segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dólar vai expor estratégia do Banco Central


O mais recente rali do dólar contra real, iniciado aos R$ 3,36 no mês passado, ganhou força nos últimos pregões, ameaçando romper a principal base de sustentação localizada na faixa dos R$ 3,11.

O retorno para a base da zona de congestão denuncia novo apetite do mercado para compra de reais. A Receita Federal informou hoje que já contabiliza arrecadação de 25 bilhões de reais (até sexta-feira da semana passada) em impostos e multas gerados pelo programa de repatriação de recursos no exterior. Comparando com o penúltimo levantamento da Receita, pode-se concluir que apenas entre os dias 19 e 21 de outubro o saldo com a arrecadação subiu 6,4 bilhões. O prazo de adesão ao programa vai até o dia 31 de outubro.

Apesar de fortemente influenciado, no curto prazo, pelo programa de repatriação de recursos no exterior, a taxa de câmbio também está refletindo à melhora da imagem do Brasil no exterior. Os investidores estrangeiros estão comprando ativos de risco brasileiros (renda fixa e renda variável) há mais de 10 meses, num ritmo acima do observado em outras praças emergentes.

Notícias de ganhos expressivos de alguns players de mercado já começam a vazar no noticiário internacional, com destaque para o lucro exorbitante de 100 milhões de dólares alcançado por Tom Malafronte no início deste ano, chefe da mesa de títulos de alto rendimento (alto risco) do Goldman Sachs.

Players do mundo inteiro continuam atraídos pelos títulos de grau especulativo, já que o mercado para grau de investimento permanece morno, apresentando prêmios decepcionantes. Mesmo com ganhos expressivos acumulados neste ano, gestores de fundos continuam enxergando margem de ganho satisfatória no mercado de grau especulativo, o que o mantêm muito mais quente quando comparado ao mercado para grau de investimento.

Seja pela atratividade dos ativos brasileiros, melhora da perspectiva macro ou pelo programa de repatriação, fato é que o dólar atingiu ponto de definição. A linha de suporte (base da congestão) localizada na região dos R$ 3,11 é fraca por ter sido artificialmente formada pelas intervenções do Banco Central no mercado cambial.


A perda deste importante patamar de sustentação poderá provocar o acionamento de stops de vários fundos hedge nacionais comprados em dólar contra real. Os gestores que ainda insistem em comprar dólar acreditam que o Banco Central vai aproveitar a oportunidade para ampliar sua oferta de swaps cambiais reversos.

Entretanto, o Banco Central pode não estar tão interessado em influenciar uma retomada ascendente do dólar contra real neste patamar, já que mostrou maior preocupação com a inflação em seu último comunicado emitido semana passada.

Um dólar baixo, mais colado em R$ 3,00 do que R$ 3,30, vai provocar recuo nas projeções de inflação do mercado para 2017, que ainda não apontam para ancoragem da inflação na meta (4,5%).

Portanto, o recuo do dólar vai abrir a estratégia do Banco Central ao mercado. Se a preocupação maior for realmente com a ancoragem da inflação na meta já no próximo ano, o Banco Central vai deixar o couro comer no câmbio por mais alguns dias/semanas e atuar abaixo da zona de congestão. Por outro lado, se o Banco Central partir para o ataque já nesta semana (para sustentar o dólar e, ao mesmo tempo, defender o interesse de determinados grupos), emitirá sinal de que a preocupação com a inflação não é tão forte quanto ao pareceu sinalizar em seu último comunicado. Em ambos os casos o estoque de swaps tende a ser reduzido. O que está em jogo é um possível clareamento do timing para a inflação.

No mercado de ações, o índice Bovespa emitiu sinalização de esgotamento da perna de alta intermediária iniciada na região dos 56,5k. O candle do tipo estrela cadente saiu numa posição clássica, colado na bollinger superior, acompanhado de sobrecompra elevada dos indicadores e uma perna intermediária de alta já maturada. A sinalização de venda precisa de confirmação nos próximos pregões, preferencialmente com novos candles de baixa que revelem força.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão em leve alta, recuperando a linha central de bollinger. Mercado permanece congestionado no curto prazo, sem apresentar novidade.
 

3 comentários:

  1. Tenho uma dúvida: As grandes altas e baixas da cotação do dolar x real não podem ser a maior fonte de rendimento dos investidores estrangeiros no Brasil? É possível que tenham vendido (ações, etc...) quando o dolar foi forçado para alta e agora estejam passando a comprar com o dolar forçado para baixa, criando um ciclo lucrativo?

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    1. Outros fatores também causam impacto na moeda, o fluxo de bolsa é só a cereja do bolo na taxa de câmbio. É possível, mas ainda parece ser pequeno o volume de giro curtíssimo por parte dos estrangeiros, comparando com o total. A maior parte do fluxo continua aparentando estratégia de mais longo prazo.

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