quarta-feira, 20 de julho de 2016

Ciclo de afrouxamento monetário ainda não está no radar


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) encerrou a reunião de dois dias nesta quarta-feira sem apresentar novidades em relação à direção de curto prazo da taxa básica de juros.

A taxa Selic permaneceu inalterada aos 14,25% ao ano, confirmando as expectativas do mercado. Num comunicado que faz lembrar o excelente padrão adotado por banqueiros centrais de economias de primeiro mundo, o Copom apresentou claramente os motivos que sustentaram sua decisão:

(i) a inflação acima do esperado no curto prazo, em boa medida decorrente de preços de alimentos, pode se mostrar persistente;

(ii) incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia permanecem;

(iii) um período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação;

(iv) os ajustes na economia podem ser implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e reduzindo as expectativas de inflação;

(v) o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom.

Pode-se notar que os motivos (i), (ii) e (iii) são negativos para a inflação, justificando uma análise mais hawkish dos membros do Comitê. Já os motivos (iv) e (v) são positivos para a inflação, justificando uma análise mais dovish dos membros do Comitê.

Somente pela matemática (3 riscos desfavoráveis ao cenário básico para a inflação e 2 riscos favoráveis) a decisão de não só manter a taxa básica de juros inalterada, mas também de não preparar o mercado para futuros cortes no curto prazo, é justificada.

Além disso, o fator da imprevisibilidade está mais presente nos riscos negativos (i), (ii) e (iii) para que eles desapareçam ou sejam reduzidos no futuro, já os riscos positivos (iv) e (v) parecem demonstrar menor carga de imprevisibilidade, em função dos dados econômicos recentes.

Portanto, o Copom precisa esperar mais para que o peso da parte negativa do cenário básico para a inflação seja reduzido antes de iniciar o ciclo de afrouxamento monetário. A decisão foi acertada, o racional é perfeitamente justificável e as perspectivas estão mais transparentes. Mais um ponto para a nova gestão de Goldfajn no Banco Central.

Por fim, com todas as explicações claras e objetivas, não será mais necessário aguardar a divulgação da ata (que também sofreu alteração, de quinta-feira para terça-feira seguinte à reunião) para procurar pistas inseridas em longos parágrafos que justifiquem e indiquem a direção da política monetária.

No cenário externo, destaque para tentativa fracassada de golpe militar na Turquia. O episódio caiu no colo do presidente  Turquia, Tayyip Erdogan, que se fortalecerá politicamente e aproveitará para passar por cima do Parlamento na aprovação de leis. O estado de emergência foi decretado nesta quarta-feira.

Inevitavelmente os turcos, de maneira geral, serão prejudicados, não só por mostrarem ao mundo o renascimento de ideias atrasadas para países que carregam o status de emergente, mas também pelas futuras consequências a serem geradas pela concentração de poder nas mãos de Erdogan.

Esses dois fatores deverão reduzir a atratividade da Turquia no mercado global, que até então conseguia competir diretamente com mercados emergentes em ascensão na Ásia ou mesmo membros do BRICS.

A partir de agora, a Turquia é praticamente uma carta fora do baralho no curto prazo, fato que abre espaço para países como o Brasil (que competia diretamente com a Turquia) receberem mais recursos estrangeiros.

A bolsa de valores brasileira permanece comprada, trabalhando dentro de uma forte tendência de alta iniciada na região dos 37k, reforçada recentemente pela superação da resistência localizada na faixa dos 55k.


No gráfico semanal, pode-se notar a formação de um pivot de alta no mesmo ponto de rompimento de um importante e longo canal de baixa iniciado em 2010. Apesar de sobrecomprada no curto prazo, a bolsa de valores está reforçando os sinais de ciclo bullish.

6 comentários:

  1. 1) Não seria indicado se aguardar uma retração no semanal para só então, após a ultrapassagem da máxima desta semana, se abrir compra?

    2) Para você, quando o COPOM vai começar a cortar os juros?
    Chuto na última reunião do ano, salvo se nenhuma reforma for aprovada..

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    1. 1) Depende do sistema do operador. O mercado permite abrir compra/venda em diferentes pontos do gráfico. O importante, portanto, é ter um sistema eficaz.

      2) Enquanto o Copom não der o seu chute, eu não dou o meu rs.. Não faz sentido tentar adivinhar o timming. Nesse caso, a informação a ser trabalhada é que estamos caminhando inevitavelmente para um ciclo de afrouxamento monetário.

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    2. Grato pelas respostas.

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  2. FI,

    Os analistas estão animadaços com esse pivot no semanal ... vamos ver...

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  3. Um Banco Central sozinho não faz verão.

    O Brasil precisa de reformas profundas que reduzam o tamanho do estado e que aumentem a liberdade econômica do país.

    Um país burocrático e engessado não tem nenhum futuro.

    Abçs!

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    1. Na verdade faz sim. E muito rs... Banqueiros centrais estão fazendo verão desde o estouro do subprime em 2008.

      Concordo totalmente. Mas não creio na realização dessas reformas profundas. Parece mais provável ocorrer algumas reformas pontuais para reverter a trajetória de alguns indicadores macro e manter o circo operante.

      Abs,

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