terça-feira, 27 de setembro de 2016

Banco Central vence mais uma batalha, mas ainda não conquistou o mercado


O Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta terça-feira mostrou que o Banco Central venceu mais uma importante batalha na guerra de perspectivas para a inflação brasileira. Apesar de os números terem melhorado, o GAP de projeções entre o cenário de referência e o cenário de mercado ainda pode ser considerado elevado, o que releva necessidade de manutenção do rigor na estratégia de política monetária do Banco Central.

As projeções do cenário de referência (feitas pela autoridade monetária) apontam para uma inflação de 7,3% em 2016 (0,4 p.p. acima do valor considerado no Relatório de Inflação de junho de 2016). Em 2017, projeção de inflação do Banco Central recua para 6,2% no primeiro trimestre, desloca-se para 5,2% e 4,5% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,4%. Em 2018, a projeção para o primeiro trimestre é de 4,2%, deslocando-se para 4,0% no segundo e terceiro trimestres, e encerrando o ano em 3,8%.

Comparando com o Relatório de Inflação anterior, a projeção de inflação subiu do terceiro trimestre de 2016 ao primeiro trimestre de 2017. As novas projeções passam a recuar apenas a partir do terceiro trimestre de 2017.

Neste cenário, a autoridade monetária supõe manutenção da taxa Selic em 14,25% ao ano e taxa de câmbio em R$ 3,30 durante todo o horizonte de previsão. Além disso, o Banco Central considera a evolução da política fiscal, isso significa que a conta do cenário de referência envolve o encaminhamento das importantes reformas propostas pelo atual governo.

Já as projeções do cenário de mercado (apuradas pela pesquisa Focus) mostram inflação de 6,2% no primeiro trimestre de 2017, deslocando-se para 5,4% e 4,9% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, encerrando o ano em 4,9%. Em 2018, a projeção de inflação encontra-se em 4,9% no primeiro trimestre, recua para 4,7% no segundo e terceiro trimestres, encerrando o ano em 4,6%.

Também comparando com o Relatório de Inflação anterior, a dinâmica da trajetória ficou semelhante à observada no cenário de referência até o primeiro trimestre de 2017. A partir do segundo trimestre de 2017, a projeção no cenário de mercado apresenta uma maior queda em relação aos valores apresentados no Relatório de Inflação de junho de 2016, muito em função de uma expectativa de menor ritmo de queda da taxa Selic no curto prazo.

Neste cenário, as expectativas para a evolução da taxa de câmbio média recuaram para 2016 (de R$3,58 para R$3,28), 2017 (de R$3,80 para R$3,45) e 2018 (de R$ 3,90 para R$ 3,58), em comparação aos valores divulgados no Relatório de Inflação anterior. No que se refere à evolução da taxa Selic, as expectativas para o quarto trimestre de 2016 saltaram de 13,44% a.a. para 14,08% a.a. e, para o final de 2017, deslocaram-se de 11,25% a.a. para 11,00% a.a. Para o final de 2018, as expectativas mantiveram-se em 10,50% a.a.

A comparação entre as expectativas de inflação do Banco Central (cenário de referência) com as expectativas de inflação do mercado (pesquisa Focus) ainda mostram GAP relativamente expressivo em 2017. O Banco Central quer entregar inflação na meta (4,5%) já em 2017, mas o mercado só enxerga essa ancoragem no fim de 2018, mostrando que a política monetária, apesar de agradar os agentes, precisa conquistar mais confiança do mercado para garantir a conclusão de seus objetivos.

No Relatório de Inflação, a autoridade monetária mostrou satisfação com a transição da queda nos preços de alimentos no atacado para o varejo, o que derruba a primeira incerteza levantada na ata da última reunião de Comitê: “(i) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação fosse limitada”.

Entretanto, o Banco Central afirma que ainda há sinais inconclusivos quanto à velocidade de desinflação em direção à meta, o que mantém o ponto de interrogação sobre a segunda barreira que inviabiliza o início do processo de afrouxamento monetário: “(ii) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indicassem desinflação em velocidade adequada”.

