quinta-feira, 31 de março de 2016

Yellen está feliz e o mundo respira aliviado


A estratégia da chair do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, para conduzir as expectativas do mercado na direção pretendida pela autoridade monetária norte-americana durante a fase crítica de reversão da política monetária foi um sucesso.

Pode-se constatar nesses pouco mais de três meses após a primeira elevação da meta para a FFR (Federal Funds Rate - taxa básica de juros), de zero a 0,25% para 0,25% a 0,50%, que nada do que se temia no mercado aconteceu. Duros choques previstos por diversos economistas e analistas durante todo o ano passado sumiram como num passe de mágica.

Usando uma linguagem simples e dando passos bem cautelosos, previamente antecipados, Yellen não só surpreendeu muitos agentes no mercado como mostrou, novamente, a significativa força embutida na estratégia de comunicação dos banqueiros centrais, que por sua vez se sobressaiu ao deslocamento da FFR.

Os preços de dois dos principais ativos globais, que fazem parte de uma espécie de espinha dorsal do sistema financeiro mundial, corroboram o sucesso da estratégia do FED. O dólar contra uma cesta de principais moedas globais parou de subir em 2015 e entrou em movimento corretivo durante todo o primeiro trimestre de 2016.


A moeda iniciou uma tendência de baixa marcada pelo anúncio da primeira alta na meta para a FFR em dezembro de 2015. A correção ganhou força, levando ao rompimento descendente da importante média móvel simples de 200 períodos diária.

A desvalorização do dólar eliminou, pelo menos por ora, os receios do FED quanto aos futuros negócios de empresas norte-americanas no exterior. Esse movimento permite certa competitividade aos seus produtos, com as exportações auxiliando o crescimento econômico.

Já as taxas de juros futuros seguem muito bem comportadas. O prêmio da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) não só parou de subir, como segue bem abaixo dos perigosos 3% atingidos em 2014. O nível atual apresenta até uma folga para futuras altas no rendimento da Treasury sem causar problemas à estratégia de política monetária do FED, bem como para a economia dos Estados Unidos.


Mas se Yellen está feliz com o sucesso de sua estratégia, o que dirá os demais banqueiros centrais mundiais, dependentes de decisões importantes como as do FED. Estes respiram mais aliviados. Alguns, como o Banco Central do Brasil, souberam potencializar os efeitos criados pela janela de oportunidade adotando uma estratégia ousada.

Dados do Instituto de Finanças Internacionais mostraram que os fluxos de capital estrangeiro para as bolsas e mercados de renda fixa de países emergentes saltaram para impressionantes 36,8 bilhões de dólares somente no mês de março, atingindo o nível mais alto dos últimos 21 meses.

A reunião de Comitê do FED, realizada neste mês, aumentou a intensidade do fluxo de entrada de capitais em praças emergentes, com a adoção de um tom ainda mais cauteloso. O comunicado acrescentou riscos relacionados aos acontecimentos globais, o que reforça uma tendência não tão hawkish na política monetária.

Por conta disso, a mediana das novas projeções dos membros do Comitê para a FFR caíram para 0,875% neste ano, sugerindo realização de apenas duas altas em 2016. Em dezembro do ano passado, esperava-se quatro altas de 0,25 p.p. na FFR. Para o fim de 2017, a mediana das projeções também caiu para 1,875%. Para o término de 2018, as projeções apontam FFR em apenas 3%. Num prazo ainda mais distante, a FFR deve atingir ponto de equilíbrio em 3,25%, configurando um quadro perfeitamente possível de ser trabalhado até o fim desta década com o mínimo de traumas possíveis.

A perspectiva de juros não tão elevados nos Estados Unidos reduz riscos de novas fugas de capitais em países emergentes, já que os ativos norte-americanos não ficarão tão atrativos quanto se esperava anteriormente. Praças arriscadas, mas que apresentam prêmios vultosos, estão se beneficiando desta nova dinâmica global.

Bancos centrais do Sudeste Asiático estão, inclusive, implementando a mesma estratégia adotada com sucesso no Brasil em janeiro deste ano. A simples ameaça de corte na taxa básica de juros tem provocado uma enxurrada de capital estrangeiro no sistema financeiro dessas praças, tal como ocorreu/ocorre no Brasil.

