segunda-feira, 27 de junho de 2016

Britons never will be slaves


Os britânicos surpreenderam o mundo na última sexta-feira ao decidirem abandonar o barco, possivelmente afundando, da União Europeia. A surpresa refere-se ao fato de que a maioria dos britânicos não se intimidou com a política do medo instaurada por governos e instituições nacionais e internacionais.

Nunca antes na história moderna houve uma campanha tão forte pela manutenção do status quo. Previsões infundadas de catástrofes econômicas sem precedentes foram lançadas aos eleitores britânicos para que o medo os fizesse votar pela permanência do Reino Unido à União Europeia.

Não funcionou. O voto pela saída da União Europeia é uma demonstração de insatisfação de muitos britânicos que não se sentiram beneficiados pelos 40 anos de permanência no bloco. É um voto pela rápida saída do impopular primeiro-ministro David Cameron, que já pediu renúncia. É um voto contra a onda de imigrantes “empurrados” da Alemanha e países adjacentes rumo ao Reino Unido. É um voto de consagração da má vontade dos britânicos desde que se juntaram à comunidade europeia, em 1975. E, principalmente, é um voto de soberania.

Os britânicos estão fartos do excesso de burocracia e imposições políticas e econômicas decididas numa mesa redonda em Bruxellas formada por líderes que não os representam. Os britânicos, assim como o resto do mundo, estão preocupados com o futuro da zona do euro e querem distância dos problemas ali criados. Enxergam que existe algo de muito errado numa economia que não cresce e não mostra, sequer, um soluço de reação mesmo com os programas de estímulos trilionários do BCE (Banco Central Europeu). Enxergam as fragilidades de um bloco que quase ruiu por conta do estouro de uma crise fiscal num país como a Grécia, de PIB (Produto Interno Bruto) inexpressivo.

O Reino Unido parece ser o primeiro a saltar de uma embarcação em naufrágio. Se por um lado os britânicos perdem, no curto prazo, parte do acesso ao importante mercado da União Europeia, ganham autonomia para decidirem traçar acordos comerciais livremente com qualquer outro país do planeta.

Ainda assim, muito possivelmente, as previsões catastróficas lançadas ao vento não se concretizarão. Da mesma forma que o mercado europeu é extremamente importante aos produtos ingleses, a demanda inglesa é relevante aos produtos da União Europeia. Sem poder contar com o mercado consumidor inglês, a União Europeia entrará numa crise existencial dificilmente de ser revertida.

Essa situação econômica de dependência (um precisa do outro) será o catalisador para que futuros acordos comerciais sejam criados no futuro entre o Reino Unido e a União Europeia. A diferença é que o Reino Unido, ao contrário de França, Holanda, Itália, entre outras grandes potências da União Europeia, poderá traçar e gerenciar o fluxo de suas rotas comerciais com ou sem o agrado dos alemães. Poderá se defender de crises econômicas com suas próprias ferramentas com ou sem aprovação dos alemães. Poderá definir o modelo de crescimento, repensar regulações, entre outras várias outras opções de interesse único e exclusivo dos britânicos.

Ao resto do planeta, não cabe julgar a decisão dos ingleses. O futuro dirá se o Reino Unido, mais uma vez, correu para o lado certo. O que de fato pode-se extrair desse novo acontecimento é a confirmação de um movimento que se iniciou no final da última década com o estouro da crise do subprime: o processo de globalização se estagnou e as economias estão ficando cada vez mais protecionistas. Quem se manter aberto demais, estará correndo sério risco de pagar a pesada conta dos banqueiros centrais (estímulos monetários) e governos (déficits fiscais) que está sendo rolada há alguns anos.

No mercado de capitais, as principais praças financeiras mundiais sentiram o choque do Brexit, muito em função das previsões catastróficas amplamente divulgadas e, principalmente, pelo fator surpresa.

O índice FTSE, da bolsa de Londres, fechou em forte baixa pelo segundo pregão consecutivo, confirmando rompimento descendente da média móvel simples de 200 períodos diária.


Na Alemanha, o índice DAX derreteu, confirmando perda da média móvel simples de 200 períodos diária com uma formação de GAP raro, típico de reversão de tendência.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 atropelou a média móvel simples diária de 200 períodos com força relevante, perdendo sua principal região de sustentação de curto prazo.
  

A bolsa do México também perdeu a média móvel simples de 200 períodos diária com o Brexit, agregando força à tendência de baixa iniciada no mês de abril.


