quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dissidência dentro do Copom reforça expectativa de mais aperto monetário


A reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) encerrada ontem a noite mexeu com o mercado financeiro nacional. A taxa Selic foi mantida em 14,25% ao ano, mas dois membros do Comitê votaram contra.

“Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu manter a taxa Selic em 14,25% a.a., sem viés, por seis votos a favor e dois votos pela elevação da taxa Selic em 0,50 p.p.”

Sidnei Corrêa Marques e Tony Volpon votaram pela elevação da taxa Selic em 0,50 p.p. e seus argumentos serão analisados pelo mercado na ata a ser divulgada na próxima semana, assim como os argumentos dos outros seis membros que votaram a favor da manutenção da taxa básica de juros.

Dissidência com mais de um voto contrário à decisão de política monetária pode antecipar decisões futuras a serem tomadas pelo Copom na direção apontada anteriormente pelos membros dissidentes. Essa avaliação foi rapidamente compreendida pelo mercado que espera, agora, uma retomada do ciclo de aperto monetário já no início do ano que vem.

Essa expectativa foi reforçada pela retirada do trecho que vinha sendo divulgado nos comunicados anteriores: “O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante da política monetária. O Copom ressalta que a política monetária se manterá vigilante para a consecução desse objetivo.”

A retirada deste trecho transmite a idéia de que a taxa Selic em 14,25% tornou-se incapaz de provocar o recuo da inflação ao centro da meta (4,5%) nas projeções da autoridade monetária, mesmo no horizonte relevante (2017). Por esse motivo, possivelmente, dois membros do Comitê optaram por subir a taxa Selic imediatamente, reagindo aos novos cálculos do corpo técnico do Banco Central, já que, em matéria de política monetária, tempo é risco, e risco tem custo.

Os demais membros que votaram a favor da manutenção da taxa Selic podem estar, supostamente, com alguma esperança de melhora no quadro fiscal, até a próxima reunião de Comitê, que seja suficientemente capaz de reduzir as projeções de inflação no horizonte relevante da política monetária.

Acontece que essa melhora fiscal é altamente improvável, tanto pela crise política, quanto pela intensidade necessária de ajuste. Além disso, os desequilíbrios micro e macroeconômicos não estão sendo atacados pelo governo, o que colabora para manutenção do quadro de inflação persistentemente elevada.

Também não houve menção no comunicado divulgado ontem ao atual balanço de riscos para a inflação, como costumava aparecer nas reuniões anteriores. Podemos supor, portanto, que o Copom analisou apenas a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, mas não o balanço de riscos para tomar uma decisão. Qual o sentido de retirar do comunicado à menção aos riscos para inflação numa decisão de política monetária? Será que esses riscos não existem mais ou foram "propositalmente negligenciados" para que a taxa de juros pudesse ser mantida aos 14,25%?

Por fim, a dissidência de dois membros sinalizou que o quadro pode ser realmente grave, já que não optaram por um reinício do ciclo de aperto monetário em 0,25 p.p. como ocorreu nas últimas duas ocasiões (17/04/2013 e 29/10/2014), mas sim de 0,5 p.p. É o custo do tempo no sistema de metas de inflação.

No mercado de capitais doméstico os prêmios de risco voltaram a ceder, devolvendo parte (ainda pequena) dos ganhos acumulados nas últimas semanas/meses. O movimento atual é mais intenso no mercado de juros futuros, que conta com impulso do comunicado do Copom e reação à prisão de André Esteves, presidente e controlador do BTG Pactual, banco de investimento com forte atuação no mercado nacional, e Delcídio Amaral, líder do governo no Senado.

Temores com a solvência do banco e da própria estabilidade do sistema financeiro nacional, provocado por uma corrida de saques por parte dos clientes e investidores do nada desprezível BTG Pactual, e/ou eventual contaminação (via corrida de saques) em outras instituições menores, deixam os participantes do mercado de capitais tensos e propensos a fugir para segurança. Além disso, a prisão do senador petista Delcídio Amaral impõe mais desafios ao ambiente inóspito que o governo enfrenta no Congresso, o que tende a dificultar ainda mais o necessário processo de ajuste fiscal.

