sábado, 9 de julho de 2016

Corrida por títulos soberanos aumenta insanidade no mercado


A insanidade crescente, principal característica encontrada no processo de formação de bolha nos preços dos ativos, está presente no mercado de dívida soberana. O movimento é global, mas ocorre com mais intensidade em países desenvolvidos, consideradas praças mais seguras.

A corrida por títulos soberanos se acentuou de forma significativa nos últimos dias/semanas, impulsionadas pelo resultado do referendo britânico. O fato transmite uma falsa ideia de que os investidores estão preocupados (apenas) com os desdobramentos do Brexit. Na verdade, a preocupação atinge as principais economias desenvolvidas e emergentes do mundo, cada uma com seus problemas particulares difíceis de serem revolvidos, onde a maioria dos governos não consegue fazer mais do que prorrogar soluções para o futuro.

O baixo crescimento global, combinado com propagação de deflação, em meio ao maior processo de injeção monetária da história proporcionado por diversos banqueiros centrais, deixa os investidores receosos com futuro, vulneráveis a qualquer espirro no mercado. Existe algo de muito errado nessa equação que não fecha e, por conta disso, posições defensivas vão ocupando cada vez mais espaço nos portfólios.

As opções preferidas dos investidores e gestores de fundos são os títulos da dívida soberana. Alguns entram por falta de opções seguras disponíveis no mercado, outros entram para surfar a onda (posições de curto prazo abertas na direção da inclinação da curva).

Independente do motivo de cada investidor, o fato é que o forte movimento comprador em títulos da dívida soberana está jogando o valor dos papéis para máximas históricas de forma muito rápida, fazendo as taxas, consequentemente, caírem para as mínimas históricas, em patamares que se distorcem dos fundamentos, revelando insanidade no mercado.

Na Inglaterra, a taxa de juros do título soberano de 10 anos caiu para a mínima histórica de 0,74% ao ano, numa queda bastante agressiva (praticamente vertical), rumo a taxas ainda menores no futuro.


A taxa de juros do título soberano do governo alemão também continua despencando, fechando essa semana em -0,19% ao ano. Ou seja, os investidores que carregarem esses títulos até a data de vencimento (daqui a 10 anos) perderão 0,19% ao ano por emprestar dinheiro ao governo da Alemanha.


No Japão, a taxa de juros do título soberano de 10 anos continua avançando com rapidez ao território negativo, renovando novo recorde, aos -0,28% ao ano.


A Treasury de 10 anos (título soberano do governo norte-americano) também renovou mínima recorde nesta semana ao atingir 1,37% ao ano. O patamar é considerado uma aberração, já que a cerca de dois anos atrás a taxa oscilava na faixa de 2,8% a 3% ao ano.


O movimento comprador de treasuries americanas também é muito forte. Como se não bastasse, esse movimento está “descasado” com o deslocamento do mercado de ações. O índice S&P500 renovou a máxima do ano nesta semana, trabalhando formação técnica para romper a máxima história aos 2.134 pontos.


Ralis no mercado de títulos soberanos acompanhado pelo mercado de ações são incomuns e podem demonstrar outra grave distorção no sistema. Indica que o mercado financeiro está sugando demais o capital que deveria correr pelas vias da economia real. Os investidores querem “mais papéis e menos tijolos ou máquinas”. Não por acaso o crescimento da economia global permanece apático mesmo com os maciços programas de estímulos monetários.

Governos e bancos centrais tentam atuar a favor da economia real, mas suas ações estão, na verdade, defendendo a insanidade no mercado de capitais. Como ainda não surgiu outra solução aos problemas criados desde o estouro da crise do subprime, a bolha tende a permanecer inflada e crescente.

No Brasil, apesar da queda expressiva das taxas de juros dos títulos da dívida soberana nos últimos meses, o movimento comprador regional está muito longe de atingir níveis insanos, semelhantes aos praticados no mercado global.

No gráfico abaixo podemos observar que a curva das NTN-Fs (semelhante aos títulos de 10 anos de outros países) é compradora há poucos meses, ainda pagando 12% ao ano, apresentando, portanto, muita gordura para ser queimada, mesmo quando comparada aos pares emergentes.
  

O ciclo de bull market das taxas brasileiras durou até o fim do ano passado, quando máximas foram cravadas. A inclinação da curva logo mudou no início de 2016, mostrando força compradora relevante, fato que culminou, recentemente, na reversão do ciclo principal.

Pela primeira vez desde o último ciclo desastroso de afrouxamento monetário do Banco Central, responsável por levar a taxa Selic para mínima histórica de 7,25% ao ano em 2012, o mercado de juros futuros brasileiro entra oficialmente em ciclo de bear market.

A LTA formada pelo fundo de 2012 foi rompida de forma clássica, seguida de um pullback (com pequeno trap) e formação de novo pivot de baixa.

O ciclo de bear market para as taxas brasileiras opera apenas com o respaldo técnico. O casamento com os fundamentos ainda não ocorreu em função de a inflação permanecer distante do centro da meta (4,5%) e acima do teto da meta (6,5% até 2016 e 6% em 2017 e 2018).

Entretanto, indicadores de inflação recentes mostram importante manutenção do processo de desinflação, abrindo perspectivas de ancoragem da inflação na meta já no final do próximo ano. Melhor do que o IPCA de 0,35% do mês de junho é a perspectiva de inflação abaixo de 0,45% para os próximos meses, ritmo compatível com a meta.

Caso Ilan Goldfajn, atual presidente do Banco Central, consiga, enfim, cumprir o principal objetivo da autoridade monetária (as chances são boas), o Brasil terá mais condições para entrar de vez na festa global dos títulos da dívida soberana.

