quinta-feira, 14 de abril de 2016

O que o mercado está dizendo e, você, provavelmente não prestou atenção


O processo de impeachment continua roubando atenção dos investidores, operadores, gestores, economistas, analistas e repórteres da mídia local. Apesar de ser um evento importante do ponto de vista político brasileiro, pouco importa, ao Sr. Mercado, qual será o seu desfecho.

O mercado financeiro global continuará seguindo com muita atenção às políticas monetárias dos principais bancos centrais. Poucos parecem ter notado, mas são elas (políticas monetárias) o principal driver para os preços dos ativos nesta década.

Não é pra menos. Pouco depois do estouro da crise financeira internacional, o mundo assistiu o início de um perigoso processo de perda de força das lideranças políticas regionais. Ficou mais difícil governar em qualquer País do planeta, pois novos instrumentos e tecnologias facilitaram a mobilização e atuação de ativistas sociais, imprensa, entidades, partidos de oposição, pequenos grupos organizados, etc.

A crise política brasileira é só um reflexo desse fenômeno. A fragmentação do poder deixou sequelas em diversos países da África, Oriente Médio, Ásia e Europa. Desembarcou na América Latina e já está batendo na porta dos Estados Unidos, com o surgimento de figuras como Donald Trump.

Em função das enormes dificuldades de governar encontradas pelos líderes políticos regionais e, consequentemente, tocar uma agenda econômica forte o suficiente para garantir o crescimento sustentado no médio e longo prazo, banqueiros centrais se viram forçados assumir a responsabilidade para, ao menos, fazer o possível para manter a roda da economia girando, mesmo que em velocidade baixa.

Os acontecimentos desta semana foram marcantes, pois abrem espaço para manutenção da flexibilização monetária em praças importantes ao funcionamento do sistema financeiro global.

Em seu relatório de Perspectiva Econômica Global, o FMI (Fundo Monetário Internacional) cortou a projeção de crescimento global para 2016 pela quarta vez consecutiva, agora caindo de 3,4% para 3,2%. A entidade alertou para o risco de estagnação generalizada e que o crescimento mais fraco pode deixar a economia global mais vulnerável a choques, tais como depreciações cambiais ou agravamento de conflitos geopolíticos.

O FMI voltou a pedir às autoridades globais que tomem ações coordenadas para impulsionar a demanda com reformas estruturais, estímulos fiscais (onde for possível) e política monetária expansionista.

Das exigências do FMI, duas delas dependem de força política (fiscal e reformas). Uma delas não (política monetária). O que tem funcionado no mundo pós-crise é justamente a exigência do FMI que não depende de força política.

Com o aval do FMI, os bancos centrais continuarão confiantes em manter políticas monetárias no campo flexível e os mercados, portanto, continuarão respondendo a esses movimentos.

Além do FMI, surgiram mais três sinais importantes nesta semana para manutenção da rota flexível no sistema financeiro global. O presidente do BoJ (Banco do Japão), Haruhiko Kuroda, disse que está pronto para expandir ainda mais os estímulos monetários se a recente fraqueza nas expectativas de inflação persistir. Kuroda reconheceu que as expectativas de inflação tem se enfraquecido nos últimos meses. Suas afirmações alimentaram expectativas de mais afrouxamento no Japão.

Já o BoE (Banco da Inglaterra), não querendo se descolar da trajetória flexível da zona do euro (lembrando que o BCE aumentou ainda mais a potência dos programas de flexibilização monetária no mês passado), mostrou em sua ata divulgada na semana que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia criará prolongada incerteza e provavelmente prejudicará a economia no curto prazo, com pressão da demanda para baixo. Esse foi o alerta mais duro dado pelo BoE desde o início das discussões. Os riscos levantados no documento reforçam expectativa de postura mais dovish na política monetária, impossibilitando projetar aumento na taxa básica de juros.

Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve - Banco Central do País) recebeu um indicador de peso nesta semana para manter sua postura altamente cautelosa na política monetária. O Departamento do Trabalho informou que seu índice de preços ao consumidor teve variação positiva de 0,1% em março, ficando abaixo das expectativas de aumento de 0,2%. Já o chamado núcleo de inflação, que elimina custos de alimentos e energia, também registrou avanço de 0,1% no mês anterior, após subir 0,3% em fevereiro.

Com inflação benigna e desacelerando, o FED terá motivos de sobra para manter a taxa básica de juros inalterada na próxima reunião de Comitê, sem se sentir forçado em preparar o mercado para a próxima alta.

Com indicações de manutenção de posturas dovish por parte dos principais banqueiros centrais mundiais, o clima nas principais praças financeiras tende a se manter ameno, o que pode permitir manutenção das tendências iniciadas no final do mês de janeiro.

