quarta-feira, 11 de maio de 2016

Junk is good


Nem parece que há cerca de doze meses atrás sentia-se no Brasil a iminência da perda do grau de investimento. O ambiente era terrível, as metas fiscais eram revisadas para baixo, pautas-bomba circulavam no Congresso, Joaquim Levy era bombardeado por todas as direções, o governo estava isolado, sem força e sem capacidade de articulação.

O mercado era depressivo, a mídia tocava o terror e os analistas previam um desastre caso a nota de crédito fosse rebaixada. Dia após dia repetia-se com muita convicção os duros choques contratados para acontecer a partir do momento da confirmação do rebaixamento da nota brasileira para grau especulativo: o dólar e as taxas de juros iriam disparar, pois os investidores seriam obrigados a vender títulos e sair do País.

Essa avaliação era praticamente unânime no mercado. Os “especialistas” sentiam-se tão seguros com suas previsões que já traçavam um cenário-base posterior ao esperado choque.

Em setembro do ano passado as expectativas foram confirmadas. A agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor’s) deu a largada e jogou a nota de crédito brasileira para grau especulativo. Nesta época o dólar era negociado acima dos R$ 4,00 (máxima em R$ 4,25) e os contratos de juros futuros oscilavam na faixa dos 17% ao ano (curva de 2018 chegou a pagar 17,67%).

Imediatamente após o rebaixamento da S&P o que se viu no mercado foi um quadro totalmente diferente daquilo que era amplamente esperado pelos analistas. O dólar contra real parou de subir, cravou topo e passou a cair, revertendo a tendência principal de alta para baixa.


As taxas de juros realizaram movimento idêntico, numa intensidade ainda maior. Cravaram máxima em setembro e reverteram a tendência principal de alta para baixa. O tombo fenomenal dos contratos de juros futuros denuncia forte movimento comprador desde o ano passado.


Hoje as taxas de juros futuros operam próximas das mínimas registradas em 2015. Nem parece que o Brasil desceu alguns importantes degraus na escala de grau especulativo, com manutenção de perspectivas negativas. O movimento é curioso, quanto mais as notas brasileiras foram sendo cortadas pelas agências de classificação de risco, mais compras de títulos públicos e privados faziam os investidores/operadores.

O apetite voraz do mercado por ativos brasileiros não parece estar perto do fim. Cada vez mais gestores de fundos nacionais e internacionais afirmam estar comprando títulos da dívida pública brasileira, enxergando espaço para juros futuros cada vez menores.

Esse quadro, entretanto, não é uma característica exclusiva do Brasil. Movimentos semelhantes podem ser constatados em outras praças emergentes que também sofreram rebaixamentos nos últimos meses/anos, o que denuncia um movimento de fluxo global relevante.

Pressionados pelos baixos retornos proporcionados por ativos grau de investimento em praças desenvolvidas, cresce cada vez mais o número de investidores/operadores em busca de ativos junk (lixo/grau especulativo), com objetivo de aumentar o retorno do portfólio, mas com certa delimitação de risco.

O alvo desse fluxo de capital relevante são justamente ativos de boa qualidade, considerados grau de investimento no passado recente, mas que se tornaram ativos junk por conta de vários fatores que, na visão desses investidores/operadores, são temporários e reversíveis a médio e longo prazo.

Junk is good, portanto, parece ser a nova máxima no mercado global. Junk com DNA grau de investimento, mas com preço de grau especulativo.

No mercado internacional, esse movimento é conhecido como compra de “anjos caídos”, que são justamente ativos grau de investimento recentemente rebaixados para grau especulativo. Esses ativos, apesar de rebaixados, continuam tendo boa avaliação de risco e aceitação no mercado, não por conta dos fundamentos (que se tornaram ruins temporariamente), mas por falta de opções.

Outro ponto importante é que nem todos os ativos que se mudaram pro terreno junk são considerados “anjos” no mercado. Os investidores/operadores estão apenas aprendendo a separar os poucos bons ativos presentes hoje na vasta gama de opções tóxicas do terreno junk.

Títulos da dívida pública brasileira, por exemplo, são considerados anjos caídos no mercado global, não só por conta do alto volume das reservas internacionais, como da própria força, dinamismo e capacidade de reação da economia. A mesma avaliação não vale para países com nota semelhante à brasileira, tal como Guatemala e Bolívia ou mesmo para países com notas até um pouco melhores, como o Azerbaijão.

Na bolsa de valores, houve denúncia de ressurgimento de força compradora no curtíssimo prazo após os preços visitarem a importante região de suporte psicológico localizada na faixa dos 50k. Isso significa que a tendência principal de alta iniciada na casa dos 37k ainda continua mostrando força relevante, pois os movimentos descendentes intermediários permanecem curtos, dando origem a fundos ascendentes próximos das máximas recentes.


10 comentários:

  1. FI,
    Lembro bem de como a mídia em geral alertava o caos que seria o rebaixamento do Brasil para o grau especulativo. Os analistas e a mídia erram muito frequentemente (por algum interesse econômico ou puro achismo/incompetência), basta guardarmos as notícias de projeções e consultarmos daqui algum tempo. Poderia esclarecer a questão que foi muito alardeada 1 ano atrás de que muitos fundos e players internacionais não poderiam mais investir em títulos junk? O grau especulativo chegou ao nosso país mas, como vc disse, não houve o choque de saída de capitais esperado.
    Grande abraço e parabéns pela sempre completa análise do mercado,
    Julio Neto

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    1. Já fiz muito isso (guardar notícias para ler um tempo depois) rsrs.. É impressionante a quantidade de bobagem falada/escrita. Sim, quem determina o fluxo no fim das contas é o investidor/operador. Da mesma forma que existem fundos proibidos de comprar ativos junk, existem fundos onde o regulamento permite a compra de ativos junk. Como os retornos em ativos grau de investimento estão baixos demais, cada vez mais os investidores tem buscado aportar em fundos com liberdade para negociar ativos junk. Com mais fluxo de entrada de capital em fundos deste tipo, mais os gestores comprarão ativos junk. A mudança na inclinação da curva dos ativos junk também ajuda, muitos gestores entram pra especular na curva. Obrigado!

      Abs, bom fds

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  2. Na data em que o rebaixamento aconteceu o foco do mercado já estava em outras coisas. Faltou na sua análise a coisa mais importante do mercado: ele se antecipa. O dólar e os juros subiram pois as projeções futuras eram de decadência. A partir do momento em que o impeachment entrou no cenário as expectativas começaram a se reverter.

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    1. Sim, mas as projeções hoje são bem piores do que aquelas traçadas quando o rebaixamento ocorreu de fato. E foram piorando nos meses seguintes. Houve uma mudança de humor no mercado, que nada tem a ver com os fundamentos e expectativas domésticos/as, mas sim fruto das políticas monetárias dos principais banqueiros centrais em curso desde o final do ano passado.

      Abs, bom fds

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  3. ótimo post!

    Abraço!

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  4. Bom texto, FI. Tivemos uma janela na renda fixa quando os prefixados tavam pagando 17%+ e as NTN-B IPCA+7,5%, chegando estas até bater em 8%+IPCA. Na bolsa, 38 mil pontos. Quem pegou esses momentos de irracionalidade fez bons negócios. O Brasil tende a se recuperar, veremos se a apreciação será tão expressiva quanto desses últimos movimentos. Abraço!

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  5. Excelente post. Essa situação é o famoso "separar o joio do trigo". Tenho pra mim que tanto os preços observados em bolsa como ativos pré fixados sendo ofertados a 18%, 19% não voltam tão cedo. Quem pegou, pegou.

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