sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tese de estagnação secular chega ao alto escalão do FED


O ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, lançou ao mercado, em 2013, a ideia de que as economias de países desenvolvidos (incluindo a norte-americana) estariam passando por um preocupante período de estagnação secular.

A famosa expressão, criada pelo economista Alvin Hansen em 1938, é utilizada para qualificar um quadro de elevada sobra de poupança não efetivamente canalizada para o investimento. Com menor investimento, o crescimento tende a ficar muito baixo, levando, por sua vez, expectativas cada vez mais pessimistas sobre a economia.

Desde quando Summers sugeriu que as economias de países desenvolvidos estavam enfrentando um período de estagnação secular preocupante, as previsões de crescimento em diversas economias sofreram seguidas revisões negativas. O FMI (Fundo Monetário Internacional), inclusive, passou a cobrar dos líderes políticos ações mais concretas para estimular o crescimento em suas respectivas economias.

A falta de resposta do ambiente político tem reforçado a tese de estagnação secular, que parece ter chegado ao alto escalão do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos). Na conferência de Boston desta sexta-feira, Janet Yellen, presidente do FED, afirmou que o país pode precisar executar uma economia de alta pressão para reverter os danos causados pela crise.

Segundo Yellen, os baixos níveis de produção podem se tornar permanentes se nada for feito. Isso significa que o potencial da economia norte-americana pode estar caindo e, para revertê-lo, pode ser necessário tomar novas ações agressivas.

Inicialmente, a resposta do FED se daria através da administração de uma economia de alta pressão, o que significa apertar ao máximo o mercado de trabalho (reduzindo ainda mais a taxa de desemprego) e criar um quadro de demanda agregada robusta.

O efeito colateral de uma economia de alta pressão é o estouro da meta de inflação, ou seja, se o FED, no futuro, se sentir forçado a gerenciar esse quadro na economia, vai tolerar juros baixos (inferior ao ponto neutro) e uma inflação ligeiramente acima da meta de 2% ao ano, tornando-o ainda mais dovish.

O fato de Yellen se mostrar preocupada com a tese da estagnação secular não altera as perspectivas para novo aumento da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) em dezembro deste ano, mas reduz ainda mais a perspectiva para o futuro. Em outras palavras, a FFR pode nem se aproximar dos 3% ao ano no longo prazo.

Algo semelhante foi experimentado pelo Brasil no início desta década. O governo forçou os juros para baixo, aumentou a intervenção micro e macro, injetou crédito para estimular a demanda, mas falhou enormemente, pois o programa foi implementado de forma altamente ineficaz, sem qualquer planejamento ou respaldo econômico.

O que aconteceu no Brasil não serve de parâmetro ao FED em função do grande acúmulo de erros cometidos pela política econômica do governo anterior. Uma economia de alta pressão pode funcionar, desde que as medidas sejam dosadas dentro das limitações dos fundamentos domésticos. Ainda assim, segundo Yellen, as discussões precisam evoluir para que o FED sinta-se minimamente confortável a executar no futuro, se necessário, uma estratégia de alta pressão.

As preocupações com o ritmo de crescimento da economia mantiveram o nível de tensão no mercado norte-americano nesta sexta-feira, renovando força vendedora nas Treasuries (títulos do Tesouro dos Estados Unidos). A taxa de juros do título com vencimento em 10 anos continua avançando, renovando nova máxima em três meses.


O índice S&P500 fechou estável, mantendo-se próximo da importante linha de suporte localizada na faixa dos 2,1k, ainda mostrando insuficiência no contra ataque da força compradora.


No Brasil, destaque para o anúncio de redução de 2,7% no preço do diesel e 3,2% no preço da gasolina nas refinarias a partir da zero hora deste sábado. A medida veio no momento oportuno para a Petrobras, já que as importações de diesel de seus concorrentes mais que dobraram em relação aos níveis verificados no início deste ano. No caso da gasolina, as importações dos concorrentes (que não existiam no início deste ano) atingiram 203,3 milhões de litros em setembro.

A redução do preço dos principais combustíveis reflete, portanto, uma estratégia de defesa da fatia de mercado da companhia, que estava sendo ameaçada pelo rápido aumento dos concorrentes através de importações.

Além disso, a redução também foi oportuna do ponto de vista técnico sobre o preço do barril de petróleo. Neste momento, o barril do tipo light é negociado na casa dos 50,00 dólares, principal linha de resistência da commodity. Players de petróleo continuam enxergando (com razão) esgotamento da força compradora sempre quando o barril ultrapassa ou se aproxima desta faixa de preço.
  

