quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ata mostra FED ainda dividido, mas a caminho de subir novamente a FFR


A avaliação predominante no mercado financeiro brasileiro nesta quarta-feira em relação ao documento divulgado pelo FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) ficou um pouco distorcida em função das expectativas hawkish criadas pelo recente discurso do presidente do FED de Nova York, William Dudley, no qual afirma que um aumento dos juros já em setembro é possível, dada a evidência de ganhos salariais e do mercado de trabalho mais apertado.
A ata do FED se mostrou longe de corresponder às declarações de Dudley (por sinal não tem poder de voto no Comitê), apresentando o mesmo tom dovish do comunicado divulgado no dia 27 de julho, no qual foi finalizada a reunião do Comitê de Política Monetária.
O documento da autoridade monetária norte-americana divulgado hoje, portanto, reverteu as falsas expectativas criadas pelo discurso de Dudley no dia anterior, fato que contribuiu para impulsionar os preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais.
O problema é que, como de costume, as notícias e análises exageraram nas expectativas, desta vez para o lado dovish. Agora circula no mercado o sentimento de que o FED está longe de subir os juros, o que não é verdade.
A ata mostrou que um membro do Comitê recomendou uma alta na reunião de julho, dois outros membros pediram paciência até assegurar-se que a inflação aumenta até o objetivo de 2%, enquanto outros membros anteciparam que as condições econômicas permitirão em breve outro passo na retirada da política flexível.
A expressão “outros membros”, da forma como foi colocada, indica ser uma avaliação da maioria de membros do Comitê. Isso significa que a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) deverá subir novamente este ano, talvez não na reunião de setembro (pois nenhum sinal concreto de aperto monetário no curtíssimo prazo foi emitido pela autoridade monetária), mas no encontro de dezembro deste ano, já que o mês de novembro tende a ser tenso por conta das eleições presidenciais.
O índice S&P500 fechou em leve alta, revertendo as perdas registradas durante boa parte do pregão. Mercado permanece dentro de uma tendência principal de alta, embora lateralizado no curto prazo, sem apresentar novidade.

No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão apresentando candle semelhante ao S&P500. Mercado em tendência principal de alta, embora voltando a emitir sinalização de esgotamento no curtíssimo prazo.

Destaque para manutenção do importante processo de desinflação em curso na economia doméstica, fato que permitirá futuros cortes (não imediatos) na taxa Selic. Nesta quarta-feira a Fundação Getúlio Vargas informou que o IGP-10 caiu 0,27% em agosto, impulsionado pelos preços no atacado.
O processo de desinflação no Brasil é a principal chave para retomada econômica, além de ser um importante driver para manutenção do movimento comprador em ativos domésticos, especialmente títulos públicos e privados.
Os mercados emergentes (com exceção da China) continuam atraindo fluxos de capital, com investidores e players globais mantendo a busca por ativos com prêmios de risco minimamente razoáveis ou elevados. A escassez por esses tipos de ativos (mesmo junks) nunca foi tão alta em mercados desenvolvidos.
Por fim, a agência de classificação de risco Moody’s emitiu um relatório nesta quarta-feira reconhecendo a melhora nos mercados emergentes, citando forte retorno de investidores a esses mercados.
A perspectiva para o Brasil foi melhorada, agora a agência espera que o País retome o crescimento em 2017. Rússia e China também tiveram perspectivas elevadas. Já as projeções para Turquia e África do Sul foram reduzidas.

18 comentários:

  1. Excelente trabalho prestado à comunidade financeira! Não obstante, verifico que o número de comentários é reduzido quando comparado a blogs de qualidade duvidosa. Assim, posso presumir que a "galera" brasileira gosta é da balbúrdia!

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    1. Obrigado! Já notei isso também rs.. Mas não me incomoda, meu foco é no mercado puro e simples. Se tivesse que escolher entre escrever para 1 pessoa de forma coerente e imparcial ou escrever para 1.000 pessoas de forma sensacionalista (que sempre vem acompanhado de informações erradas), preferiria escolher a primeira opção. Melhor contribuir para educação financeira de 1 pessoa do que destruir a de 1.000 pessoas.

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    2. O blog é tão bom que há pouco a "pitacar" (dar pitaco). Análise é diferenciada, faz um tempão que não comento, mas sempre leio.

      Abraço!

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    3. Sobre o comentário do Anônimo de 18 de agosto de 2016 06:45
      O baixo número de comentários talvez se deva à alta qualidade informacional do blog.
      Seus posts nos induzem a pesquisar o assunto e aí, quando podemos comentar algum artigo, já se passaram dias, e sentimo-nos constrangidos a retomar o assunto.
      Por exemplo, no comentário sobre o Brexit, o FI informou que, não obstante a grande imprensa ter saturado o público inglês com artigos a favor do Bremain, ele soube se manter lúcido e votou a favor do Brexit.
      Sem ter grandes informações a respeito, fui estudar o assunto e, pelo que consegui saber posteriormente, os jornais de maior apelo popular, portanto de maior circulação (tablóides como The Sun, se não me engano é esse o nome, e vários outros) são os que foram a favor do Brexit. Já jornais de menor circulação (The Economist, etc...), dirigidos a um público mais restrito e, portanto, de menor alcance, eram contra o Brexit.
      Coincidentemente ou não, o público que foi contra o Brexit foi o de maior poder aquisitivo e os jovens. Premidos pelo desemprego, a globalização e a imigração desenfreada, os mais humildes repudiaram o Bremain.
      Assim como este, outros posts do FI me fazem estudar e conhecer mais o assunto, mas... só passado algum tempo pode-se contribuir com um comentário e aí já passou a ocasião.
      Blog bom é esse: faz cada um pensar e inibe comentários apressados. Quem se atreverá a fazer comentários apressados em um blog de tal nível?
      FI, não se desanime com o baixo número de comentários; pense antes no enorme número de leitores que sei está tendo, porque se motivando com seus posts a conhecer mais a respeito.
      Parabéns!

