quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Governo mostra que tem bala e coloca ordem na casa


O mercado tremeu as pernas quando se deparou com a aparição surpresa do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, na apresentação do Relatório Trimestral de Inflação. Dias seguidos de pânico generalizado no mercado de câmbio e juros futuros forçaram o governo tomar uma atitude nesta quinta-feira para colocar ordem na casa.

Logo no início do pregão, o dólar havia superado o patamar de R$ 4,20 com muita rapidez, renovando máxima história. A moeda chegou a atingir R$ 4,2491. No mercado de juros futuros, os contratos ultrapassaram com facilidade o prêmio de 17% ao ano, com algumas curvas atingindo máxima próxima da casa de vultuosos 18% ao ano.

Os prêmios exagerados constatados nos preços dos ativos forçaram uma ação coordenada por parte do governo. Alexandre Tombini foi o primeiro integrante do alto escalão da equipe econômica a mostrar ao mercado que o governo não só tem bala na agulha, como está disposto a utilizá-la, caso seja necessário.

Bastou o presidente do Banco Central abrir os cofres, fazendo com que o mercado veja o arsenal de 370 bilhões de dólares à disposição da autoridade monetária, para os investidores/operadores iniciarem uma corrida de liquidações em posições compradas de curto prazo em câmbio e juros futuros.

Durante a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, Tombini afirmou que o Banco Central irá assegurar que o mercado de câmbio funcione de forma eficaz, e não descartou usar diretamente parte das reservas para segurar a escalada do dólar. O presidente do Banco Central disse também que o aumento nos prêmios de riscos não devem ser entendidos como mudança da política monetária, reforçando quadro de manutenção da taxa básica de juros.

Alexandre Tombini também antecipou o que o mercado iria conhecer pouco depois de sua fala. Tanto o Banco Central quanto o Tesouro Nacional têm atuado em conjunto, utilizando instrumentos adequados para tirar os "riscos da mesa".

Na tarde desta quinta-feira o Tesouro Nacional anunciou um programa de intervenção no mercado de títulos públicos, com objetivo de conter a disparada das taxas. O Tesouro realizará operações diárias de compra e venda de NTN-Fs entre os dias 25/09/2015 e 02/10/2015. Na próxima terça-feira o Tesouro também ofertará, em leilão extraordinário, LFTs com vencimento em 01/09/2021.

A simples ameaça de Tombini quanto à utilização das reservas internacionais, juntamente com o anúncio de que o Tesouro Nacional também fará intervenções no mercado, foi suficiente para jogar o dólar abaixo do patamar psicológico dos R$ 4,00 e os contratos de juros futuros de curvas médias e longas para a casa dos 16% ao ano.

Colaborou para o forte movimento corretivo nos juros e câmbio o fato de os preços estarem trabalhando em elevado nível de sobrecompra. Já o índice Bovespa segue reagindo mais as condições de volatilidade constatadas no mercado externo, do que às notícias internas.

A bolsa brasileira interrompeu, na semana passada, o movimento de curtíssimo prazo de alívio nos preços, com topo marcado na região dos 49.4k, sem apresentar novidade.


O índice Dow Jones trabalha movimento semelhante, também sem apresentar novidade.


Destaque no ambiente doméstico para a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, onde apesar de piorar sua projeção para inflação no fim de 2016 (de 4,8% para 5,3%), o Banco Central não alterou sua estratégia e continuou passando a mensagem de que a manutenção da taxa Selic no atual patamar (14,25%) por período suficientemente prolongado é necessária para o objetivo a ser perseguido (inflação ancorada na meta de 4,5% no fim de 2016), sob a justificativa de que a economia fraca está compensando o efeito da alta do dólar na inflação.

Entretanto, essa explicação cai em contradição com informações disponibilizadas pelo próprio Relatório de Inflação. A projeção do Banco Central para o fechamento da inflação em 2015 subiu de 9,0% para 9,5%, ao mesmo tempo em que a estimativa para o PIB (Produto Interno Bruto) deste ano foi revista de -1,1% para -2,7%. Ou seja, a perspectiva de inflação aumentou mesmo com agravamento do quadro recessivo.

