quinta-feira, 25 de junho de 2015

Relatório de Inflação reforça necessidade de rigidez na política monetária


O tão aguardado Relatório Trimestral de Inflação foi divulgado pelo Banco Central na manhã desta última quarta-feira. O documento mostra impossibilidade de projetar o encerramento do atual ciclo de aperto monetário, pois a batalha da autoridade monetária contra as expectativas dos agentes (mais pessimistas) ainda está justificadamente longe do fim.

O Banco Central tem defendido rigorosamente nos últimos meses que vai assegurar a convergência da inflação para a meta (4,5%) no final de 2016. Entretanto, as projeções traçadas no cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio constante no horizonte de previsão em R$ 3,10 e meta para a taxa Selic em 13,75% a.a.) ainda não mostram alcance deste objetivo.

A projeção do Banco Central indica inflação de assustadores 9,0% no fechamento de 2015 (1,1 p.p. maior do que a projetada no Relatório de Inflação divulgado no mês de março), formando pico no terceiro trimestre deste ano, aos 9,3%. Em 2016, a projeção recua para 6,7% no primeiro trimestre, segue em declínio para 5,4% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,8% (0,3 p.p. acima do seu objetivo). Em 2017, a projeção para o primeiro trimestre é de 4,7% e recua para 4,5% no segundo trimestre.

Os números mostram que os avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes, conforme ressaltado pela autoridade monetária no próprio Relatório de Inflação, reforçando necessidade de rigidez na política monetária. Significa que o ritmo de alta (0,5 p.p.) precisa ser mantido nas próximas reuniões de Comitê.

Já as projeções de mercado coletadas pelo Banco Central mostram quadro inflacionário ainda pior. A mediana das estimativas de mercado aponta inflação de 9,1% no fechamento de 2015 (0,1 p.p. acima do valor projetado no cenário de referência do Banco Central e 1,2 p.p. acima da projeção constante do Relatório de Inflação anterior). Para o primeiro trimestre de 2016, a projeção do mercado encontra-se em 6,8%, recua para 5,5% e 5,2% no segundo e terceiro trimestres, encerrando o ano de 2016 em 5,1% (0,6 p.p. acima do objetivo traçado pelo Banco Central). Em 2017, a projeção de mercado para inflação no primeiro trimestre encontra-se em 5,0%, recuando para 4,8% no segundo trimestre.

O quadro inflacionário mais delicado nas projeções de mercado é reflexo da quebra de expectativa provocada pela lamentável sequência de não cumprimento da meta nos últimos cinco anos. O peso do longo período de inflação persistentemente elevada continua transbordando para as expectativas dos agentes, exigindo contra ataque da política monetária.

 A grande batalha do Banco Central é provocar o deslocamento das expectativas de mercado ao centro da meta no final de 2016, mantendo-a ancorada nos próximos trimestres. Não é tarefa fácil.

 Convencer os agentes de que desta vez será diferente exige força, disciplina e comprometimento, postura que a autoridade monetária parece estar levando a sério. Até por conta da inviabilidade de possível fraquejada nesta luta, já que a taxa Selic em 13,75% ao ano (ou mais) embute elevado custo sobre atividade econômica, conta que não pode ser paga em vão.

Nesta quinta-feira, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Pereira Awazu, afirmou que a instituição está trabalhando de maneira muito vigilante para reduzir a inflação, reforçando a perspectiva de manutenção na rigidez da política monetária.

No mercado de capitais, pode-se notar que a percepção positiva frente ao doloroso processo de acerto nas políticas econômica, fiscal e monetária sofreu um pequeno desgaste nesta quinta-feira, com os juros futuros da ponta longa subindo numa intensidade maior do que as taxas da ponta curta, fato que não ocorria há um bom tempo.

