segunda-feira, 11 de abril de 2016

Políticas heterodoxas estão ganhando força no mundo


Insatisfeitos com o crescente descompasso entre política fiscal e monetária, banqueiros centrais de importantes economias mundiais jogaram lenha na fogueira do debate fiscal.

Desde o estouro da crise do subprime, em 2008, autoridades monetárias de vários países tentaram estimular suas respectivas economias através de agressivos programas de estímulos monetários. Por outro lado, os líderes políticos se viram forçados a cortar gastos para conter o avanço dos elevados níveis de suas dívidas públicas.

Há algum tempo esse descompasso entre impulso monetário e freio fiscal tem afetado a imagem de alguns banqueiros centrais, sob acusação de exercerem políticas ineficazes (o que afeta a credibilidade da autoridade monetária), já que as economias continuam apáticas.

O caso mais clássico ocorre na zona do euro. Nos últimos anos, Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), tem cobrado insistentemente das lideranças políticas locais mais suporte fiscal para retomada do crescimento.

As primeiras cobranças de Draghi sequer ganhavam repercussão no mercado. Mas na medida em que as políticas de ajuste fiscal, implementadas por vários países na zona do euro, começaram a desapontar em matéria de crescimento, a heterodoxia passou a ocupar perigosamente mais espaço nos debates econômicos.

Hoje, vários diretores de bancos centrais de países desenvolvidos adotam o viés de Draghi. Querem que suas lideranças políticas aumentem os gastos públicos para ajudar a autoridade monetária tirar a economia do marasmo.

Até mesmo nos Estados Unidos, a chair do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), Janet Yellen, se mostra mais inclinada à heterodoxia. Yellen afirmou recentemente que a política monetária nos Estados Unidos e em muitos outros países avançados está substancialmente sobrecarregada e não tem recebido muita ajuda da política fiscal. Ainda segundo a chair do FED, com as taxas baixas de hoje, políticas fiscais orientadas para o investimento se justificam.

Atualmente, o governo norte-americano (combinação dos níveis local, estadual e federal) investe apenas 17,6% do PIB (Produto Interno Bruto), o que representa o menor nível dos últimos 66 anos. Esse quadro não é uma característica isolada dos Estados Unidos, muito pelo contrário. É possível constatar na maioria dos países quedas vertiginosas dos investimentos.

A pressão por mais fiscal já é o principal tema discutido na agenda dos países do G-20 e deve pegar fogo na próxima reunião do FMI (Fundo Monetário Internacional) a ser realizada essa semana em Washington.

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, alertou que a entidade vai cortar novamente suas projeções para o crescimento em diversos países. Na avaliação de Lagarde, as perspectivas já modestas para a economia global vão cair ainda mais a não ser que as autoridades tomem ações mais fortes para impulsionar o crescimento.

Ainda segundo a diretora-gerente do FMI, a recuperação da crise financeira global de 2007 a 2009 continua muito frágil e os riscos à sua durabilidade estão aumentando. Por conta disso, cobrou das autoridades atuação conjunta (ou seja, política fiscal e monetária na mesma direção), como condicionante para criação de efeitos positivos sobre a confiança e, consequentemente, para a economia global.

Lagarde foi mais além e aconselhou os Estados Unidos a elevarem o salário mínimo, a Europa a aperfeiçoar o treinamento de empregados e as economias emergentes a cortarem subsídios de combustíveis e aumentarem os gastos sociais.

Além disso, o processo de globalização literalmente emperrou no mundo, o que inevitavelmente abre espaço para adoção de medidas protecionistas. Um dos poucos pontos de consenso entre candidatos democratas e republicanos à presidência dos Estados Unidos está justamente na avaliação (de viés negativo) de que a globalização provocou inundação de bens importados baratos no país e perdas de empregos.

Segundo estimativas do Banco Mundial, a fatia do comércio na produção econômica global, que havia saltado de 20% em 1992 para 30% em 2008, se mantêm estável. Isso significa que o forte ritmo de crescimento das décadas passadas pode ter atingido ponto de esgotamento em função do agravamento da crise financeira mundial.

Reforça esse quadro a nova pesquisa de Gary Hufbauer e Euijin Jung, do Instituto Peterson para a Economia Internacional, que revela que desde 2008 mais de 3.500 medidas protecionistas foram introduzidas no mundo todo. Muitas dessas medidas não são tarifas, mas leis que obrigam os governos a comprarem bens locais ou impõe excesso de exigências com objetivo de dificultar o comércio.

Traçar todo esse panorama global é importante, pois no Brasil a situação é inversa. O impulso é fiscal enquanto o freio é monetário. Da mesma forma que a ortodoxia falhou em várias economias globais nos últimos anos, a heterodoxia falhou no Brasil. Parece claro que para atingir níveis desejados de eficiência econômica, as políticas fiscal e monetária precisam se deslocar na mesma direção.