Subentende-se que, por esses dados, a recessão de 2015, mais forte, provocará mais inflação do que a estimativa de recessão, mais branda, para 2016. Mesmo desconsiderando o efeito dos preços administrados na inflação de 2015, parece que as contas da autoridade monetária estão otimistas demais para 2016. Ainda não é possível vislumbrar inflação ancorada no centro da meta no fim do ano que vem.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

FED mais dovish


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) decidiu nesta quinta-feira manter a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) inalterada no intervalo de zero a 0,25% ao ano, sem apresentar novidades.

A decisão surpreendeu apenas aqueles analistas/economistas que esperavam uma elevação da FFR baseada em achismos, desejos ou qualquer informação que não podia ser encontrada nos documentos emitidos pela autoridade monetária norte-americana.

Como de costume, o FED continua agindo com rigorosa fidelidade às informações e perspectivas constatadas em seus documentos emitidos ao mercado. A estratégia continua sendo basicamente a mesma desde que Bernanke (ex presidente do FED) anunciou, com bastante antecedência, o plano de normalização das condições monetárias.

O Banco Central norte-americano trabalha com duplo mandato de máximo emprego e estabilidade de preços. Os membros votantes do Comitê estão satisfeitos com a primeira (taxa de desemprego atual em 5,1%), mas não com a segunda (inflação de 0,2% acumulada nos últimos 12 meses), por motivos óbvios. Não faz o menor sentido subir FFR com uma taxa de inflação tão baixa e distante do objetivo a ser perseguido (2% ao ano, centro da meta de inflação).

A mediana das projeções dos diretores do Banco Central norte-americano corrobora com a estratégia de política monetária. A perspectiva é de recuo da taxa de desemprego para 5% no fechamento de 2015, abaixo da projeção anterior de 5,3% divulgada em junho deste ano. Já a inflação deverá fechar este ano em apenas 0,4%, número que ainda assim ficou abaixo da projeção anterior de 0,7%. A meta de 2% não deve ser atingida antes de 2018.

Por este motivo, a chair do FED, Janet Yellen, frisou na entrevista concedida após a reunião de Comitê que há mais pressão descendente sobre a inflação no curto prazo, em parte influenciada pelos desenvolvimentos econômicos e financeiros globais. Em outras palavras, a derrocada do preço das commodities está freando o avanço da inflação nos Estados Unidos, quadro que também pode ser adaptado às demais economias minimamente organizadas.

Portanto, o Banco Central dos Estados Unidos continuará julgando oportuno esperar por mais evidências de que a inflação está caminhando com mais força para atingir o centro da meta. Quando isso ocorrer, a política monetária entrará para o campo contracionista.

Inevitavelmente, o recuo nas expectativas de inflação fez o FED ficar ainda mais dovish. A projeção para FFR no fim de 2015 caiu para insignificantes 0,4% e, agora, 13 dos 17 membros votantes acreditam que vá haver uma elevação da taxa básica de juros até dezembro. Na reunião de junho, 15 dos 17 membros apostavam em uma alta até o fim do ano. Narayana kocherlakota, diretor regional do FED de Mineapolis, chegou a propor taxa de juros negativa na reunião de Comitê.

Para 2016, a mediana das projeções para FFR cedeu novamente, desta vez recuando para 1,4%. No fechamento de 2017, a FFR deverá estar em 2,6%. Já em 2018, a projeção é de 3,5%. Todas as projeções voltaram a ser reduzidas para baixo, reforçando um quadro menos hawkish (ou mais dovish) do que o esperado anteriormente.

