sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Festival de erros de diagnóstico


As medidas anunciadas ontem no Conselhão poderão prolongar o sofrimento da economia brasileira por mais algum tempo. Os velhos erros cometidos no passado estão de volta, mostrando a incrível capacidade do governo em fazer diagnósticos errados.

Sob o respaldo de uma ideologia ridicularizada pelo mercado, o governo decidiu novamente recorrer à oferta de crédito na tentativa de impulsionar a economia. O pacote de crédito de 83 bilhões de reais, com possibilidade de utilização de recursos do FGTS, foi anunciado ontem sem qualquer detalhe relevante, mas com uma suspeita de que os beneficiados por taxas de juros possivelmente menores, entre outras generosidades, serão os velhos e conhecidos amigos do rei.

Obviamente, grupos que supostamente estariam compondo o círculo dos amigos do rei aplaudiram as medidas anunciadas e as direções sinalizadas pelo governo. Enquanto isso, o resto do País que se vire para trabalhar num cenário econômico desafiador, recorrendo às taxas de juros exorbitantes nos momentos de fraqueza ou necessidade.

Tal como ocorreu no passado, quando a nova matriz econômica foi colocada em prática pela primeira vez, o ministro da Fazenda (agora Nelson Barbosa) segue repetindo que as injeções de crédito não pressionam a inflação. Aberrações econômicas semelhantes, declaradas por diferentes ministros, mostram que as decisões continuam partindo de outro lugar.

A flexibilidade fiscal também está claramente ativa. Durante o Conselhão, Barbosa propôs estabelecer uma banda para a meta fiscal, curiosamente no mesmo dia em que foi divulgado o maior déficit primário da história.

O Banco Central também vai contribuir com sua parcela de flexibilidade, na inflação. A ata divulgada ontem se mostrou um show de desculpas esfarrapadas para manutenção da taxa básica de juros, mesmo com as projeções da autoridade monetária apontando para elevação da inflação, tanto em 2016 quanto em 2017.

O fato técnico e concreto (elevação nas projeções de inflação) foi descartado pelo Banco Central na implementação da política monetária. Por outro lado, a maioria dos membros do Copom considerou que as incertezas externas, tais como preocupação com o desempenho da economia chinesa e evolução dos preços do petróleo, foram determinantes para decisão de manter a taxa Selic em 14,25%.

Buscar incertezas no cenário externo, injustificáveis à inflação doméstica e condução da política monetária, não é uma novidade ao Banco Central da era da nova matriz econômica. Na ata de reunião dos dias 30 e 31/08/2011, quando o Copom decidiu cortar a taxa Selic de 12,50% para 12,00% ao ano, iniciando um ciclo de afrouxamento monetário no qual levou a taxa básica de juros aos 7,25% ao ano em outubro de 2012, é possível encontrar trechos como: “Também se apresentam como importantes fatores de contenção, a substancial deterioração do cenário internacional” ou “Dessa forma, o Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante”.

Entre agosto de 2011 a dezembro de 2015, o IPCA acumulou expressiva alta de 35,14%. O Banco Central pode tentar esconder sua incompetência, mas os números são cruéis, pois revelam uma falha, utilizando a palavra da presidente Dilma Rousseff, estarrecedora.

Após a sinalização de retorno da nova matriz econômica, emitida pelo governo no final do ano passado, o início de 2016 é marcado por mais um festival de erros de diagnósticos. Os mesmos erros que nos levaram ao atual atoleiro.

A grande diferença, agora, é que a situação econômica é tão complicada que não dá mais para empurrar com a barriga. A inflação atingiu dois dígitos, o rombo fiscal é insustentável, a inadimplência está mais alta e a confiança está mais baixa. O governo decepcionou mais uma vez, não só por insistir nos erros do passado, mas, principalmente, por fugir da responsabilidade de propor as necessárias reformas estruturais.

No ambiente externo, o FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) continua se mostrando um exemplo de eficiência na comunicação com o mercado. A FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros) se manteve estável entre 0,25% a 0,50% na reunião de Comitê realizada nesta semana, confirmando o gradualismo na política de aperto monetário.

O recuo da taxa de juros da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) para a faixa dos 2,00% ao ano mostra o sucesso na estratégia do FED, inviabilizando oscilações ascendentes abruptas na curva de juros futuros.


Mais do que isso, a curva dos juros futuros se mantêm descendente desde que a FFR subiu de zero a 0,25% para 0,25% a 0,50% ao ano, revelando movimento comprador intenso nas últimas semanas/meses. Contribuiu para corrida às Treasuries o aumento da tensão nas principais praças financeiras globais, o que provocou fuga de ativos de risco para a segurança.

O forte movimento de alívio nas Treasuries também abriu espaço para recuo nas taxas de juros dos títulos da dívida soberana em outras praças, incluindo a de países vulneráveis, como o Brasil. Isso explica o fato de as taxas brasileiras estarem despencando mesmo com os novos sinais de deterioração do quadro doméstico.