O índice Bovespa permanece trabalhando dentro de uma tendência de alta iniciada no mês de agosto, aos 42.7k, embora ultimamente vem apresentando sinalização de fraqueza no movimento altista, com dificuldade notória de superação da região dos 49k. Principal suporte para definição de curto prazo segue posicionado na região dos 45.4k, onde o rompimento descendente poderá confirmar o ressurgimento da tendência de baixa.


terça-feira, 24 de novembro de 2015

Que se vayan todos


A histórica vitória do candidato pró-mercado, Mauricio Macri, como presidente da Argentina marca o início de uma nova era na América Latina, a do tão esperado fim do populismo (leia-se irresponsabilidade) fiscal, que por sua vez vem acompanhado por uma relevante mudança no perfil da nova classe política.

Macri se tornará o primeiro presidente depois do retorno da democracia na Argentina (em 1983), que não é peronista nem radical. Seu perfil, portanto, se distancia, e muito, de seus antecessores no cargo. Macri, atual prefeito de Buenos Aires, construiu sua carreira longe da política, no setor produtivo, e passou a liderar o partido PRO (ou “Propesta Republicana”) em 2007.

A criação de seu atual partido é fruto da severa crise que atingiu o País na década passada, época que ficou marcada pelos protestos de massa. Os argentinos gritavam nas ruas “que se vayan todos” (traduzindo: fora todos os políticos), numa clara sinalização de insatisfação e irritabilidade com o perfil político tradicional das lideranças políticas e partidárias, algo parecido com o que acontece atualmente no Brasil.

A proposta do partido de centro-direita de Macri atende aos anseios da população: renovar a política nacional, acabar com o discurso do “nós contra eles”, revitalizar a economia e, o mais importante, acabar com kirchnerismo.

Os argentinos não agüentam mais ver ou escutar mentiras e discursos autoritários de Cristina Kirchner nas redes de rádio e televisão. Numa dessas aparições, Kirchner criticou um cidadão que tinha apelado à justiça para comprar dólares sob o argumento de que seriam para a poupança dos netos. “Esse avô além de tudo é bastante amarrete” (expressão popular semelhante ao “pão duro” no Brasil), disse a presidente.

A destruição do kirchnerismo na Argentina marca a contagem regressiva para a queda do bolivarianismo e outros regimes de esquerda semelhantes, apoiados sob a irresponsabilidade fiscal, na América Latina.

Já prevendo uma possível derrota nas eleições do mês que vem na Venezuela, o presidente Maduro tem demonstrado que, no caso de uma derrota, “não vai entregar a Revolução” e que “vai governar com o povo, em uma união cívico-militar.”

Na prática, o bolivarianismo já se esgotou na Venezuela. A permanência dos atuais líderes no poder poderá sinalizar fraudes eleitorais gritantes. O País, atolado no seu pior momento econômico histórico, com uma inflação estimada de 200% ao ano, em meio a uma crise de desabastecimento e autoritarismo político, clama por mudança.

O Brasil também está em processo de mudança. Em meio ao esgotamento fiscal, históricos escândalos de corrupção e ineficiência dos gastos públicos, os partidos de esquerda tendem a encolher, mas o vácuo de poder ainda persiste. Tal como os argentinos, os brasileiros não agüentam mais o jogo político atual, onde a oposição tradicional também joga como titular.

“Que se vayan todos” também no Brasil. O País caminha para uma renovação político-econômica e não somente uma troca de partido do poder. A figura que irá nos retirar do buraco ainda não é conhecida, mas tem que ter afinidade com o setor privado, assumir uma posição de centro ou centro-direita e, possivelmente, surgir em 2018 como um fator surpresa, pegando as lideranças políticas tradicionais desprevenidas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Preocupação com taxa de equilíbrio reforça era de juros ultra baixos


A ata do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) não apresentou novidade quanto à expectativa de elevação da FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) já na próxima reunião de política monetária a ser realizada nos dias 15 e 16 de dezembro.

Entretanto, uma nova informação, de alta relevância, referente ao futuro de longo prazo da política monetária norte-americana, foi debatida nesta última reunião de Comitê. Os diretores do FED demonstraram preocupação com a chamada taxa de equilíbrio (ponto em que a FFR deve se encontrar para garantir o duplo mandato do FED: pleno emprego e inflação estável).

