quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A parte dois do filme de terror


O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu manter nesta quarta-feira a taxa básica de juros em 14,25%. O resultado desta importante reunião de Comitê ficou ofuscado por mais um episódio negativo à imagem do Banco Central. O presidente da autarquia, Alexandre Tombini, quebrou o período informal de silêncio que antecede as reuniões do Copom ao publicar uma nota polêmica.

Na manhã da terça-feira do dia 19 de janeiro, o FMI (Fundo Monetário Internacional) publicou seu Relatório de Perspectiva Econômica Global, no qual projetou retração de 3,5% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil este ano. Cabe ressaltar que a estimativa do FMI está praticamente em linha com a última projeção de 2,99% de retração do PIB brasileiro constatada no Boletim Focus desta semana.

Mesmo assim, por algum motivo desconhecido, Tombini se mostrou surpreendido com as novas projeções do FMI. Para os agentes e demais participantes do mercado, a surpresa foi ver o presidente da autoridade monetária publicar uma nota avaliando como significativas as revisões das projeções de crescimento para o Brasil feitas pelo FMI.

Ao final da nota, Tombini ressalta que “todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”. Esse último parágrafo provocou forte volatilidade nos contratos de juros futuros, pois o Banco Central havia conduzido as expectativas do mercado para uma alta de 0,50 p.p. da taxa Selic na reunião de Comitê dos dias 19 e 20 de janeiro. Mas após a publicação desta nota, os 0,50 p.p. de aperto foram descartados e o nível de tensão subiu no mercado.

A nota do presidente do Banco Central está recheada de polêmica. Além da surpresa de Tombini não ter sido compreendida pelo mercado, que já esperava uma retração semelhante para o PIB deste ano, em tese não havia necessidade de o presidente da autoridade monetária publicar uma nota afirmando que “todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”, pois as decisões de política monetária são justamente respaldadas por todas as informações econômicas relevantes e disponíveis...

Outra curiosidade está na rapidez da publicação da nota no site do Banco Central, pouco tempo depois da divulgação das projeções do FMI. Tombini leu com devida atenção as inúmeras informações relevantes presentes no Relatório de Perspectiva Econômica Global, processou todos esses dados, produziu um raciocínio, transcreveu um comunicado de alto impacto (portanto, cada vírgula foi muito bem colocada, o que também demanda tempo) e autorizou sua publicação no site do Banco Central.

Comparativamente, tudo isso parece ser muito mais rápido do que um pit stop de Fórmula 1 e, consequentemente, levanta suspeita de que a decisão já havia sido tomada anteriormente. Tombini, talvez ciente de que relatório do FMI traria revisão negativa ao PIB brasileiro, já que a projeção do relatório anterior estava bem defasada pelo tempo, poderia estar, eventualmente, com uma espécie de rascunho praticamente pronto para ser publicado antes mesmo da divulgação do relatório do FMI. Essa especulação ganhou força pelo fato de Tombini ter se encontrado com a presidente Dilma Rousseff na segunda-feira, 18, numa reunião que não constou na agenda oficial.

Lamentavelmente volta-se criar suspeita no mercado de que a política monetária é conduzida (ou sofre forte influência) pelo Palácio do Planalto. Esse mesmo receio recai, também, sobre a condução da política econômica. Nelson Barbosa começa fazer declarações incompreensíveis, relembrando os velhos tempos de Guido Mantega como ministro da Fazenda.

Nesta última segunda-feira, Barbosa afirmou não enxergar contradição no combate à inflação pelo Banco Central e, ao mesmo tempo, na melhoria de crédito direcionado. Algo estarrecedor. Por sinal, esse tipo de pensamento (ou ideologia, que tem resultado em atitudes e estratégias falhas e destruidoras dos fundamentos econômicos) é um dos principais causadores do longo período de inflação persistentemente elevada no Brasil.

Inevitavelmente, as sinalizações emitidas pelo Banco Central e Ministério da Fazenda nos fazem lembrar do filme de terror transmitido pela nova matriz econômica, implementada no primeiro mandato do governo Dilma.