No mercado de capitais, o quadro de alta volatilidade permanece dominando os pregões mundo afora, sem apresentar novidade. Líderes mundiais seguem atolados de problemas internos (dos mais diversos possíveis) e externos (fraca demanda global) a resolver. A incerteza quanto ao timming do aperto monetário nos Estados Unidos (apesar de ser, na prática, irrelevante) também favorece a volatilidade, já que a baixa capacidade de previsibilidade deixa os investidores/operadores mais tensos, à mercê das notícias carregadas de sensacionalismo.

O índice S&P500 fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa. O candle de pavio longo superior relevante denuncia forte surgimento de pressão vendedora no final do pregão, o que pode interromper o movimento de alívio nos preços constatado nas últimas semanas.


A taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) atingiu 2,30%, bem acima da mínima registrada mês passado aos 2,01%.


No Brasil, destaque para a “piada” apresentada no chamado pacote de ajuste fiscal divulgado no início desta semana. O grande peso do pacote está centrado na lamentável proposta de aumento de impostos e, pior, não ataca o grave problema de crescimento insustentável do gasto público.

Há risco de que o sentimento de frustração com a atuação de Joaquim Levy se transforme, aos poucos, em rancor por parte de alguns agentes, já que o ministro da Fazenda, contrariado ou não, tem demonstrado nos últimos dias certa passividade com a postura adotada pelo governo. 

O índice Bovespa oscilou bastante durante o dia, mas fechou o pregão estável. Apesar de o mercado ainda trabalhar dentro de uma tendência de alta de curtíssimo prazo, o candle de indecisão pode ameaçar o movimento de recuperação dos preços constatado nas últimas semanas.
  


Dólar e juros futuros permanecem colados nas máximas do ano, refletindo o aumento no ritmo de deterioração do quadro doméstico.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Governo erra, mas quem paga o pato é a economia


A agência de classificação de risco S&P (Standard and Poor's) rebaixou a nota de crédito brasileira de “BBB-“ para “BB+” na noite desta última quarta-feira, com preocupante manutenção da perspectiva negativa.

Em comunicado, a S&P afirma que a situação de crédito do Brasil enfraqueceu desde 28 de julho, quando a perspectiva do Brasil foi revisada para negativa. Foi detectado pela agência um aumento elevado do risco para a política de correção fiscal em andamento, principalmente decorrendo da dinâmica fluída no Congresso, associada aos efeitos das investigações de corrupção da estatal Petrobras, o que proporcionou aos analistas da S&P menos convicção na política fiscal.

A S&P também destacou no relatório que a proposta do Orçamento para 2016 apresentada no final do mês passado incorporou ainda outra revisão para as metas fiscais do governo em um curto período de tempo. A mudança de uma meta de 0,7% do PIB para déficit primário de 0,3% do PIB reflete um desacordo com a composição e magnitude das medidas necessárias para reequilibrar as contas públicas.

A agência de classificação de risco calcula que sem uma reviravolta inesperada, a meta fiscal proposta no Orçamento renderia três anos consecutivos de déficit primário (sem contar os juros) e um aumento contínuo da dívida pública líquida. Por fim, a S&P encerra sua análise destacando a coesão diminuída dentro do gabinete da presidente Dilma Rousseff, fato que acabou contribuindo para avaliação de um perfil de crédito mais fraco, devido à magnitude dos desafios nas frentes políticas, econômicas e fiscais do Brasil, que precisavam de um apoio firme, a fim de maximizar poder de negociação do Executivo com o Congresso.

Embora o rebaixamento da nota brasileira pela agência de classificação de risco S&P era amplamente esperado pelo mercado, o timming surpreendeu. A perspectiva era de perda do grau de investimento em meados de 2016, caso o delicado quadro macroeconômico levantado no dia 28 de julho fosse mantido.

O problema é que a situação brasileira que já era ruim piorou muito a partir do dia 28 de julho (data de revisão da perspectiva para negativa). Diante deste novo aumento no ritmo de deterioração nos campos político, econômico e fiscal, a agência de classificação de risco tratou logo de rebaixar o Brasil para grau especulativo.

