sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Bonds sofrem Ippon e contaminam mercado


Ippon, termo utilizado nas artes marciais japonesas para caracterizar um golpe perfeito ou inesperado, é a melhor forma de traduzir os importantes acontecimentos dos últimos dias no mercado financeiro mundial.

O ambiente positivo começou a se reverter no Japão ainda no início do mês passado quando o BoJ (Bank Of Japan – autoridade monetária japonesa) resolveu manter sua base monetária em 80 trilhões de ienes (cerca de 775 bilhões de dólares), sem aumentar o ritmo de compras de ativos.

Pouco tempo depois, na conferência anual de Bancos Centrais do mundo inteiro em Jackson Hole, a chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, afirmou que a hipótese de aumento da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) tem ganhado força nos últimos meses devido à melhora no mercado de trabalho e às boas expectativas de crescimento econômico e da inflação.

Yellen deixou claro em seu discurso que a autoridade monetária norte-americana está com o dedo no gatilho para subir novamente a meta para a taxa básica de juros no curto prazo. Isso significa que se o aumento de 0,25 p.p. não vier na reunião de Comitê dos dias 20 e 21 de setembro, virá no encontro de outubro (pouco antes da eleição presidencial nos Estados Unidos) ou na reunião de dezembro deste ano.

Entretanto, o mercado criou uma falsa expectativa (adiamento do aumento da FFR para o próximo ano) com o último relatório de emprego divulgado sexta-feira passada, já que a criação de vagas (151 mil) veio abaixo do esperado (180 mil). Os economistas/analistas consideraram o número ruim, mas o fato é que o ritmo de 151 mil novos postos atende a necessidade do FED. Em Jackson Hole, Yellen frisou que os dados de emprego precisam apenas continuar confirmando a boa perspectiva e não, necessariamente, atingir níveis extraordinários para que a FFR possa ser elevada novamente.

Já nesta semana, o Comitê de Política Monetária do BCE (Banco Central Europeu) resolveu manter o calendário de seu programa de estímulos, sem apresentar novidade em matéria de política monetária. Os investidores esperavam que o programa de compra de ativos do BCE poderia ir além do previsto, mas o presidente da instituição, Mario Draghi, jogou um balde de água fria no mercado ao afirmar que uma prorrogação não foi discutida na reunião.

Mesmo com todos esses sinais hawkish (ou menos dovish) dos banqueiros centrais em suas respectivas políticas monetárias, os investidores, mal acostumados com a onda de estímulos, se relutavam em acreditar na mudança de tom.

O choque veio nesta sexta-feira com o discurso de Eric Rosengren, presidente da regional do FED de Boston, que apesar de ter sido feito no mesmo tom de Yellen em Jackson Hole, quebrou as falsas expectativas criadas pelos economistas/analistas com o relatório de emprego.

Tanto Eric Rosengren, quanto Janet Yellen, são conhecidos no mercado por terem inclinação dovish. O fato de membros votantes do Comitê, de viés dovish, sinalizarem para uma futura alta da FFR, por si só, é um forte indicativo de que o FED está realmente perto de subir a taxa básica de juros.

Lael Brainard, integrante do conselho do FED, com direito a voto e, também, com viés reconhecidamente dovish, vai discursar no Conselho de Temas Globais na próxima segunda-feira, no que será a última janela de oportunidade para pronunciamento de um membro do alto escalão antes do período de silencio que antecede a reunião de política monetária. Possivelmente Brainard vai tentar acalmar os ânimos no mercado, mas manterá o mesmo tom do discurso de Yellen em Jackson Hole.

O epicentro do clima de aversão ao risco começou nos mercados de bonds e se espalhou rapidamente pelos demais ativos financeiros. O rendimento da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) disparou para 1,67% ao ano, máxima dos últimos dois meses e meio, mostrando forte movimento vendedor.


As Gilts (títulos do Tesouro Britânico), que haviam surfado a onda de otimismo criada pelos estímulos do BoE (Bank of England – autoridade monetária britânica), sofreram forte reversão nos últimos dias, voltando a pagar um rendimento de 0,86% no título com prazo de 10 anos.


O baque também atingiu os títulos públicos do governo alemão, marcando outro movimento histórico. Após ceder para -0,189% ao ano, o rendimento do título de 10 anos voltou aos 0,01%, pegando muitos gestores de fundos hedge de surpresa. O retorno do rendimento ao campo positivo teve forte apelo psicológico, soando o alarme no mercado.


