quarta-feira, 15 de junho de 2016

Federal Funds Rate acima de 3%? Nem no longo prazo


A reunião de dois dias do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) encerrada nesta quarta-feira fincou um marco na era de Janet Yellen como chair da instituição.

Preocupados com o ritmo de crescimento da economia norte-americana e possibilidade de turbulências no mercado financeiro caso a Grã-Bretanha deixe a União Europeia, os membros votantes do Comitê decidiram manter a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) entre 0,25% a 0,50%, sem emitir sinalização de quando uma nova alta ocorrerá.

Apesar de causar efeito prático insignificante no mercado, os analistas/economistas continuam focados na estratégia de política monetária de curto prazo do Banco Central norte-americano.

Mas o que realmente chamou atenção nesta reunião do FED foram as importantes projeções dos membros do Comitê para inflação, PIB (Produto Interno Bruto) e FFR.

A mediana das estimativas para o PIB de 2016 recuou de 2,2% em março para 2% em junho. Houve recuo também em 2017, de 2,1% para 2%. Para 2018 as projeções ficaram inalteradas, em 2%.

A mediana das projeções para a taxa de desemprego se manteve inalterada em 4,7% e 4,6% em 2016 e 2017, respectivamente. Para 2018, houve avanço de 4,5% para 4,6%.

A mediana das estimativas para a inflação de 2016 subiu de 1,2% em março para 1,4% em junho. Para 2017 e 2018 as projeções foram mantidas em 1,9% e 2%, respectivamente.

A mediana das projeções para o núcleo de inflação de 2016 também subiu de 1,6% para 1,7%. Em 2017 estima-se que o núcleo de inflação subirá de 1,8% para 1,9%. A projeção para 2018 ficou inalterada em 2%.

A mediana das estimativas para a FFR se manteve em 0,9% em 2016. Entretanto, para 2017, a mediana das projeções tombou de 1,9% para 1,6%. Para 2018, o tombo é ainda maior: de 3% para apenas 2,4%.


Para o longo prazo (após 2018) a mediana das estimativas para a FFR recuou de 3,3% para 3%, atingindo um marco histórico. As projeções de longo prazo nunca foram tão baixas nestes últimos anos.

O forte descasamento direcional entre a mediana das projeções para inflação x FFR revela uma novidade dentro do FED. A inflação deixou de ser uma preocupação, mesmo em ritmo ascendente (conforme mostram as projeções), apesar de ancoradas na meta em 2017 e 2018. Visivelmente pode-se constatar entre os membros do Comitê pouca vontade para subir os juros que vão além dos indicadores domésticos.

Os motivos para escolha de uma rota ainda mais dovish do que a já conhecida anteriormente ainda não estão claros, mas é possível que o FED esteja olhando com bons olhos o quadro de juros extremamente baixos ou mesmo negativos em várias outras praças financeiras, não querendo, portanto, distanciar-se demais da “nova ordem global”, ainda com conseqüências desconhecidas (positivas ou negativas).

Nesta semana, a Alemanha passou a integrar o grupo de países que conseguem a façanha de emitir títulos da dívida soberana com taxa de juros negativa. O rendimento do título de 10 anos do governo alemão atingiu -0,032%. Japão e Suíça já conseguem emitir títulos de 15 e 30 anos com rendimento negativo.

Áustria, Holanda, França, Bélgica e Finlândia estão bem perto de traçar o mesmo caminho dos títulos alemães. O caso finlandês é ainda mais intrigante, pois o País passa por um momento delicado de aceleração da taxa de desemprego combinado com desaceleração econômica e mesmo assim os títulos de 10 anos pagam rendimento de 0,327% ao ano.

No âmbito global, já são cerca de 10 trilhões de dólares de dívidas soberanas com rendimentos negativos. Esse número impressionante tende aumentar a cada mês, podendo beneficiar países que ainda pagam rendimentos elevados, como o Brasil.