Os cálculos da equipe técnica do Banco Central norte-americano apontam para uma taxa de equilíbrio próxima de zero. Isso significa que, quando a inflação nos Estados Unidos atingir a meta de 2% a ser perseguida pela autoridade monetária, a FFR deverá estar na faixa de 2% ao ano, portanto, em ponto de equilíbrio.

O fato que justificaria FFR acima de 2% no longo prazo seria justamente a velocidade de recuperação da economia norte-americana. Caso o ritmo de crescimento intensifique acima do esperado, a taxa de equilíbrio futura provavelmente será positiva, justificando, portanto, uma FFR mais elevada (ou acima de 2%).

Mas os membros do Comitê não estão tão otimistas quanto ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no médio e longo prazo. O documento divulgado hoje mostrou que houve debate sobre as evidências de que o potencial de longo prazo da economia norte-americana pode ter se movido permanentemente para baixo.

Caso estas novas expectativas do FED se concretizem, haverá pouquíssima margem de manobra para evolução do ciclo de aperto monetário, o que reforça a ideia de que a crise do sub-prime, estourada em 2008, jogou o sistema financeiro global numa era de juros ultra baixos.

As preocupações constatadas na ata divulgada nesta quarta-feira são, também, compatíveis com a interminável sequência de revisões negativas para o futuro da FFR, seja em 2016, 2017 ou 2018.

Juntamente com as ininterruptas revisões negativas da FFR, o alcance da meta de inflação segue cada vez mais distante. Na última projeção divulgada ao mercado, no mês de setembro, a meta de 2% não deve ser atingida antes de 2018. Isso significa que a FFR poderá demorar três anos ou mais para atingir o ponto de equilíbrio, o que também reforça a postura cautelosa e gradualista por parte do FED quanto ao ciclo de aperto monetário a ser implementado.

O surgimento de preocupações com relação a taxa de equilíbrio e potencial do crescimento futuro também recoloca o FED na rota seguida por outros importantes banqueiros centrais: a dos juros baixos e políticas de estímulos ao crescimento.

Na zona do euro, o BCE (Banco Central Europeu) está disposto a não só manter juros baixos por muito tempo, como também aumentar a potência de seus programas de estímulos, caso necessário. No Reino Unido, o BoE (Bank of England) tem sugerido que não há possibilidade de aumentar a taxa básica de juros até 2016 e alguns membros do Comitê esboçam que esse ciclo não se iniciará em 2017. No Japão, o BoJ (Bank of Japan) já prometeu flexibilização adicional da política monetária ao primeiro sinal de necessidade. Na China, o Banco Popular segue operando sob uma forte política de afrouxamento monetário, onde a taxa básica de juros segue renovando mínimas históricas. Novos cortes de juros são esperados também na Austrália, Nova Zelândia e em algumas economias emergentes.

Entre as principais economias emergentes e desenvolvidas, as únicas, no mundo, que operam ciclos de aperto monetário são a brasileira e a sul-africana, por questões internas de desequilíbrio macroeconômico.

A era dos juros ultra baixos está derrubando teses econômicas e deixando um grande ponto de interrogação nas reuniões de política monetária mundo afora, já que não há menor condição de as economias retornarem aos patamares de juros considerados padrões nas últimas décadas.

Apesar dos níveis recordes entre os mais diversos programas de estímulos monetários, o crescimento a nível global permanece frágil, bem abaixo do esperado. Além disso, quadros deflacionários ou desinflacionários persistem em diversas economias, o que abre espaço para manutenção e reforço das políticas de estímulo.

Portanto, a era dos juros ultra baixos, iniciada com a crise de 2008, parece longe de acabar. Mesmo que a FFR alcance 1% ou 2% ao ano, ainda assim será considerado um patamar insignificante, fato que confirmaria a irrelevância do ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos em relação aos possíveis impactos nos preços dos ativos.

Esse quadro poderá manter as anomalias de preços constatadas em títulos soberanos de vários países, onde as dívidas estão sendo roladas a custo real quase zero ou mesmo negativo. No mês passado, por exemplo, a Itália entrou para o rol de economias que conseguiram a proeza de vender dívida (neste caso, de 2 anos) com um rendimento negativo.

