segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O verdadeiro realismo


O governo da presidente Dilma Rousseff conseguiu realizar mais uma façanha nesta segunda-feira. Pela primeira vez na história, o Ministério do Planejamento apresenta à sociedade um projeto de Orçamento para o ano seguinte com previsão de déficit.

Isso significa que toda a desarrumação provocada pela implementação da nova matriz econômica ainda não foi capaz de provocar, sequer, reflexão da classe política. Até 2013, o governo temia o déficit e, portanto, fazia o possível e o impossível para maquiar as contas públicas. Em 2014, o governo percebeu que poderia encarar o déficit com efeito colateral mínimo, já que grande parte da população parece demonstrar pouca preocupação com as contas públicas, desde que seus respectivos privilégios sejam mantidos. 2015 não deve ser tão diferente de 2014 e, apesar de estar longe de começar, 2016 já pinta com um baita vermelhão.

Depois que a porteira foi oficialmente aberta em 2014 ficou mais fácil digerir os vexames dos anos seguintes. Por um lado, o mercado já está acostumado com números decepcionantes e promessas não cumpridas, por outro, o povo se preocupa mais com (i) a perda de recursos via corrupção do que com (ii) a perda de recursos via ineficiência do gasto público. Estima-se que a perda de recursos provocada pelo primeiro item não chega fazer cócegas perto da perda provocada pelo segundo item.

Portanto, gastar mais do que se arrecada só passou a ser um mero problema para a conceituação da classificação de risco brasileira, defendida quase que solitariamente. Para o povo, pouco importa se a dívida pública brasileira é considerada grau de investimento ou não. O importante é ter um Estado grande, que continue estendendo a mão, e um sistema ineficiente, que continue cedendo privilégios.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, parece ter entregado os pontos junto com o projeto de Orçamento. Foi à luta, carregou a espada sozinho, mas, agora, está apanhando de pessoas (e setores) que o incentivaram a lutar. Travar uma batalha heroica e ser recebido por uma chuva de tomates é um grande desaforo. A destruição da imagem do ministro da Fazenda é um retrato de um País que tomou a pior rota, não por mudança do vento, mas por opção.

Ao divulgar a estimativa de rombo de 30,5 bilhões de reais para o Orçamento de 2016, o governo não só admite que a meta de superávit primário para o ano que vem não será cumprida, como também tenta passar a imagem positiva de que as coisas mudaram e os números são mais realistas.

Isso sim merece uma chuva de tomates. Podres. Primeiro porque as coisas não mudaram, os gastos (com baixa eficácia) continuam crescendo num ritmo insustentável. Segundo porque a tática de “vender realismo” já virou lenda há muito tempo. A meta de superávit primário para 2016, traçada no mês de novembro do ano passado, era de, pelo menos, 2% do PIB (Produto Interno Bruto). Esse número veio abaixo em julho deste ano, quando o governo reajustou a meta para insuficientes 0,7% do PIB. Nessas duas ocasiões, falava-se em realismo. Agora, nem meta para 2016 existe, mas sim um grande buraco para tapar.

O verdadeiro realismo são as intermináveis punições recebidas diariamente pela destruição do tripé macroeconômico. A persistência do quadro estagflacionário grave é sinal de que continuamos apanhando de cada uma das três peças do tripé (inflação na meta, câmbio flutuante e superávit fiscal).

A própria projeção de inflação presente no projeto de Orçamento para 2016 (5,4%) é uma possível sinalização de desorganização, falta de comunicação e baixa capacidade de gestão. Ou o Orçamento está errado, por projetar inflação de 5,4% em 2016, ou o Banco Central está errado, ao insistir que a meta (4,5%) será alcançada no fim de 2016. Pelo lamentável histórico dos últimos anos, é provável que os dois estejam errados.

Já as intervenções cada vez mais pesadas do Banco Central no mercado de câmbio impedem que o mesmo possa ser considerado adequadamente flutuante. Por fim, se quisermos aprender/relembrar como bater as metas de superávit primário, precisamos recorrer aos livros de história.

Para que o tripé possa voltar a funcionar, o governo precisa encarar uma difícil maratona de reformas, não endossadas pela sociedade. Mesmo diante da gravidade da crise atual, não há clima para as necessárias mudanças estruturais. A solução encontrada desde a criação da Constituição (aumento de impostos) está se aproximando do ponto de esgotamento, e isso significa que daqui pra frente só restará escolher se as reformas serão feitas por bem ou por mal.