Em relação à terceira (e talvez mais importante) barreira: “(iii) que ocorresse redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal e seus respectivos impactos sobre a inflação”, o Banco Central considera que há sinais positivos em relação ao encaminhamento e apreciação das reformas fiscais. Entretanto, o processo de tramitação ainda está no início e as incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários permanecem.

Portanto, entre as três principais incertezas da autoridade monetária para o balanço de riscos, duas ainda permanecem abertas, necessitando de sinais positivos para que os membros do Comitê se sintam mais confiantes em cortar a taxa básica de juros.

O Banco Central avaliará a evolução da combinação desses fatores, ou seja, nenhum dos três itens, por si só, serão determinantes para as futuras decisões de política monetária. Entretanto, o fato de existir incerteza em dois itens (incluindo o de supostamente maior peso – fiscal), transmite sinal de que é necessário esperar um pouco mais de tempo ante de se iniciar o ciclo de afrouxamento monetário.

Parte relevante de analistas, por sua vez, enxergam sinais de início do ciclo de aperto monetário na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de outubro. Essa expectativa foi criada em função da projeção de inflação de 4,4% no fim de 2017 e 3,8% em 2018, ambas no cenário de referência, fato que deveria abrir espaço técnico para corte na taxa Selic.

Porém, neste momento, a projeção de maior relevância ao Banco Central é o cenário de mercado (pesquisa Focus), que ainda mostra inflação de 4,9% no fim de 2017 e 4,6% em 2018. A autoridade monetária segue travando seguidas batalhas contra as expectativas do mercado e precisa que esses números melhorem (ou seja, apontem para ancoragem da inflação na meta) para declarar vitória na guerra da retomada da confiança.

O pessimismo embutido nas projeções de mercado ainda é reflexo dos inúmeros erros cometidos no passado. Ao demonstrar rigor no combate à inflação, o Banco Central tem conseguido reduzir esse pessimismo do mercado, presente nas expectativas de inflação em trajetória descendente. A retomada da confiança, portanto, é um processo importante, mas que ainda está em curso. Cortes precipitados na taxa básica de juros podem colocar em risco parte da confiança recuperada nestes últimos meses.

A ansiedade do mercado para o Banco Central iniciar logo o ciclo de afrouxamento monetário pode ser explicada pela suposta combinação de pressões do próprio governo, de grupos empresariais e, principalmente, de gestores de fundos/tesoureiros brasileiros que entraram relativamente atrasados nos títulos pré-fixados, depois de fundos hedge estrangeiros terem abocanhado as taxas mais elevadas do passado recente.

O contrato de juro futuro com vencimento em 2018 mostra que a pressão está funcionando, ao romper para baixo uma longa congestão. A expectativa de corte na taxa Selic já no mês de outubro é cada vez mais forte.


A bolsa brasileira trabalhou novo ponto de apoio, na região dos 57,5k. O mercado, portanto, entra numa congestão de curto prazo, pressionado por duas zonas de resistência (60,3k e 59,5k) e duas zonas de suporte (56,5k e 57,5k).


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão desta terça-feira em alta de 0,64%, refletindo o desempenho positivo da candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton (queridinha de Wall Street), no primeiro debate presidencial. Hillary se mostrou mais preparada e não só se comunicou melhor, como conseguiu jogar seu adversário do Partido Republicano, Donald Trump, em posições defensivas diversas vezes.
 