Os novos indicadores estão mostrando que a reversão da situação fiscal será mais complexa do que o esperado. Os níveis de confiança (fator chave para o processo de recuperação) dos investidores, empresários e consumidores permanecem baixos, justificadamente contaminados pelo noticiário, sem perspectiva de melhora, acrescentando peso negativo à economia, provocando, na outra ponta, queda não desprezível da arrecadação. A contínua deterioração da economia somada às recentes dificuldades fiscais pode ser o estopim de um movimento de correção do excesso de otimismo observado nas taxas futuras de longo prazo.

A bolsa de valores segue congestionada no curtíssimo prazo entre a região dos 52.5k aos 54.3k. Apesar do movimento lateral, o mercado mantém sinal vendedor no curto prazo, numa tendência iniciada em 58.5k ainda não finalizada.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quinta-feira em baixa de 0,42%, mantendo-se lateralizado, sem apresentar novidade.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Chair do FED confirma insignificância do timming


Apesar da surpresa dos jornalistas, analistas e economistas, a reunião de comitê do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) terminou na tarde desta quarta-feira apresentando poucas novidades relevantes.

Em comunicado emitido no final desta tarde, os diretores do FED reforçaram que a economia norte-americana segue crescendo moderadamente, após a fraqueza provocada pelo inverno rigoroso no início deste ano, e provavelmente estará forte o suficiente para aguentar um aumento da taxa básica de juros até o fim de 2015.

As novas projeções da autoridade monetária norte-americana apontam para um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano entre 1,8% e 2,0%, número significativamente inferior à projeção anterior divulgada no mês de março (entre 2,3% e 2,7%). Para 2016, o PIB deve acelerar entre 2,4% a 2,7%, ante estimativa de 2,3% a 2,7%. Já a previsão para expansão econômica de 2017 passou para 2,1% a 2,5%, contra 2,0% a 2,4%.

A projeção para taxa de desemprego (atualmente em 5,5%) subiu para 5,2% a 5,3% no fechamento de 2015, levemente acima da estimativa anterior (entre 5,0% a 5,2%). Para 2016, a taxa de desemprego deverá cair para 4,9% a 5,1%, mesmo intervalo de projeção divulgado no mês de março. Em 2017, a taxa de desemprego deverá se manter entre 4,9% a 5,1%, ante 4,8% a 5,1% da estimativa anterior.

A estimativa para inflação de 2015 não foi alterada pelo FED (tende a ficar entre 0,6% a 0,8%). Para 2016 espera-se inflação entre 1,6% a 1,9%, levemente inferior à projeção anterior (entre 1,7% a 1,9%). A estimativa para inflação de 2017 também não foi alterada (tende a ficar entre 1,9% a 2,0%).

Com as projeções praticamente inalteradas (destaque apenas para redução do PIB de 2015, fortemente influenciada pelas condições climáticas adversas), o FED continuará mantendo sua postura cautelosa na implementação da política monetária. Consequentemente, a estimativa para a FFR (Federal Funds Rate, considerada taxa básica de juros nos Estados Unidos) manteve-se em 0,625% ao final de 2015.

Para 2016, a média de projeções dos membros do Comitê voltou a cair, desta vez de 1,875% para 1,625%. A estimativa para FFR no fechamento de 2017 também recuou novamente, de 3,125% para 2,875%.

Essas frequentes reduções reforçam o gradualismo do ciclo de aperto monetário, mensagem que ainda não foi captada pelos analistas/economistas, apesar dos constantes avisos e sinalizações emitidas pelo Banco Central há um bom tempo.

Permanece avaliação (levantada desde o mês de março neste blog) de que pouco importa quando o FED iniciará o ciclo de aperto monetário, pois a melhora nos prêmios de risco dos títulos norte-americanos será pequena (influenciada pelas projeções para FFR constantemente mais baixas) e, consequentemente, os impactos nos preços dos ativos nas demais praças financeiras também.

Durante entrevista concedida após reunião de Comitê, a chair do FED, Janet Yellen, fez questão de advertir que a importância da primeira alta da taxa de juros não deveria ser exagerada. Esta foi a primeira vez que a presidente do FED minimizou publicamente a importância do timming do aperto monetário, já que boa parte dos jornalistas, economistas e analistas ainda não captaram a mensagem propagada desde o mês de março.