Portanto, anunciar corte de preços com o barril colado na máxima do ano garante margem à Petrobras e provoca melhora nas expectativas para o ambiente doméstico, já que a medida possui boa capacidade de impacto desinflacionário, tanto pela via direta (peso dos combustíveis na cesta do IPCA), quanto pela via indireta (efeito do custo do frete sobre os preços dos produtos, mais transparência, entre outros).

O efeito positivo imediato do fator transparência impulsionou o Ibovespa para a máxima do ano, após realizar pullback sobre a antiga zona de resistência localizada na região dos 60,3k.


Juntamente com o anúncio de redução de preços, a Petrobras também divulgou sua nova política de preços, com objetivo de dar mais clareza aos agentes sobre as futuras decisões a serem tomadas, passando uma sensação de que, ao contrário do passado, a empresa terá, agora, 100% de autonomia nesta decisão, sem qualquer interferência do governo.

Entretanto, a nova política de preços possui fator subjetivo não desprezível, o que pode não garantir 100% de autonomia à Petrobras. Além disso, é altamente improvável que decisões de tamanha importância sejam tomadas sem o conhecimento ou mesmo respaldo do governo, que, por sinal, é o acionista majoritário da empresa.

A decisão da Petrobras surgiu a menos de uma semana da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), que deverá ser marcada pelo início do ciclo de afrouxamento monetário. Apesar de o quadro doméstico apresentar espaço para cortes na taxa básica de juros, permanece incerteza se a pressão do governo (nítida) pode forçar um ciclo de afrouxamento mais agressivo do que o suportado pelo atual balanço de riscos para a inflação. Começar com 0,25 p.p. seria um bom sinal do Banco Central.

14 comentários:

  1. FI desculpe minha ignorância , mas o FED parece , falar , falar, falar e nada! "Controla" o mercado no discurso , me parece que eles estão ensaiando uma valsa , um pra lá dois pra cá , subir um pra logo ali ter de realizar duas baixas . Tem a mesma impressão ?

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    1. Não se desculpe, pois na verdade você está é esperto rs.. É exatamente essa a estratégia do FED desde o deslize cometido por Bernanke em 2013. O FED tem conseguido segurar o mercado conforme seu desejo nesta estratégia de comunicação. O objetivo é manter a volatilidade baixa.

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    2. FI, as vezes eu sinto que tem briga de cachorro grande entre o mercado e os Bancos Centrais, o mercado 'ameaça' quedas nas bolsas quando os bancos centrais não atuam de modo a manter os QEs... Qual sua opinião? Vc acha que mercado e bacens estão mantendo uma espécie de equilíbrio de Nash nesse jogo? Até quando pode ir isso? Obrigada!

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    3. É uma relação complicada de dependência entre Bancos Centrais e bancos de grande porte. Um depende do outro. Acontece que desde o início da década passada a balança foi ficando mais favorável ao lado dos grandes bancos, não por acaso essas instituições sentiram-se confortáveis em fazer operações absurdas com os créditos subprime, pois sabiam que no último caso contariam com a cobertura da autoridade monetária. Esse quadro ainda persiste e ao contrário do que se possa imaginar, o estouro da crise financeira deixou os grandes bancos ainda mais fortes. Então, pode-se dizer que hoje os Bancos Centrais estão mais na mão dos grandes bancos, do que o inverso (o que seria o recomendado). Outro fato que mostra a força dos grandes bancos é a grande quantidade de "ex-big bankers" que se tornam membros dos Comitês dos Bancos Centrais. Não acho que isso vá acabar algum dia, o que pode (e deveria) acontecer é uma retomada da força dos Bancos Centrais sobre os grandes bancos, mas não estamos nem sequer indo nessa direção. Os acordos de Basiléia estão ajudando a forçar o aumento das reservas de capital dos bancos, mas não estão conseguindo reduzir o seu tamanho/poder/influência.

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    4. Realmente, muitas vezes sinto isso no mercado. Muito obr pela resposta!

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  2. Show! Obrigado por compartilhar o seu conhecimento.

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  3. Grato pelos textos.

    Quanto ao mercado: Winter is coming...

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  4. Mais uma vez obrigada pelos ótimos textos.
    "As preocupações com o ritmo de crescimento da economia manteram o nível de tensão no mercado norte-americano nesta sexta-feira..." - retificar o texto para MANTIVERAM ;)

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  5. Fi,

    Boa .... olho no sp500 ... tá querendo descer a ladeira ali rs ...

    Abs,

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    1. Acelera venda abaixo de 2,1k, mas ainda assim não ameaçaria a perna de alta intermediária iniciada na região dos 1,8k. Também tem bastante gordura pra queimar.

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  6. Eu queria mesmo entender melhor o que a J. Yellen queria dizer com "economia de alta pressão"... Espero que que fique só nisso e não envolva guerras santas...
    Obrigado!

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