Importante ressaltar que entre as três principais agências mundiais, a S&P é a mais exigente. Os Estados Unidos, por exemplo, não possui triplo A (nota máxima de classificação de risco) pela S&P, embora as outras duas agências (Moody’s e Fitch) o classificam com a melhor nota de classificação de risco (equivalente ao triplo A da S&P).

O rebaixamento da nota de crédito norte-americana aconteceu em 2011, num episódio levemente semelhante ao desastre brasileiro de 2015. Naquela época, o governo norte-americano também enfrentava duras barreiras no Congresso para aprovar medidas de ajuste fiscal. A incapacidade de superação das grandes diferenças entre os dois principais partidos políticos chegaram a paralisar alguns serviços públicos por falta de recursos. Após meses de circo político, os parlamentares norte-americanos conseguiram chegar num acordo para elevar o limite de endividamento do governo e apresentar um plano de consolidação fiscal. Entretanto, o plano de redução de gastos não convenceu a S&P, que resolveu rebaixar a nota de crédito do melhor pagador mundial, decisão que também foi influenciada pelo enfraquecimento da eficácia, estabilidade e previsibilidade das instituições políticas.

O episódio dos Estados Unidos serve, portanto, para destacar a importância do ambiente político e perspectivas fiscais adotadas pela S&P em sua metodologia de avaliação de risco. O nível de tolerância é menor, comparado com as outras duas agências.

O foco está, agora, nas decisões a serem tomadas pela Moody’s e Fitch. A perda do patamar grau de investimento por apenas uma agência de classificação de risco (entre as três principais) não é capaz de alterar a prática de gestão de alguns fundos de investimentos. Os preços dos ativos são mais impactados no curto prazo pelo efeito psicológico da notícia.

Para que os gestores de alguns fundos (com limitação de investimento em ativos grau de investimento) sejam forçados a liquidar posição, é necessário que o ativo em questão seja classificado como grau especulativo por ao menos duas agências de classificação de risco.

Por este motivo os gestores estão mais atentos ao veredito da Fitch, que está em processo de reavaliação dos ratings brasileiros. Caso a Fitch siga os passos da S&P, ou rebaixe o Brasil para o último patamar do grau de investimento, mantendo perspectiva negativa, a fuga de capitais poderá se acentuar, já que o País será considerado (ou estará próximo disso) grau especulativo.

Pode-se constatar nos últimos dias a tentativa do governo brasileiro transmitir uma mensagem diferente daquela apresentada no Orçamento para 2016. Não deixa de ser uma tática desesperadora, pois além de ser uma discrepância com o que se observa na prática, pressupõe existência de risco elevado (calculado internamente) de a Fitch seguir os passos da S&P.

Os impactos de curto prazo causados pela possível perda do grau de investimento por ao menos duas agências de classificação de risco são ridiculamente desprezíveis perto das consequências negativas para o médio e longo prazo. Ainda assim, muitos analistas insistem em focar nos impactos de curto prazo na bolsa, câmbio e juros.

As empresas brasileiras serão as grandes prejudicadas, não só pelas futuras dificuldades de necessárias captações de financiamentos externos, como pelo impacto cambial nas obrigações com os credores internacionais. Além disso, fundos impedidos de possuir bônus com grau especulativo poderão provocar uma onda bilionária de liquidações rápidas e antecipadas.

Esse quadro inviabilizará qualquer tentativa de retomada da economia, já que as empresas brasileiras, duramente penalizadas pelo péssimo ambiente interno, serão, também, afetadas pelas novas dificuldades do ambiente externo. É possível que muitos empresários passem adotar estratégias cada vez mais defensivas (abortar investimentos, reduzir quadro de funcionários, limitar participação no mercado, por exemplo) para tentarem sobreviver às dificuldades internas e externas.

