quarta-feira, 6 de julho de 2016

Brexit acende barril de pólvora na Itália


Enquanto as instituições internacionais insistem em atacar os britânicos por tomarem a difícil decisão de votarem pela saída da União Europeia, focos de tensão surgem sem muito alarde da mídia em algumas economias europeias.

Apesar da pouca ligação entre o referendo britânico e o sistema financeiro italiano, uma (nova) crise de confiança está sacudindo a terceira maior economia do bloco, ameaçando espelhar rapidamente a outros mercados da zona do euro.

As ações de bancos nas bolsas europeias já marcavam desempenho ruim no ano, por (velha) suspeita de que algumas instituições estão insolventes. Mas as vendas aceleraram de forma significativa desde o resultado do referendo britânico. O índice acionário do setor bancário da Itália caiu 30% desde 23 de junho (data do referendo), acumulando perdas de 57% no ano. O índice de ações do setor bancário da zona do euro caiu 22% desde o dia 23 de junho e 37% no acumulado do ano.

O motivo do pânico instaurado nas ações de bancos europeus está relacionado aos 360 bilhões de euros em créditos potencialmente podres na Itália. Esse número já era discutido pelo mercado antes do referendo, entretanto, faltava um catalisador para impulsionar o clima de pessimismo na Europa, que veio com o Brexit.

O Monte dei Paschi di Siena, terceiro maior banco da Itália, e o mais antigo do mundo, acumula maior parcela de créditos duvidosos. O BCE (Banco Central Europeu) exigiu que o banco reduza sua carteira de crédito podre em 40% no prazo de até 3 anos.

O Monte Paschi não tem condições de cumprir nem de perto a determinação do BCE e precisa ser recapitalizado no curto prazo para se manter solvente. Apesar do caráter de urgência, divergências dentro do bloco estão impedindo uma ação rápida de governos e instituições, fomentando o clima de tensão no mercado.

O governo italiano quer o sinal verde da União Europeia para poder ajudar suas instituições financeiras sem que sejam acionadas regras de resgate, que forçariam acionistas e detentores de bônus a repartir algumas das perdas. Alguns líderes europeus são contra a flexibilização das regras, mesmo em casos mais graves, como o atual.

A demora na falta de consenso dentro do bloco pode arrastar a Itália para recessão e causar uma nova crise no sistema financeiro. Para complicar, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi prometeu demitir-se caso saia derrotado de um referendo em outubro sobre a reforma constitucional. Pesquisas apontam que Renzi deve perder por grande margem.

A crise bancária na Itália precisa ser contida pelas lideranças europeias o mais rápido possível a fim de se evitar, também, um contágio sobre o mercado da dívida soberana. Apesar de algumas medidas de austeridade fiscal adotadas nos últimos anos, alguns integrantes da zona do euro (incluindo a Itália), permanecem operando com excesso de endividamento.

O índice FTSE da bolsa de Milão, na Itália, segue pressionado na venda, trabalhando colado na mínima do ano.


Na Alemanha, o índice DAX voltou a encostar na mínima do mês passado, mostrando manutenção da força vendedora.


Curiosamente, a bolsa de Londres, na Inglaterra, apesar de mostrar pequeno domínio de pressão vendedora nos últimos dias, opera comprada, colada na máxima do ano.


O mesmo quadro pode ser observado em outras praças fora da Europa. O impacto, portanto, está restrito aos mercados do bloco europeu, o que não significa que o contágio a nível global está descartado. Os investidores fora da Europa estão apenas mais confiantes numa atuação rápida das lideranças europeias.

10 comentários:

  1. Parabéns pelas análises! Seu trabalho tornou-se uma referência para leitura do mercado.

    FI, as nuvens para a eclosão de uma nova crise sistêmica parecem se formar:

    O primeiro ministro italiano afirma que os empréstimos de má qualidade constituem apenas a ponta do iceberg, pois, existem grandes bancos europeus com problemas com derivativos. A precificação dos ativos de risco está alavancada pela enxurrada de liquidez dos bancos centrais.

