domingo, 4 de setembro de 2016

Panorama macro global


Os Bancos Centrais continuam sobrecarregados desde o dramático estouro da crise do subprime em 2008. Enquanto os governos insistirem em relutar a dividir o trabalho pesado com as autoridades monetárias, os problemas econômicos diversos continuarão se acumulando, contribuindo para manutenção de um ambiente global instável e perigoso.

São mais de 9 trilhões de dólares em títulos da dívida soberana com rendimento negativo. A enxurrada de liquidez no mercado da dívida pública (patrocinada pelas políticas monetárias de banqueiros centrais de economias desenvolvidas) já está se transbordando para o mercado de dívida corporativa. Somente na Europa, são mais de 500 bilhões de dólares em títulos de empresas com grau de investimento e rendimento abaixo de zero.

Bom seria se esse fosse o único grande problema a ser enfrentado pelas autoridades europeias no futuro. A zona do euro continua se arrastando num quadro desolador de crescimento apático, baixa inflação, desemprego elevado e déficits fiscais ainda excessivos. Os agressivos programas de estímulos do BCE (Banco Central Europeu) continuam não dando resposta adequada à economia, apenas sustentam o status quo no mercado.

O sistema financeiro na Europa também continua uma incógnita. Alguns bancos, inclusive de porte expressivo, permanecem em situação delicada, atolados em crédito podre. Numa situação de normalidade, o sistema financeiro europeu já teria sido atingido por outra severa crise de confiança. O BCE aprendeu muito com a crise de 2011 e, portanto, tem conseguido evitar episódios de estresse.

A manutenção do status quo no mercado é importante para que se possa transmitir a falsa idéia de que a situação macro local é confortável. O BCE é o principal protagonista dos mais 13 anos de bull market do mercado acionário alemão. Os 3 fundos ascendentes (2009, 2011 e 2014) foram marcados por anúncios de fortes pacotes de estímulos monetários.


O impacto no mercado da dívida soberana alemã também é brutal. O excesso de liquidez no sistema, juntamente com os agressivos programas de compras de títulos e, mais recentemente, a adoção de juros negativos aos bancos que depositarem dinheiro nos cofres do BCE, derrubaram as taxas de juros futuros para níveis nunca atingidos na história. O rendimento do título público de 10 anos do governo alemão permanece em território negativo, neste momento aos -0,04% ao ano.
  
   
Vale ressaltar que parte relevante deste fluxo comprador tem objetivo de especular na curva de juros futuros e não carregar os títulos até o vencimento. Muitos gestores de fundos hedge estão buscando aproveitar o direcional do fluxo. Caso as taxas continuem cedendo, os títulos soberanos vão se valorizar ainda mais, abrindo ganho de posição na liquidação antecipada.

Na Inglaterra, o BoE (Bank of England - autoridade monetária britânica) não atingiu o mesmo nível de agressividade do BCE no mercado, mas segue intensificando seus programas de estímulos.

Prova da força da autoridade monetária no mercado está no deslocamento da taxa de juros do título soberano de 10 anos do governo britânico. A atuação do BoE em resposta ao Brexit (evento de alto potencial de impacto econômico) acelerou o movimento comprador na dívida soberana local, jogando o rendimento dos títulos para mínimos históricos. Investidores comprados em dívida soberana britânica no pré-Brexit administram ganhos ao redor de 50% no valor da posição no pós-Brexit, o inverso do que os analistas esperavam.


Insatisfeitos também não estão os novos holders de Londres. O principal índice do mercado acionário inglês dobrou sua pontuação desde que o BoE começou atuar para responder ao subprime. Mais recentemente, o índice é impulsionado pelo rali do Brexit. Por sinal, com duas grandes oportunidades abertas na década passada, Londres continua entre as melhores praças globais para holders se posicionarem no pós-crash com baixo risco de mercado.