Com mais uma porta se fechando para o extremamente necessário ressurgimento da oferta no Brasil, a inflação tende a continuar alta e distante do centro da meta, o que forçará o Banco Central manter a taxa básica de juros em patamares elevados, dando a sua contribuição para que o empresário pise no freio. Em suma, a perda do grau de investimento por ao menos duas agências exercerá mais peso para que a economia do País continue se afundando.

Na ata divulgada nesta quinta-feira, o Banco Central deixou a porta aberta para uma possível elevação da taxa básica de juros no futuro ao afirmar que o cenário de convergência da inflação ao centro da meta (4,5%) no fim de 2016 tem se mantido apesar de certa deterioração no balanço de riscos. Até então, a autoridade monetária considerava que esse cenário vinha se fortalecendo.

No mercado financeiro nacional, o impacto (puramente psicológico) provocado pelo rebaixamento do rating brasileiro pela S&P passou muito longe do que os analistas previam ontem a noite. Mais uma vez o mercado mostrou sua soberania e envergonhou aqueles que tentaram prever o futuro.

Destaque para os preços negociados nos títulos do Tesouro Direto. As taxas dos títulos públicos não estão acompanhando, com a mesma intensidade, a disparada dos juros futuros. Isso pode denunciar movimento de realocação de portfólio por parte de alguns gestores, partindo de posições compradas em títulos da dívida externa (logo, emitidos em moeda estrangeira) para posições em títulos da dívida interna (emitidos em moeda corrente).

Os títulos da dívida externa são diretamente afetados pelo rebaixamento da classificação de risco brasileira. Já os títulos da dívida interna mantêm classificação de risco elevada, e muito dificilmente serão rebaixados para grau especulativo mesmo com uma deterioração significativamente maior do quadro doméstico.

Portanto, alguns estatutos de fundos permitem que gestores possam se esquivar do grau especulativo da dívida externa. Para isso, basta entrar no Brasil, converter sua moeda para real e comprar títulos da dívida interna (considerados grau de investimento). O risco desta operação é de uma eventual restrição para saída de capital do País, já que o risco da variação cambial pode ser eliminado através de posições compradas em derivativos de moedas fortes (como o dólar, por exemplo).

Gestores de fundos cujo os estatutos permitem abrir posições em ativos considerados grau especulativo continuarão tentados a comprar títulos da dívida externa brasileira, já que as reservas do País cobrem com bastante folga a totalidade das obrigações a vencer da dívida externa. Pouco mais de 95% da dívida pública federal é interna, sendo que, deste montante, menos de 1% foi captado via sistema Tesouro Direto. Grande parte da dívida interna está com as instituições financeiras nacionais.

Isso significa que mesmo com o possível rebaixamento para grau especulativo no futuro por uma segunda agência, o mercado tende a continuar afoito por títulos da dívida externa do governo brasileiro e o reenquadramento deste prêmio pode ser pequeno dentro das atuais condições de competição no mercado da dívida soberana global. O grande prejudicado não é o governo, mas as empresas e a própria economia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Novo desaquecimento da economia global pegou países com as defesas fragilizadas


Não é por acaso que a diretora do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, tem aparecido com mais frequência nesses últimos dias e com a testa mais franzida que o de costume. Também não é por acaso o retorno da volatilidade, que relembra tempos de crises mais agudas do passado, nas principais praças financeiras mundiais.

Tanto o FMI, quanto os investidores/operadores no mercado financeiro, tem motivos de sobra para esboçar preocupação. O sobe e desce frenético de preços dos ativos alterou até mesmo a pacata rotina de Wall Street nos últimos anos. A volatilidade a nível global está longe de ser um simples reflexo do que acontece na bolsa de Xangai, ou acerto de preços sobrevalorizados.

Os fluxos de capitais se acentuaram porque alguns players conseguiram detectar um novo deslize no delicado processo de recuperação da economia global, puxado desta vez por economias emergentes asiáticas (não somente a China), que até então seguravam as pontas enquanto Estados Unidos, Europa e Japão tentavam (e ainda tentam) acertar seus próprios desequilíbrios internos.