A reação do mercado frente aos novos números apresentados hoje foi relativamente tímida, já que os preços ainda trabalham movimento de alívio, devido à rápida desvalorização ocorrida nas últimas semanas. O índice Bovespa fechou o pregão em baixa de 1,12%, mostrando recuperação ao longo do dia, num ponto bem distante da mínima registrada em 42.7k. Apesar do alívio de curtíssimo prazo, a tendência principal permanece baixista, sem sinalização de reversão.


Câmbio e juros futuros reagiram com naturalidade, renovando máximas, diante de uma precificação mais negativa para a dívida brasileira.

Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta segunda-feira em queda de 0,69%, ainda bem acima da mínima registrada em 15.3k, também trabalhando movimento de alívio (a princípio também temporário) nos últimos dias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Gingante asiático não consegue reagir à artilharia fiscal


Desde novembro do ano passado, o governo chinês tem adotado uma série de medidas com objetivo de suavizar o processo de desaceleração econômica e reduzir a volatilidade no mercado financeiro. A taxa básica de juros foi cortada em quatro reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Popular (Banco Central chinês), novas injeções bilionárias foram feitas no sistema financeiro (objetivo de elevar os empréstimos bancários), foram anunciados novos programas de investimento em infraestrutura, suportes a mais operações de financiamentos aos governos locais, ações surpresas no mercado de câmbio, além dos esforços sem precedentes para impulsionar o mercado de ações local.

Mesmo com os canhões de artilharia fiscal do governo chinês descarregando toneladas de yuans na economia e no sistema financeiro, os indicadores não mostram reação. Enquanto a velocidade de desaceleração econômica aumenta, impactando diretamente as principais commodities globais, o mercado financeiro entra em pânico, suplicando por mais liquidez.

Na última sexta-feira o Instituto Markit provocou calafrios nos líderes do Partido Comunista Chinês. A atividade do setor industrial despencou no maior ritmo em quase seis anos e meio. A prévia do Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro caiu para 47,1 pontos em agosto, bem abaixo das expectativas dos analistas já pessimistas (47,7 pontos) e, ainda, distante do resultado registrado no mês de julho (47,8 pontos), que já era considerado preocupante.


A faixa dos 48 pontos, embora contracionista, é considerada um importante divisor de águas, pois todas as vezes (nos últimos anos) que a atividade industrial chinesa derrapava com mais intensidade, conseguia reagir logo em seguida com relativa rapidez, aproximando-se dos 50 pontos (região neutra) ou mesmo superando-a, voltando a atingir o patamar de expansão.

Mas desta vez isso não aconteceu. O divisor de águas foi arrebentado com força não desprezível, quebrando um padrão que impedia o mercado de se preocupar tanto com o futuro da China.

O aumento do ritmo de desaceleração da atividade industrial chinesa mostra uma fraqueza persistente da demanda doméstica e baixo desempenho das exportações, alimentando temores no mercado de uma possível desaceleração mais forte na segunda maior economia do planeta (ou um pouso forçado desorganizado, o que causaria elevado grau de impacto econômico global).

Como de costume, os temores com relação à economia chinesa são transferidos diretamente aos preços das commodities. O derretimento constatado nesta segunda-feira é apenas uma espécie de aceleração de um movimento corretivo de longo prazo, iniciado há alguns anos.


A queda de 8,5% registrada nesta segunda-feira na bolsa de Xangai também contaminou os índices acionários das demais praças financeiras mundiais. Mesmo com uma infinidade de medidas desesperadas implementadas pelo governo com objetivo de reverter/suavizar a queda abrupta das ações na bolsa de Xangai, o principal índice acionário segue despencando.


A principal linha de suporte localizada na região dos 3.4k foi rompida, acionando um importante pivot de baixa capaz de reforçar a tendência descendente iniciada em 5.2k. Ainda assim, a bolsa de Xangai segue distante da pontuação que costumava oscilar nos anos anteriores (faixa de 2.000 pontos).

Seguindo os movimentos na Ásia e Europa, Wall Street sucumbiu na abertura dos negócios. O índice S&P500 fechou em forte queda pelo terceiro pregão consecutivo, com a sinalização técnica denunciando pânico de mercado, quadro que pode ameaçar seriamente a tendência de alta de longo prazo.


O índice Bovespa também foi impactado pelo forte movimento de aversão ao risco global, atingindo a mínima de 2013 (região de apoio fragilizada pelo rompimento das mínimas de 2014 e 2015). Tendência de baixa segue robusta e predominante.


