quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Deutsche Bank soa alarme na Europa


Os dez hedge funds que, segundo a Bloomberg, desmontaram rapidamente suas posições e sacaram parte do capital alocado no Deutsche Bank fizeram soar o alarme no sistema financeiro europeu.

O Deutsche Bank, segundo maior banco de investimento da Europa, precisa pagar 14 bilhões de dólares ao governo norte-americano para que o Departamento de Justiça encerre um litígio civil acerca da negociação de títulos lastreados em hipotecas e atividades de securitização entre os anos de 2005 e 2007. Essas operações fraudulentas do Deutsche, assim como de outros bancos norte-americanos e estrangeiros, foram responsáveis pelo impressionante estouro da crise do subprime em 2008, que quase arrebentou com o sistema financeiro global.

Assim como os demais bancos envolvidos neste caso dos créditos subprime, o Deutsche provisionava em seu balanço certa quantia para que o processo fosse encerrado no Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acontece que a multa de 14 bilhões veio muito acima do valor esperado pelos alemães, que possuem cerca de 6 bilhões de dólares provisionados em seu balanço.

Inicialmente, os 14 bilhões não causaram muito alarde no mercado, pois a multa é negociável e os governos, normalmente, jogam o máximo para cima (neste caso, os 14 bilhões de dólares equivalem ao valor de mercado do Deutsche Bank), para, posteriormente, terem uma boa margem para ceder desconto e fechar acordo.

Acontece que o receio no mercado aumentou depois que o jornal alemão Die Zeit afirmou que o governo da Alemanha tinha um plano já estruturado para resgatar o Deutsche Bank. Num primeiro momento, o Deutsche Bank seria forçado a vender ativos no mercado, que receberiam garantias do Estado. Caso fosse necessário, num segundo momento, o governo alemão iria comprar 25% do Deutsche Bank e colocá-lo em rota de fusão com o outro gigante financeiro alemão, o Commerzbank (onde o governo já detém 15% de participação).

Se o governo da Alemanha tem um plano de resgate para o Deutsche Bank, certamente o buraco é muito mais em baixo do que uma multa altamente negociável de 14 bilhões de dólares ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Desde a crise da dívida soberana na periferia da zona do euro, especula-se no mercado que alguns bancos do sistema financeiro europeu estão insolventes.

Ainda neste ano, os impactos do Brexit sobre a União Europeia criaram pânico no mercado interbancário europeu, com rumores relacionados aos supostos acúmulos de créditos duvidosos nos balanços dos bancos italianos, sendo o Monte dei Paschi di Siena (o terceiro maior banco do País), o mais afetado. O temor foi abafado pelas autoridades europeias, apesar de as dúvidas ainda permanecerem.

Se existe suspeita em relação à solvência de alguns bancos na Europa, o Deutsche Bank certamente é o olho desse furacão invisível. Cabe ressaltar que no final do mês de junho deste ano, o FMI (Fundo Monetário Internacional) emitiu um relatório apontando que o Deutsche Bank é a instituição financeira que apresenta maior risco à estabilidade financeira mundial.

A notícia do Die Zeit foi rapidamente negada pelo ministro de Finanças alemão. Outras autoridades políticas no País também reforçaram o coro, rechaçando qualquer possibilidade de resgate. O problema é que, logo em seguida, o Commerzbank veio ao mercado anunciar suspensão do pagamento de dividendos e demissão de nada menos do que 9.600 empregados, levantando suspeita de que o banco já está se preparando para a fusão com Deutsche Bank.

O plano do governo alemão, portanto, parece realmente existir, apesar das negativas por parte das autoridades políticas. Como se não bastasse, existe outro problema ainda mais grave: o plano, para funcionar, não poderia ter vazado pela mídia.

Com as novas leis da União Europeia, defendidas rigorosamente pela Alemanha, ficou mais difícil para os governos salvarem os bancos. A segunda parte do plano de resgate do governo alemão (compra de 25% do Deutsche Bank), implicará, justamente, no acionamento de uma resolução que poderá prejudicar detentores de bônus e depositantes do Deutsche Bank.

Com a resolução acionada, detentores de bônus do Deutsche Bank, no valor de 100 mil euros ou mais por titular, e clientes do Deutsche Bank, com saldo superior a 100 mil euros ou mais por titular, correm o risco de serem forçados a participarem do programa de resgate, podendo perder dinheiro com parte de seus recursos sendo utilizado para recapitalizar o banco.