A última bateria de indicadores de atividade industrial calculados pelo renomado instituto de pesquisa Markit mostra que esse último evento já contaminou o mundo. Os números revelam aumento no ritmo de desaceleração da atividade tanto nas economias desenvolvidas, quanto nas economias emergentes. Falta demanda.

O número que mais impactou as manchetes foi o Índice Gerente de Compras oficial da China, calculado pela Agência Nacional de Estatísticas. O indicador mostrou recuo de 50 pontos em julho para 49,7 pontos em agosto, indicando leve retração da atividade manufatureira. Teoricamente, essa pontuação de agosto não seria motivo para alarde.

Entretanto, o número que os jornais não prestaram atenção (e que foi, inclusive, um dos grandes responsáveis pelo novo choque constatado no início desta semana) é motivo de preocupação. O Índice Gerente de Compras calculado pelo Markit, que tem foco maior nas indústrias de pequeno e médio porte, caiu de 47,8 pontos em julho para 47,3 pontos em agosto, mostrando aumento persistente no ritmo de contração da atividade manufatureira chinesa, o mais forte dos últimos seis anos.

Além da preocupante desaceleração na China, as atividades nas economias europeias, japonesa e norte-americana seguem fracas. O Índice Gerente de Compras da zona do euro recuou novamente no mês de agosto, atingindo 52,3 pontos. Apesar de ainda mostrar expansão da atividade manufatureira, o indicador revela perda de ritmo, frente à tentativa de recuperação constatada no início deste ano.

No Japão, apesar de o Índice Gerente de Compras ter atingido os 51,7 pontos no mês de agosto (pouco acima dos 51,2 pontos registrados no mês de julho), o desempenho da indústria ainda está muito abaixo do ritmo constatado em 2013 e 2014, mostrando tentativas frustradas de recuperação consistente.

A atividade manufatureira nos Estados Unidos também está decepcionando. O Índice Gerente de Compras caiu novamente no mês de agosto, atingindo 53 pontos, ante 53,8 pontos registrados no mês de julho, marcando o nível mais baixo em quase dois anos.

Até mesmo a atividade industrial da Índia, economia em rota de reestruturação para o campo ortodoxo, derrapou no mês de agosto. O Índice Gerente de Compras recuou de 52,7 pontos em julho para 52,3 pontos em agosto, mostrando perda no ritmo de expansão da atividade.

O desempenho da atividade brasileira vai na mesma direção, apesar de mais acentuado, devido ao acúmulo de problemas domésticos desprezados nos últimos anos. O Índice Gerente de Compras despencou para 45,8 pontos em agosto, ante 47,2 pontos registrados no mês passado, atingindo o menor patamar desde setembro de 2011.

Com o desaquecimento generalizado no mundo inteiro, o Índice Gerente de Compras Global de Manufatura, calculado pelo Markit em parceria com o J.P. Morgan, voltou a mostrar perda de ritmo de expansão no mês de agosto, ao recuar para os 50,7 pontos, aproximando-se do ponto de neutralidade observado em 2013, com risco não desprezível de voltar atingir o campo contracionista, já que a trajetória descendente segue ganhando força, caminhando para marcar o pior desempenho dos últimos três anos.


O grande problema desse novo deslize é que os países estão com as defesas fragilizadas. A margem de manobra hoje é bem menor, comparando-se ao que vem sendo utilizado desde 2008 para conter choques no mercado e desaquecimento econômico.

Por um lado, banqueiros centrais de países desenvolvidos já utilizaram boa parte do arsenal monetário para tentar reanimar suas respectivas economias. As injeções de liquidez atingiram e/ou estão atingindo pontos de esgotamento com o histórico transbordamento do sistema financeiro, portanto, novas injeções não serão capazes de aumentar o fluxo de recursos que escorre para a economia. Além disso, mais injeção monetária poderia provocar efeito colateral futuro devastador, com possível enchimento de bolhas já existentes em algumas classes de ativos.