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    4. Parabéns pela pesquisa e dedicação na formação de sua própria opinião! Mas por favor sintam-se no mesmo nível do blog para comentar qualquer assunto. Aproveitando, fui descobrir que estavam fazendo propagandas em comentários nos posts anteriores, pra resolver isso tive que moderar os comentários. Soma-se isso a falta de tempo pra respondê-los rapidamente e fazer novos posts, a tendência é o blog ser menos popular rs.. Mas eu não busco isso, então não me preocupo. O objetivo é outro. Obrigado!

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  2. A frase do molusco, em breve, poderá ser plagiada para referenciar o quadro do mercado financeiro: Nunca na história...
    A postura adotada pelos BC's parece a gestão do PT dobrando à aposta no modelo econômico heterodoxo. Se o mercado apresentar uma nova crise sistêmica o que será feito para estimular a economia?

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    1. Mais estímulos rs.. E cada vez mais ousados, alguns banqueiros centrais já estão comprando títulos da dívida privada, ETFs, etc. É o que está sobre a mesa hoje. Ainda não surgiu outra solução. Precisamos entender que o mundo mudou muito no pós crash do subprime. Os BCs se tornaram muito mais atuantes e alavancados, os países estão mais endividados, as políticas ortodoxas perderam força, o crescimento da globalização emperrou, as instituições financeiras estão ainda mais fortes, a inflação está em extinção e os mercados reagem ao gosto dos banqueiros centrais. É o cenário base global que o investidor deve trabalhar. É claro que vai chegar o momento em que algo irá mudar, precisamos estar preparados para isso, mas não dá pra sentar e esperar, tempo é dinheiro.

      Uma curiosidade, essa semana mesmo o FMI recomendou ao premier do Japão estratégias altamente heterodoxas, como incentivos fiscais e sanções para forçarem as empresas aumentarem os salários. Não foi através de um simples comentário, mas sim a conclusão de uma missão de revisão anual que a instituição realizou na economia japonesa. Não é a primeira vez que o FMI se desloca à heterodoxia, isso tem sido cada vez mais frequente nos últimos anos. Ver esse tipo de atitude partir do principal símbolo da ortodoxia de décadas passadas, por si só, é um grande sinal de mudança no mundo pós-2008.

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    2. Clubes de Investimento em Ações são constrangidos (pelo que sei) a apenas aplicar em ativos comercializados em Bolsas de Valores. Antes só haviam ações, mas agora também existem os ETF´s. Sabe dizer se ativos do tipo ETF´s (de ações ou renda fixa), por também serem comercializados em Bolsas, podem também fazer parte da carteira de Clubes de Investimentos?

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  3. FI, verifiquei sua citação sobre a criação de um ETF de renda fixa. Assim, qual será o índice ou ativo de referência? Poderia comentar algo sobre o mesmo?

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    1. Para que o ETF possa ser lançado ao mercado por alguma instituição financeira, é necessário ter o índice de referência reconhecido pela CVM. Lembrando que o ETF precisa seguir integralmente seu índice de referência. Para sair o primeiro ETF de renda fixa no Brasil, foi criado no início deste ano pela BM&FBovespa e a S&P Dow Jones Indices o S&P/BM&F INFLAÇÃO NTN-B. É um índice que acompanha o desempenho das NTNBs mais líquidas denominadas em reais. É o primeiro índice de renda fixa do mercado financeiro nacional que utiliza os critérios de liquidez para formação da carteira teórica. Com o índice operante ( http://www.portugues.spindices.com/indices/fixed-income/sp-bm-f-inflation-linked-ntn-b-index ), faltam apenas regulações finais do Ministério da Fazenda e Receita Federal para que o ETF possa ser lançado ao mercado. A vantagem deste ETF de renda fixa é que o investidor pode se expor em mais de uma NTNB numa só tacada e operar em momentos de suspensão das negociações no sistema Tesouro Direto. Além disso, com a criação deste primeiro ETF, novos índices tendem a ser lançados, abrangendo títulos da dívida privada. O espaço para crescimento dos ETFs é enorme, nos Estados Unidos são mais de 1.500 ETFs negociados no mercado. No Brasil, dá pra contar nos dedos, são apenas 15.

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    2. Clubes de Investimento em Ações são constrangidos (pelo que sei) a apenas aplicar em ativos comercializados em Bolsas de Valores. Antes só haviam ações, mas agora também existem os ETF´s. Sabe dizer se ativos do tipo ETF´s (de ações ou renda fixa), por também serem comercializados em Bolsas, podem também fazer parte da carteira de Clubes de Investimentos?

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    3. Boa pergunta rs.. Não sei responder. As regras para clubes de investimentos há algum tempo ficaram mais rígidas, praticamente inviabilizando a formação de novos clubes. Creio que os que ainda existem representam volume inexpressivo na bolsa.

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  4. FI
    Sabe informar se fundos de índices (ações ou renda fixa) podem fazer parte de Clubes de Investimento?

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  5. FI,

    Muito bom o post.. e realmente ..esse mundo tá ficando muito doido ..

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  6. Sempre Excelente, nao costumo comentar aqui até pq estou no período " esponja" tentando absorver o máximo de informação possível.
    Parabéns

    Eduardo

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    1. Gostei dessa expressão "período esponja" rs...
      Obrigado!

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