domingo, 3 de julho de 2016

Encruzilhada no câmbio


O mês de junho foi marcado pelo tombo de mais de 11% do dólar contra real, registrando a maior desvalorização mensal em 13 anos. O movimento abrupto no câmbio, agora descendente, cria fatores positivos e negativos ao ambiente doméstico. Bom para acelerar o importante processo de desinflação, ruim para as exportações, única válvula de escape para muitas empresas brasileiras.


O fato de o Banco Central ter adotado um tom mais duro no último Relatório de Inflação publicado no dia 28 de junho demonstra que o fator negativo do deslocamento descendente do câmbio está pesando mais para a economia brasileira.

A projeção de inflação da autoridade monetária no cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio em R$ 3,45 e meta para a taxa Selic em 14,25%) mostra significativo processo de desaceleração da inflação entre o final deste ano e início do ano que vem, justamente no momento em que a economia estará absorvendo os benefícios (sob o ponto de vista da inflação) do atual deslocamento da taxa de câmbio.


Conforme pode-se notar na tabela acima, extraído do Relatório de Inflação, a projeção central de inflação da autoridade monetária parte de 8,8% no segundo trimestre de 2016, recua para 8,2% no trimestre seguinte e encerra o ano em 6,9%. Em 2017, a projeção para o primeiro trimestre é de 5,9%, desloca-se para 5,2% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,7%. Em 2018, a projeção para o primeiro trimestre é de 4,4%, deslocando-se para 4,2% no segundo trimestre.

O documento, o primeiro sob a gestão do atual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ressaltou o compromisso com a inflação no centro da meta em 2017 (4,5%) sem considerar hipótese de flexibilização das condições monetárias.

A mensagem quebrou as expectativas dovish do mercado em relação à nova gestão de Goldfajn. Mesmo com o refresco no câmbio, o Banco Central optou por não conduzir as expectativas do mercado para um futuro ciclo de afrouxamento monetário, talvez porque, neste momento, o dólar muito baixo incomodará mais do que uma taxa Selic muito alta.

Prova dessa suspeita está presente no último relatório de atividade industrial do Instituto Markit. O Índice Gerente de Compras registrou 43,2 pontos no mês de junho, frente aos 41,6 pontos registrados no mês de maio. Apesar de a pontuação indicar perda de força no processo de desaceleração da atividade manufatureira, ainda assim encontra-se num patamar de contração acentuada. A pesquisa mostrou que o volume de negócios para exportação caiu pela primeira vez desde novembro do ano passado e de modo significativo em mais de quatro anos e meio.

O único aspecto animador ao setor industrial nos últimos meses está agora ameaçado pelo deslocamento do câmbio. Com o ambiente doméstico cada vez mais deteriorado pela desastrosa política econômica do passado, o nível de câmbio propício para as indústrias brasileiras competirem no exterior continua aumentando.

O relatório do Instituto Markit sinaliza que a encruzilhada no câmbio está na faixa dos R$ 3,40. Ou seja, com o dólar abaixo desse patamar a indústria brasileira sente dificuldade para exportar seus produtos.

Importante ressaltar que esse patamar de câmbio poderia ser reduzido caso a inflação de custos fosse menor. Portanto, é perfeitamente justificável ao Banco Central manter a taxa Selic elevada por mais algum tempo, para não perder a janela de oportunidade de redução significativa da inflação nos próximos seis meses, e, assim, poder iniciar cortes relevantes e sustentáveis na taxa básica de juros com o apoio do câmbio já no início do ano que vem.

O mercado aprovou a comunicação do Banco Central no Relatório de Inflação, reascendendo o clima de otimismo no ambiente de negócios. Juros futuros voltaram para as mínimas do ano e a bolsa de valores voltou a subir.

O Ibovespa fechou a semana rompendo para cima uma pequena zona de congestão (entre 48,2k e 51,8k), armando condições técnicas para atacar com força a zona de congestão principal, cuja resistência está localizada na faixa dos 55k.