Destaque para escolha da rota de fuga do capital. Desta vez, os investidores/operadores estão mostrando relutância em se protegerem no dólar. Conforme podemos notar no gráfico abaixo, o dólar americano contra a cesta de principais moedas globais está vendido no curto prazo, voltando ao preço registrado na mínima do mês de maio.
  

Por outro lado, a taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) registrou nova mínima neste mês, atingindo os 2,01%, denunciando expressiva força compradora nos últimos dias. Além disso, a cotação do ouro em Nova York já subiu cerca de 7% neste mês, mostrando que o metal tem sido uma segunda opção de fuga no momento.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Levy perde mais uma e bull market político está de volta


Esquecido na passagem de 2014 para 2015, o ciclo de bull market político brasileiro, constatado em meados de 2011, quando o Banco Central iniciou um forte e irresponsável ciclo de afrouxamento monetário (responsável por levar a taxa básica de juros a 7,25% ao ano em 2012), voltou com força neste mês de agosto.

Ciclos de bull market político são conhecidos no mercado por períodos de elevada intervenção do Estado na economia. Por outro lado, ciclos de bear market político são caracterizados por períodos de baixa (ou redução progressiva) intervenção do Estado na economia, tal como ocorreu na gestão de FHC, seguida pelo governo Lula.

Entretanto, ao assumir o seu primeiro mandato em 2011, a presidente Dilma Rousseff colocou em prática os conceitos da nova matriz econômica, sob o respaldo de uma ideologia que simplesmente destruiu os fundamentos da economia brasileira. A atitude do Banco Central em 2011 deixou o mercado estarrecido, o que confirmou a existência de um preocupante ciclo de bull market político.

Ao mesmo tempo em que o governo atropelou a política monetária, forçando uma queda insustentável da taxa básica de juros, o câmbio foi desvalorizado, alguns setores da economia foram “blindados” com pesados incentivos, barreiras a determinados produtos importados foram levantadas e o consumo das famílias foi impulsionado pela rápida concessão de crédito/financiamentos. Além disso, houve tentativa de forçar a redução das contas de luz e derrubar o spread bancário.

O resultado de tudo o que foi feito no primeiro mandato do governo Dilma está criando o que será, possivelmente, a pior crise brasileira desde a criação do plano Real. Erros sucessivos cometidos por um Estado intervencionista, mas também incompetente.

A entrada de Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda, criou esperança de que o ciclo de bull market político chegaria ao fim no segundo mandato da presidente Dilma. Levy entrou no governo defendendo o fim do patrimonialismo (que favorece indivíduos e setores via créditos baratos e proteções) para, assim, criar um sistema que dê igualdade de oportunidade a todos, ampliando, consequentemente, a competição interna e externa da economia.

Infelizmente o governo provou nesta semana que não só desarmou mais uma importante frente de ataque do ministro Levy, mas também confirmou o retorno do bull market político. A mão pesada do Estado está de volta e, com ela, novos problemas serão criados, antes mesmo de superar os velhos e conhecidos imbróglios do passado.

Um dia após a Caixa anunciar um pacote bilionário de crédito camarada ao setor automotivo, além de descontos generosos em juros de empresas que se comprometerem a não demitir funcionários, o Banco do Brasil informa ao mercado que fez acordos com associações do setor automotivo para facilitar o acesso ao crédito. A previsão de desembolsos do Banco do Brasil chega a 9 bilhões de reais, já que outros setores e empresas, escolhidos a dedo, claro, também serão beneficiados.

A justificativa dada pelos bancos lembra os velhos tempos de Guido Mantega no ministério da Fazenda, com suas explicativas lunáticas (e no mínimo cômicas) para a economia. A generosidade destas operações de crédito são frutos de compromissos firmados com líderes da cadeia automotiva, o que permitiu redução do risco de crédito e, consequentemente, redução das taxas.

Em tempos de Selic aos 14,25% ao ano, forte retração da atividade econômica, aumento da taxa de desemprego e elevado nível de endividamento das famílias, chegar a tal façanha pode ser considerado um milagre.

Como se não bastasse, a nova guinada dos bancos públicos brasileiros prejudica o trabalho, já duvidoso e limitado, da política monetária, com mais crédito barato e circulante na economia concorrendo com a Selic contracionista de 14,25% aos “não sortudos”. Também favorece a manutenção de um ambiente de baixa produtividade em alguns setores, limita o acesso ao crédito a segmentos/empresas não beneficiados (as), cria desigualdade de oportunidades e prejudica a livre competição. O que será que acontecerá com o humor daquele empresário que ficou fora da festa? Filme repetido, mais uma vez.