Ao padrão brasileiro, NTNF de 9%, ou NTNB de 5%, poderia representar uma festa, mas não em níveis insanos. Isso significa que existe um abismo às taxas brasileiras para seguir a insanidade do mercado global.

15 comentários:

  1. sempre aprendo neste site. obrigado por ser de graça.

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  2. Eu tenho uma dificuldade em entender estas taxas negativas. Alguém ainda compra estes títulos sabendo que vão perder? Ou as taxas estão negativas para ninguém comprar mesmo? rs. Qual é o racional?

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    1. As taxas são baixas/negativas porque obedecem a lei de oferta e procura: pense no dinheiro dos investidores como o produto sendo ofertado, e as taxas de juros dos bancos centrais como o preço cobrado por este dinheiro. Se tem muito dinheiro sendo ofertado (o que ocorre em períodos de muita incerteza, porque nenhum investidor quer arriscar colocar o dinheiro em ativos voláteis como ações, debêntures, fábricas... ativos produtivos em geral), o preço/taxa de juros cai, podendo até ficar negativo como vimos. É claro que seria preferível guardar o dinheiro num cofre e deixá-lo lá parado a vê-lo perder valor nestes títulos soberanos, mas isso só funcionaria para pequenos investidores. Imagina um grande banco ou gestor de fundos guardando os trilhões de dólares/euros pelos quais é responsável em cofres espalhados pelo mundo? Seria inviável.

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    2. http://mises.org.br/Article.aspx?id=2445 , acredito que nao explica tudo, mas é um ponto de vista interessante

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    3. D'Uo A galera compra na expectativa de baixar mais ainda as taxas e realizar o lucro, e também não há como converter em cédulas ou ativos reais quando o montante é muito grande, ademais, diante do sistema financeiro atual, se um governo não honrar suas dívidas é porque chegou o apocalipse.

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  3. Acredito que sejam para fazer trade , assim se as taxas caírem mais do que eles pagaram , o PU do título sobe . Funciona a mesma coisa com nossos tardes quando os juros positivos caem em relação com o que vc pagou , aí o Pu é obrigafo a subir , vc vende e ganha mais do que se levar até o final . Ex; todo título pre t o Pu final de 1000 reais , para os juros compensarem o preço final eles têm uma relação inversamente proporcional , ou seja os juros sobem enquanto o valor do Pu diminui e vice versa. Não testei com juros negativo , mais deve ser esta a teoria , caso alguém seja conhecedor de outra teoria , coloca aí para sabermos .

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  4. Uorrem Bife,
    As duas respostas dos comentários acima estão corretas.
    O excesso de liquidez no sistema financeiro combinado com ausência de opções tão seguras quanto aos títulos soberanos está empurrando as taxas para recordes mínimos históricos. Esse quadro provoca um efeito casata, pois acaba influenciando os gestores de fundos hedge a especularem na curva dos juros futuros. Exemplo hipotético: se você comprar um título alemão a -0,19% e conseguir vendê-lo a -0,38%, terá um lucro de 100% na operação. Portanto, muitos gestores estão entrando pra especular na curva e não pra carregar os títulos até o vencimento.

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    1. FI,

      Interessante .. não tinha pensando por esse lado ...

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  5. O mercado de ações segue em polvorosa! Não obstante, "... Os títulos de 50 anos da Suíça chegaram a ser negociados ao longo da semana passada com taxas de juros negativas. Meio século, é isso mesmo. Trata-se de uma situação difícil de compreender em termos práticos e símbolo de "zero de confiança econômica no curto e longo prazo", nota a consultoria Benndorf Equity Research..." Esta análise desconsiderou o viés especulativo como citado nos posts acima.

    Fonte: http://www.financista.com.br/noticias/insider/zero-de-confianca-economica

    A liquidez promovida pelos bancos centrais ocasiona distorções "interassantes" no mercado.

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  6. Obrigado a todos pelas respostas, ficou mais claro para mim agora.
    Abraço!

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  7. FI,

    Indo direto ao ponto: isto ja evidencia uma bolha nos titulos? Sera que o que estamos assistindo o ultimo estagio (e mais lucrativo) de uma bolha? Como uma bolha em titulos " estouraria" e quais suas consequencias?
    Se nao for o caso de uma bolha nos titulos, significa que estamos perto de uma correcao forte em ativos de risco, por isso essa corrida para porto seguro? Tempos interessantes e desafiadores. Para nos reles mortais parece que o caminho e guradar dolares no colchao ou ouro.

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    1. Sim existe uma bolha, mas ainda não transmite sinais de ter chegado no estágio final. O que pode demorar vários anos, ou não rs.. Bolhas são a cereja do bolo, devem ser aproveitadas, mas é preciso saber entrar e sair. Estouro e suas consequências são imprevisíveis, dependerá de como os bancos centrais irão agir.

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  8. FI, o que acha do investimento em Bitcoins? Pela análise do artigo* temos um modelo que seria a antítese do que o Bancos Centrais efetuam com o dinheiro.

    http://br.investing.com/analysis/o-que-a-pol%C3%ADtica-monet%C3%A1ria-do-bitcoin-tem-a-nos-ensinar-200141421

    Eventualmente, se possível, gostaria que expusesse sua opinião sobre o tema.

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    1. Olá,
      Vou transcrever a resposta da mesma pergunta de um outro leitor no post anterior. Não considero uma opção segura para trabalhar na alocação de portfólios, muito menos opção de fuga ou segurança. Bitcoins parece ter vida própria sem muita ligação com o quadro macro. Mas para quem gosta de brincar no mercado, é uma boa opção como tantas outras.
      Sobre o artigo, vou ser sincero, não consegui ler tudo, nem chegar na metade rs.. Muita utopia e pouco "pé no chão", textos assim me fazem perder interesse. É só minha opinião rs.. posso estar errado.

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