quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Xangai revela nível de tensão global


A pouca usual impaciência do mercado com a bolsa de valores de Xangai, na China, revela, mais uma vez, o elevado grau de tensão entre os principais agentes e playres globais. Nos anos anteriores, inclusive antes mesmo do estouro da crise em 2008, poucos se importavam com as oscilações bruscas que afetavam a bolsa de Xangai e não havia, sequer, cobertura digna da mídia especializada frente aos fatos técnicos relevantes ao mercado de ações chinês.

A queda da bolsa de Xangai nas últimas semanas transmite sensação de um grande problema. Entretanto, ao observar o gráfico, podemos notar que a bolsa de Xangai ainda está um pouco longe de alcançar os 2.850 pontos registrados em meados do ano passado e continua muito acima da pontuação média verificada em 2014, em torno de 2.000 pontos.


Isso não significa que, apesar dos ganhos expressivos nos últimos anos, os fundamentos da economia chinesa estão muito melhores do que em 2015 e 2014. Da mesma forma que a recente queda no mercado acionário não significa que, somente agora, surgiram sinais de deterioração da atividade econômica, apesar de ser essa a sensação transmitida pelo noticiário.

Mas hoje qualquer espirro nas ações chinesas é capaz de afetar com força várias moedas, títulos soberanos e índices acionários mundo afora. À primeira vista, esse evento mostra que o canal de contágio ocorre pelo mercado financeiro, mas na verdade os players globais estão tensos com a falta de demanda global e, portanto, qualquer motivo, pequeno ou grande, teria potencial de provocar volatilidade nos preços dos ativos.

Como a China é considerada, justificadamente, o motor do mundo, tudo o que acontece no gigante asiático precisa ser acompanhado com atenção e tudo o que falhar, em matéria de estratégia de política econômica, gera preocupação.

Os agressivos programas de afrouxamentos monetários, implementados desde o estouro da crise de 2008 por diversos banqueiros centrais mundiais, escondeu problemas não só da China, mas de vários países, debaixo do tapete. Com o fim da festa monetária se aproximando, esses problemas começam a surgir naturalmente e a China tem vários deles.

O insustentável modelo de crescimento chinês das décadas passadas atingiu ponto de esgotamento (que por sinal, continua provocando impacto pesado no mercado de commodities), mas a transição para um modelo mais focado na demanda interna está encontrando obstáculos maiores do que o esperado pelo governo. Além disso, não se sabe o que fazer com tanto excesso de produção pouco competitiva e muito menos como desarmar uma bolha de crédito maior do que aquela estourada com violência nos Estados Unidos.

Sem conseguir se adaptar ao novo modelo de crescimento e, ainda, com o velho paradigma esgotado, a China passa a exportar seus problemas para o mundo via câmbio (desvalorizando a moeda local).

O mundo economicamente fragilizado e socialmente mais desigual, consequentemente mais instável, não engoliu os problemas do gigante asiático e as reações podem ser observadas dentro e fora do mercado financeiro. O tombo das commodities contribuiu para o aumento dos conflitos geopolíticos, provocando, recentemente, uma corrida por maior influência no Oriente Médio entre os dois principais players locais (Arábia Saudita e Irã). Os russos também tentam ganhar mais influência em algumas regiões da Ásia e estão se metendo mais nas complicadas brigas domésticas do Oriente Médio. Os norte-americanos e europeus tentam sustentar suas históricas estratégias geopolíticas, mas o acúmulo de problemas domésticos está roubando mais atenção das autoridades locais.

No fim das contas, o poder de influência e/ou estratégia geopolítica pode ser traduzido para manutenção ou conquista de mercado. Todos querem mais mercado, tanto para compensar o enfraquecimento da demanda interna, quanto para manter o nível de receita com a queda dos preços das commodities.

Para apimentar o atual nível de tensão global, as políticas de afrouxamento monetário de algumas praças começam a mostrar sinais de esgotamento, enquanto outras praças já iniciaram processo de normalização das condições monetárias. Essa reversão acontece num momento de elevado endividamento das empresas, não somente as brasileiras, mas de vários outros países em desenvolvimento.

O processo de desalavancagem do endividamento ainda é muito incipiente no mundo, mas já começou com o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) dando um tiro de advertência na largada. Isso significa que quem se endividou demais durante toda a fase de afrouxamento monetário do pós-2008 terá que acertar os balanços. Tanto os governos, quanto as empresas, terão que encarar um período de ajustes nas contas que, a princípio, será longo (anos).

O problema é que nem os governos, nem as empresas, contavam com a aceleração do movimento de enfraquecimento da demanda global, mesmo com o sistema muito irrigado. Como o ajuste foi prorrogado o máximo possível, devido às condições desfavoráveis, este, também, atinge ponto de esgotamento. O próprio mercado está impondo o ajuste, para o azar de governos e empresas, num momento desfavorável.

George Osborne, ministro das Fianças do Reino Unido, reforçou a fila puxada pelo FED nesta semana, ao afirmar que seu País deve se preparar para deixar os níveis mínimos nas taxas de juros mantidas em 0,5% desde 2009 pelo BoE (Banco Central da Inglaterra). Osborne ainda alertou que se o País não acertar as contas públicas, voltando ao superávit fiscal, todo o progresso conquistado nos anos anteriores poderá ruir facilmente.

O presidente do Banco Central canadense, Stephen Poloz, segue na mesma linha, ao defender a desvalorização do dólar canadense e advertir para o aumento da inflação doméstica e aperto na política monetária (elevação da taxa básica de juros). Inflação e juros ascendentes contribuem tanto para a desalavancagem do sistema quanto para o ajuste nas contas públicas.