No Brasil, o índice Bovespa caiu de forma moderada, comparando com o resto do mundo, e ainda opera acima da média móvel simples de 200 períodos diária. Mercado no curto prazo permanece em congestão, entretanto tende a continuar ser puxado para baixo pelos demais índices caso as vendas permaneçam predominando nas mesas de operações mundo afora.


Importante notar que o impacto no mercado é relativamente modesto frente ao terror que se previa anteriormente. Ainda assim, está longe de ser um fato desprezível, por apresentar força suficiente para reversão de tendências.

15 comentários:

  1. Olá FI!

    Você mencionou que o DAX fez um gap raro, mas há uma inconsistência na sua fonte de gráficos. Depois do Brexit, que aconteceu quando os mercados europeus e americanos estavam fechados, TODAS as bolsas abriram em gap. Todos os mercados futuros já estavam operando muito abaixo do nível anterior. A questão de gap ou não-gap é uma tecnicalidade da forma que os dados são registrados. Algumas bolsas sempre abrem (ou dizem abrir) no mesmo nível do fechamento anterior (ou muito perto). O IBOV, S&P 500, e FTSE não mostraram o gap no gráfico, mas todas tiveram o gap na prática. O do ibovespa futuro deve ter sido em torno de 5%, se me lembro corretamente. O gráfico do DAX resolveu mostrar o gap por algum motivo, enquanto os outros não.

    Enfim, só estou alertando que o "sinal" gráfico dado por um gap ou não-gap não existe, pois todas as bolsas viveram o mesmo enorme gap. Algumas mostram, outras não.

    Abraços!
    Henrique D

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    1. Exatamente Henrique, mas não é uma inconsistência na fonte. É a particularidade de cada mercado que precisa ser respeitada. Os administradores que permitem GAPs de abertura nos índices tem os seus motivos, assim como os administradores que não permitem formação de GAPs na abertura do mercado. Como na Alemanha é permitido o mercado (índice) abrir numa pontuação diferente do dia anterior, temos que respeitar a norma técnica deles, reconhecendo o GAP. Do ponto de vista técnico a diferença entre um índice abrir com GAP e o outro não é insignificante, pois em ambos os casos haverá registro de domínio de uma determinada pressão na abertura do mercado (compradora ou vendedora).

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    2. Obrigado pela resposta.

      Pelo ponto de vista técnico não é insignificante, sim. Só estou comentando que simples lógica leva à conclusão que o ponto de vista técnico está errado neste quesito. Se bolsa A e bolsa B são iguais, os futuros de ambas estão caindo 8% no momento da abertura, podemos dizer que uma tem uma maior probabilidade de cair do que a outra nos dias e semanas subsequentes, baseado somente no método que escolhem para seus gráficos? Não, pois são iguais. Se um gráfico mostrar um "espacinho vazio" e o outro não, não vai mudar os fundamentos, que são idênticos. Ambas já estavam caindo igualmente, com igual pressão vendedora nos seus respectivos índices futuros. Todos já sabem que as ações estão valendo 8% a menos, mesmo antes de serem negociadas.

      Eu não tenho certeza sobre isso, mas acho que funciona assim (nas que não mostram os gaps): Tem 100 ações compondo o índice. Para simplificar, vamos supor que todas vão abrir com gap de abertura de -8%. Assim que a primeira ação abrir com gap de -8% às 10:02:21 o primeiro "tick" do índice é calculado, utilizando o novo preço da ação em questão, porém os preços antigos das 99 outras (que também abrirão com -8% ). Vai marcar queda de 0,08%. Todas as ações vão abrir com gap de baixa de -8%, nenhuma vai negociar perto do preço de fechamento anterior, mas mesmo assim não haverá um grande gap. O IBOV parece agir desta maneira, por exemplo. Não tenho muita certeza se é exatamente assim, mas é o que parece acontecer, já que os leilões de abertura encerram em tempos diferentes e variáveis.

      De qualquer forma, não importa muito mesmo. Não precisa nem aprovar o comentário.

      Abraços FI, você manda muito bem nas análises econômicas!

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    3. Comentário aprovado! E com meu visto em baixo rsrs.. Pouco se discute sobre essas particularidades no mercado. Obrigado!

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  2. Parabéns mais uma vez pela análise. Você foi ponderado e equilibrado no seu "tom", e qualquer leitor imparcial e bem informado soube colher Bem seu texto.
    na minha opinião, quando se fala em "previsões catasfroficas", leia-se "especulação".
    Abraco

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    1. Obrigado! Sim, muitos interesses de grandes corporações dentro e fora do Reino Unido estavam em jogo, por isso a política do medo foi tão forte.