    O fechamento do resgate em três fundos imobiliários britânicos cria um alerta (salvo as devidas proporções) no mercado pela "paralelo" com o ocorrido ao Bear Stearns no período do subprime.

    A instabilidade político-econômica ocasionada pelo Brexit em virtude de não dimensionar os reais impactos sobre a UE.

    A cifra de US$ 10 trilhões em créditos soberanos globais com taxas de juros negativas.

    Os ativos de risco numa escalada ascendente nos últimos anos apesar da economia real ainda não demonstrar força para amparar o crescimento sustentável dos lucros das empresas.

    Além disso, o ouro parece indicar a formação de um novo mercado Bullish.

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    1. Obrigado!
      Sim, de fato o crédito podre dos bancos italianos pode ser só a ponta do iceberg, apesar de que, 360 bi já é uma quantia assustadora. Outras instituições financeiras, inclusive alemãs, são suspeitas de estarem insolventes, artificialmente ativas. O problema com os derivativos está vindo à tona, ainda impossível dimensionar o tamanho do rombo. Não fosse os programas do BCE, o sistema financeiro europeu já teria se implodido, acabando com o projeto euro de uma forma traumática. Apesar de tudo, um estouro nos mercados ao "estilo subprime 2008" (ou pior) ainda é improvável, ao menos no curto e médio prazo, já que o BCE irá continuar injetando dinheiro no sistema custe o que custar. Parece não haver limite. Mas a situação é extremamente delicada, ainda não se sabe o que fazer com tanto crédito podre na Europa. Os governos ainda estão muito endividados, recursos públicos "queimados" em resgates governamentais para manter alguns bancos solventes, crescimento amênico, baixa inflação e, agora, até o FMI está tecendo críticas às políticas ortodoxas. O mundo está ficando bem diferente e o mercado o acompanha, exigindo cada vez mais atenção dos investidores. As estratégias operacionais precisam estar adaptadas ao ambiente mais complexo e preparadas para não só suportar, mas aproveitar futuros choques. Eles certamente virão e com cada vez mais frequência.
      PS: só faltou mencionar a China na sua lista.

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    2. Anônimo 19h57 (linha 8 - *pelo "paralelo")

      FI, certamente, o gigante asiático é outro problema:

      * dificuldade em dimensionar a real desaceleração de sua economia (hard landing vs soft landing).

      * a solvência do seu sistema financeiro que poderá, eventualmente, sofrer um resgate estatal nos próximos anos. As cifras estimadas começam com um valor superior a US$ 500 bilhões.

      * o sistema financeiro paralelo chinês(Shadow Banking) é um outro elemento de preocupação.

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    3. Oi, FI.
      Inicialmente, parabéns pelos excelentes artigos!
      Qual a sua opinião acerca da alocação em Bitcoins para enfrentar os "futuros choques" que você mencionou no comentário acima?
      Abraço.

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    4. Obrigado!
      Não considero uma opção segura para trabalhar na alocação de portfólios, muito menos opção de fuga ou segurança. Bitcoins parece ter vida própria sem muita ligação com o quadro macro. Mas para quem gosta de brincar no mercado, é uma boa opção como tantas outras.
      Abs,

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  2. FI,

    Acha que esse problema da Itália pode atingir o bloco europeu todo? Os eua?

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    1. Sim, pode se espalhar rapidamente pelo mercado interbancário numa crise de confiança, o que reduziria a liquidez no sistema. Por esse motivo os governos precisam agir. Os bancos certamente serão salvos, a forma como isso será feita é que está em discussão: o dinheiro virá dos investidores ou da sociedade.

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  3. Temos que criar urgentemente o PT italiano, pra crise lá ser uma marolinha que nem foi aqui em 2008...Pq se depender do PSDB italiano, estão fudidos!

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  4. Risco de que investe em títulos públicos brasileiro tomar um calote em caso de crise assim?

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    1. Significativamente baixo, tenho repetido isso desde sempre nas análises e comentários rs..

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