Nova York é a cereja do bolo. Numa praça onde o investidor tem o respaldo do Banco Central mais poderoso do mundo e da impressora da principal moeda de troca global, o mercado acionário continuará sendo objeto de desejo pelos gestores do mundo inteiro.

Mesmo com a interrupção dos programas de quantitative easing e reversão na trajetória da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana), o mercado acionário é de touro bufante.


É de interesse do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) que o status quo no mercado seja mantido até que se resolva o que fazer com os mais de 4 trilhões de dólares em ativos acumulados no balanço da autoridade monetária resultante das compras dos programas de Quantitative Easing e Operação Twist (principalmente Treasuries - títulos do Tesouro americano - e hipotecas).

Um forte revés no mercado de juros futuros norte-americano poderia, portanto, alimentar especulações de quebra no balanço do FED. Investidores que compram Treasuries estão no mesmo barco do Banco Central, apostando na eficácia da política monetária.

É por este motivo que o deslocamento da taxa de juros da Treasury de 10 anos, em 2013, para cerca de 3% ao ano, por um “simples” comentário de Bernanke (então presidente da autoridade monetária), gerou grande tremor no mercado financeiro global.


O episódio de 2013 forçou o FED a ser mais cauteloso em sua comunicação com o mercado, adotando uma estratégia de antecipar movimentos futuros com bastante antecedência e gradualismo, conseguindo, assim, evitar ocorrência de novos choques.

Portanto, o FED quer que as taxas de juros futuros permaneçam em níveis baixos, para deixar seu balanço no azul, e com volatilidade reduzida, para manter os mercados estáveis. 3% ao ano na Treasury de 10 anos continua sendo ponto de estresse, mas com o aprendizado do passado, a autoridade monetária norte-americana deve agir rapidamente a qualquer sinal adverso no mercado ou muito antes de as taxas futuras se aproximarem deste patamar.

A chair do FED, Janet Yellen, mostrou na conferência em Jackson Hole que o Banco Central tem bala suficiente para fazer o que for preciso, esboçando alternativas que vão muito além da política monetária convencional.

Tratando exclusivamente sobre a FFR, o último relatório de emprego divulgado na sexta-feira passada alimentou falsas expectativas no mercado de que o FED poderia adiar o aumento de 0,25 p.p., para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano. A criação de vagas no mês passado somou 151 mil, número que veio abaixo do esperado (180 mil).

Apesar do resultado considerado decepcionante pelo mercado (influenciado pela forte criação de vagas no mês de junho e julho), o indicador não foi capaz de alterar as expectativas do FED. A criação de vagas teria que cair abaixo de 100 mil para ascender o sinal vermelho. John Williams, presidente regional do FED de São Francisco, declarou recentemente que são necessárias 80 mil novas vagas mensais para atender o aumento do número de americanos dispostos a trabalhar.

Também em Jackson Hole, Yellen afirmou que os dados de emprego precisam apenas continuar confirmando a boa perspectiva. Isso significa que, ao FED, basta que os dados continuem sólidos (e não necessariamente em níveis extraordinários, como os observados em junho e julho) para que a FFR possa ser elevada novamente.

Ultimamente, o mercado tem emitido sinais de que está testando até onde os Bancos Centrais são capazes de chegar. Ainda existe ceticismo com relação à capacidade de respostas às novas crises ou deslizes. Ao contrário do que os chefes de autoridades monetárias dizem, muitos acreditam que os banqueiros centrais já estão se aproximando do limite.

É possível que os Bancos Centrais tenham a oportunidade de mostrar suas novas ferramentas até o final desta década. Além das complicações na zona do euro, a Ásia está mais perigosa. A desaceleração do crescimento na China veio no pior momento para o mercado de crédito local. A economia opera com elevada capacidade ociosa e inflação baixa, fato que combinado com o excesso de endividamento de baixa qualidade contribui para alimentar o temor entre os investidores.

