quinta-feira, 10 de março de 2016

BCE está sozinho na rodada global de decisões de política monetária


O Comitê de Política Monetária do BCE (Banco Central Europeu) anunciou nesta quinta-feira um novo reforço nas estratégias agressivas de afrouxamento monetário. A taxa de depósito foi novamente decepada em 0,1 p.p., para -0,4% ao ano, aprofundando o território do juro negativo, algo impensável entre banqueiros centrais até a década passada. Já a principal taxa de refinanciamento foi reduzida de 0,05% ao ano para zero e a taxa de empréstimo marginal (usada para as operações de overnight) caiu de 0,3% ao ano para 0,25% ao ano.

Além da bateria de cortes nas três principais taxas de juros praticadas na zona do euro, a autoridade monetária também vai começar a comprar títulos de dívida corporativa e lançar quatro novas rodadas de pacotes de crédito barato, o que provocará aumento no volume de compras mensais de ativos para 80 bilhões de euros, ante 60 bilhões de euros praticados até então. O calibre surpreendeu até mesmo as expectativas do mercado (esperava-se aumento para 70 bilhões de euros).

O objetivo de todas essas medidas permanece o mesmo: impulsionar os empréstimos, o consumo e a inflação. Mesmo entregando um pacote maior do que o esperado para impulsionar a economia e impedir que a inflação extremamente baixa se prolongue ainda mais, os europeus não depositaram a devida confiança no BCE.

Frankfurt caiu 2,31% nesta quinta-feira. Paris cedeu 1,70%. Milão recuou 0,50%. Até Londres foi contaminada, fechando o dia em baixa de 1,78%. O fato de o mercado não acreditar na eficácia das (novas) medidas de impulso do BCE se deve ao histórico nada favorável. Há alguns anos a autoridade monetária européia vem queimando cartuchos para tentar reverter o quadro de lento crescimento e inflação muito baixa, sem obter o sucesso esperado. A projeção de inflação de 2016 foi revisada pelo banco de 1% para 0,1%.

Num mundo onde os Bancos Centrais seguem desalinhados (utilizando estratégias diferentes, o que acaba criando uma disparidade significativa de taxas e condições de preço dos ativos), as operações de carry trade e/ou fluxos de capitais só tendem a aumentar.

E já correm boatos de banqueiro central supostamente arrependido de levar a taxa de juros para território negativo. O BoJ (Banco do Japão) não deve cortar novamente os juros na reunião de política monetária a ser realizada na próxima semana.

Desde quando o BoJ levou o juro básico para território negativo no final de janeiro deste ano (-0,1%) o mercado japonês tem experimentado choques de volatilidade, se tornando muito instável, o que pode ter intensificado a busca de ativos mais rentáveis por investidores e fundos japoneses em outras praças. É sempre bom relembrar que os investidores japoneses estão entre os maiores especialistas em carry trade do mundo e sempre estão de olho nos ativos brasileiros.

Situação semelhante também ocorre na China. Mesmo com o aumento na dosagem das políticas de afrouxamento monetário nos últimos meses, o País enfrenta uma dura fuga de capitais, o que tem provocado contínuo recuo das reservas do Banco Popular (Banco Central chinês). Apesar de ainda estar num patamar significativamente elevado, as reservas do Banco Popular atingiram 3,20 trilhões de dólares neste mês, o menor nível desde novembro de 2011.

Entretanto, tal como o BoJ, o Banco Popular também se esquivará de continuar aumentando a dosagem nas políticas de estímulo. A inflação ao consumidor na China superou as expectativas em fevereiro, acelerando ao ritmo mais forte desde julho de 2014, para 2,3%, ante 1,8% registrado em janeiro. A aceleração mais intensa da inflação impedirá mais afrouxamento monetário na China, pois é uma “desculpa” perfeita ao Banco Popular que estava muito pressionado pelo governo a agir pelo governo.

Com o BoJ e Banco Popular, entre os principais banqueiros centrais mundiais, sinalizando ajuste nas velas e o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) já na rota da política monetária contracionista, o BCE está ficando sozinho na região turbulenta, o que poderá agravar os problemas para a zona do euro.

Se por um lado os banqueiros centrais que ultimamente aumentaram as doses nos seus programas de estímulos monetários estão enfrentando dificuldades para lidar com a turbulência dos mercados em suas respectivas praças, banqueiros centrais em direção oposta estão navegando em águas tranquilas.

Praças como Brasil e México estão recebendo de portas abertas o intenso fluxo de capital estrangeiro, aliviando pressões internas.

O dólar contra real perdeu sua principal base de sustentação, desarmando uma importante zona de congestão de médio prazo, bem como o suporte da média móvel simples de 200 períodos diária, intensificando a força do movimento descendente.


Investidores e gestores de fundos que preferem jogar a favor da curva seguem aproveitando a oportunidade direcional entre câmbio, juros e bolsa, alimentando o movimento de massa.

As taxas dos contratos de juros futuros continuam despencando (mostrando intenso fluxo comprador), onde as pontas mais curtas já mostram prêmio de juros negativo em relação ao atual patamar da taxa Selic ao passo em que as pontas mais longas diminuem o GAP existente até pouco tempo atrás com as pontas mais curtas.


