quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Reino Unido surpreende novamente


Após surpreender o mundo no final do mês de junho com a decisão de sair da União Europeia, o Reino Unido voltou a chamar atenção do mercado, desta vez contrariando as previsões catastróficas feitas por instituições de renome internacional e do próprio governo, no que ficou marcado como a maior campanha da história moderna pela manutenção do status quo.

O PIB (Produto Interno Bruto) do Reino Unido, divulgado nesta quinta-feira, expandiu 0,5% no período entre julho e setembro. O resultado ficou abaixo do crescimento de 0,7% constatado no segundo trimestre, mas ainda assim ficou bem acima das expectativas do mercado e das próprias instituições, incluindo o BoE (Bank of England – autoridade monetária britânica) e o FMI (Fundo Monetário Internacional).

O fato de registrar crescimento de 0,5% imediatamente após a votação é mais um sinal de desafio do Reino Unido frente às expectativas extremamente negativas relacionadas aos impactos do Brexit. Apesar de as conversas para a saída do Reino Unido da União Europeia estarem em fase inicial, não houve o impacto psicológico esperado na economia.

O crescimento do terceiro trimestre veio em linha com o padrão existente no Reino Unido desde 2015. Portanto, para a economia, o Brexit, ao menos até agora, não fez nenhuma diferença. O bom resultado foi todo puxado pela crescente indústria de serviços britânica, principalmente nos segmentos de cinema e televisão, o que mostra a força do dinamismo econômico local.

Com um PIB surpreendente no terceiro trimestre, o BoE terá menos argumento para voltar reduzir a taxa básica de juros e/ou ampliar seus programas de estímulos monetários na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de novembro.

Em agosto, o BoE cortou a taxa básica de juros pela primeira vez desde 2009, de 0,50% para 0,25% (mínima recorde), numa reação ao Brexit. Além disso, a autoridade monetária britânica lançou fortes pacotes de compras de ativos (incluindo títulos públicos e privados) e estímulos ao crédito que podem chegar a 170 bilhões de libras. Mark Carney, presidente do BoE, também havia afirmado que estava preparado para tomar novas ações quando julgar necessário.

Enxergando baixa possibilidade de novos estímulos, o mercado segue vendendo Gilts (títulos do Tesouro Britânico) num ritmo alucinante. O rendimento do título de 10 anos atingiu 1,25% nesta quinta-feira, sendo que há pouco menos de três meses atrás era negociado próximo dos 0,50% ao ano.


Investidores e operadores que se posicionaram nas Gilts na ponta comprada nestes últimos meses (seguindo a tendência global) estão acumulando perdas significativas. O mercado de juros futuros no Reino Unido está em pânico e o BoE ainda não sabe o que fazer para acalmar os ânimos.

Ao contrário do que se possa imaginar, a bolsa de Londres não foi contaminada pelo forte baque no mercado de juros futuros, o que faz relembrar a atual “blindagem” da bolsa de Xangai frente à queda considerada agressiva do iuan nas últimas semanas.

O índice FTSE permanece comprador, colado na máxima histórica, sem apresentar sinalização de reversão na forte tendência de alta iniciada justamente após o Brexit.


Nos Estados Unidos, permanece quadro de congestão no mercado acionário, sem apresentar novidade.


No Brasil, o Ibovespa voltou apresentar reação da força compradora após três dias de pregão levemente vendido. Mercado colado na máxima do ano, ainda que sobrecomprado no curto prazo.
 

4 comentários:

  1. FI,

    Caramba ... cada hora eles tentam remendar o crescimento por um lado .. e a colcha de retalhos ta ficando feia hein ...

    Abs,

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    1. O crescimento está longe de ser considerado forte, até porque a economia global está bem fragilizada, mas definitivamente é um exemplo a ser seguido. Reino Unido tem uma história invejável e continua sendo uma importante potência global.
      Abs,

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  2. "O bom resultado foi todo puxado pela crescente indústria de serviços britânica, principalmente nos segmentos de cinema e televisão, o que mostra a força do dinamismo econômico local." Isso realmente reforça a imagem que tenho de que o Reino Unido é o EUA da Europa: economia diversificada, liberalismo econômico (pelo menos em relação à Europa continental), leis trabalhistas flexíveis...

    Só para exemplificar, de cabeça lembro-me de várias séries e filmes britânicos famosos (Harry Potter, James Bond, Doctor Who, Mr Bean etc), quase tantos como os de Hollywood, mas conheço poucos filmes franceses ou alemães famosos (e só os conheço porque estudei francês e alemão, então tinha contato com as obras). Admito que, como os economistas, estava receoso quanto ao Brexit, mas o Reino Unido parece estar provando que pode não dependia tanto da Europa quanto se imaginava. Ainda é cedo para se concluir isso, mas já é um bom sinal.

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    1. Exato! Além disso, os britânicos parecem explorar muito bem duas de suas principais características: poder de influência e criação. Até nas séries e filmes, na minha opinião, estão sempre criando algo interessante com alta aceitação global, não criam tanto lixo como Hollywood. É uma indústria que se destaca. O mesmo vale para a música, são muitas bandas boas.

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