Ainda que os correntistas alemães possam contar com o Fundo de Garantia de Depósitos (semelhante ao FGC brasileiro), não está descartado o risco de uma corrida de saques ao primeiro sinal de possível intervenção do governo alemão no banco, o que acionaria a resolução.

Por este motivo, os dez hedge funds que desmontaram posições no Deutsche Bank fizeram soar o alarme no mercado, pois transmitiram sinais de que estão desconfiados com o banco alemão ou mesmo identificaram riscos de serem acionados pela resolução da União Europeia. Até então, ninguém contava com essa possibilidade.

As autoridades alemãs e europeias estão preocupadas e devem agir nos próximos dias na tentativa de acalmar os ânimos, pois os movimentos destes hedge funds podem influenciar uma corrida de saques entre correntistas do Deutsche Bank e, consequentemente, contaminar rapidamente o sistema financeiro europeu.

O mercado acionário alemão tombou nesta quinta-feira, mas ainda assim não houve tempo suficiente para repercutir a notícia vinculada pela Bloomberg, deixando terreno aberto para novas quedas nos próximos dias.


Com aumento da tensão no mercado, o dólar voltou a subir contra uma cesta de principais moedas globais, mantendo-se dentro de uma tendência de alta de curto prazo. Para os europeus, o dólar é uma das poucas opções de fuga segura.


Os principais índices de Wall Street repercutiram a notícia da Bloomberg, ainda de forma tímida, até porque os investidores norte-americanos estão aguardando a reação do mercado europeu nos próximos dias. O índice S&P500 voltou a fechar abaixo da linha central de bollinger.


No Brasil, o índice Bovespa seguiu o tom de Nova York. Notícia perigosa, mas impacto relativamente tímido. O Ibovespa testou e respeitou a linha de resistência localizada na faixa dos 59,5k, fechando ligeiramente abaixo da linha central de bollinger, o que leva a nova perspectiva de teste sobre a primeira linha de suporte da zona de congestão localizada na região dos 57,5k.
  


Destaque para o relatório do FMI sobre o cenário econômico brasileiro. A instituição afirmou que o País pode voltar a crescer em 2017, desde que o Congresso aprove as medidas propostas pelo governo com rapidez. O FMI também recomendou que a política monetária se mantenha apertada até que as expectativas de inflação (do mercado) se convirjam mais claramente para o centro da meta.

8 comentários:

  1. Ola F.I

    CMIG4,você tem alguma opinião fundamental que possa ajudar...acrredita que vai ter de se recapitalizar e diluir acionistas existentes?

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    1. Olá,
      Desculpe, não posso te ajudar nesse caso. Estou por fora.

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  2. Quero ver se a Angela vai manter a postura firme de deixar a batata assar ou se vai usar o dinheiro do pagador de impostos alemão para salvar o banco.

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    1. Lembrando que a Alemanha foi muito rigorosa com os bancos na Espanha, Portugal, Itália, Grécia e Chipre. No caso do Chipre, a resolução foi inclusive acionada, acarretando em prejuízos aos correntistas com saldo acima de 100 mil euros nos bancos cipriotas. Isso foi necessário para autorizar a troika emprestar 10 bilhões de euros ao Chipre.

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    2. Na minha cabeça era inimaginável isso acontecer com um banco alemão.
      Vc soube que ele impediu o pessoal de resgatar o ouro de um fundo de ouro que ele tinha? Onde está o ouro?

      Pois eh, esse rigor todo com os vizinhos e não fez o dever de casa. Quem sustenta a Europa é Alemanha e Uk. Com Uk fora do Eurogrupo agora eu quero ver. Não tem ninguém pra salvar a Alemanha.

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    3. O Deutsche tem histórico de ser muito agressivo no mercado, tanto nas suas operações, quanto na estratégia de expansão do banco. O que os alemães podem fazer é apertar a regulação para que casos deste tipo não ocorram no futuro.

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  3. FI,

    Se na economia europeia mais forte o banco tá assim .. já imaginou como estão as contas dos bancos em portugal ou italia? hehehe ...

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    1. Pode colocar França nesta lista também rs... Pouco se sabe sobre a solvência dos bancos, mas a desconfiança é alta.

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