Além disso, o BoJ (Banco do Japão) reforçou o viés comprador nesta sexta-feira ao anunciar, inesperadamente, taxa de juros negativa em 0,1% sobre os depósitos que as instituições financeiras detêm no banco. A decisão apertada (5 votos a favor e 4 contra) mostra uma autoridade monetária dividida, porém pressionada a tomar mais medidas de impulso para que a recente tensão no mercado financeiro global não contamine a necessária confiança entre empresários e consumidores para que a economia possa sair da deflação.

Os principais mercados de ações globais seguem trabalhando movimento de recuperação no curtíssimo prazo. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones já se aproxima da linha central de bollinger, ainda sem sinalização de retorno predominante da força vendedora.


O PIB norte-americano anualizado do quarto trimestre subiu 0,7%, um pouco abaixo da previsão de 0,8% dos analistas, dando respaldo à política monetária gradualista tocada pelo FED.

Na zona do euro, destaque para o aumento da inflação de 0,2% em dezembro para 0,4% em janeiro, ambas na comparação com o ano anterior. Já o núcleo de inflação subiu de 0,9% em dezembro para 1,0% em janeiro. Apesar de serem números ainda muito baixos e distantes do centro da meta, revelam importante sinal de aceleração da pressão inflacionária.

Seguindo a mesma direção dos principais índices acionários globais, o Ibovespa segue trabalhando movimento de alívio, já conseguindo realizar teste na linha central de bollinger, mostrando predomínio da força compradora no curtíssimo prazo.

  
Algumas praças que caíram em intensidade semelhante ao tombo do Ibovespa nos últimos meses, tal como a mexicana, já conseguiram superar a linha central de bollinger no gráfico diário, abrindo espaço para manutenção do movimento de alívio nos próximos dias.


16 comentários:

  1. Essa medida tomada pelo Japão de colocar a taxa de juros negativa pode direcionar mais recursos para o mercado brasileiro?

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  2. Ótima explicação FI. Resta-nos esperar o que vai acontecer com o Brasil...
    Miguel

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  3. Governo não faz a menor ideia do que está fazendo .. essa a sensação ...
    bolsa americana aparentemente segurou no suporte ... nós aqui tentando montar fundo ...

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    1. Sim, a tendência de curtíssimo prazo se reverteu há duas semanas. Tanto aqui, quanto lá.
      Abs, bons negócios

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  4. Pois é, FI. Como você disse no texto anterior, surge a Nova Matriz Econômica parte 2. O mercado ainda está ajustando as expectativas do IPCA. Em breve, teremos mais previsões de alta no Focus. Quando eu for um investidor grande, estarei diversificado em ativos doutras moedas, num cenário como esse. Por enquanto, títulos indexados a índices de preços me servem como proteção.

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    1. Sim. Com relação à proteção em dólar (não há necessidade de buscar outras moedas), é acessível para qualquer investidor. Existem fundos cambiais que aceitam aplicação inicial de R$ 1.000,00. O ponto mais importante é ter uma estratégia para operar câmbio, que é diferente de uma estratégia para operar ações, por exemplo.
      Abs, bons investimentos

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    2. Por que não há necessidade? É diversificação. Claro que a economia americana é a maior do mundo e exerce influência no restante, mas, numa crise como a do subprime, outros países desenvolvidos sentiram pouco os efeitos desta (o PIB americano representa apenas 5% da riqueza mundial, salvo engano). Não gosto de fundos cambiais por dois motivos: come-cotas e investimento em algo que deprecia com o tempo (moedas), ou seja, só há ganho com volatilidade, e não com valor. Prefiro ativos que estejam indexados a elas (ETF do S&P500, por exemplo). Encaixa mais na minha estratégia de DCA. Abraços

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    3. Porque o câmbio é um mecanismo de proteção, que também te permite ganhar na oscilação da moeda. Já outras moedas não garantem a mesma proteção oferecida pelo dólar, além de serem mais voláteis e sofrerem mais intervenções das autoridades locais. O come-cotas é irrelevante, pois não se usa câmbio para hold numa economia como a brasileira, mas sim para proteção em períodos de curto/médio prazo. Mas se quer fugir do come-cotas, basta operar contratos futuros na BM&F. Muito pelo contrário, as economias continuam sofrendo as graves consequências das atitudes tomadas na tentativa de superar a crise do subprime. Tanto as desenvolvidas, quanto as emergentes. Entre os países em rota de recuperação, os Estados Unidos estão em melhor situação. Não tenho esse dado em mãos no momento, mas independente se for 3%, 5%, 8%, o maior PIB do mundo é, consequentemente, o mais rico ou o que mais concentra riqueza no mundo. Ainda assim, esse não é o único motivo que faz o dólar ser uma moeda diferenciada, acima das demais. Além de a economia norte-americana possuir a principal moeda de troca global, sem qualquer ameaça concreta das demais, são os únicos no mundo que possuem a impressora para quitar dívida externa, pois a captação no mercado global também é via dólar. Por esse motivo os títulos norte-americanos enchem os cofres dos demais banqueiros centrais mundiais, são o principal porto seguro do mercado.
      Abs, bons investimentos