6 comentários:

  1. Postado por CRICRI

    Bom dia FI

    Parágrafo 14 : ciclo de afrouxamento monetário

    Então como vai se comportar o BC ?
    Vai ser fiel as próprias convicções ou vai ceder ?
    Se ceder estará diminuindo a credibilidade perante o próprio mercado. Isso poderá fazer falta mais a frente.
    Com todo este noticiário de baixa de juros achei que eu é que não estava entendendo nada.
    Depois da sua análise fico mais tranquilo.
    Abraços

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    1. Pode acabar cedendo. As condicionantes para corte de juros estão muito claras na ata, mas o próprio Banco Central começa adotar um discurso de subjetividade na análise destas condicionantes, o que pode acabar reduzindo a importância de cada uma delas no processo de tomada de decisão, abrindo espaço, portanto, para uma "decisão subjetiva" de corte de juros. Na minha opinião, não há como ser subjetivo em relação às condicionantes:
      "(i) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja limitada;" Resposta simples. Foi limitada? Sim (minha opinião)
      "(ii) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada;" Resposta simples. Desinflação em velocidade adequada? Não (minha opinião, lembrando que estamos em recessão aguda)
      "(iii) que ocorra redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal, e seus respectivos impactos sobre a inflação." Também resposta simples. E também negativa (minha opinião). Não há garantia na aprovação e implementação dos ajustes, da forma como o governo propôs. Além disso, para que o fiscal contribua com a inflação, o governo precisa cortar gastos ou no mínimo fazer superávit (ainda estamos muito longe disso). Caso contrário, quando a economia voltar a crescer 2%/3% ao ano, voltaremos a ter problemas com inflação. No que se refere aos demais ajustes necessários à economia, existe apenas uma "vontade do governo". É melhor do que tínhamos antes, mas ainda é muito pouco. É preciso que essa vontade se transforme em algo concreto mais rapidamente.

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  2. Foi noticiado ontem que a PEC do teto dos gastos será votada em 10-11 de outubro (logo, antes da próxima reunião do COPOM)na Câmara dos Deputados.
    Não lhe parece que, se aprovada, levará o BC a reduzir os juros, tal como o mercado pressiona? Pois então, das 3 condicionantes, 2 já estariam quase resolvidas em favor da diminuição dos juros e a terceira, a inflação dos serviços, é nebulosa (o box ao final do RTI mostra que nem o BC sabe direito o que está se passando)

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    1. Certamente vai pressionar para um corte de juros. Mas na minha avaliação a PEC do teto dos gastos, por si só, é insuficiente para redução das incertezas na terceira condicionante traçada pelo Banco Central. Arrisco dizer que sequer é suficiente para resolver o grave problema fiscal. Enquanto o Estado continuar grande demais, os gastos permanecerão elevados, contribuindo, portanto, para manter a inflação pressionada. As demais reformas necessárias à economia são extremamente importantes, tanto para incentivar o ressurgimento da oferta, quanto para ajudar manter a inflação ancorada na meta, mas ainda estamos evoluindo muito lentamente nesse campo.

      Também acho que, neste momento, um ciclo de afrouxamento monetário não causará impacto na inflação de curto e médio prazo, ou seja, o processo de desinflação tende a permanecer com ou sem o corte de juros. Mas isso pode ser um "dovish trap" ao BC, porque o problema recairá para a inflação futura, pós 2018/2019. Se voltarmos a fazer PIB de 2%/3% ao ano com a economia ainda desajustada, vamos voltar a ter problemas com a inflação já no final desta década. Então por mais que os próximos 2 anos possam ser positivos para o balanço de riscos da inflação, infelizmente não estaremos livres de novos choques no futuro.

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  3. Quando vai rolar um tópico sobre a situação do Deutsche Bank e demais bancos europeus? Prevejo fortes turbulências por lá.

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    1. Quando eu tiver mais informações rs... Estão restringindo o máximo possível, o que chega nós, investidores individuais, são apenas comentários genéricos.

      Mas a situação do sistema financeiro na zona do euro é nebulosa. Em 06 de julho emiti um alerta sobre os créditos podres no sistema financeiro italiano, com alto potencial de contágio. Suspeito que alguns BCs de países na zona do euro já estão atuando pra fornecer liquidez, mas a informação não está chegando ao mercado.

      http://www.financasinteligentes.com/2016/07/brexit-acende-barril-de-polvora-na.html

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