Neste ano, o governo chinês se viu forçado a queimar parte de sua gigantesca reserva para conter um surto de fuga de capitais. A atuação foi bem sucedida, mas não elimina riscos de novos choques.

O aumento da volatilidade na bolsa de Xangai reflete a tensão no mercado local. Nos últimos dois anos a bolsa de valores chinesa passou por um momento de extrema euforia seguido por um crash que relembrou o terror de 2008.


Xangai não contaminou o mundo por conta da rápida atuação conjunta dos banqueiros centrais (incluindo o Banco do Povo da China, que aumentou a força de suas intervenções e políticas de estímulos).

Já o mercado indiano continua funcionando como o grande alarme da Ásia. Se os problemas da China afetarem significativamente as negociações no mercado financeiro indiano, será um sinal de “toque de recolher”, pois a crise estará se espalhando pelo sistema global.

Apesar do susto em 2015, a bolsa de Bombay continua bullish, bem acima da máxima do pré-subprime e próxima do novo topo histórico formado em 2014.


Tóquio começa incomodar o BoJ (Bank of Japan - autoridade monetária japonesa). Apesar de dobrar as compras de ETFs no início do mês passado, o BoJ resolveu manter sua base monetária em 80 trilhões de ienes (cerca de 775 bilhões de dólares), assim como o ritmo de compras de ativos, incluindo títulos do governo japonês, a fim de rever os impactos da taxa de juros negativa e dos programas de estímulos.

Os investidores se decepcionaram, pois esperavam adoção de medidas mais audaciosas, como aumento no ritmo de compras de títulos públicos. A taxa de juros do título do Tesouro japonês de 10 anos está muito perto de retomar o patamar de juros positivo, após atingir -0,28% ao ano, mostrando intensa força vendedora nas últimas semanas.


Nikkei também pisou forte no freio pela primeira vez desde o incrível rali iniciado em 2012, fazendo movimento de reteste na LTB da máxima registrada em 1996.


O mercado japonês está visivelmente pressionando o BoJ, já que a reunião de Comitê deste mês de setembro trará o resultado de revisão da política monetária. Os investidores querem que o BoJ continue muito agressivo em suas políticas de estímulos. As vendas das últimas semanas são um sinal do que poderá ocorrer caso o BoJ alivie suas intervenções no mercado. Provavelmente a autoridade monetária japonesa vai ceder à pressão.

O México também enfrenta seus problemas, o principal deles é o mais delicado e difícil de contornar: o das expectativas frustradas. Uma onda de otimismo atingiu o País em 2012, fato que jogou o mercado acionário de volta à máxima de 2007.


Entretanto, problemas comuns, típicos de mercados emergentes desorganizados, voltaram a pipocar em 2013, abrindo um novo ciclo bearish no México. O tombo do petróleo ajudou empurrar a bolsa para baixo, mas o fator determinante para o atual ciclo foram as frustrações com o quadro macro local.

O México é um bom lembrete ao Brasil, onde atualmente vive um clima de expectativas positivas ainda não correspondidas pelos indicadores econômicos domésticos. Existe uma linha de corte entre as expectativas e dados concretos. Isso significa que em determinado momento os investidores irão exigir que os indicadores justifiquem suas posições de risco no mercado.

Essa linha ainda não foi atingida no Brasil, o que abre espaço para manutenção do clima positivo. Ainda assim, estima-se que esses sinais devem ser enviados ao mercado ainda este ano, mais especificamente o governo precisa avançar em algumas reformas estruturantes.

O quadro técnico no Ibovespa permanece bullish. Mercado continua mostrando força compradora relevante, acumulando superações de resistências importantes num curto espaço de tempo. Os preços já começam a se distanciar do principal símbolo do ciclo bearish (canal de baixa iniciado em 2010, rompido no mês de julho de 2016).


Depois de apanhar muito nos últimos anos (destaque ao crash de 2013), o ouro mostra recuperação, em reação, ainda tímida, ao aperto na taxa básica de juros norte-americana. O deslocamento do ouro versus FFR é clássico no mercado.