Em países onde ainda pode-se constatar prêmio nos títulos soberanos, tais como o Brasil, o cenário de juros elevados poderá se reverter à medida que o FED concentre seu foco na taxa de equilíbrio.

O bull market dos juros futuros, iniciado em 2013, pode ser interrompido. No Brasil, a sinalização técnica de esgotamento (e possível reversão da tendência) já está marcada em todos os gráficos dos contratos de juros futuros, tanto nas curvas curtas, quanto nas curvas longas.


Os juros futuros domésticos, que já operam onda corretiva via sinalização técnica, contam, agora, com o respaldo macro vindo do principal banqueiro central mundial para que a tendência baixista persista nos próximos meses.

A mesma onda corretiva também afeta o mercado de câmbio, embora a gordura para devolução do prêmio, neste caso, apresenta-se bem menor do que a verificada no mercado de juros futuros.

Já a correção da bolsa de valores (ascendente) permanece válida, sem alterações. A intensidade, porém, segue com potencial mais baixo entre as três frentes (juros, câmbio e bolsa), já que as empresas que compõe a carteira teórica do Ibovespa seguem com multiplus pressionados pelo quadro estagflacionário.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Porque trocar seis por meia dúzia?


A permanência de Joaquim Levy no comando do ministério da Fazenda parece que está, realmente, com os dias contados. A especulação criada em torno de sua substituição pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ganhou proporções inimagináveis. Com tanta gente falando a mesma coisa no mercado financeiro e, também, no ambiente político, a troca já parece acertada, independentemente do desejo da presidente Dilma.

Entretanto, levando com consideração o nível de educação e desejo pró-fiscal da população, situação lastimável do quadro doméstico e limitações institucionais para cortes de gastos, a substituição de Joaquim Levy por Henrique Meirelles, ambos de perfil ortodoxo, resultará numa equação de soma zero para a economia.

Da mesma forma que o ministro Levy foi “impedido” de realizar seu trabalho na Fazenda, Meirelles também será, se tentar fazer o mesmo. Portanto, a primeira vista, não faz muito sentido trocar seis por meia dúzia.

Acontece que os pouquíssimos golpes efetuados com sucesso por Joaquim Levy atingiram pessoas, empresas e setores que, de certa forma, recebiam algum tipo de estímulo (desonerações, crédito subsidiado, entre outros) por parte do governo. A grande generosidade do governo com esse seleto grupo foi, inclusive, um dos grandes responsáveis pelo rombo nas contas públicas. Irritados com o fim da festa, esse grupo partiu para o ataque contra o ministro da Fazenda.

Com as chaves dos cofres públicos nas mãos de Levy, a briga chegou rapidamente no ambiente político. Isolado na batalha, o ministro da Fazenda demonstrou ter entregado os pontos no mês de julho, quando anunciou a redução drástica da meta de superávit primário. A partir deste ponto, novas derrotas foram surgindo com bastante rapidez e o pingo de esperança que ainda restava para o futuro, foi-se embora na mesma velocidade.

Além disso, especula-se que a recomendação feita pela Receita Federal para a quebra do sigilo bancário da LFT Marketing Esportivo (empresa de um dos filhos do ex-presidente Lula), também estaria entre os motivos de possível atrito entre Lula e Joaquim Levy. E mais, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), também ligado ao Ministério da Fazenda, apurou operações envolvendo o ex-presidente e outras figuras do PT. O relatório foi enviado à CPI do BNDES, mas a revista Época conseguiu acesso aos dados, o que gerou grande repercussão na mídia.

A melhora nos prêmios de risco dos ativos brasileiros transmite a falsa ideia de que a entrada de Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda seria algo positivo. Na verdade, seria mais uma sinalização ruim ao futuro do País.

O índice Bovespa fechou em alta de 1,86% nesta quarta-feira estimulado pelo teste bem sucedido (ocorrido ontem) na primeira região de suporte da tendência de alta de curto prazo, localizada na faixa dos 45.4k.
  