Para efeito comparativo, o título de 10 anos do governo brasileiro (NTNF), apesar de estar em forte trajetória de valorização, ainda paga uma taxa de 12,79% ao ano. Essa grande distorção entre taxas brasileiras x mediana das taxas globais tende a continuar se reduzindo a favor do Brasil.

O rendimento da Treasury de 10 anos do governo norte-americano atingiu 1,60% nesta quarta-feira, patamar mais baixo dos últimos três anos, mesma região em que costumava oscilar quando os programas de relaxamento quantitativo funcionavam a pleno vapor nos Estados Unidos.


Na bolsa de valores, o índice Bovespa se mantêm acima da importante média móvel simples de 200 períodos diária e abaixo das zonas de resistência na faixa dos 55k, portanto, congestionado no curto prazo.


16 comentários:

  1. Que tipo de idiota compra essas porcarias de títulos da dívida soberana com taxas negativas?

    Pode-se comprar muito bem um fundo de índice como o SP500 e ser sócio de todas as empresas globais. Fala sério.

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    1. São vários fatores que estão empurrando o capital aos títulos com yield negativo. O principal deles é o excesso de liquidez no sistema financeiro combinado com ausência de opções tão seguras quanto os títulos soberanos. Esse quadro provoca efeito casata, pois acaba influenciando os gestores de fundos hedge a especularem na curva dos juros futuros. Se você entrar num título soberano com juros a -0,001% e vendê-lo a -0,002% realizou um baita lucro. Portanto, muitos gestores estão entrando pra especular na curva e não pra carregar os títulos até o vencimento. Além disso existe o drama macro das economias deflacionadas, como a do Japão. Se a deflação de preços for mais forte que a "deflação" de rendimento dos títulos, é vantajoso prorrogar o consumo mesmo aplicando num papel de rendimento negativo, pois ainda assim o investidor terá mais poder de compra no futuro. Crazy new world rs..

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    2. Uai, mas se o rendimento começa a ser negativo, não vale mais a pena manter o din-din em cash para ter um poder de compra maior ainda no futuro?

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    3. Em tese sim, para pequenas quantias. O rendimento negativo é o preço da segurança para muitos investidores PF que não se sentem seguros em guardar dinheiro debaixo do colchão. Já os fundos de investimentos e bancos (que são os grandes compradores de yield negativo) não tem nem mesmo a opção de guardar cash "debaixo do colchão".

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  2. Essa política do Quantitative easing não irá terminar bem.

    Os Bancos Centrais acham que manipulação de taxas de juros e expansão monetária são as receitas para o desenvolvimento econômico. Doce ilusão.

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    1. Com certeza não acham isso. A questão é que sobrou aos banqueiros fazerem algo para salvar o sistema financeiro global do colapso. Certamente não é a melhor solução, mas não apareceu nenhuma outra desde o estouro da crise em 2008.

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  3. FI,

    Esse povo é muito doido .... esses juros negativos no japão e na alemanha ... a conta vai chegar ...

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  4. FI,

    Você não acha que deveria se expor ao bitcoin?

    Num mundo com 10 trilhões de dólares em títulos com yield negativo (http://www.straitstimes.com/business/companies-markets/bill-gross-warns-us10-trillion-negative-yield-bond-pile-is-a-supernova), trilhões depositados num país que segue apertando o controle de capitais e desvalorizando a moeda (China), trilhões em paraísos fiscais que a cada dia mais se parecem com um purgatório (Panama Papers etc), déficits soberanos multibilionários, dívidas soberanas trilionárias across the board e uma demografia que não deve cooperar...um market cap de apenas 12 bi de dólares para algo como o bitcoin me parece muito baixo. Não acredito que a informação sobre o bitcoin seja tão disseminada a ponto de julgar o preço "eficiente".

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    1. Não. Justamente por conta desse mundo que você descreveu bem, não há papel melhor do que uma moeda forte ou título soberano.

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  5. Gostaria de saber seu parecer sobre o impacto do Brexit no Brasil. Obrigado!

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    1. Já li e agradeço o post muito interessante, como sempre...

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  6. Ansioso por seus comentários sobre impactos do Brexit. Abs e parabens pelas análises .

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