quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Condicionantes do Copom para flexibilização monetária são difíceis de alcançar no curto prazo


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira manter a taxa Selic inalterada em 14,25% ao ano, numa decisão amplamente esperada pelo mercado.

A retirada do trecho “cenário básico e o atual balanço de riscos indicam não haver espaço para flexibilização da política monetária” do comunicado emitido após a reunião de Comitê atraiu muita atenção do mercado, com economistas projetando o primeiro corte na taxa básica de juros já no próximo encontro a ser realizado nos dias 18 e 19 de outubro.

Os riscos para um movimento possivelmente precipitado de corte da taxa Selic em outubro já começam pela complicação da data. As condições de mercado no qual o Banco Central brasileiro encontrará em outubro serão fortemente impactadas pela decisão e comunicação do Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - autoridade monetária norte-americana), que se reunirá nos dias 20 e 21 de setembro. Mesmo se a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) não subir em setembro, o FED deixará claro que estará pronto para apertar as condições monetárias ainda este ano.

Além disso, a reunião do Copom brasileiro ocorrerá três semanas antes da importante eleição presidencial dos Estados Unidos, momento em que o nível de tensão no mercado tende a ser elevado, principalmente em função dos discursos e ataques de Donald Trump.

Afrouxar as condições monetárias no Brasil justamente num período em que o FED se mostrará mais hawkish em meio aos debates políticos na reta final da eleição presidencial dos Estados Unidos não será nada fácil e, possivelmente, arriscado demais.

Em seu comunicado emitido na noite desta quarta-feira, os membros Copom brasileiro decidiram, inclusive, acrescentar no parágrafo destinado ao quadro externo que as incertezas relacionadas à normalização das condições monetárias nos Estados Unidos persistem.

Ainda assim, supondo que a data, do ponto de vista externo, fosse favorável ao corte da taxa Selic, o Copom ainda encontraria alguns empecilhos, fruto do complicado quadro doméstico.

Conforme destaque no comunicado, o Copom considera que “a inflação corrente segue pressionada, em parte em decorrência de preços de alimentos, e vem recuando em ritmo mais lento que o esperado”. Essa menção também não estava presente no texto anterior e mostra que o processo de desinflação, em curso, precisa ganhar mais força para que os membros do Copom se sintam mais confiantes para cortar a taxa Selic.

O Copom também quer que a projeção do mercado (leia-se pesquisa Focus) para a inflação de 2017 recue para o centro da meta (4,5%), ficando em linha com a projeção do cenário de referência (feita pela equipe técnica do Banco Central). Atualmente o mercado estima inflação de 5,1% em 2017. Portanto, existe um GAP 0,6 p.p. entre Banco Central e mercado que precisa ser eliminado, fato que pode demandar tempo.

Do lado positivo para o balanço de riscos, o Banco Central acrescentou que “índices de preços no atacado indicam possível arrefecimento do choque de preços de alimentos e um eventual efeito favorável sobre o IPCA”, ficando, agora, três itens favoráveis ao balanço de riscos para o cenário básico de inflação e três itens desfavoráveis.

Por fim, o Copom deixou bastante claro ao final do comunicado que a flexibilização das condições monetárias dependerá de três fatores:

(i) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja limitada;

(ii) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada;

(iii) que ocorra redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal, e seus respectivos impactos sobre a inflação.

Os fatores (i) e (ii) estão em curso, mas talvez não alcancem o nível adequado já na próxima reunião de Comitê a ser realizada em outubro. O fator (iii) é o mais complexo, pois depende de rapidez e eficácia da articulação do Planalto com o Congresso, algo difícil e que será duramente testado nas próximas semanas.

Atenção especial para a emenda que estabelece teto para os gastos. É onde o governo Temer está apostando todas as suas fichas. A medida tem potencial para se tornar um divisor de águas no mercado, restabelecendo sentimento de seriedade fiscal ou não. A reforma da Previdência também é prioritária, mas os esforços tendem a se concentrar apenas em 2017.

No quadro externo, destaque para nova pressão negativa sobre a economia mexicana. Aumentou a velocidade de desmonte de posições compradas no País após a agência de classificação de risco Standard & Poor’s revisar a perspectiva da nota de crédito soberana, atualmente em BBB+, de estável para negativa, citando o decepcionante crescimento econômico e estoque de dívida crescente.

9 comentários:

  1. Interessante como o "mercado" fez uma leitura diferente da sua, fixando-se em uma frase retirada da comunicado.
    Concordo com você. Se houver redução, será em novembro (e olhe lá...)