O rendimento do título público de 10 anos do Japão está muito perto de retornar ao campo positivo, após registrar mínima em -0,287%. Mercado fortemente vendedor.


O ETF do JP Morgan para o índice EMB (Bonds de mercados emergentes) fechou em forte baixa pelo segundo dia consecutivo, mostrando desvalorização expressiva na cota (o que representa intenso movimento vendedor em títulos públicos de mercados emergentes).


O sell-off em bonds de emergentes é o mais forte desde que esses mercados surfaram uma forte onda compradora, iniciada em janeiro deste ano. A sinalização de topo no EMB, a princípio temporário, confirmou a divergência dos indicadores nos últimos dois meses, se tornando numa forte ameaça à linha de sustentação de preços.

As bolsas de valores do mundo inteiro foram rapidamente contaminadas pelo pânico no mercado de bonds, alimentando o clima de aversão ao risco. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 confirmou expectativa de um desfecho traumático ao sair de uma congestão de curto prazo detonando para baixo, mostrando correria para fechamento de posições compradas de curto prazo.


No Brasil, o índice Bovespa trabalhou formação de topo, a princípio temporário, na região psicológica dos 60k. Mercado virou fortemente para venda, caracterizado pela formação de um marubozu de baixa apoiado pela sinalização de divergência emitida pelos indicadores técnicos. As regiões de suporte de curto prazo são fracas, o que poderá facilitar teste na LTA dos 37k.


6 comentários:

  1. Quais seriam os suportes no S&P?
    Aumento de juros nos EUA não tem correlação com subida das bolsas americanas (ao contrário do que seria de se esperar) por significar que a economia vai bem (ou irá melhorar )?

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    1. Não há região de suporte relevante até a média móvel simples de 200 períodos diária, hoje na faixa dos 2057 pontos. Pouco abaixo dessa média, tem o fundo ascendente da última pernada de alta, em 1991 pontos. Então essa zona entre 1990 pontos a 2050 é forte. O principal driver desse ciclo bull nos Estados Unidos é a política monetária do FED, desde 2009.

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  2. Boa tarde.

    Tenho acompanhado seus comentários e análises com frequência, desde recentemente. Gostaria de te dar os parabéns pela simplicidade, clareza, objetividade, e imparcialidade com que escreve.

    Um abraço,

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  3. Como sempre, uma ótima análise do mercado global e nacional.

    FI, caso ocorra a alta dos juros americanos, o que aconteceria com a taxa Selic? Qual a sua opinião em relação a inflação brasileira. Haveria uma fuga de investidores estrangeiros no nosso tesouro direto?

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    1. Obrigado!

      Há espaço para queda da taxa Selic mesmo com mercado estressado, mas o Banco Central precisa receber sinal verde do boletim Focus, ou seja, mediana de projeções do mercado apontando para IPCA no centro da meta em 2017 (4,5% ou perto disso). Além disso, a análise do conjunto de condicionantes para flexibilização monetária traçadas pelo Copom ainda não chegou no ponto para dar o start no ciclo. Os indicadores estão indo na direção correta, mas numa velocidade ainda razoavelvemente decepcionante (a velocidade poderia ser melhor, em função da grave recessão e elevada taxa de desemprego). Por fim, o calendário norte-americano não ajuda para dar start no nosso ciclo em outubro, seria muito melhor esperar o fim do ano.

      Considerando o recuo do dólar neste ano mais a rápida elevação da taxa de desemprego e o baque na economia, a inflação deveria estar em patamares bem menores que os atuais. Então mesmo com o ciclo de afrouxamento prestes a entrar em curso, não estaremos livres de novos arranques no IPCA. Para esse risco ser minimizado, o Banco Central precisa fazer com que o IPCA recue para 4,5% e fique quieto lá rs..

      Não, até porque investidores estrangeiros utilizam outros meios para comprar dívida pública do governo brasileiro. Tesouro Direto tem foco no varejo e ainda ocupa parte insignificante da dívida pública federal. De qualquer maneira, as taxas dos títulos públicos são definidas pelo mercado (e não pelo sistema Tesouro Direto), num caso de fuga de capitais, os juros futuros tendem a subir e com isso os títulos do Tesouro Direto se desvalorizam (taxas sobem).

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