No cenário externo os preços dos ativos também reagem para cima, devolvendo as perdas registradas pelo Brexit. Entretanto, riscos de novos abalos continuam elevados por conta de notícias não tão boas vindas de dois grandes players globais: União Europeia e China.

Os bancos italianos enfrentam sérios riscos de não passarem nos testes de estresse, cujo os resultados vão sair em 29 de julho. As instituições estão sobrecarregadas de empréstimos ruins e o governo está em conversas com a Comissão Europeia para recapitalizar os bancos mais fracos, a fim de impedir propagação de uma crise de liquidez no sistema financeiro num momento delicado para a União Europeia.

Além disso, Espanha e Portugal correm risco de serem multados por não tomarem medidas suficientes para corrigirem seus respectivos déficits fiscais. Uma potencial sanção aparentemente inexpressiva pode virar uma tremenda dor de cabeça aos líderes europeus, pois a saída do Reino Unido deixou o debate mais caloroso dentro do bloco. O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, saiu abertamente em defesa de Portugal e Espanha na semana passada. Já o presidente do banco central alemão, Jens Weidmann, contra atacou pedindo que a União Europeia não relaxe suas regras fiscais.

Na China, voltaram a surgir sinais de desaceleração do crescimento, o que pode forçar o governo atuar novamente no mercado de câmbio ou adotar mais estímulos para tentar impulsionar a economia. O Índice Gerente de Compras do Instituto Markit recuou de 49,2 pontos em maio para 48,6 pontos em junho, registrando aumento no ritmo de contração da atividade industrial.

9 comentários:

  1. FI, sua expectativa para o dólar? Qual é, nos próximos 12 meses?

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    1. Heavy Metal, não posso te dar um número porque estaria chutando de olhos fechados. O que posso dizer é que a moeda permanece em tendência de queda, vendida, mas atingiu um nível que começa incomodar o governo. Então daqui pra frente, se o dólar continuar nessa tendência, o Banco Central tende a entrar no mercado de câmbio com mais frequência na ponta comprada.

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    2. Também acho impossível prever qualquer coisa.

      Muito depende da questão política e da volta da confiança.

      Eu acho bizarro intervenção do BC. A busca pelo câmbio perfeito, que não existe, e as inúmeras intervenções, que geram mais distorção.

      Abçs!

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  2. Postado por CRICRI

    Bom dia FI

    Vamos ver se após o afastamento definitivo de Dilma o Temer consegue controlar o fiscal.

    FI, não sou familiarizado com investimento em titulos do governo.
    Quando acontece uma queda nos juros futuros isso reflete nos juros de um titulo de 2023 por exemplo ?
    Quem estiver posicionado em pré tem ganho ? Pode acontecer ganho no prefixado de 2023 e perda no 2017 ?

    Agradeço mais uma vez os oportunos esclarecimentos que voce sempre nos proporciona.

    Abraço

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    1. Olá Cricri,
      Sim, as taxas dos títulos públicos acompanham as taxas dos contratos de juros futuros com vencimento no mesmo ano. Um investidor posicionado numa LTN 2023 vai ter praticamente o mesmo ganho de um investidor comprado em contratos de juros futuros pra vencimento em 2023. O ganho no mercado de juros futuros (ou títulos públicos, em caso de venda antecipada) ocorre quando a taxa cai, provocando valorização do papel. Por outro lado, quando a taxa sobe, o título se desvaloriza. Pode ocorrer sim ganho num pré de 2023 e perda num pré de 2017, mas essa divergência direcional nas curvas costuma aparecer somente em prazos bem curtos.
      Abs,

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    2. Postado por CRICRI

      Esclareceu perfeitamente minha duvida.

      Valeu

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    3. Precisando é só perguntar. Meu e-mail também está a disposição (formulário de contato no topo da página).

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  3. FI,

    O que acha do mercado externo? China, Europa, Eua, preocupa? Acha um tom meio exagerado?

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    1. Existe acúmulo de crédito duvidoso na China e na União Europeia. Não é exagero do mercado.

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