O fato de o fluxo de capital global permanecer vendedor em Treasuries (título do Tesouro norte-americano, conforme demonstrado no gráfico abaixo) e comprador em ativos de risco, colabora para manutenção da tendência de alta de curto prazo da bolsa brasileira, tendência de baixa de curto prazo do dólar contra real e tendência de baixa das taxas de juros futuros internas.



Portanto, é importante saber separar a situação do mercado com a do delicado quadro doméstico, pois, no momento, estão operando em direções opostas.

domingo, 8 de novembro de 2015

Era uma vez um sistema de metas de inflação


Há muito tempo atrás reinava no Brasil um sistema de metas de inflação eficaz. O País crescia em velocidade satisfatória, a inflação estava em declínio e começava oscilar em torno da meta de 4,50% (como foi em 2007 e 2009) ou mesmo abaixo dela (como foi em 2006). Esses dois fatores foram essenciais para o enriquecimento da população, o que inclusive permitiu uma relevante ascensão de famílias de classes D e E para a classe C.

As pessoas estavam felizes. Quem se dispunha a trabalhar ganhava um bom dinheiro e conseguia elevar o seu padrão de consumo. Mas, infelizmente, a alegria de um País de educação pobre durou pouco.

O choque veio, para muitos, somente em 2015, pois o governo se esforçou ao máximo para prorrogar esse impacto. Os erros grosseiros de política econômica começaram a surgir com mais frequência a partir de 2011, quando a presidente Dilma tomou posse com a promessa de implementar uma nova matriz econômica no Brasil.

A atuação do Banco Central era parte importante desse processo. Não seria possível dar prosseguimento à nova matriz econômica sem a importante contribuição da política monetária.

Nesse texto, vamos relembrar trechos importantes extraídos das atas do Copom (Comitê de Política Monetária) para exemplificar como o Banco Central deixou de ser uma instituição de credibilidade, respeito e confiança entre os agentes e, também, para entendermos por que estamos atolados no atual lamaçal macroeconômico.

Tudo começou em 2011, quando as decisões do Copom deixaram de ser aparentemente condizentes com o quadro inflacionário. Observem a promessa da autoridade monetária, destacada no próximo parágrafo, para a convergência da inflação ao centro da meta.

Na a ata de reunião dos dias 19/04/2011 e 20/04/2011, o Banco Central afirma que: “considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que, neste momento, a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012.”

Na reunião realizada nos dias 30/08/2011 e 31/08/2011, o Banco Central iniciou o polêmico processo de afrouxamento monetário, alegando que “o ambiente macroeconômico se alterou substancialmente desde sua última reunião, de modo a justificar uma reavaliação, e, eventualmente, reversão, do recente processo de elevação da taxa básica.”

Vale relembrar que, neste mesmo ano, o IPCA fechou exatamente no teto da margem de tolerância do sistema de metas de inflação, aos 6,50%. No ano anterior, a inflação já estava longe do centro da meta, aos 5,90%. Ou seja, não havia refresco na inflação doméstica, embora a inflação global estivesse, na época, em níveis muito baixos.

Se em abril de 2011 o Banco Central justificava o aperto das condições monetárias como necessário para convergência da inflação para a meta em 2012, em outubro deste mesmo ano a autoridade monetária já estava fazendo o contrário (afrouxando as condições monetárias), mas ainda assim afirmava que sua (nova) política era consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012.

Os meses seguintes foram marcados pelos sucessivos e agressivos cortes na taxa básica de juros. Em agosto de 2012, quando a taxa Selic caiu para 7,50% ao ano, o Banco Central descartou, na ata, cenário de convergência da inflação para a meta neste mesmo ano e passou a considerar apenas que “a inflação tende a se deslocar na direção da trajetória de metas.”

Já a reunião de outubro deste mesmo ano, marcada pela redução da taxa Selic para 7,25% ao ano, por cinco votos a favor (incluindo o do presidente Alexandre Tombini) e três votos contra, terminou com suspeita de um clima tenso dentro do Copom, pois o placar ficou muito apertado.