As atitudes tomadas pelo governo nos últimos meses mostram que houve sim mudança de rumo naquilo que se projetava no início deste ano. Uma após a outra, propostas e ideias defendidas pelo ministro Levy, de cunho mais ortodoxo, vão sendo derrubadas numa velocidade relativamente surpreendente.

A prioridade também mudou. Parece não existir ninguém no ambiente político disposto a trabalhar pelo futuro do País. Brasília se tornou numa sangrenta praça de guerra, onde uns disputam o poder, enquanto outros tentam salvar a própria pele.

Para complicar, o povo brasileiro, que poderia mudar o foco dessa situação extremamente grave, resolveu lotar as arquibancadas de nosso “Coliseu” em Brasília, para assistir e incentivar a luta sangrenta.

Perdemos totalmente o foco da direção a ser tomada. O País precisa fazer um pesado ajuste fiscal (revisar seriamente gastos e receitas), implementar reformas tributária, trabalhista e previdenciária, acelerar programas de investimento em infraestrutura e reduzir o tamanho do Estado, inclusive na economia. Mas essa agenda é, sequer, discutida pela sociedade, que dirá no ambiente político.

Com as evidências de que o bull market político está de volta e, que a própria sociedade endossa o foco na direção errada, estamos fadados ao retrocesso lento e angustiante. Um País com carteirinha de emergente, mas com políticas populistas atrasadas e números de república subdesenvolvida.

No mercado de capitais o índice Bovespa encerrou mais um pregão em forte queda, refletindo temores de investidores/operadores com mais uma derrota de Levy, marcando o ressurgimento do bull market político.

O movimento vendedor atingiu as mínimas de 2015 e 2014 ao longo do pregão, ponto importante de sustentação, responsável por provocar pequeno alívio após a realização dos testes nas referidas linhas. Apesar de sobrevendido, mercado permanece em tendência principal de baixa, sem sinalização de reversão, ou mesmo alívio para os próximos dias.


Nos Estados Unidos o índice Dow Jones fechou o pregão desta quarta-feira em baixa de 0,93%, confirmando a formação de mais um topo descendente na região dos 17.6k, antigo suporte, caracterizando movimento de pull back, abrindo espaço para continuação da tendência de baixa de curto prazo.
  


A ata do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano) divulgada hoje não apresentou nenhuma novidade, apenas surpreendeu aqueles que, por conta própria, esperam (ou esperavam) início do ciclo de aperto monetário no próximo mês.

O documento reforça análises anteriores, de que o FED se apoie cada vez mais na inflação persistentemente baixa como justificativa de manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Panorama macro global


A ação surpresa do Banco Popular da China no câmbio local chacoalhou o mercado financeiro global nesta semana. A decisão de desvalorizar o yuan (moeda local) provocou reações significativas em vários ativos nas principais praças financeiras globais. Entretanto, o choque foi mais influenciado pelo momento do que pela própria força do deslocamento da taxa de câmbio.

A intervenção do Banco Popular ocorre justamente numa fase onde as lideranças do governo chinês lutam para abafar o surgimento de uma série de problemas internos que podem ameaçar o cumprimento da meta de crescimento de 7% estipulada para 2015. Mesmo que o governo obtenha sucesso em suas ações, a marca de 7% seria a menor dos últimos 25 anos.

A produção industrial voltou apresentar aumento no ritmo de contração mês passado, acompanhando o desaquecimento da demanda (tanto interna, quanto externa). Em meio ao quadro de desaceleração econômica, a inflação permanece baixa, o que também causa certo incômodo ao governo, pois uma queda de preços dificultará ainda mais a capacidade de pagamento da dívida das empresas locais, muitas delas altamente alavancadas.

Até então, o governo chinês vinha tentando amparar o crescimento econômico através de cortes na taxa básica de juros (movimento iniciado em novembro do ano passado, com quatro cortes seguidos), novas medidas para elevar os empréstimos bancários, liberação de governos locais para emissão de títulos de dívida, bem como financiamento aos bancos comerciais para comprarem os respectivos títulos dos governos locais. Por fim, o governo tomou esforços sem precedentes para impulsionar o mercado de ações local, já que algumas empresas endividadas estavam utilizando o mercado acionário para captar recursos e se manterem líquidas. As compras foram impulsionadas pela propaganda do próprio governo, que estimulava investidores locais a comprarem ações. Hoje, o Banco Popular oferece crédito para uma agência estatal, com o objetivo de comprar ações que despencaram no mercado.