Essa percepção tem ganhado força no mundo, mas, infelizmente, no Brasil, a ficha ainda não caiu para as lideranças políticas nem para os economistas e intelectuais, em função do ambiente altamente polarizado e de baixo nível.

É bem possível que os líderes globais encontrem formas de assumir, gradativamente, uma postura fiscal mais flexível via aumento dos investimentos, cedendo às pressões de entidades e autoridades monetárias. A janela de oportunidade para esses países está nos juros baixos praticados pelos bancos centrais.

Já no Brasil, essa janela de oportunidade não existe. Com Selic a 14,25% ao ano, o aumento do endividamento, mesmo que para financiar investimentos, é praticamente proibitivo. Entretanto, o recente recuo não desprezível da inflação poderá criar uma faísca de otimismo.

O Banco Central continua reafirmando que não trabalha com hipótese de redução da taxa Selic para transmitir seriedade no combate à inflação e tentar recuperar um pouco a confiança perdida aos agentes econômicos, estratégia que, se funcionar, pode acentuar o processo de desinflação.

O fato é que a autoridade monetária brasileira não vai esperar a inflação recuar ao centro da meta para realizar cortes na taxa Selic. Assim que o processo de desinflação atingir nível de otimismo no mercado desejado pelo Banco Central, a taxa Selic começará a recuar, mesmo que as projeções apontem para inflação ainda desancorada da meta.

Foi o que fez o Banco Central da Índia nesse mês ao surpreender o mercado com um corte de 0,25 p.p. na taxa básica de juros, deslocando-a para 6,5% ao ano (menor nível em mais de cinco anos), adotando uma linguagem no comunicado de que mais cortes poderão surgir pela frente. A inflação na Índia não está ancorada na meta, o objetivo é fazê-la recuar para 5% em 2017, mas a autoridade monetária enxerga mudança na trajetória em direção à meta e, por conta disso, resolveu adiantar o processo e começar a cortar os juros.

É possível que as próximas atas do Banco Central brasileiro cheguem ao mercado com tom cada vez mais dovish, guiando as expectativas para futuros cortes na taxa básica de juros.

Parte desse afrouxamento já está sendo esperado pelo mercado, com boa aceitação, não por conta do quadro macro doméstico, mas pelo clima de otimismo presente não só no Brasil, mas em várias praças financeiras globais, inflamado pelas políticas monetárias dos bancos centrais.

No curtíssimo prazo, entretanto, bolsa e juros futuros seguem trabalhando repiques, corrigindo parte da euforia constatada nos últimos meses.

O Ibovespa emitiu seu segundo candle de esgotamento, a princípio temporário, na faixa dos 51k. Mercado segue trabalhando fraco movimento corretivo de curtíssimo prazo, ainda sem ameaçar alteração do curso principal.


Já no câmbio o otimismo está mais forte. O dólar contra real voltou muito rápido para a venda, após o repique do início do mês de abril, renovando mínima do ano.


7 comentários:

  1. Essa queda do dólar é impressionante ...

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    1. Sim, a valorização do real frente ao dólar partiu atrasada, em comparação com as outras moedas. Por conta desse atraso, a nossa valorização no curto prazo está mais intensa que as demais moedas. Mas no geral, o dólar contra cesta de moedas segue movimento corretivo desde novembro do ano passado.

      Abs, bons negócios

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  2. é lamentavel o debate economico a nivel mundial. Estamos cercados por incompetentes keynesianos, e mesmo depois de várias crises causadas por esses senhores, continuam utilizando os mesmos 'remédios', que nao funcionam. A saída é sempre "mais impostos, mais gasto publico, mais divida".

    Sao completos imbecis ou, talvez, apenas mau-carater.

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    1. Essa briga entre as duas escolas econômicas parece mais uma discussão de sunitas vs xiitas. Fato inegável é que ambas as teorias funcionam. O problema é que desde o estouro da crise financeira, os governos tem cometido erros grosseiros de política econômica, até porque a crise eliminou boa parte da margem de manobra. Então o foco do problema está na falta de ações coordenadas, no excesso de medidas desesperadoras, na falta de planejamento, na falta de disciplina em seguir determinado método. É como fazer um dever de casa mal feito.

      Abs, bons investimentos

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  3. O problema são os gastos sem gerar lucros. Investir em cadeias onde os presos trabalham para pagar a pena gera lucro, mas investir em cadeias onde se tem que alimentar o indivíduo e ainda dar dinheiro pro bandido só gera prejuízo. O maior erro do PT não foi a corrupção, mas sim aplicar todos os recursos em passivos ao invés de aplicar em ativos. Agora vamos ficar anos pagando esse prejuízo.

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    1. Concordo. A incompetência na gestão do governo petista supera com folga o que se pode estimar de perdas com a corrupção.

      Abs, bons investimentos

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  4. Acredito que o mercado de touro bufante no Brasil deve-se, em parte, às perspectivas positivas do impeachment.

    Leandro Ávila

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