sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Jackson Hole 2016: a modernização da política monetária


O importante encontro anual de Bancos Centrais do mundo inteiro realizado em Jackson Hole, no Estado americano de Wyoming, transmitiu uma mensagem de extrema relevância ao futuro da política monetária a nível global. Este novo pensamento acabou passando despercebido em função do alvoroço criado pela mídia referente ao discurso da chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen.

Yellen afirmou que a hipótese de aumento da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) tem ganhado força nos últimos meses devido à melhora no mercado de trabalho e às boas expectativas de crescimento econômico e da inflação.

A chair do FED não indicou especificamente quando a FFR subirá, mas o seu discurso deixou claro que a autoridade monetária norte-americana está com o dedo no gatilho para subir novamente a meta para a taxa básica de juros no curto prazo. Isso significa que se o aumento de 0,25 p.p. não vier na reunião de Comitê dos dias 20 e 21 de setembro, virá no encontro de outubro (pouco antes da eleição presidencial nos Estados Unidos) ou na reunião de dezembro.

Apesar da insistência dos economistas/analistas, pouco importa tentar antecipar o timming exato deste novo aumento. O fato relevante é que a meta da FFR está próxima de ser elevada para 0,50% a 0,75% ao ano, confirmando um ciclo muito gradual. Além disso, a comunicação da autoridade monetária tem sido eficaz e, consequentemente, o mercado de juros futuros (esse sim, fator determinante para o fluxo de capitais) tem reagido com certa irrelevância ao aperto na política monetária.

Isso se deve ao fato de as projeções do FED apontarem para uma taxa básica de juros muito baixa no futuro, bem inferior, inclusive, à média histórica. Nesta sexta-feira, Yellen reforçou em seu discurso que a taxa de juros neutra (equilíbrio para manter a economia funcionando em pleno emprego e inflação comportada) deve permanecer muito baixa se a produtividade continuar crescendo lentamente.

A percepção de que o crescimento permanecerá modesto nos próximos anos praticamente inviabiliza o retorno das taxas básicas de juros de países desenvolvidos à normalidade (ou média histórica). Ou seja, é certo que os juros permanecerão muito baixos no mundo desenvolvido até que o crescimento volte a ser pujante.

A permanência de juros baixos por muito tempo tem alimentado forte receio no mercado frente à incapacidade das autoridades monetárias de combaterem novas crises econômicas, já que haverá pouca margem para ser utilizada na ferramenta convencional (juros mais baixos significam pouco espaço para que futuros cortes consigam reanimar a economia).

Jackson Hole 2016 veio para responder esse temor do mercado e não para antecipar o timming da política monetária de curto prazo do FED. Inclusive, Yellen reservou boa parte de seu discurso, amplamente aguardado, para mostrar ao mundo que o seu arsenal vai muito além da FFR. As opções são chocantes.

Estudos recentes de autoridades monetárias mostram que comprar títulos do governos imprimindo dinheiro novo (ferramenta já utilizada pelo FED, BCE, BoE, BoJ, entre outros) pode compensar a impossibilidade de os juros cederam mais ou irem muito abaixo de zero. O conjunto de ativos que podem ser comprados pelos Bancos Centrais também pode ser ampliado.

Além disso, Jackson Hole 2016 mostrou que a estratégia do dinheiro de helicóptero, ainda pouco conhecida, tem ganhado boa aceitação entre as autoridades monetárias. Os governos poderiam, por exemplo, tocar obras de infra-estrutura financiadas por dívida que seria comprada pelos Bancos Centrais. Os déficits fiscais aumentariam ainda mais, bem como os balanços dos Bancos Centrais.

A meta de inflação de 2% ao ano (padrão para boa parte das economias globais, principalmente as desenvolvidas), poderia ser elevada para permitir mais injeções de dinheiro na economia no curto prazo. Estudos de economistas dos bancos centrais mostram que há poucas evidências de que 3% ou 4% de meta de inflação seria pior do que 2%. Com uma meta mais elevada, haverá espaço para a taxa básica de juros subir mais e, assim, em momentos de recessão, os bancos centrais teriam mais espaço para cortar juros e estimular o crescimento.

Os três dias de encontro de equipes de banqueiros centrais do mundo inteiro em Jackson Hole neste ano mostraram que as autoridades monetárias continuam não temendo assumir o papel de grandes protagonistas da economia e dos deslocamentos dos preços dos ativos no mercado.

Os Bancos Centrais continuam agressivos e prontos para atuar cada vez mais em momentos delicados ou mesmo de pequenos deslizes. As consequências de longo prazo podem ser perigosas, mas são imprevisíveis. Por enquanto, segue permanecendo o status quo de economias sustentadas pelos banqueiros centrais e mercados de capitais guiados conforme sua preferência.

5 comentários:

  1. Grato pelo trabalho!

    FI, permita-me um chiste:

    Dinheiro de Helicóptero - Medida pela qual os gastos públicos são subsidiados diretamente por um banco central.

    Buraco Negro - Pela Teoria Geral da Relatividade corresponde a uma região do espaço da qual nada, nem mesmo objetos que se movam na velocidade da luz, podem escapar.

    O "novo normal" das diretrizes econômicas é algo assustador!

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    1. Obrigado! Boa rs.. Sem dúvida e se movendo de maneira muito rápida. Já se discute no Japão formatos do dinheiro de helicóptero para ser implementado no curto prazo, caso necessário.

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  2. Postado por CRICRI

    Bom dia FI

    Muito útil a sua análise dos detalhes da discussão econômica.

    Obrigado

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  3. "Os governos poderiam, por exemplo, tocar obras de infra-estrutura financiadas por dívida que seria comprada pelos Bancos Centrais. Os déficits fiscais aumentariam ainda mais, bem como os balanços dos Bancos Centrais."

    Terá sido a Dilma uma gênia a frente do seu tempo?

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