As atitudes do governo chinês nos últimos meses vão contra o necessário plano de reestruturação da economia e do próprio mercado financeiro. Na verdade, cria uma sensação de que a China voltou às velhas estratégias de elevar os gastos públicos para impulsionar o crescimento, criando o efeito colateral de um endividamento crescente (de qualidade duvidosa) e gigantesco.

O desempenho das exportações chinesas foi a gota d’água para as lideranças tomarem a decisão de provocar a desvalorização do yuan. As exportações chinesas caíram 8,3% no mês de julho, comparado com o mesmo mês do ano passado. No acumulado de 2015, as exportações recuaram 0,8% ante o mesmo período do ano anterior.

O Banco Popular, que até então impulsionava o valor do yuan vendendo grandes volumes de suas reservas em dólares (evitando, assim, uma queda da moeda contra o dólar), sob a justificativa de manter a estabilidade da taxa de câmbio, virou a mão nesta semana. A tal “estabilidade”, que era uma prioridade, foi jogada a escanteio quando o governo percebeu que a meta de crescimento de 7% em 2015 está seriamente ameaçada. Sendo assim, para aumentar o volume de exportações xing-lings, e manter-se próximo da meta de crescimento, o governo chinês instruiu o Banco Popular a provocar desvalorização da moeda local.

Essa mudança de atitude mostra que os líderes chineses estão divididos entre implementar o necessário plano de reestruturação econômica e financeira, com mais liberdade de mercado, ou manter a mão forte do Estado ativa, administrando a economia e o mercado de acordo com seus próprios ideais.

A segunda opção tem se sobressaído nos últimos meses. Prova disso, além das intervenções recentes no câmbio, está na própria oscilação artificial da bolsa de Xangai, lateralizada nas últimas semanas pela mão pesada do Estado, mantendo o índice muito acima das mínimas registradas no ano passado.


O mercado de commodities, altamente vulnerável aos acontecimentos na China, permanece em queda livre, renovando mínimas anuais.


Já o dólar, comparado a uma cesta de principais moedas globais, alivia um pouco nesta semana o movimento altista de curto prazo iniciado no mês de junho, responsável por aproximar a moeda às máximas deste ano.
  

No médio e longo prazo a tendência de alta segue predominante, sem sinalização de interrupção. O bull market do dólar chega ao seu quarto ano de duração com forças renovadas pela retomada do crescimento econômico norte-americano, quadro que começa a incomodar o FED (Federal Reserve), já que o encarecimento da moeda poderá dificultar o processo de recuperação econômica via comércio exterior.

É provável que o FED se apoie cada vez mais na inflação persistentemente baixa, como justificativa de manutenção da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%, até que se dissolva parte do risco cambial (hoje elevado) para que a política monetária possa entrar em zona de contração.

Tal como o dólar, as taxas de juros das Treasurys (títulos públicos do Tesouro norte-americano) também permanecem trabalhando dentro de um bull market, iniciado em 2012, embora apresentando uma recuperação menos intensa.


O nível atual da taxa de juros da Treasury de 10 anos, referência global, segue comportado numa faixa que não preocupa o FED. Entretanto, o movimento de recuperação das taxas iniciado em 2015 marcou fundo ascendente na tendência principal de alta, embutindo expectativa de reaproximação, no médio prazo, das máximas atingidas no final de 2013 (ainda considerado ponto crítico e causador de choques nos fluxos de capitais).

Treasury de 3% ao ano não é só uma preocupação para o FED, mas também para os demais banqueiros centrais, principalmente aqueles operantes em países considerados vulneráveis, tal como o Brasil.

Tanto as curvas curtas, quanto as curvas longas, operam acima das máximas registradas em 2013, denunciando novo movimento de descolamento dos juros futuros brasileiros com a referência global (Treasury), influenciado pela deterioração dos quadros econômico e fiscal domestico.


Em função das diversas variáveis internas e externas, bem como da sinalização técnica, o bull market dos juros brasileiros segue firme e sem sinalização de interrupção.

Já a bolsa brasileira permanece em movimento corretivo sem apresentar novidades, eliminando parte das distorções entre fundamentos e preços constados em meados do mês de maio deste ano. Mercado em tendência de baixa, trabalhando movimento de aproximação das mínimas registradas em 2015, 2014 e 2013, regiões responsáveis por formar a principal base de sustentação do índice Bovespa.


O mercado norte-americano permanece em bull market, embora a tendência de longo prazo sofre, neste momento, novo teste sobre uma importante LTA intermediária de sustentação dos preços. Uma eventual ruptura poderá agregar força à correção de curto prazo, aumentando o receio de alguns holders que até então dormiam tranquilos em Wall Street.