Os diretores que votaram a favor de um novo corte na taxa Selic argumentaram que “restavam incertezas quanto à velocidade de recuperação da atividade, em grande parte, decorrência das perspectivas de que o período de fragilidade da economia global seja mais prolongado do que se antecipava, com repercussões desinflacionárias sobre a economia doméstica. Além disso, foi destacado que as recentes pressões de preços decorrem, principalmente, de choques de oferta, internos e externos, que tendem a reverter no médio prazo. Portanto, no entendimento desses cinco membros do Comitê, o cenário prospectivo para a inflação ainda comportava um último ajuste nas condições monetárias.”

Pode ser que até hoje esses membros do Copom estejam procurando as tais repercussões desinflacionárias sobre a economia doméstica. O tempo mostrou que estavam redondamente enganados, o que culminou na lamentável perda de credibilidade do Banco Central.

Na ata de reunião dos dias 27/11/2012 e 28/11/2012, o Banco Central passou a afirmar que “a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta, ainda que de forma não linear”. Nessa época, a taxa Selic estava sendo mantida na mínima história, aos 7,25% ao ano, e ninguém (ou quase ninguém) conseguia entender a tal da convergência não linear, bem como os motivos que justificassem uma taxa básica de juros tão baixa num quadro de inflação elevada e distante do centro da meta.

Em abril de 2013 o Banco Central pareceu ter se convencido de que o experimento da nova matriz econômica falhou. Apesar da chuva de críticas do mercado (justificadas) e avisos de analistas, economistas e agentes, ainda havia uma brecha para a autoridade monetária recuperar sua credibilidade num curto espaço de tempo. Bastaria reconhecer o erro e consertá-lo. Talvez um choque de juros para cima (na faixa de +5 p.p.) seria suficiente para colocar a casa em ordem. Entretanto, o Copom decidiu, neste mês, aumentar a taxa Selic em apenas 0,25 p.p., para 7,50% ao ano, ainda assim com dois votos contra.

Na reunião seguinte, realizada nos dias 28/05/2013 e 29/05/2013, o Copom decidiu aumentar o ritmo do ciclo de aperto monetário para 0,50 p.p., alegando que “essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano.”

Essa nova promessa foi sendo mantida até a reunião dos dias 08/10/2013 e 09/10/2013. Já na reunião dos dias 26/11/2013 e 27/11/2013, o Banco Central mudou o discurso, deixou uma mensagem curta, sem mencionar novos prazos. A inflação não entrou em declínio e a tendência (ascendente) persistiu no ano seguinte.

Em maio de 2014, os diretores do Copom demonstraram estar satisfeitos com a taxa Selic aos 11,00% ao ano e decidiram interromper o ciclo de aperto monetário. Em mensagem na ata, “o Comitê avalia que os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar. Além disso, é plausível afirmar que, na presença de níveis de confiança relativamente modestos, os efeitos das ações de política monetária sobre a inflação tendem a ser potencializados.”

Já na reunião realizada nos dias 28/10/2014 e 29/10/2014, “curiosamente” logo após as eleições presidenciais, o Banco Central voltou a subir a taxa básica de juros, alegando, na ata, que “a intensificação dos supracitados ajustes de preços relativos na economia tornou o balanço de riscos para a inflação menos favorável.”

Na reunião seguinte, realizada no mês de dezembro de 2014, o Banco Central ressaltou na ata que “não descarta a ocorrência de cenário que contempla elevação da inflação no curto prazo, e antecipa que a inflação tende a permanecer elevada em 2015, mas ainda no próximo ano entra em longo período de declínio.” Neste mês, o Copom enxergava convergência da inflação para o centro da meta em 2016.

Pouco tempo depois, em março de 2015, o Banco Central se viu forçado a mudar o discurso novamente, já que não havia menor sinal de a inflação entrar em declínio neste ano. A partir de então a autoridade monetária passou a afirmar que a inflação tende a permanecer elevada em 2015.

Na ata da reunião seguinte, realizada nos dias 28/04/2015 e 29/4/2015, o Banco Central empurrou o prazo de convergência da inflação para o centro da meta de 2016 para o fim de 2016. A nova promessa foi mantida até outubro, quando o Banco Central se viu forçado novamente a empurrar o prazo de convergência da inflação para o centro da meta, desta vez para o horizonte relevante para a política monetária, o que, em outras palavras, significa 2017.

