quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ponto para o Banco Central


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira reduzir a taxa básica de juros para 14,00% ao ano, iniciando o ciclo de afrouxamento monetário num ritmo gradual de 0,25 p.p., contrariando parte relevante de economistas e analistas, que esperavam corte mais agressivo, de 0,50 p.p.

A sinalização emitida pelo Copom é positiva em função da pressão exercida tanto pelo mercado, quanto do próprio governo, para um corte de 0,50 p.p. na reunião de Comitê do mês de outubro. Corte de 0,50 p.p. representaria, ao Banco Central, uma busca infudamentada pelo risco, já que o balanço de riscos para a inflação ainda não abriu espaço para cortes desta magnitude.

Ao descartar iniciar o ciclo de afrouxamento monetário em ritmo mais agressivo, o Banco Central transmite uma mensagem aos agentes de manutenção do rigor no combate à inflação, além de reafirmar sua autonomia na tomada de decisão, fator extremamente positivo ao processo, em curso, de retomada da credibilidade. Ponto para o Banco Central.

Em comunicado divulgado após a decisão, o Copom destacou os seguintes riscos para o cenário básico para a inflação:

(i) o processo de aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia é longo e envolve incertezas;

(ii) o período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta ainda pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação;

(iii) há sinais de pausa recente no processo de desinflação dos componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária, o que pode sinalizar convergência mais lenta da inflação à meta;

(iv) a inflação mostrou-se mais favorável no curto prazo, o que pode sinalizar menor persistência no processo inflacionário;

(v) o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom;

(vi) os primeiros passos no processo de ajustes necessários na economia foram positivos, o que pode sinalizar aprovação e implementação mais céleres que o antecipado;

Os itens (i), (ii) e (iii) são negativos, mas a novidade do item (iii) é preocupante e tem potencial de inviabilizar a aceleração do processo de flexibilização monetária na próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 29 e 30 de novembro. Corroboram para esse quadro as projeções de inflação ao redor de 0,40% para outubro e novembro, incompatíveis com o atual quadro de grave recessão.

Já os itens (iv), (v) e (vi) acrescentam pouca novidade ao atual balanço de riscos para a inflação, onde a não materialização da perspectiva relacionada ao item (v) apontará problemas futuros, por indicar desarrumação dos fundamentos domésticos. Em outras palavras, o processo de desinflação precisa ganhar força no curto prazo para se adequar ao nível do PIB (Produto Interno Bruto). Ainda há descasamento relevante.

Nas atuais condições, o Copom entende que a flexibilização moderada e gradual das condições monetárias (ou seja, cortes de 0,25 p.p.) é compatível com a convergência da inflação para a meta em 2017 e 2018. Ou seja, o balanço de riscos para a inflação precisa melhorar para que o ritmo de cortes possa ser intensificado. As condições para que isso ocorra são as seguintes:

(i) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica retomem claramente uma trajetória de desinflação em velocidade adequada; e

(ii) que o ritmo de aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia contribuam para uma dinâmica inflacionária compatível com a convergência da inflação para a meta.

As incertezas relacionadas ao item (i) tendem a se dissipar apenas se o IPCA de outubro e novembro apresentar surpresas muito positivas, tal como ocorreu com o IPCA de setembro. São eventos improváveis, já que no quarto trimestre a inflação costuma acelerar.

Já o timing para o item (ii) se materializar é ainda mais longo, pois o Banco Central quer checar se a implementação dos ajustes irão contribuir positivamente para a dinâmica inflacionária. É possível que a autoridade monetária vá se antecipar no item (ii), mas a necessidade da checagem dos impactos tende a suavizar o ciclo de afrouxamento monetário em matéria de tempo, ou seja, mesmo com elevação dos cortes para 0,50 p. p. no futuro próximo, a velocidade pode não ser tão rápida quanto o mercado espera. A taxa Selic pode se estabilizar por alguns meses para, posteriormente, retomar a trajetória descendente.

A mídia do segmento financeiro nacional continua insistindo em fazer uma avaliação mais dovish do que a emitida pelo Banco Central. Não causa surpresa notar quão nítido é esse desejo (juros menores mais rápido). Há grande ansiedade entre institucionais nacionais para queda mais rápida das taxas dos contratos de juros futuros, já que esses players se posicionaram com atraso no pré-fixado. A parte do prêmio mais gorda da curva foi amplamente aproveitada por institucionais estrangeiros e alguns poucos investidores que conseguiram manter o foco no mercado.

A bolsa de valores fechou o pregão desta quarta-feira em leve baixa, aliviando, ainda muito timidamente, o elevado nível de sobrecompra.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 permanece próximo à principal linha de suporte de curto prazo, porém respeitando-a, sem apresentar novidades.


7 comentários:

  1. Na febre do impeachment, consegui comprar alguns CDB pré, pagando 17 até 19,5%. Pena não ter pesado mais nas compras, o medo me deixava um pouco travado. Mas olhando pra trás, as taxas estavam muito altas. Melhor pouco do que nada :-)

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    1. Sim, muita coisa de pré pipocou, incluindo títulos soberanos. Uma boa dica é comprar de forma escalonada e crescente conforme o pânico vai aumentando no mercado. Assim você aumenta seu volume na posição.

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  2. Muito boa essa análise da decisão do COPOM.

    Eu só acho que enquanto o Governo não controlar o deficit pode jogar a taxa de juros para 20% que a inflação não vai para a meta.

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    1. Obrigado! Seu comentário tem embasamento. Com a economia desarrumada, realmente o trabalho do BC fica muito difícil. Não somente pela questão do déficit, mas também pelo ambiente de negócios desfavorável. Sem nível de oferta adequada, o outro lado da balança (demanda) sempre vai continuar pesando mais, impedindo ancoragem da inflação na meta. Só mesmo um choque de juros pra assustar todo mundo faria o BC cumprir seu objetivo. A última perna deste ciclo de aperto monetário começou em 2014 aos 11%. Durante todo esse período a inflação ganhou força, fato que denuncia o nível do desarranjo na economia.

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