Mercado alemão sinaliza pausa na forte tendência de alta de longo prazo, impulsionado pelas diversas ações do BCE (Banco Central Europeu) nos últimos anos. Embora a tendência de baixa de curto prazo apresente sinais de relativa intensidade, o movimento ainda é insuficiente para corrigir integralmente os exageros nos principais ativos do índice DAX.


No Japão, o índice Nikkei, também impulsionado pela autoridade monetária local, permanece trabalhando dentro de uma forte tendência de alta iniciada em 2009, turbinada em 2013 pelas compras maciças de ativos por parte do BoJ (Banco Central do Japão). O índice conseguiu atingir a última zona de resistência abaixo da máxima histórica, deixando para trás o épico bear market de mais de uma década de duração.


Mercado australiano segue em correção de curto prazo após realizar teste na última resistência abaixo da máxima histórica. Movimento descendente tem ganhado força, ameaçando romper a linha de suporte localizada na faixa dos 5.3k, o que abriria espaço para o principal índice da bolsa de Sydney retornar às mínimas de 2015.


Na Índia, a bolsa de Bombay segue em correção, ainda tímida, relativamente próxima da máxima histórica renovada este ano aos 30.000 pontos. Mercado aparentemente caro, mas sustentado pelas perspectivas positivas provocadas pelo importante reordenamento da política econômica local.


A bolsa da Coreia do Sul, congestionada desde 2011, na região da máxima histórica, também trabalha movimento corretivo de curto prazo, provocando aproximação do índice com a principal linha de sustentação ascendente de médio e longo prazo.


Já a correção de curto prazo na bolsa do México agregou força à tendência de baixa de médio prazo iniciada em 2013, após a superação da máxima histórica. Mercado testando níveis de suportes críticos, onde a ruptura poderá agravar o quadro no mercado acionário.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Moody’s poderá rebaixar o Brasil em meados de 2017


A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou nesta terça-feira a nota de crédito do Brasil de “Baa2” para “Baa3”, nota mais baixa dentro da classificação grau de investimento. A perspectiva para o rating do País também foi revisada, de negativa para estável, mostrando que muito provavelmente não haverá mudança na nota de crédito brasileira no curto prazo.

A mudança da perspectiva de negativa para estável gerou um grande alívio no mercado financeiro nacional, pois esperava-se manutenção da perspectiva negativa, alinhada à postura da Satandard & Poor’s para o Brasil, que também foi recentemente reavaliada.

O rebaixamento pela Moody’s foi justificado pela “performance mais fraca que o esperado da economia, tendência de gastos mais elevados do governo e a falta de consenso político sobre as reformas fiscais, que impedem as autoridades de atingir superávits primários elevados o suficiente para conter e reverter a tendência de aumento da dívida este ano e no próximo, além de desafiar sua capacidade de fazê-lo depois”.

A agência de classificação de risco espera que a dívida do governo, bem como sua capacidade de pagamento, continuarão a deteriorar significativamente em 2015 e 2016 em comparação com as expectativas anteriores, atingindo níveis substancialmente piores que os de outros pares do Brasil com classificação Baa.

Um importante detalhe, que passou despercebido pelo mercado, é que a agência se limitou a projetar baixo risco de grave deterioração das métricas de dívida que ameace a classificação de grau de investimento até 2016.

Entre as diversas projeções para o aumento da dívida pública brasileira, é praticamente consenso no mercado que, apesar do rápido e preocupante crescimento da mesma, o patamar de 70% da dívida bruta em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) não será atingido até 2016.

Mas o perigo está no que virá a partir de 2017. O fato de o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não ter comemorado a revisão da perspectiva de negativa para estável, mostra a necessidade de superar grandes desafios nos próximos 18 meses.

Ao contrário do que se especulou no mercado, a ameaça de rebaixamento está ficando da vez mais forte. Ao final do relatório emitido hoje, a agência de classificação de risco Moody’s detalhou claramente os desafios a serem cumpridos pelo governo brasileiro a fim de evitar um futuro rebaixamento do rating (para grau especulativo):

“O rating poderia sofrer pressão adicional se as métricas de dívida do governo deteriorarem mais e mais rápido que o esperado pela Moody's, e se a agência de rating concluir que o Brasil não conseguirá atingir o crescimento e a consolidação fiscal necessária para garantir a sustentabilidade fiscal no médio prazo. Na visão da Moody's, o Brasil precisa atingir um crescimento do PIB e superávit fiscal de pelo menos 2% do PIB durante a segunda metade do atual governo para conter o aumento da dívida e oferecer uma garantia da sustentabilidade fiscal depois do fim dessa administração. Um resultado negativo provavelmente seria associado a um fracasso coletivo das autoridades fiscais e monetárias do Brasil para estabelecer e atingir objetivos de políticas claras de suporte, juntamente com um nível mais elevado do que o esperado da instabilidade política.”