Operando abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária, o dólar contra cesta de principais moedas globais permanece esboçando clima de otimismo renovando mínimas do ano. Apesar da sinalização de esgotamento na pressão de curtíssimo prazo, que provocou repique da moeda, a tendência principal segue descendente, sem ameaça de reversão.


Bolsas de valores no mundo inteiro seguem tendência principal de alta. A semana foi marcada pelo acionamento de pivots em várias praças, o que só reforça a tendência. Nos Estados, o índice S&P500 já se aproxima da máxima histórica.


A bolsa de Bombay, na Índia, que não estava conseguindo acompanhar, na mesma intensidade, o rali constatado em várias praças financeiras, acionou pivot de alta nesta semana, armando formação técnica relevante para romper a média móvel simples de 200 períodos diária.


Reação importante também ocorreu na bolsa australiana, que estava mais pressionada em função do peso em commodities. O mercado trabalhou formação de fundo ascendente, movimento confirmado por dois candles de força relevante e que favorece futuro rompimento ascendente da média móvel simples de 200 períodos diária.
  
  
Em Londres, o mercado já opera acima da média móvel simples de 200 períodos diária. O pivot de alta armado nessa semana reforça o movimento expressivo de recuperação de preços na praça inglesa.


Já o mercado brasileiro trabalhou fundo ascendente acima da média móvel simples de 200 períodos diária, interrompendo movimento corretivo de curtíssimo prazo. A formação de um pivot de alta sob a base de candles de força relevante, em ponto superior à importante faixa psicológica dos 50.000 pontos, numa tendência que já acumula alta superior a 40% desde o seu início, mostra um mercado de touro bufante, fato novo importante.


Além da questão relacionada à força da tendência de alta iniciada na faixa dos 37k, existe, também, a relevância técnica em torno da faixa dos 50k. Nos últimos três anos, essa importante região atuou como divisor de águas no mercado. Retomadas ascendentes consagraram mercado comprador, ao passo em que estouros descendentes consagraram mercado vendedor.

Outra característica interessante está relacionada ao aumento da importância psicológica formada por esta zona de preço. Nas primeiras batalhas pela faixa dos 50k, o divisor de águas consagrou tendências, porém em tempos mais curtos. Com o passar do tempo, a referida zona de preço foi ganhando ainda mais relevância e, consequentemente, as tendências passaram a ter maior durabilidade.

A última pernada de baixa responsável por jogar o Ibovespa na faixa dos 37k em janeiro deste ano, nasceu aos 58,7k em maio do ano passado. Quase um ano de mercado dominado por vendas maciças. Acontece que o troco dos touros está vindo em compras pesadas ainda mais intensas. As agressividades das tendências, e dos candles que a compõe, podem sinalizar esgotamentos de ciclos.

Desde 2011, quando o mercado brasileiro realizou teste na região da máxima histórica (reforçando a zona de topo), não se via uma onda compradora tão forte como a atual. Forças expressivas como essa, contrárias ao movimento anteriormente predominante, são incomuns.

Mais do que isso, esse tipo de força, incomum, sempre surge descolada dos fundamentos macroeconômicos e/ou do noticiário, momento no qual onde se pode constatar, também, unanimidade nas opiniões de diversas pessoas, dentro e fora do mercado.

O conjunto de todos esses sinais pode não resultar em nada para definição de novo ciclo no mercado brasileiro, mas o fato é que, pela primeira vez nesta década, eles começaram aparecer.

9 comentários:

  1. FI. Esse capital obtido com juros baixos pelo mundo está fazendo uma farra nos sistemas financeiros de diversos países, que contam com perda de força das lideranças políticas. O resultado disso virá em breve: bolhas financeiras estourando, com consequências nefastas. Não acredito em valorização de ativos sem fundamentos que os sustentem. Se não for assim, as praças financeiras virarão cassinos, cujo rumo será determinado por poucas pessoas com alto poder econômico. Abraços.

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    1. Sim, algumas bolhas já até estouraram, o ouro foi uma das primeiras. Posteriormente houve o estouro em algumas moedas sobrevalorizadas e, mais recentemente, foi a vez de algumas commodities. Entendo seu ponto de vista, mas na minha avaliação não existiria mercado de capitais, caso os preços dos ativos seguissem sempre os fundamentos. São justamente essas distorções responsáveis por criar boas oportunidades. Descolamentos podem durar semanas, meses ou vários anos. Ou mesmo descolamentos do presente podem se tornar preço justo no futuro, da mesma forma que preço justo do presente pode se tornar deslocamento no futuro. Não é uma questão de julgar esse fato como bom ou ruim, mas sim de entender que essa é a essência que move os preços dos ativos. Os participantes tendem a encontrar no mercado um ambiente mais justo e menos cruel, mas a realidade é dura, o mercado é cruel e injusto para grande maioria. Por isso acredito na importância de desenvolvimento de uma estratégia operacional eficaz, para que o investidor/operador possa não só sobreviver nesse ambiente perigoso, como tirar proveito, dentro de suas limitações, das situações criadas pelo próprio mercado.