Já em outras praças, onde a imposição do ajuste chegou mais cedo, líderes procuram alternativas para destravar o crescimento em meio ao desordenamento dos fundamentos econômicos causados pelas opções tomadas no passado. Dmitri Medvedev, primeiro-ministro da Rússia, quer um novo modelo de crescimento que não dependa tanto da receita gerada pelas exportações de commodities, principalmente o petróleo. Esse novo modelo passa pela modernização da capacidade produtiva, que por sua vez depende do sucesso na implementação de reformas estruturais.

Medvedev também fez outra advertência interessante, muitas vezes não observada ou negligenciada pelos líderes regionais ou mesmo investidores e agentes, ao lembrar que o fim da trajetória de queda do PIB (Produto Interno Bruto) não representa automaticamente a passagem ao crescimento. Esse risco aumenta em quadros onde a recessão se aproxima de uma depressão (sequência de fortes resultados negativos).

Toda essa dinâmica global é desfavorável à vulnerável economia brasileira, exacerbando a gravidade de nossos problemas. A Eurásia Group, uma das maiores consultorias do mundo, colocou o Brasil entre os 10 maiores riscos internacionais para 2016. Já uma pesquisa feita pela Bloomberg com 93 economistas apontou o Brasil como o segundo pior resultado provável de crescimento de 2016, ficando atrás apenas da péssima companhia da Venezuela no ranking.

A gravidade do nosso quadro doméstico dispensa comentários adicionais, insistentemente debatidos e alertados nos últimos anos. O destaque do momento no quadro local recai sobre o aumento da atratividade da bolsa de valores, que não acompanhou, na mesma intensidade, a melhora nos prêmios de risco constatada no câmbio e títulos públicos nos últimos meses/anos.

Os principais índices acionários globais permanecem vendidos. Em especial, a pressão negativa na Bovespa aumentou com o rompimento das linhas de apoio localizadas na faixa dos 45k. Não há mais regiões de suportes relevantes.


11 comentários:

  1. Olá Fi, tudo bom ? Resolvi dar uma aparecida, viu ai tudo que no passado era minha expectativa aos poucos está concretizando-se rsrsrs ! Muitos, perdi até a conta, falavam que eu era um visionário e ai está o resultado, desde 2010 que minhas simples análises sinalizavam teste do topo histórico e a gente conversava que nosso Brasil estava brincando de "faz de contas". Abraço. Ivan Gomes

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    1. Olá Ivan, o faz de contas virou um filme de terror, parte II.

      Abs, bons negócios

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  2. Mais uma analise excelente. Olha, tomei uma decisão importante no final do ano e zerei minha posição em dólar com um lucro espetacular e voltei para o mercado de ações. O que você pensa dessa minha decisão? Alias agradeço a você ter lucrado no cambio. Você e o fundo Verde. Valeu!

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  3. Olá FI! Após vários anos na blogosfera de finanças resolvi abrir meu próprio blog também. Vou passar sempre por aqui e contribuir na discussão. Te coloquei nos meus links no meu blog. Abraço.

    frugalsimple.wordpress.com

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  4. Acho que a falta de comentários se deve a depressão que a economia brasileira se encontra, resultando na depressão do investidor também.

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    1. O investidor não tem motivo para estar em depressão, pelo contrário, apesar das dificuldades, uma boa estratégia de asset allocation não só garante a tranquilidade necessária, como alavanca ganhos em períodos de oportunidades. Sei que essa não é a realidade da maioria, mas espero que sirva de aprendizado para muitos que estão iniciando no mercado ou experientes que insistem em cometer velhos erros.

      Acho que tenho culpa na ausência dos comentários, pois estou postando com menos frequência. Não por conta da economia (o que está acontecendo hoje é consequência do que discutíamos aqui há alguns anos), mas por falta de tempo mesmo rs..

      Abs, bons investimentos

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  5. FI, post um tanto preocupante. Porém é o cenário que tenho percebido também , e devemos estar preparado. Em termos de alocação segura, mesmo em um cenario de um estouro de crise (onde a demanda global retrair-se mais ainda e por qualquer motivo de insolvencia haja um contagio global) você ainda consideraria dolar em espécie como um porto seguro? Em termos de bovespa, existe algum tipo de empresa capaz de resistir a um cenario de contagio global? (SLCE por exemplo tem grande parte do seu valor no valor intrinsico de suas fazendas, o qual é um ativo real bem resiliente)

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    1. Dólar via Bovespa ou fundos de investimento, sim é um porto seguro essencial para portfólios, mas a alocação precisa ser feita no timming ideal. Com relação às empresas, mantenho a mesma postura dos últimos anos: é inviável fazer stock picking, busque os índices e priorize o timming na estratégia.

      Abs, bons invsetimentos

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  6. FI,

    Parece que o Tombini chutou o balde hoje. Prevejo tempos mais difíceis do que os que já vínhamos enfrentando. Será que poderemos ver até o final da Dilma (2018) uma ignorância tão grande quanto a do tipo "baixar os juros"?

    É bobagem demais no ventilador pra ser verdade...

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    1. Em se tratando de governo petista, nunca se pode descartar possibilidades, até as que parecem ser bobagem demais. Considero essa hipótese não desprezível, os portfólios continuam exigindo, cada vez mais, proteção contra inflação.

      Abs, bons negócios

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