conta que estamos pagando pelos inúmeros erros cometidos nos últimos anos.

Não há solução milagrosa. O remédio é cada vez mais amargo, mas necessário. O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu nesta quarta-feira elevar novamente a taxa básica de juros em 0,50 p.p., para 12,75% ao ano, patamar mais elevado desde janeiro de 2009.

Superar a marca de 2009 mostra lamentável retrocesso no movimento de longo prazo de redução sustentada da taxa básica de juros, processo pelo qual foi iniciado no final da década de 1990.

Os diretores do Banco Central não tiveram escolha. O dólar subiu cerca de 15% desde a reunião de Comitê realizada no mês de janeiro, onde pretendia-se reduzir o atual ritmo de aperto monetário. O rali do dólar deixa os produtos e insumos importados cada vez mais caros, provocando impacto imediato na taxa de inflação, que segue persistentemente elevada, distante do centro da meta.

Passar aperto com a inflação doméstica não é nada agradável num ambiente externo deflacionário e/ou desinflacionário. É algo extremamente alarmante. O Copom não estaria determinado em buscar a meta de inflação (4,5% ao ano), num ambiente interno tão desfavorável ao crescimento no curto prazo, se a situação não fosse grave.

Lá fora, governos de economias com PIB positivo e/ou ascendente seguem preocupados com a deflação e/ou inflação muito baixa. Aqui dentro, o PIB é descendente (provavelmente negativo), enquanto a inflação é elevada e ascendente. Estamos atolados numa estagflação, cuja rota de saída é dolorosa: passa por juros altos (para conter a inflação) e aperto fiscal (para retomar a confiança, fator fundamental ao crescimento no médio prazo).

O Copom repetiu o comunicado de janeiro, (“avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,75% a.a., sem viés”), o que pode ser um indicativo de que o ciclo de aperto monetário não chegou ao fim.

Neste último final de semana, o mercado financeiro foi surpreendido por uma manobra de outro importante banqueiro central. O Banco Popular (Banco Central da China) reduziu em 0,25 p.p. a taxa de juros de referência no País, para 5,35% ao ano. A taxa de remuneração das reservas que os bancos depositam na instituição também caiu 0,25 p.p., para 2,5% ao ano.

Em novembro do ano passado, o Banco Popular cortou os juros pela primeira vez em mais de dois anos. No mês de janeiro deste ano, a autoridade monetária chinesa voltou a atuar, desta vez relaxando o compulsório (exigência de reserva de capital dos bancos no cofre do Banco Popular), liberando, portanto, mais recursos para os bancos emprestarem.

O novo corte na taxa de juros de referência realizado neste último sábado acelerou o ciclo de afrouxamento monetário na China. O Banco Popular citou uma possível onda de deflação como razão para iniciativa.

O fato de o Banco Central de um dos países que mais crescem no mundo temer a deflação não é algo que se possa desprezar. Demonstra sério problema causado pela demanda fraca (tanto no mercado doméstico, quanto no externo) e o persistente excesso de capacidade pressionando cada vez mais não só os fabricantes chineses, mas do mundo inteiro. São hematomas ainda visíveis causados pelo estouro da gravíssima crise de 2008 e que devem desaparecer gradualmente no médio e longo prazo, com aceleração do crescimento global.

Com o movimento deste último sábado, o Banco Popular entrou definitivamente para o grupo dos banqueiros centrais que utilizam ao máximo políticas de afrouxamento monetário, dentro de suas respectivas limitações, para combater a deflação e estimular o crescimento. A estratégia bem sucedida nos Estados Unidos e Inglaterra foi copiada pelo BoJ (Banco Central do Japão), posteriormente pelo BCE (Banco Central Europeu) e começa a ser implementada na China.

Entretanto, o afrouxamento monetário chinês é mais peculiar. O Banco Central não pode ser agressivo demais (ou utilizar outras ferramentas, como relaxamento quantitativo), caso contrário poderá agravar os já elevados níveis de endividamento das empresas e governos locais.

A limitada margem de manobra do Banco Popular é, em parte, contra atacada pelos projetos de infraestrutura do governo chinês (outra importante válvula estimuladora do crescimento). Ainda assim, mesmo com atuação coordenada entre governo e Banco Central, a China seguirá em processo de desaceleração do crescimento. O PIB (Produto Interno Bruto) de 2014 caiu para 7,4%, a menor taxa em quase 25 anos, e tende a recuar para algo em torno de 7% em 2015, que não será o fundo do poço. A desaceleração tende a persistir nos próximos anos.

Mais afrouxamento na China, mas liquidez global, mais carry trade para o Brasil (que vai a contragosto na contramão) continuar respirando dentro de sua própria armadilha.

Na agenda doméstica, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística) divulgou hoje seu indicador de produção da indústria brasileira, onde pode-se constatar alta de 2% em janeiro/2015 na comparação com dezembro/2014. O indicador do IBGE ficou em linha com a medição do Índice Gerente de Compras do mês de janeiro, calculado pelo Instituto Markit, em parceria com o banco HSBC.

Entretanto, o Índice Gerente de Compras do mês de fevereiro, divulgado no início desta semana, mostrou novo recuo da atividade industrial brasileira. O indicador saiu dos 50,7 pontos registrados no mês de janeiro para 49,6 pontos em fevereiro, voltando a mostrar contração da atividade manufatureira.

O novo escorregão da indústria é justificado pelo enfraquecimento do real. Os aumentos dos novos pedidos de exportação não compensaram as perdas com o enfraquecimento da demanda interna. Além disso, a escalada do dólar está cada vez mais pressionando para cima os preços dos insumos, aumentando os custos de produção.

No mercado financeiro doméstico o clima é bem diferente. O carry trade segue sustentando prêmio nulo na curva de juros futuros com vencimento em 2018 (levando em consideração a nova taxa Selic de 12,75%) e prêmio negativo com vencimento a partir de 2019.

A bolsa de valores cedeu nesta quarta-feira, mas ainda está relativamente longe da mínima registrada no pós-eleições em dezembro do ano passado. O tombo de hoje não invalida a tendência de alta de curto prazo, mas devolve os preços para dentro da antiga zona de congestão, o que pode sinalizar retorno à lateralização na ausência de um fundo ascendente nos próximos dias.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em baixa de 0,58%, num movimento natural de realização de lucros após superar a máxima histórica na semana passada.