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    1. Isso acontece nos Estados Unidos também. Os analistas/economistas creditam muito peso a determinadas expressões, esquecendo do principal, que são as condicionantes, ou os deslocamentos dos indicadores econômicos. O Banco Central brasileiro está usando a mesma estratégia do FED, ele antecipa um movimento de política monetária com antecedência, mas condicionando a evento/meta indicador X, Y e Z. Ou seja, fica claro o movimento futuro, mas não o timming. O Banco Central aperta o botão, mas "quem manda" apertar são os desdobramentos dos indicadores/fundamentos macro.

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    2. Prosseguindo no meu comentário acima, trago um exemplo retirado da edição de hoje do Valor:
      "O comunicado foi muito claro em abrir a porta para cortes em outubro”, afirma o gestor de um fundo paulista. Ele explica que o efeito do comunicado foi trocar uma certeza — ‘não há espaço para flexibilização da política monetária monetária’ — por uma série de condicionantes subjetivas que, se satisfeitas, permitirão um corte de juros. “Há chance ba “Há chance bastante razoável de que algumas delas estejam satisfeitas até outubro. Daí a ideia de que dá para cortar mas com a informação atual”, explica, observando que o mercado está precificando..."

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    3. Olá,
      Discordo da opinião do gestor entrevistado. As condicionantes são objetivas e muito claras:

      (i) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja limitada;

      (ii) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada;

      (iii) que ocorra redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal, e seus respectivos impactos sobre a inflação.

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  2. Reitero o comentário sobre o belo trabalho.
    Em relação à influência dos alimentos no IPCA, aqui no Bradil é realmente muito difícil haver um recuo expressivo. Sempre um item fica com o preço elevado em razão de fatores climáticos (ou chove demais e a produção do alimento é baixa, ou a seca é demais e a produção também não é aquela esperada). Engraçado que na Europa e nos EUA o clima parece sempre favorecer, não é verdade? Digo isso Pq sempre acompanhamos inflação baixissima nesses centros ou até mesmo deflação.
    FI, se achar interessante faça um paralelo do IPC do Brasil com zona do euro e EUA. Eu, assim como vc, venho acompanhando alguns dados gerais que me causam espanto. Por exemplo: por um lado temos altas taxas de desemprego na Espanha e Grécia (acima do nível do Brasil), por outro temos taxa de juros básica extremamente baixa, inflação extremamente baixa ou até mesmo deflação, aumento de preços de imóveis e economia estagnada. Numa situação "normal", na minha ignorância, o acrescimento de 1% na taxa básica de juros na Zona do Euro, faria aquele continente explodir (não quero me aprofundar nesse momento, mas gostaria de esclarecer melhor esse meu ponto de vista, quem sabe outra hora).
    Bom, é isso.
    Obrigado pela excelente análise.

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    1. Obrigado!
      Considero o IPCA razoavelmente adequado à economia do País, que ainda está em fase de desenvolvimento. É difícil fazer comparação de cesta de inflação de países desenvolvidos com países emergentes, por conta da grande diferença no estilo de vida. Já houve recuo expressivo do IPCA na era pós hiper inflação. Em 2002 o IPCA bateu 12,53%, o Banco Central apertou a política monetária e em 2006 o IPCA já estava abaixo do centro da meta, em 3,14%. Mérito pra gestão de Armínio Fraga e Henrique Meirelles. Inflação as vezes é mais psicologia e menos matemática rs.. A forma de atuação do Banco Central é fator determinante para as expectativas dos agentes.
      Realmente é de causar espanto. Os problemas enfrentados na zona do euro são altamente complexos, a começar pelos bancos em situação delicada desde o pós-2008 (sustentados pelo BCE) e déficits dos governos elevados (também sustentados pelo BCE). O sistema está longe de funcionar perto da normalidade e as soluções não aparecem.

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    2. FII, apenas para que possamos ter uma ideia para quantos % pode ir a SELIC, teria como vc informar de quanto era a SELIC nessa época (inflação de 3,14%), bem como fazer uma breve análise se é factível que a SELIC (na verdade, o spread inflação/SELIC) volte para esse quantum?

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    3. A taxa Selic fechou 2006 em 13,25%, continuou recuando nos anos seguintes. O pico ocorreu em 2003 aos 26,50%. Foi esse último aperto na gestão do Meirelles no Banco Central que permitiu recuo sustentado da taxa Selic durante toda a década passada. Não há como fazer comparação com o quadro atual, pois as condições macro são diferentes. O governo Dilma I pegou quadro bastante favorável, inflação ancorada na meta com juros recuando de forma gradual e sustentada. A grande bobeira foi ter forçado uma queda rápida da taxa Selic para 7,25%.

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