No gráfico acima pode-se constatar a evolução das taxas do contrato de juros futuros para vencimento em 2018 com o contrato de juros futuros para vencimento em 2022. Nota-se que a redução do GAP entre os contratos foi muito rápida, o que sinaliza onde está o maior apetite da massa (justamente nos títulos mais longos).

A bolsa de valores segue cravada na máxima do ano, apesar do elevado nível de sobrecompra. O fluxo intenso tem impedido um necessário processo de realização saudável de curtíssimo prazo nos preços.
  

A próxima zona de resistência está localizada na linha dos 50k, região de forte apego psicológico e com potencial de provocar enrosco, mas sob o apoio de linhas importantes, como a média móvel simples de 200 períodos diária, o mercado não apresenta sinais de retorno ao território bear, gerando certa blindagem à tendência altista iniciada na casa dos 37k.

8 comentários:

  1. É FI.... esse europeus e os asiáticos não querem aceitar o estado de estagnação e diminuição de crescimento forte... e tome mais crédito para aumentar o crescimento... uma hora vão pagar o preço dessas escolhas ....

    Por aqui.. só a política movimenta nossa bolsa.. e como movimenta! volume na bovespa tem sido bem a cima da média.. gringos entrando... agora claro .. isso só vai se sustentar se continuar caminhando na direção de tirar o PT do poder ..

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    1. A receita funciona, mas os banqueiros da Ásia e Europa não estão conseguindo atingir a mesma eficácia dos Estados Unidos. O FED agiu mais rápido e soube se comunicar melhor. O timming da ação e a comunicação são tão poderosos quanto as injeções bilionárias no sistema. Discordo, a política é só a cereja do bolo. Expliquei nos últimos posts o meu ponto de vista.

      Abs, bons investimentos

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  2. FI. Até onde vai tudo isso? Está difícil e arriscado operar nesse quadro, baseado apenas em fluxo, com uma economia em frangalhos. Se entrar seguindo fluxo arrisca-se a tomar um gap em sentido contrario na abertura do dia seguinte, tornando inócuo o stop. Se segue fundamento, vai perder para o fluxo. Por ora estou apenas olhando pois nao ha previsibilidade alguma nesse cenário.

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    1. Essa distorção de macro vs fundamentos dificulta um pouco, mas faz parte do jogo. Isso não é incomum e costuma acontecer com certa frequência em várias praças, não só no Brasil. Jamais vamos encontrar previsibilidade no mercado. Incertezas sempre serão constantes. Você pode operar a favor da curva/tendência ou operar contra a curva/tendência, isso pouco importa. Em ambos os casos você conseguirá operar com eficácia. O ponto fundamental é possuir estratégia própria adaptada à operação que será montada no mercado. Tendo uma estratégia você saberá quando entrar e quando sair. Tendo uma estratégia eficiente você saberá quando entrar, quando sair e ter um resultado satisfatório.

      Abs, bons negócios

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  3. Parabéns pelas análises!

    Ao considerarmos a trajetória ascendente da dívida pública e o prêmio de risco na curva longa dos juros; o mercado não lhe parece demasiadamente otimista!? Ou temos, meramente, uma expressão da bipolaridade e consequente correção dos exageros que este promove na precificação dos ativos.

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    1. Obrigado! Creio que cada investidor tem seu julgamento próprio entre mercado otimista/pessimista ou mesmo eficiente/ineficiente. É o que faz mover os preços. Na minha avaliação o fluxo só está reagindo às estratégias dos banqueiros centrais. Em termos puros e simples de fundamentos, os preços estão salgados.

      Abs, bons negócios

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  4. Olá, fugindo um pouco do assunto, você ficou sabendo da decisão do STJ sobre o dever do FGC em indenizar o fundo de pensão como se fosse apenas um investidor e não de ter que indenizar cada cotista do fundo? Eu não tenho investimentos desse tipo, mas fiquei assustado, pois não sabia que havia um limite maior para cada "investidor", que parece ser de R$ 20 milhões. Ainda não analisei com mais profundidade o assunto, mas deixo aqui registrado por achar o tema bastante relevante.

    Abraços.

    Links sobre o assunto:

    http://jota.uol.com.br/protecao-do-fgc-aos-participantes-de-fundos-de-pensao-tem-limite-decide-stj

    http://www.conjur.com.br/2015-jul-03/protecao-fgc-vale-entidade-investidora-nao-associado

    http://www.conjur.com.br/2016-jan-05/fundo-nao-indenizar-individualmente-falencia-banco

    http://oglobo.globo.com/economia/negocios/stj-vai-definir-disputa-de-500-milhoes-entre-fundos-de-pensao-fgc-15060750

    http://www.tostoadv.com/fundo-garantidor-vence-disputa-bilionaria-no-stj/

    http://bugelli.com.br/fgc-obtem-vitoria-no-stj-contra-fundacao/

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    1. Obrigado pelos links!

      Sobre o assunto, deixei minha opinião na caixa de comentários desse post: http://www.financasinteligentes.com/2016/02/hora-de-parar-com-brincadeira.html

      Abs, bons investimentos

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