Por outro lado, a casa está desarrumada não só no Brasil (que ganha destaque por conta da intensidade), mas em vários países. Alguns governos de países emergentes ou em desenvolvimento afrouxaram a política fiscal nos últimos anos para combater os efeitos da crise iniciada em 2008, com persistente frustração no processo de retomada econômica. Esperava-se mais do impulso fiscal, o que, em alguns casos, acabou induzindo alguns líderes a dobrar a aposta.

Sem poder contar com a política fiscal, esses países ficam mais fragilizados, pois também perdem margem de manobra para administrarem novos choques. Com a desordem fiscal, os déficits se multiplicam, a inflação volta a incomodar e as moedas perdem valor. Para complicar, o tombo das commodities chegou no pior momento possível, pois pegou muitas dessas economias com as defesas desguarnecidas.

Para recompor parte da defesa e, assim, tentar enfrentar o novo processo de desaceleração do crescimento global, alguns líderes precisarão fazer ajustes rápidos (talvez não tão agressivos) e torcer para que o impacto na economia seja o menos traumático possível.

Só existe uma certeza neste momento: a demanda global está bem abaixo da capacidade de absorver as necessidades de todos os países. Portanto, inevitavelmente surgirão alguns perdedores e ganhadores nesse processo de reequilíbrio global entre demanda x oferta. Esse quadro tende acelerar uma disputa cambial já em curso, incentivar queimas de reservas e provocar elevações nas taxas de juros.

Até mesmo economias-referência na América Latina, relativamente organizadas, estão sofrendo o baque. A forte desvalorização do peso colombiano, peso chileno e sol peruano estão incomodando as autoridades monetárias locais, onde já se pode observar mudança de tom nos discursos para uma política de aperto monetário, visando impedir não só o distanciamento ascendente da inflação em relação à meta (via câmbio), mas também criar uma defesa contra o risco não desprezível de fuga de capitais.

No Brasil, apesar de o Banco Central ter se adiantado ao processo de reconstrução das defesas internas, não há segurança de que o atual patamar da taxa Selic será suficiente para aguentar o tranco. Os desequilíbrios domésticos mais intensos (comparado com alguns de nossos concorrentes) forçam o mercado cobrar um prêmio maior para os ativos brasileiros. Além do mais, se o prêmio subir com relativa intensidade na concorrência, o Banco Central precisará agir novamente.

Na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) encerrada na noite desta quarta-feira, os membros do Comitê optaram por cumprir o que foi indicado na última ata publicada mês passado. A taxa Selic foi mantida aos 14,25% ao ano.

O comunicado divulgado após a reunião não apresentou novidade: “avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés. O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016.”

Entretanto, o texto poderá gerar polêmica, já que as projeções de mercado estão longe de apontar recuo da inflação para o centro meta no fim de 2016. Pior, a deterioração do quadro fiscal e a disparada do câmbio devem provocar revisões ascendentes para o fechamento da inflação no final do próximo ano.

Sendo assim, a confirmação de manutenção da taxa Selic marca o início de uma nova e infeliz discordância entre a comunicação do Banco Central e as atitudes de política monetária tomadas na prática.

Dólar contra real e juros futuros locais permanecem em forte rali, refletindo o interminável ritmo de deterioração dos fundamentos domésticos num ambiente global cada vez mais desafiador.

Já a bolsa de valores segue trabalhando movimento de alívio no curtíssimo prazo, ainda distante da mínima registrada na semana anterior. O índice Bovespa subiu 2,17%, recuperando boa parte da perda sofrida na última terça-feira. Apesar de histérico, mercado acionário não apresenta novidades, preservando a análise dos últimos dias.


Nos Estados Unidos, os principais índices acionários subiram forte nesta quarta-feira, devolvendo quase toda a pancada levada no dia anterior, mantendo quadro de alívio no curtíssimo prazo em meio à volatilidade constante.