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    4. Concordo contigo. Dólar é disparada a melhor moeda. Quando falei dos países desenvolvidos, são poucos, como Suíça e Cingapura, por exemplo, talvez Alemanha. Não sou muito de especular, de rotacionar a carteira. Mas sei que depende da estratégia. O que acha dessas praças? Austrália também, Coreia do Sul? Um país em cada continente. Talvez o holder poderia alocar uma pequena parte do patrimônio nos títulos desses países (ficaria exposto à moeda, mas também ao investimento em si). Quanto a derivativos, os call de dólar são uma boa opção (sem intenção de trocadilho rs) para proteção no curto prazo. Abraços

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  5. FI,
    Na estratégia de comprar BOVA11 apartir de um nível de atratividade(como agora por ex) e ir fazendo um bom preço médio até que a alta forte retorne pode ser uma boa estratégia. Mas olhando o caso do japão que foram 20 ou mais anos de baixa, isso não poderia acontecer no Brasil tbm?E tem como se protejer disso? abs Rodrigo

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    1. Sim, pode acontecer com qualquer índice de ações. Historicamente, ciclos de bear market não costumam ser muito longos no Ibovespa. O ciclo atual já é considerado um dos mais longos. O caso do Japão foi mais dramático por conta do forte choque deflacionário na economia. Você pode se proteger com posição vendida em contratos futuros na BM&F, mas perderá o timming para desmontar esses contratos quando o mercado virar para bull market. Normalmente, a confirmação de ciclcos de bull market vêm algum bom tempo depois de iniciado a reversão, o que costuma ser a fase mais forte do ciclo (justamente no início), onde as arrancadas são fortes e rápidas.
      Abs, bons negócios

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  6. Prezado FI

    Quando li "O forte movimento de alívio nas Treasuries também abriu espaço para recuo nas taxas de juros dos títulos da dívida soberana em outras praças, incluindo a de países vulneráveis, como o Brasil." é que entendi o porquê "das taxas brasileiras estarem despencando mesmo com os novos sinais de deterioração do quadro doméstico."
    Os fundos pré (sobretudo) e indexados à inflação estão bombando. Não tinha entendido; com Selic fixa e perspectiva próxima de aumento da inflação, comendo seus rendimentos, por que estariam subindo suas cotações? Não era para estarem descendo, com a procura por aplicações mais rentáveis?
    Uma pergunta: até quando você acha que vai a farra destes fundos?

    Outro assunto: no post anterior você disse: "As assests com muito mais estrutura estão com seus fundos de ações apanhando." deve-se convir que, pela legislação brasileira, um fundo de ação (pelo que me lembro; corrija-me se estiver errado!) não pode vender tudo e só ficar com caixa. Isso não explicaria o fato de estarem apanhando, sobretudo os fundos de valor?

    Abraços do Ramsés

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    1. Exatamente. Daí a importância de sempre estar atento aos movimentos das outras praças financeiras, pois muito do que acontece aqui é mero reflexo do que acontece no mundo. Impossível prever até quando vai esse movimento, o investidor precisa apenas estar preparado para aproveitar oportunidades eventualmente abertas por esses movimentos de mercado.
      Fundos de ações precisam ter no mínimo 67% da carteira em ações. Os 33% restantes podem ficar no caixa. Normalmente, um investidor individual focado nessa estratégia de valor se posiciona até com mais peso em ações. A queda do índice Bovespa esconde um pouco a tragédia dos últimos anos. Não são poucos os casos de papéis populares (não necessariamente blue chips), bastante comentados por investidores e pelas casas, que simplesmente derreteram. Muitos deles trabalham movimentos clássicos de trajetória descendente definitiva, ou seja, não voltarão às máximas históricas do passado.
      Abs, bons investimentos

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  7. Olá! Gosto do seu site, pois ele é técnico, critica o que acha que há de errado na economia sem gastar tempo com partidarismo barato, mas há muitos termos que não domino, pois sou leigo em economia. Você teria alguns livros para indicar? Muito obrigado.

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    1. Obrigado!
      Dê uma olhada na página iniciantes: http://www.financasinteligentes.com/p/mercado-breve-introducao.html

      Indico esses dois materiais, são gratuitos:

      http://www.bmfbovespa.com.br/pt-br/educacional/publicacoes-educativas/folhetos-educativos/folhetos-educativos.aspx?idioma=pt-br

      http://www.portaldoinvestidor.gov.br/portaldoinvestidor/export/sites/portaldoinvestidor/publicacao/Livro/LivroTOP-CVM.pdf


      Abs, bons negócios

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