Durante toda essa novela do Banco Central, de expectativas frustradas, de promessas não cumpridas e de prazos prorrogados, a inflação jamais se aproximou da meta de 4,50%. Desde 2010 o IPCA fecha ano após ano acima e distante do centro da meta. Durante todo esse período o Banco Central pareceu ter se esforçado mais em encontrar vilões (ou desculpas esfarrapadas, na tentativa de justificar sua incompetência) do que trabalhar para cumprir com eficácia seu dever de garantir estabilidade do poder de compra da moeda.

Não dá mais para engolir uma nova promessa de cumprimento da meta em 2017. Não dá mais para acreditar no novo vilão (fiscal) encontrado para justificar uma ineficiente política monetária. Aliás, a política fiscal é apenas parte do problema da inflação elevada no Brasil, e não o centro. Há cinco anos não sabemos o que é um IPCA próximo do centro da meta, e, ao que tudo indica, vamos continuar não sabendo por um bom tempo.

A manutenção de um longo quadro de inflação persistentemente elevada afetou a credibilidade do sistema de metas de inflação (que por sinal é utilizado, com seriedade, por vários países), tornando-o desacreditado no Brasil. Se os agentes não confiam mais no sistema de metas, nem depositam credibilidade no Banco Central, muito dificilmente a inflação retornará ao centro da meta. Como se não bastasse, a ineficiência da autoridade monetária está contribuindo para provocar, com preocupante rapidez, o empobrecimento da população brasileira, afetando, principalmente, justamente aqueles que engodaram a classe C na década passada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Colocando em dia as informações relevantes ao mercado


A importante pesquisa de medição da atividade industrial realizada pelo Instituto Markit no mês de outubro abanou de vez a sombra de um pouso forçado que pairava sobre a economia do gigante asiático. Os indicadores do segundo e terceiro trimestres assustaram muitos investidores/operadores, que por sinal chegaram a provocar uma ligeira fuga de capitais, contagiando outras praças emergentes.

O Índice Gerente de Compras do setor manufatureiro da China saltou de 47,2 pontos em setembro para 48,3 pontos no mês de outubro. Apesar de ainda revelar contração da atividade industrial, o gráfico abaixo mostra claramente uma importante inversão na trajetória descendente.


A última leitura é a mais elevada desde junho de 2015, o que reforça análise de que o setor manufatureiro chinês já atingiu o fundo do poço. O longo recuo da indústria, iniciado em meados de 2014, se encerrou no mês de agosto, ao atingir os 47,1 pontos, porém, a reversão da trajetória veio, de forma convincente, somente no mês de outubro.

Outro detalhe importante é que a reversão de 2015 aconteceu na mesma região onde houve forte inversão nas curvas de 2011, 2012, 2013 e 2014. Este gráfico mostra claramente onde está a força de reação da indústria chinesa. Apesar da sequência de derrapadas, o setor continua mostrando que existe um limitador para as fases de contrações, ou seja, ainda não há como desprezar a força e capacidade de reação (com impulso do Estado) da economia chinesa.

Com o gráfico do setor industrial apontando para cima na China, a busca por ativos de risco, constatada nas últimas semanas em várias praças financeiras mundiais, se acentuou. Esse alívio no mercado financeiro permitiu que alguns banqueiros centrais respirem no curto prazo. Os japoneses, por exemplo, vão manter o ritmo de compras de ativos no mercado doméstico, enquanto reavaliam os indicadores econômicos. Alguns emergentes ainda estão perdidos no meio da turbulência dos últimos meses, mas pelo menos ganharam tempo. Já os europeus, estão com bala na agulha e querendo aumentar a dose da injeção monetária.

O todo poderoso FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) soube utilizar muito bem a brecha no mercado para testar a psicologia de seu comunicado. Contrariando a expectativa de vários analistas/economistas (novamente errada, agora, desta vez, de que os juros não subirão tão cedo), a autoridade monetária norte-americana sinalizou na última reunião que poderá subir a taxa básica de juros em dezembro deste ano.

Com o mercado de bom humor, em busca de ativos de risco, o comunicado do FED causou impacto insignificante. O que não deixa de ser uma surpresa, já que se criou um excesso de expectativa catastrófica com o início do ciclo de aperto monetário.