O trecho acima extraído do relatório da Moody’s dispensa comentários adicionais. Os objetivos são nítidos. E não são nada fáceis. Infelizmente a capacidade de superação aos desafios detalhados pela Moody’s até a segunda metade do atual governo é significativamente baixa e, caso este quadro seja concretizado, o Brasil poderá ser rebaixado para grau especulativo (ou lixo).

No mercado de capitais, o índice Bovespa fechou o pregão desta terça-feira em leve baixa, mostrando forte recuperação no fechamento do pregão. O movimento comprador verificado nos últimos minutos dos negócios foi influenciado pela revisão da perspectiva de negativa para estável, criando grande alívio nos preços dos ativos.  Entretanto, ao lerem o relatório da Moody’s na íntegra, os investidores/operadores poderão constatar que não há alívio, mas sim uma pressão, mais concreta, para o rebaixamento do rating brasileiro.


O candle formado mostra sustentação na linha de suporte dos 48.6k. Entretanto, a sinalização não é confiável, pois foi comprometida por um evento que provocou uma rápida reação avaliada em curtíssimo espaço de tempo. Será necessário aguardar a sinalização dos próximos dias para verificar a real força da linha de suporte dos 48.6k.

Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones devolveu praticamente todo o movimento altista verificado no pregão anterior, mostrando ainda predomínio da força vendedora no curtíssimo prazo. Mercado em tendência de baixa, ameaçando romper mais uma linha de suporte nos próximos dias.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Quebra de promessa


Ao longo do primeiro semestre deste ano, os diretores do Banco Central afirmavam, repetiam e insistiam que a autoridade monetária faria o que for necessário para a inflação entrar em longo período de declínio e, ainda, que a levaria ao centro da meta em 2016.

Diante de um quadro estagflacionário grave, é o mínimo que se espera por parte de uma autoridade monetária. Ancorar a inflação na meta é o primeiro passo necessário para se desarmar um perigoso ciclo de estagflação.

Até a divulgação da ata na manhã desta quinta-feira, esperava-se certa rigidez, disciplina e comprometimento com o objetivo traçado no primeiro parágrafo, por sinal reforçado aos quatro cantos do mercado pelos diretores do Banco Central. Mas o tom de política monetária mudou e a autoridade monetária voltará assumir riscos.

O documento confirma pretensão de manutenção da taxa básica de juros aos 14,25% nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária). Entretanto, a projeção de inflação (novo cenário de referência do Banco Central divulgado na ata desta quinta-feira) para o fechamento de 2016 permaneceu estável em relação ao valor considerado na reunião anterior e, portanto, acima da meta de 4,5%.

O fato de o Banco Central sinalizar interrupção do ciclo de aperto monetário, antes mesmo de suas próprias projeções apontarem para uma inflação ancorada no centro da meta no fim de 2016, representa uma quebra de promessa. É a primeira (e infeliz) sinalização de discordância entre o que se discursava (ou se vendia ao mercado) e o que se pretende fazer, a partir de agora, na prática.

A autoridade monetária tem travado uma batalha contra as expectativas dos agentes (justificadamente mais pessimistas) para a inflação, mostrando rigorosidade no ciclo de aperto, para, assim, conseguir reconquistar a confiança do mercado numa política monetária eficiente (ou seja, que seja capaz de ancorar a inflação no centro da meta).

O último Relatório de Inflação, divulgado no final do mês de junho, mostrou que a projeção do Banco Central para a inflação de 2016 parte de elevados 6,7% no primeiro trimestre, recua para 5,4% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,8% (0,3 p.p. acima do objetivo traçado). Isso considerando manutenção da taxa de câmbio em R$ 3,10 durante todo o horizonte de projeção.

Já na última projeção, feita na reunião da semana passada, o Copom considerou taxa de câmbio em R$ 3,25, ainda assim cerca de 0,10 p.p. abaixo da cotação do câmbio no dia em que saiu a decisão de política monetária. Mesmo considerando taxas de câmbio defasadas (otimistas, do ponto de vista da inflação), a meta não foi atingida.