      Abs, bons investimentos

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    2. Excelente post!
      Dizem que Warren Buffet falou algo como "compre ao som dos canhões e venda ao som dos violinos". Na teoria, parece fácil... O que nos impede de praticar essa frase não são incapacidades técnicas, mas sobretudo psicológicas. O difícil não é identificar tecnicamente um possível fundo de mercado. O mais difícil é ter coragem para comprar nessas condições. Frequentemente, fundos importantes de mercado vêm acompanhados de climas apocalípticos de fim de mundo. Nesse casos, mesmo que o mercado esteja dando indícios cada vez mais fortes de uma possibilidade de reversão, a adesão ao senso comum impede que a pessoa se desprenda das notícias para confiar no que o próprio mercado está dizendo. Concordo com você: o mercado é cruel e injusto para a grande maioria. Principalmente para a maioria que pensa como a maioria.

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    3. Bom, excelente comentário rs... É por esse motivo que não funciona copiar modelos de investidores de sucesso, pois o ponto central de toda estratégia (psicologia) é único. Dois investidores jamais agirão e pensarão da mesma forma o tempo todo, mesmo quando as estratégias são semelhantes. Ter uma estratégia eficaz permitirá ao investidor se esquivar das armadilhas psicológicas do mercado, ir contra a massa, etc. Na hora de agir, o investidor/operador apenas responderá ao sinal da estratégia, essa é a única forma de sobrepor aos sentimentos que frequentemente atrapalham no processo de tomada de decisão. Sabendo que seu sistema é eficaz, o investidor/operador vai responder ao sinal técnico/razão, mesmo que precise fechar os olhos para apertar o enter rs...

      Abs, bons investimentos

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  2. Discordo em partes.
    Quando da delação do Delcídio, da coerção de Lula, dos fatos demonstrados sobre a aproximação do impeachment, restou detectado imediatamente reação do mercado nas quedas dos DIs futuros.
    Basta a euforia acabar (na realidade, está quase que totalmente precificada), que teremos retorno de DIs elevadas em poucos meses, visto que os fundamentos não mudaram, aliás, só estão piorando.
    O refresco é a possibilidade do plano temer der certo, dúvido que ele consiga sequer 25% do que deseja.

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    1. O ambiente político no Brasil apenas jogou uma pequena pressão a mais aos preços dos ativos, mas não definiu direção nem força. O mercado é bull em todas as praças financeiras globais, sem exceção. É um rali global de força relevante. Algumas praças saíram na frente e começaram a subir já no final de janeiro, outras saíram um pouco atrasadas e começaram a subir em fevereiro.

      Abs, bons negócios

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    2. Anônimo de 15/04
      Concordo com o FI sobre a preponderância dos fatos mundiais.
      A queda dos DI´s coincidiu com: 1) decaimento da prime rate a partir de janeiro de 2016; 2) perspectiva de decréscimo da inflação nos meses vindouros (independente de ser Dilma ou não) o que fez bombar, a partir de janeiro também, os títulos pré e os indexados à inflação e consequente queda dos DI´s. E enquanto a inflação fôr cadente, os DIs cairão e os demais títulos subirão, sendo, talvez, o único fato certo com ou sem Dilma.
      Como disse o FI em post de janeiro: "O forte movimento de alívio nas Treasuries também abriu espaço para recuo nas taxas de juros dos títulos da dívida soberana em outras praças, incluindo a de países vulneráveis, como o Brasil." Também, pudera, com as taxas maravilhosas que temos, comparadas com o resto do mundo, já dizia o Stuhlberg que não há negócio melhor no mundo!
      O alerta do FI sobre a relevância do quadro mundial, corroborando o que graficamente era notório, tranquilizou-me quando já estava me posicionando em fundos pré e indexados à inflação desde então e sou grato a ele por isso. É acompanhar o mercado sem muita elocubração explicativa e achar a explicação depois (rs, rs, rs).

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  3. Fi, qual o próximo suporte do USD?

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    1. USD: 93,60
      USDBRL: R$ 3,46

      São as próximas linhas de suporte, ambas fracas.

      Abs, bons negócios

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