Prova disso está no desempenho do principal ETF para mercados emergentes no mundo. O índice MSCI conseguiu superar a média móvel simples de 200 períodos diária, agregando força à tendência de alta iniciada no final de janeiro deste ano.


Tal como no Brasil, a arrancada do índice MSCI também ocorre em desacordo com os fundamentos. Nos últimos 12 meses, analistas cortaram em quase 15% suas projeções de crescimento para os lucros das empresas de mercados emergentes, segundo o Instituto de Finanças Internacionais.

Os investidores estrangeiros não estão tão preocupados com a situação macro das praças emergentes, mas sim em aproveitar janelas de oportunidades criadas pelos bancos centrais. Além disso, alguns players acreditam que a crise em algumas praças possa provocar mudanças positivas no longo prazo, o que justificaria preços mais elevados dos ativos.

No caso brasileiro, os estrangeiros seguem confiantes e possuem motivos justificados para tal, mas podem estar subestimando um pouco nossa rápida capacidade de mudança. O que eles apostam no curto prazo (ajuste fiscal e algumas reformas) pode, na verdade, demorar um pouco mais (ou muito mais) para se concretizar.

O ambiente altamente polarizado atrasará o nosso processo de mudança, já que as discussões saudáveis saíram de cena para dar lugar às baixarias e ataques pessoais entre grupos dos dois lados, tanto no meio político, quanto no meio social.

Isso não significa que os estrangeiros, ao perceberem o erro na avaliação do timming da mudança, irão pular fora do Brasil na mesma velocidade que entraram. O driver principal, para eles, continuará sendo as estratégias de política monetária de seu banqueiro central e do banqueiro da praça de destino do capital.

O Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central brasileiro divulgado nesta quinta-feira não saiu tão dovish quanto ao tom adotado na comunicação da autoridade monetária local nos últimos meses, o que pode provocar uma pausa, a princípio ainda de curto prazo, no forte fluxo comprador observado desde o final de janeiro.

O documento mostra que as projeções do Banco Central para inflação subiram de 6,2% para 6,6% em 2016 e de 4,8% para 4,9% em 2017, mesmo considerando uma maior retração da atividade econômica e dólar menos apreciado. O que é grave. A estimativa para conversão da inflação ao centro da meta (4,5%) ocorre, agora, somente no primeiro trimestre de 2018.

Os números continuam contrariando as promessas do Banco Central. Lamentavelmente, a quebra de compromissos passou a ser corriqueira há um bom tempo. A nova promessa (circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo CMN, em 2016, e fazer convergir a inflação para a meta de 4,5%, em 2017) continua sendo repetida nos comunicados sem que os agentes depositem a devida confiança.

Reiterando no Relatório Trimestral de Inflação divulgado hoje, que “essas condições não permitem trabalhar com a hipótese de flexibilização monetária”, o Banco Central pode, agora, frear o apetite dos investidores no mercado doméstico, criando condições para reversão, a princípio de curtíssimo prazo, nas curvas de juros futuros, trajetória do câmbio e da bolsa de valores.

Em função da expressiva arrancada constatada nos últimos meses, os ativos apresentam grande folga para correção saudável de preços. O índice Bovespa marcou topo na faixa dos 52k, com um candle característico de reversão seguido por sinais de esgotamento da tendência (marubozus de alta combinados com indicadores técnicos sobrecomprados).
  

A linha de suporte relevante mais próxima é formada pela média móvel simples de 200 períodos diária. Embora não atue como divisor de águas para manutenção ou interrupção da tendência altista iniciada em 37,2k, a linha será importante para medir a força do atual movimento vendedor.

4 comentários:

  1. Parabéns por mais uma ótima análise! Acompanho seu blog, é um dos mais sérios nesse mar de senso comum e superficialismo que encontramos por aí. Não me admiro, boa informação sempre foi coisa rara, não seria diferente agora. Abraço e continue postando!

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  2. é .. o mundo lá fora tá fichinha perto de operar bovespa .... e ai? dá impeachment ou não? rs

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    1. Nada diferente do que acontece aqui pode ser encontrado lá fora. Os fluxos nos mercados de moedas, juros e bolsa estão na mesma direção. A diferença é de intensidade, o que é normal.

      Está parecendo que não rs... O povo quer, mas a oposição é muito incompetente e consegue impressionar negativamente a cada dia que passa. Mas parece que as eleições gerais está ganhando força. Vamos ver.

      Abs, bons negócios

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