O ouro foi a primeira commodity importante no mundo a entrar em colapso fruto das políticas monetárias ultra frouxas. Logo no início de 2016, as perspectivas de longo prazo se reverteram, com a sinalização de nascimento de um novo ciclo bull.

O tombo do petróleo foi postergado o máximo possível pelos principais produtores da commodity. Apesar de o crash ter começado em 2014, a violência não foi menor. Pelo contrário, o mercado corrigiu preços de forma dramática, o que também permitiu atingir ponto de esgotamento mais rapidamente (26,05 dólares no barril do light).


A Rússia, um dos principais produtores de petróleo do mundo, trabalha com cenário base de 40 dólares por barril no seu orçamento de 2017 a 2019.

De forma geral, o mercado de commodities se recupera de um intenso sell-off que dominou o segmento nos últimos quatro anos. O Bloomberg Commodity Index esboça fundo registrado no início deste ano, mas com uma recuperação ainda tímida.

10 comentários:

  1. Excelente. Leitura Diária/semanal!

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  2. Parabéns pela qualidade das publicações!

    Minha carteira de investimento segue com baixa exposição a RV e na expectativa de uma crise de maiores proporções dado o cenário de máximas históricas nos mercados globais. O descolamento do IBOV (ou atraso)em relação as demais praças é temerário, pois, essa perspectiva Bulish pode sofrer um forte revés caso os gringos procurem alternativas mais seguras em caso de maiores níveis de stress ou "choque" de expectativas.

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  3. FI,

    Para quem tem a intenção de comprar no mercado à vista um valor bem forte (acima de 500k)para o longo prazo, é possível fazer isso pelo home broker ou deveria fazer pela mesa do banco?

    Agradeço!

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    1. Se fizer pela mesa do banco/corretora vai pagar taxa de corretagem da tabela Bovespa. É normal pedir desconto na tabela Bovespa, mas ainda assim a diferença de custo ficará muito grande, mesmo com desconto na tabela Bovespa. Pelo home broker você vai pagar taxa de corretagem fixa, cujo valor será significativamente menor.
      Antes de tudo, entretanto, para qualquer movimentação em renda variável (ou ativos de risco) é necessário possuir uma estratégia operacional eficiente. Mesmo para posições de longo prazo, o timming da entrada faz muita diferença. Se precisar de ajuda, basta me contactar pelo formulário ou e-mail.

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    2. Agradeço a resposta.

      Vi alguns limites no home broker de no máximo 100 mil por operação, por isso achei que o melhor era direto pela mesa, mesmo pagando a taxa. Qual sua opiniao? Se tiver email agradeço.

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    3. Você não está confundindo com o limite que a corretora oferece para o cliente operar sem saldo em conta? financasinteligentes@gmail.com

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  4. Encontrei esse seu texto abaixo num blog, por isso minha pergunta, se voce pudesse comentar um pouco sobre sua resposta agradeceria !

    "Achei muito infeliz essa colocação da Mara Luquet. Quem paga 5 mil de corretagem via tabela bovespa é porque está entrando pesado no mercado, tem que ser muito louco pra girar uma posição de um milhão pelo home broker sem proteção alguma.

    Quem aporta isso de uma só vez no mercado tem que fazer hedge para proteger o patrimônio e isso tem que ser feito pela mesa, não dá pra fazer via home broker, são operações mais complicadas porém muito mais seguras.

    Abcs,"

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    1. Por isso questionei no comentário acima sobre a sua estratégia operacional. Seu sistema (ou você) emitiu sinal para entrar no Ibovespa aos 60k, numa tacada forte. Isso precisa de respaldo estratégico, normalmente quem se expõe em valores altos de uma só vez visa o curto prazo e/ou monta hedge para proteger o patrimônio. Deixei o meu e-mail no comentário acima.

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