Com o retorno da ideologia que destruiu os fundamentos econômicos do País, o brasileiro se mantêm apreensivo, pois sabe que a parte dois desse filme de terror já começou.

No mercado de capitais, poucas novidades. A bolsa de valores permanece vendida, embora com sinalização de esgotamento no curtíssimo prazo. Destaque para a possibilidade de retorno de prêmios atrativos nos contratos de juros futuros da ponta longa, devido à deterioração das expectativas para a inflação.


Nos Estados Unidos, o mercado acionário também permanece vendido, com sinalização de esgotamento da pressão no curtíssimo prazo. Já a tendência de alta de médio prazo está ameaçada.


28 comentários:

  1. Até 2018 o Brasil acaba.

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    1. Só não acaba porque somos a "fazenda" do mundo e os chineses morrem de fome se pararmos de vender soja, por exemplo. Tirando o agronegócio, o resto do País está numa situação muito ruim e sem perspectiva de melhora nem no longo prazo.

      Abs, bons negócios

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  2. Olá FI,

    Esses tempos tem sido duros. Bolsa brasileira caindo mais que chuva em janeiro, BC fazendo mais tosquice, ministro da Fazenda falando bobagens e principalmente uma presidente que não tem valor de mercado, sendo que não parece haver possibilidade de que seu mandato finalize antes de 2018 e ainda tem a China e seu esgotamento de modelo e força de contaminar demais mercados.

    Qual a estratégia recomendada para esses tempos? Tenho comprado Bradesco, Itaú e algumas outras empresas com bom histórico de balanços aproveitando as "oportunidades" da bolsa. Estou evitando BBAS porque possivelmente deverá ser sacrificado nessas lambanças do governo. Ao mesmo tempo, penso que estarmos na casa de 37k não significa que é uma ótima oportunidade, uma vez que perdemos o 'investment grade' e o fluxo de recursos do exterior em empresas brasileiras na bolsa tende a diminuir (faz sentido esse pensamento?).

    Quais investimentos seriam mais adequados agora tem temos ainda mais certeza de que o governo Dilma escolheu acelerar ainda mais o processo de afundar a economia?

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    1. Olá,

      Não vale a pena se esforçar para fazer stock picking no Brasil. As assests com muito mais estrutura estão com seus fundos de ações apanhando. Ao invés de fazer o stock picking, é melhor montar as posições nos índices, priorizando o timming da alocação. Um bom timming garante tranquilidade e rentabilidade ao portfólio de renda variável no médio e longo prazo. Não, apesar da situação horripilante (tanto macro, quanto micro), o valuation, de forma geral, está ficando cada vez mais atrativo. O valor de mercado do Google (528 bilhões USD), por exemplo, é superior ao valor de mercado de todas as empresas brasileiras listadas na Bovespa (463 bilhões USD). Não tenha dúvida de que há uma distorção de preço que será corrigida no longo prazo. O mais importante não é você tentar encontrar dicas na internet, isso nunca dá certo. Trabalhe na formação de sua estratégia operacional e dedique esforços para operar asset allocation (a cereja está aqui) de forma eficiente, aproveitando oportunidades tanto nos prêmios dos juros futuros (ou títulos da dívida soberana, pré-fixados e indexados ao IPCA, estão voltando a ficar interessantes), bolsa, câmbio e renda fixa. Na fase de aprendizado e dos testes, é necessário possuir um caixa robusto. Importante, também, não ter pressa, é possível que você "gaste" 8/10 anos entre a fase de aprendizado até a formação do portfólio. É um processo longo, mas é o único caminho que existe no mercado para atingir níveis satisfatórios de eficiência na gestão de capitais.

      Abs, bons investimentos

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    2. Valeu, FI! Tenho também aproveitado e feitos pequenos aportes nos títulos do TD sempre que surge uma oportunidade quanto a taxa ofertada. Também tenho um pouco em ETFs (BOVA, PIBB). Só câmbio que eu não estou investindo porque acho que o momento não é adequado. É bom saber que esse tempo de aprendizado é demorado.
      Vou manter a calma, haverá recompensa. =)

      Ah, o e-book é bem bacana. Parabéns!