Yellen também relembrou que a política monetária continuará sendo expansiva por um tempo. O plano traçado para normalização das condições monetárias, divulgado pela primeira vez no comunicado da reunião de Comitê realizada no mês de setembro do ano passado, segue na mesma linha cautelosa adotada para a FFR.

Por fim, a presidente do FED demonstrou certa apreensão com a economia global caso a Grécia e seus credores não cheguem a um acordo. Numa situação de ruptura, nem mesmo os Estados Unidos (com exposição muito limitada à Grécia) estarão a salvo dos impactos que podem chacoalhar o mercado financeiro global.

Wall Street reagiu com natural volatilidade após o encerramento da reunião de Comitê, provocando surgimento de um candle de indecisão no índice Dow Jones. Mercado segue congestionado no curto prazo, sem apresentar novidade.


O índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 0,84%, congestionado no curtíssimo prazo, sem apresentar novidade. Mercado ainda permanece acima da média móvel simples de 200 períodos diária e suporte dos 52.5k, principais pontos de apoio.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Ata confirma continuação do ciclo de aperto monetário


A ata do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) divulgada nesta quinta-feira não deixou nenhuma dúvida em relação à interrupção ou continuação do atual ciclo de aperto monetário.

O parágrafo 32 do documento foi mantido sem nenhuma alteração: “A propósito, o Copom avalia que o cenário de convergência da inflação para 4,5% no final de 2016 tem se fortalecido. Para o Comitê, contudo, os avanços alcançados no combate à inflação – a exemplo de sinais benignos vindos de indicadores de expectativas de médio e longo prazo – ainda não se mostram suficientes. Nesse contexto, o Copom reafirma que a política monetária deve manter-se vigilante.”

Este trecho da ata é o mais importante, pois tem a função de guiar corretamente as expectativas do mercado, além de colaborar com lento processo de recuperação da credibilidade perdida no passado. O sucesso desta estratégia é comprovado pela redução do impacto dos movimentos especulativos na curva de juros futuros.

Com uma nova alta de pelo menos 0,25 p.p. contratada para a próxima reunião do Copom a ser realizada nos dias 28 e 29 de julho, o Banco Central vence mais uma (das inúmeras) batalha contra o perigoso quadro estagflacionário brasileiro.

Outra novidade apresentada nesta ata foi a inclusão das palavras “determinação e perseverança” para combater devidamente a inflação persistentemente elevada em 2015, com objetivo de impedir sua transmissão para os anos seguintes. É um discurso mais duro que já estava sendo adotado nas declarações recentes dos diretores do Comitê, reforçando a necessidade de continuação do ciclo de aperto monetário.

Com relação à estabilidade financeira global, o Banco Central acrescentou no documento possibilidade de ocorrência de episódios de maior volatilidade. Na verdade, a volatilidade já atingiu em cheio os mercados da dívida soberana europeu, asiático e norte-americano, onde as taxas seguem renovando máximas do ano.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano, referência global) atingiu a marca de 2,50% na última quarta-feira, mantendo a forte arrancada frente aos 1,68% registrados no mês de fevereiro deste ano. Nesta quinta-feira a taxa recuou para 2,39%, num movimento de alívio de curtíssimo prazo.


O mercado brasileiro, considerado vulnerável, segue relativamente blindado contra os choques externos. Esta “anomalia” não chega ser surpreendente, já que a rota das políticas econômica, fiscal e monetária foi alterada rapidamente, agradando o mercado.

A bolsa de valores fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa, sem apresentar novidades. Mercado segue mantendo sustentação acima da região dupla de apoio formada pela média móvel simples de 200 períodos diária e suporte dos 52.5k. Entretanto, essa sustentação ainda não confirmou fim da tendência de baixa iniciada na região dos 58.6k.