É importante relembrar que a última projeção do FED para a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) caiu para insignificantes 0,4% no fim deste ano. 13 dos 17 membros votantes do Comitê de Política Monetária acreditam que vá haver uma elevação da taxa básica de juros até dezembro. Esses dados foram divulgados ao mercado no mês de setembro.

Em 2016, a mediana das projeções para a FFR cedeu para 1,4%. No fechamento de 2017, a FFR deverá estar em 2,6%. Já em 2018, a projeção é de 3,5%. Hoje a Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) paga uma taxa de juros de 2,23% ao ano. Esse é o custo do dinheiro nos Estados Unidos, e não “os lendários” zero a 0,25% ao ano. Isso significa que, hoje, os preços dos ativos globais estão relativamente adaptados à projeção de custo do capital para até 2017 nos Estados Unidos.

Com projeções tão baixas para a FFR e sinalizações cada vez mais evidentes de que o ciclo de aperto monetário será muito suave, não haverá tempestade financeira, chuva torrencial e talvez sequer uma garoa no mercado. O efeito colateral prático nos preços dos ativos tende a ser nulo. Já o efeito colateral psicológico nos preços dos ativos, fruto da comunicação do Banco Central, é inestimável e pode causar volatilidade no curto prazo.

Apesar do toque suave na política monetária, a partir de 2016 (ou após a fase inicial do ciclo de aperto monetário) poderão surgir incertezas no mercado quanto ao processo de desalavancagem da temida carteira trilionária de ativos do FED, inflada com os programas de quantitative easing, créditos subprime, títulos públicos, privados, entre outros. Incerteza, no vocabulário do mercado, é sinônimo de volatilidade.

Hoje há apenas uma espécie de rabisco de como será esse processo (desalavancagem do balanço do Banco Central). Os diretores do Comitê estão longe de alcançar uma estratégia a seguir, tal como fizeram com a projeção de deslocamento da FFR. E não é apenas o FED que vive um problema de alavancagem excessiva nos Estados Unidos. No geral, as empresas norte-americanas estão altamente alavancadas e, algumas delas, precisarão de um PIB (Produto Interno Bruto) robusto na próxima década para não entrarem em default.

Saindo do cenário externo e entrando na desilusão doméstica, o quadro macro torna-se horripilante. O Índice Gerente de Compras do Brasil registrou nova queda acentuada, mostrando a crueldade de um quadro estagflacionário. O indicador saiu de míseros 47 pontos no mês de setembro para inacreditáveis 44,1 pontos em outubro, atingindo o nível mais fraco em seis anos e meio. Os motivos são os mesmos velhos conhecidos de sempre.


O País das metas não cumpridas segue afundando em velocidade preocupante. Após o governo sinalizar que jogou a toalha para o grau de investimento no mês de julho deste ano, o Banco Central joga a toalha para a “promessa” de levar a inflação ao centro da meta no fim de 2016, prorrogando-a novamente. Desde 2010 é a mesma conversa e os agentes já perderam a paciência, fato que tem contribuído para o agravamento do cenário de estagflação.

O mercado doméstico segue reagindo ao fluxo internacional. Investidores estrangeiros continuam a caça de ativos de risco nas principais praças financeiras mundiais. Com o S&P500 aproximando-se, novamente, da máxima histórica (gráfico abaixo), o foco, nos últimos dias, está mais forte nos mercados emergentes, onde pode-se encontrar algum desconto para “pagamento em dólar”.


Na Turquia, o principal índice da bolsa de Istambul já conseguiu atingir a marca dos 84.000 pontos, após registrar 69.800 pontos no mês de agosto, mostrando um forte movimento de retomada que provocou a superação da média móvel simples de 200 períodos diária.


A bolsa do México subiu forte nesta terça-feira, armando o bote para romper a média móvel simples de 200 períodos diária. Mercado em forte tendência de alta de curto prazo.


No Brasil, o nível de recuperação dos ativos de risco está um pouco aquém da força constatada nas praças concorrentes, mas ainda assim apresenta consistência na trajetória de retomada. Bolsa em tendência de alta de curto prazo, com formação do terceiro fundo ascendente na região dos 45.4k.