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    3. Com certeza, se você manter disciplina nos estudos (muito do que você irá aprender no mercado não está nos livros), testes e no trabalho da formação da estratégia, em cerca de 10 anos se tornará um gestor tão competente (ou mais) quanto os badalados fundos hedges.

      Obrigado!

      Abs, bons negócios

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  3. Esse congelamento dos juros, somado à vontade do governo de injetar crédito na economia mais a baixa capacidade de produção da indústria pode ser a porta de entrada para a hiperinflação?

    Noberto

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    1. Por enquanto o risco de hiperinflação é muito baixo. O problema é que inflação de dois dígitos incomoda tanto quanto um elefante. É uma via longa e agonizante de empobrecimento e retrocesso. E quanto mais se demora para desarmar essas armadilhas, maior será o preço a ser pago no futuro. A conta chega todo ano, cada vez mais alta.

      Abs, bons negócios

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  4. Triste o que este governo está fazendo com a credibilidade do BC. Precisamos avançar na discussão sobre a independência dele, que foi mal discutida na loucura da campanha eleitoral. Pra quem teve Gustavo Franco, Armínio Fraga, Henrique Meirelles ter Tombini é dose. É, meu caro FI, as perspectivas econômicas só devem melhorar em 2019. Até lá, aumento do desemprego. Tá aí, esse é o grande legado social que o governo tanto se orgulha e deixará.

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    1. Esse importante debate sobre a independência do Banco Central foi ridicularizado ano passado. Impressiona o fato de o brasileiro aceitar esse tipo de jogo político. Realmente, a educação é a base de todas as grandes mudanças.

      Abs, bons investimentos

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  5. Bons comentários... vamos ver se esse sp500 segura aí ..

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    1. S&P500 segue aliviando no curtíssimo prazo, mas a leitura técnica desta pernada pesa contra a manutenção dos preços neste patamar. No curto prazo, a balança ainda pesa mais pro lado da venda.

      Abs, bons negócios

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  6. Dúvida de leigo no assunto ( comecei a estudar renda variável a pouco tempo).pode ser besteira, mas como não entedi vou perguntar rs
    Poderia me explicar, pfv, as frases:
    1. " A bolsa de valores permanece vendida, embora com sinalização de esgotamento no curtíssimo prazo". Esse esgotamento seria voltar a subir?
    2. "Destaque para a possibilidade de retorno de prêmios atrativos nos contratos de juros futuros da ponta longa". Seria títulos do TD?
    Obrigado.

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    1. Todas as perguntas são importantes. Fazer essas perguntas facilita o aprendizado de outros leitores.

      1) O esgotamento refere-se à tendência de curtíssimo prazo. Traders que especulam no curtíssimo prazo, por exemplo, precisam separar o que é leitura de curtíssimo prazo e o que é leitura de prazos mais longos, para se posicionarem conforme estratégia operacional. Apesar do alívio no curtíssimo prazo (mercado pra cima), a bolsa permanece vendida em prazos maiores, tais como curto prazo, médio prazo e longo prazo (mercado pra baixo). Eu deveria ter explicado melhor esse trecho no post.

      2) As taxas dos títulos do Tesouro Direto refletem as taxas dos contratos de juros futuros. Logo, um título do Tesouro Direto com vencimento em 2021, por exemplo, terá praticamente a mesma taxa praticada no contrato de juros futuros com vencimento em 2021.

      Abs, bons investimentos

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  7. Obrigado FI por compartilhar tantas informações importantes sempre com transparência! Fernando Henrique

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    1. Obrigado FH. Me lembrei do FHC rs.. É um nome pra ter muito orgulho.

      Abs, bons negócios

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  8. A pergunta que eu faço é, se este é o melhor momento de compra de ações ou vamos esperar até o final do ano no fundo do poço? pobretão nos últimos posts até disse que nem devíamos mais esquentar a cabeça com ações e colocar logo na renda fixa

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    1. Buscar fundo do poço é a mesma coisa que buscar água no Saara. Você vai desperdiçar energia cavando vários buracos em vão. A possibilidade de errar é tamanha que não vale a pena nem tentar. O melhor momento para comprar ações é aquele definido pela sua estratégia operacional. Evite fazer uma única entrada. Faça entradas parciais quando a sua estratégia começar apontar oportunidade de negócio.