Destaque para surpresa negativa do IPCA de maio (0,74%) divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), reforçando a complexidade de um quadro estagflacionário. O número veio muito acima das expectativas do mercado. A própria presidente Dilma Rousseff chegou a afirmar nesta quinta-feira que a inflação de 2015 preocupa bastante.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão em leve alta, sem apresentar novidades. Mercado permanece congestionado no curto prazo.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Banco Central mantêm a mão firme


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu na noite desta quarta-feira elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% ao ano, mantendo o atual ritmo de aperto monetário. Ao final da reunião, a autoridade monetária divulgou o seguinte comunicado:

“Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 13,75% a.a., sem viés.”

Trata-se do mesmo texto emitido após o encerramento das últimas quatro reuniões, o que mostra mão firme do Banco Central mesmo diante de uma economia nocauteada pelos inúmeros erros cometidos no passado. O combate à inflação persistentemente elevada provocará agravamento recessivo, mas é a única forma de sair do perigoso quadro estagflacionário brasileiro.

A conta era salgada, está mais salgada e ficará ainda mais salgada. O fato de os diretores do Copom terem optado por manter o comunicado inalterado sinaliza ao mercado continuação do atual ciclo de aperto monetário. A retomada ascendente do dólar frente ao real pode ter jogado a projeção de encontro ao centro da meta (4,5%) do final de 2016 para o início de 2017.

Além disso, ao manter a mão firme na política monetária, o Banco Central vence mais uma (das inúmeras) batalha (s) para retomar a credibilidade perdida no passado e, consequentemente, reconquistar a confiança dos agentes, para que as expectativas voltem a se ancorar na meta de inflação.

Na economia doméstica, os indicadores seguem confirmando manutenção do quadro estagflacionário para este segundo trimestre. O Índice Gerente de Compras caiu para 45,9 pontos no mês de maio, levemente abaixo dos 46 pontos registrados no mês de abril. Apesar da perda de ritmo, o indicador ainda revela forte contração do setor manufatureiro.

A inflação elevada, juntamente com a fragilidade de uma economia desarrumada (herança dos últimos anos) segue pressionando as indústrias, forçando-as cortar custos, o que provoca, inevitavelmente, novos fechamentos de postos de trabalho. Consequentemente, a rápida aceleração da taxa de desemprego refletirá no desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) deste segundo trimestre, que tende a ser pior do que a retração de 0,2% registrada no primeiro trimestre deste ano.

No entanto, o necessário sofrimento de curto prazo tende a ser passageiro. O alinhamento das políticas econômica, fiscal e monetária criarão condições para retomada do crescimento no médio e longo prazo. O País contará, ainda, com importante força de impulso externa que já está sendo desenhada com a fixação de um novo player na América Latina (China) e abertura de novos acordos comerciais fora do Mercosul (tendência reforçada com a vista de Estado realizada no México mês passado).

O governo também tem sinalizado foco numa agenda pró-crescimento pelo lado da oferta, diferente daquela observada nos últimos anos, no que demonstra ser mais uma influência positiva da equipe econômica chefiada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy (vale lembrar que o último ministro da Fazenda que salvou a economia brasileira se tornou Presidente da República) . O amplo programa de concessão de infraestrutura a ser lançado neste mês tem atraído bastante atenção dos investidores estrangeiros.

O apetite por ativos brasileiros permanece elevado também no mercado financeiro. Destaque para grande aceitação ao raro título de 100 anos emitido pela Petrobras esta semana, além da persistência do prêmio negativo dos títulos da dívida soberana nacional frente ao atual patamar da taxa básica de juros, mesmo com elevação das taxas soberanas no mercado europeu, asiático e norte-americano.

A bolsa de valores encontrou ponto de apoio na região de suporte formada pelo antigo ponto de pivot dos 52.5k e média móvel simples de 200 períodos diária. Em caso de perda deste importante patamar de sustentação, o movimento corretivo iniciado na região dos 58.6k poderá se estender com o provável ressurgimento da força vendedora.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em leve alta, sem apresentar novidades. Mercado permanece congestionado no curto prazo.


A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano, referência no mercado da dívida soberana global) voltou a disparar nos últimos dias, renovando a máxima de 2015.
  

Bom feriado!