Projeções otimistas e discordância entre o que se discursava e o que se pretende fazer na prática jogam contra a dura batalha encarada pela autoridade monetária para reconquistar a necessária confiança dos agentes e, assim, impedir o processo de manutenção de uma inflação persistentemente elevada, acima da meta.

O Banco Central optou por assumir risco, justificando, na ata, que “os riscos remanescentes para que as projeções de inflação do Copom atinjam com segurança o objetivo de 4,5% no final de 2016 são condizentes com o efeito defasado e cumulativo da ação de política monetária.”

A explicação encontrada para justificar decisões futuras de política monetária ao mercado lembra decisões do passado que resultaram na deterioração da credibilidade do Banco Central. Os agentes anseiam pelo fim do longo período de não cumprimento da meta, mas, para isso, a autoridade monetária precisa, também, parar de assumir riscos não desprezíveis.

O próprio documento sinaliza que o Banco Central pode não estar certo da atitude a ser tomada, ao ressaltar necessidade de que “a política monetária se mantenha vigilante em caso de desvios significativos das projeções de inflação em relação à meta.”

Infelizmente, há cinco anos convivemos com esses “desvios”. Interessante notar que o Banco Central parece desconsiderar os tais “desvios” na aplicação da política monetária, justificando-os, no futuro, como meras surpresas negativas inesperadas.

Ano após ano, procura-se um vilão (velho ou novo) para justificar o tal fator imprevisível, que parece estar à frente de todos nós, mas não aos olhares da política monetária. Porém, aos cidadãos brasileiros, as “surpresas” já se tornaram, há alguns anos, numa interminável e amarga corrosão do poder de compra da moeda.

Com a deterioração das políticas econômica e fiscal, em meio ao agravamento da crise política, restava à política monetária segurar as pontas de um processo de ajuste capenga. Inflação ancorada na meta seria, pelo menos, um alento em meio ao lamaçal de problemas acumulados e recentemente intensificados numa velocidade preocupante. Mas, infelizmente, parece que nem com isso (inflação ancorada na meta) poderemos contar.

A sinalização do Banco Central na ata desta quinta-feira não agradou o mercado e acabou provocando um tremendo choque nos contratos de juros futuros. As taxas das pontas médias e longas romperam máximas históricas.


O pânico no mercado de juros futuros foi justamente sustentado pela sinalização de quebra de promessa (sinalização de interrupção do ciclo de aperto monetário, antes mesmo de as projeções apontarem para uma inflação ancorada no centro da meta no fim de 2016), juntamente com a mensagem derradeira da ata, que esboça certa dúvida da autoridade monetária, deixando as portas abertas para um novo ciclo de alta da taxa básica de juros no futuro.

O aumento das tensões no ambiente político provocou um novo rali do dólar frente ao real, denunciando movimento de fuga de capitais. Após a moeda chegar nos R$ 3,57, o diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Mendes, apareceu no mercado para tentar derrubar a cotação no grito, afirmando que o nível do câmbio está claramente esticado, muito além ou acima do que seria explicado pelos fundamentos econômicos do Brasil.


Na verdade, os fundamentos (ou a falta deles) do País justificam taxas de câmbio até mais elevadas do que o atual patamar. O ambiente doméstico é péssimo, tanto é que o risco-país medido pelo CDS disparou para 323 pontos nesta quinta-feira, ultrapassando níveis de países que não possuem grau de investimento. Mas, como o Banco Central sinalizou interrupção no ciclo de aperto monetário, resta utilizar outras ferramentas (como no passado) para tentar segurar a inflação.

As intervenções no mercado de câmbio serão intensificadas novamente, na tentativa (ou desespero) de suavizar/frear a alta do dólar frente ao real. Essa velha e conhecida estratégia não foi capaz de provocar arrefecimento das pressões inflacionárias no passado, e pode não funcionar novamente, apenas retardar o movimento altista da moeda.

Já a bolsa de valores trabalha com relativa tranquilidade frente à tempestade que atingiu (e ainda atinge) o mercado doméstico nos últimos dias/semanas, mas, por outro lado, segue dentro da tendência principal de baixa, sem sinalização de reversão.


Os investidores se aparam nas principais empresas exportadoras brasileiras, o que tem sustentado o índice contra quedas mais fortes. Entretanto, a disparada do dólar está sendo compensada pelo histórico derretimento dos preços das commodities, em curso.

  
Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones também permanece pressionado, ameaçando romper, de vez, a zona de congestão de curto prazo, o que abriria espaço para o surgimento de uma nova perna de baixa nas próximas semanas.