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  3. FI,

    Aparentemente ...a turbulência brexit... era muito menos do que o mercado precificou ...ou será que não? mercados em recuperação...

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  4. A análise é interessante, mas gostaria de ponderar que apenas 36% do eleitorado foi às urnas e mesmo assim o resultado final foi apertado. Nesse contexto, não dá pra dizer que é interesse da maioria dos britânicos o brexit.
    Na verdade, há quem diga que eles se arrependerão dessa decisão, tanto que já há movimentos para reverter a decisão.
    As pesquisas indicam que os eleitores votaram pela saída pois desejam maiores controles migratórios e foram iludidos de que manteriam acesso ao livre mercado europeu.
    O problema é que a união não vai aceitar restringir a livre circulação de pessoas e ainda manter a de mercadorias. Em outras palavras, os britânicos não terão o melhor dos dois mundos.
    E pior, a relavância geopolítica da UE é muito maior que da GBR. Tanto é assim que as apostas estão direcionadas para que os EUA deem preferencia ao tratado com a UE em relação ao novos acordos com a GBR.
    Dito isso tudo, penso que não será o fim do mundo, mas a análise que tenho do brexit não é tão favorável assim em relação aos próprios britânicos.
    A globalização poderá sofrer alguns ajustes, mas o fenômeno é irreversível. Quem ficar de fora vai se dar mal. Vide a onda de novos acordos comerciais que estão sendo costurados no mundo todo.
    Um abraço
    Pepe

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    1. Olá pepe,
      A informação que tenho é que foi a maior mobilização da história do Reino Unido. Superou 70%. http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,primeiros-resultados-dao-vitoria-a-permanencia-em-gibraltar-e-newcastle-brexit-vence-em-suderla,1884426

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  5. O Brexit foi ignorado pelos mercados? A bolsa da Inglaterra até superou o nível do dia da votação, ao passo que as principais da Europa caminham em alta, não muito longe da precificação pelo não Brexit. Um acordo relevante se rompe entre nações e não há ganhadores e perdedores? A que se deve isto FI? Excesso de liquidez no mundo ou esperança de estímulos financeiros de quem opera a juros negativos e baixo crescimento?

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  6. Perdão, me enganei e você tem razão. A mobilização foi a maior desde 92.
    Muito embora os não votantes poderiam facilmente mudar o resultado da eleição.
    Na verdade, 36% foi a parcela do eleitorado do segmento social "classe alta" que declarou voto pela saída da UE contra 52% desse segmento que declarou voto pela permanência.
    De acordo essa pesquisa (do Yougov), esse segmento social seria menos conservador e mais esclarecido em relação aos benefícios da UE, ao passo que as "classes trabalhadoras", menos favorecidas economicamente, seriam mais conservadoras e contrárias à abertura econômica e migratória.
    De toda a sorte, como o "Se" não joga, o resto do meu comentário mantenho em seus próprios fundamentos, já que eu acredito que, um pouco diferente de sua análise, os britânicos e o mundo se ressentirão dessa infeliz decisão.
    Que deverá ser respeitada, é claro.
    Abraços,
    Pepe

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  7. FI: parece-me que está havendo uma confusão dos dados de participação.
    De fato, mais de 70% dos eleitores votou.
    Contudo, como o exit ganhou por margem pequena, significa que só 36% dos eleitores (potenciais) escolheram o Brexit, que é o que o Pepe, aparentemente , quis dizer, mas se confundiu.

    Lembra-me, aliás, a eleição da Dilma. Se computar, brancos, nulos e ausentes, ela deve ter tido uns 35% de votos do colégio eleitoral brasileiro.
    Jeca

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  8. Você tem conta no Twitter?
    Se não, fica a sugestão, nem que seja para avisar que há um post novo aqui no blog...
    Jeca

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  9. Sim, a questão é que não podemos analisar o Brexit com base nos bons fundamentos que surgiram no processo de globalização. O que está ocorrendo no mundo desde 2008 é uma inversão desses valores. Cada vez mais pessoas não se sentem beneficiadas pela globalização, por diversos motivos, mas o emprego (o que leva ao aumento na desigualdade social) é o principal deles. É um fenômeno recente, de implicações imprevisíveis, pois o protecionismo também tem suas falhas e limitações.

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