      Abs, bons investimentos

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  9. Eu vejo poucas reflexões sobre o mercado tão simples mas tão completas. Parabéns FI, sempre que vejo seu blog atualizado me preparo para um bom texto.
    Gostei tmb que vc deu boas dicas para os leitores sem ter que recomendar nenhuma compra/venda , mas sim escolher um caminho e aprender nele.
    Fico curioso sobre asus preferência de um portfólio (ou operações , se tiver uma veia trader).
    Abraços , Fox

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    1. Obrigado!
      Utilizo tudo o que o mercado pode oferecer, inclusive trade de curto prazo. Apesar de não girar curto prazo há uns dois anos, devido à mudança nas características técnicas dos poucos papéis em que operava, pretendo retomá-los no futuro com uma técnica mais adaptada.

      Abs, bons negócios

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  10. Quais ativos você gosta, FI? Fundos imobiliários, ETFs (em vez de ações individuais?), renda fixa, dólar (não gosto de investimento direto em moedas, prefiro algo atrelado a elas)? Essa é mais ou menos sua alocação? Gosto de opções de compra também.

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    1. Tudo, menos derivativos, pois o poder de atração é mais forte e os efeitos psicológicos são mais altos, o que aumenta o risco de prejudicar a total disciplina necessária para condução da estratégia. O investidor com estratégia pronta e eficiente torna-se refém da razão, apenas cumpre o que ela determina e não "pensa" antes de tomar uma decisão de comprar/vender/manter. Isso é muito importante para evitar que os impactos psicológicos transmitidos pelo ambiente de negócios do mercado contaminem o processo de decisão. Por fim, o fato de considerar tudo o que o mercado pode oferecer em termos de produtos (menos derivativos) não significa que me posiciono em todos eles, há o momento certo para se posicionar em cada um deles.

      Abs, bons investimentos

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  11. Bom dia FI, gostaria também de agradecer pelo conteúdo. Teu blog é o melhor (de longe) ponto de discussão inteligente e completa sobre finanças.
    Sobre o TD, tenho a composição em torno de 70% em LTN 2018 e NTB 2019, 15% LTN 2021 e NTB 2024 e o restante em LFT. Estava querendo desmontar um pouco as posições até 2019 e alocar parte em NTB 2024 e está me parecendo um bom momento já que as curtas valorizaram e as taxas mais longas estão maiores. O que achas? Abraço!!!

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    1. Obrigado! LTN 2018 e NTNB 2019 acumulam valorização interessante no curto prazo. Se a estratégia for de giro curto, o momento é favorável para liquidar. Por outro lado, se a estratégia foi montada visando carregar os títulos até o vencimento, a posição também é confortável, pois o fator tempo joga ao lado dos títulos da ponta curta. Essa última (objetivo inicial de carregar até o vencimento) tem uma vantagem de o investidor poder aproveitar uma anomalia de mercado, se surgir, caso os títulos se valorizem muito além da conta antes do vencimento, justificando uma liquidação antecipada. Títulos para até 2024 se valorizaram um pouco, mas ainda podem ter espaço no portfólio nos preços atuais, na minha opinião é mais interessante usar o caixa (LFT, LCI, LCA, CDB, fundos DI, etc...) para financiar essas novas posições.

      Abs, bons negócios

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  12. Ótima fonte de informação o seu site amigo. Adicionei no meu blog. Obrigado.

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  13. FI,
    Embora o stock picking esteja dificil no momento atual, a partir de qual preco/valor patromonial poderiamos voltar a pensar nele? Agradeco

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    1. Olá, não é uma questão de indicadores fundamentalistas das empresas, mas sim de forte deterioração do ambiente macroeconômico e elevada intervenção (ineficaz, por sinal) do Estado na economia, o que torna o stock picking um campo minado.

      Abs, bons investimentos

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