quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Banco Central apresenta chuva de interrogações para intensificar os cortes


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar novamente a taxa básica de juros em 0,25 p.p., para 13,75% ao ano. A decisão não surpreendeu o mercado, mas o comunicado emitido após a reunião de Comitê decepcionou.

O Banco Central fez uma série de alterações na nota à imprensa divulgada na tarde desta quarta-feira comparada com a última nota emitida após a reunião de outubro (marcada pelo início do ciclo de afrouxamento monetário), mas não clareou o cenário para a próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 10 e 11 de janeiro do próximo ano.

As duas principais alterações se referem ao possível fim do período de interregno benigno para economias emergentes e retomada da atividade econômica doméstica mais demorada e gradual que a antecipada previamente.

O fim do interregno benigno para os mercados emergentes ocorreu com a vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, fato que provocou rali do dólar e do rendimento das treasuries (títulos do Tesouro norte-americano). Já a decepção com o nível da atividade doméstica foi reforçada hoje com a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, apontando retração de 0,8% sobre o trimestre anterior, marcando o sétimo trimestre seguido de contração.

Além disso, o Banco Central considera que o processo de desinflação está mais difundido e que os passos para aprovação das reformas fiscais tem sido positivos, dois pontos de peso dovish no comunicado e que poderiam sinalizar espaço para intensificação dos cortes na taxa Selic de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.

Entretanto, a parte do texto em que a autoridade monetária destaca os fatores que permitirão intensificar o ritmo de flexibilização monetária foi totalmente alterada, acrescentando mais dúvidas e uma série de possibilidades que podem resultar em conclusões subjetivas.

No comunicado do mês de outubro, o Comitê considerava que (i) os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica retomem claramente uma trajetória de desinflação em velocidade adequada e (ii) que o ritmo de aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia contribuam para uma dinâmica inflacionária compatível com a convergência da inflação para a meta.

A evolução desses dois fatores era crucial para que os membros do Comitê pudessem enxergar espaço para intensificar os cortes na taxa Selic. Nenhum deles apresentou alterações positivas desde o Copom de outubro e dificilmente esse quadro irá mudar até a próxima reunião de janeiro.

Caso essas condições tivessem sido mantidas no fim do comunicado emitido nesta quarta-feira, a orientação estaria mais ancorada para um novo corte de 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê.

Mas as condicionantes foram retiradas e, agora, o Banco Central afirma que a intensificação do ritmo de afrouxamento monetário dependerá das projeções e expectativas de inflação, da evolução de uma série de fatores de risco (interregno benigno, pausa no processo de desinflação de alguns componente do IPCA, ritmo de aprovação e implementação dos ajustes, atividade econômica mais fraca e inflação favorável no curto prazo) e de um ambiente externo adequado (para permitir aceleração no processo de desinflação).

Com tantas interrogações, a única solução será aguardar novas declarações da diretoria do Comitê nas próximas semanas a fim de buscar informações mais concretas. O próximo Relatório de Inflação, a ser divulgado no fim de dezembro, também deve ser mais objetivo e clarear o cenário para o Copom de janeiro.

Inicialmente, considerando o peso de cada um dos fatores de risco levantados pela autoridade monetária, ainda não parece haver espaço para intensificação do ritmo de corte de 0,25 p.p. para 0,50 p.p. Outro detalhe importante é que a decisão Copom de janeiro ocorrerá apenas nove dias antes da posse de Donald Trump nos Estados Unidos, onde o clima de incerteza no mercado, relacionado à nova gestão e ao primeiro pronunciamento como presidente, tende a manter a tensão elevada, não abrindo espaço, portanto, para um escorregão na estratégia de política monetária.

No mercado de capitais, o índice Bovespa subiu 1,51% no pregão desta quarta-feira, recuperando parte das perdas sofridas no pregão anterior, mas sem apresentar novidade.


As commodities continuam sendo o principal driver do momento para o mercado local. Embora as matérias-primas continuem despencando na China, a forte disparada do preço do barril de petróleo dominou as atenções do dia, influenciando os negócios na Bovespa.

Os países da Opep concordaram na reunião desta quarta-feira em cortar a produção em 1,2 milhão de barris por dia a partir de janeiro do ano que vem, contrariando os boatos circulados ontem nas mesas de operações. Tanto no barril do tipo Light, quanto no barril do tipo Brent, as posições vendidas na commodity foram dizimadas pela mercado de forma traumática, resultando numa forte elevação dos preços.


9 comentários:

  1. O rally do dollar aconteceu devido a alta dos treasuries americano, certo? E o banco central informou, naqueles dias, pós trump, que a saída de capitais do país foi para fundos hedge, que vêem na moeda brasileira, uma alta liquidez. Você pode explicar esse movimento?

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    1. Olá,
      É um movimento a nível global. Expliquei melhor nesse post do mês passado: http://www.financasinteligentes.com/2016/11/enxugar-gelo-pode-sinalizar-desespero.html

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    2. Obrigado, mas qual a relação dos bonds americanos com o real aqui? Se aqui as condições estiverem estáveis(sem intervenção), sempre que os bonds subirem, haverá uma depreciação do real?

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    3. Os bonds americanos são referência para o mercado de renda fixa no mundo inteiro. Não significa que existe uma regra de correlação entre os ativos de mesma classe ou de classes diferentes, mas o contágio costuma ocorrer com frequência em diferentes níveis. Quando o fluxo de abertura ou fechamento de posições por parte dos estrangeiros é significativo no mercado, a taxa de câmbio tende a responder rapidamente a esse movimento.

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  2. Parabéns pela dedicação!

    Off topic: FI como você verifica este aumento do market share da XP por uma estratégia agressiva de aquisição das demais corretoras? O último alvo foi a Rico, todavia, cabe a análise do CADE. Assim, verificar-se-ia a possibilidade da "extinção" da concorrência? Afinal, neste último movimento eliminou a segunda maior empresa! E, neste processo de consolidação já foram adquiridas a Clear Corretora e a UM Investimentos. Em adendo, o processo ocorreu de forma análoga em sítios utilizados para a divulgação de notícias(Infomoney) e o debate do mercado financeiro (Infomoney, GuiaInvest). O interessante é que estes últimos espaços foram dizimados por "Trolls" e a qualidade da discussão de outrora, simplesmente, desapareceu (mera casualidade, provavelmente). Enfim, parece-me temerária esta situação para o pequeno investidor!
    OBS: Se houver algum vínculo com a empresa desconsidere os comentários.

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    1. Olá,
      Não tenho mais vínculo com nenhuma instituição financeira. E mesmo que tivesse, os comentários são livres para vocês expressarem qualquer tipo de opinião.
      Corre boatos de que a XP está se preparando para se tornar um banco múltiplo e fazer IPO na bolsa. Eu não duvido. A XP sempre foi muito agressiva pra buscar receita e crescimento. Acho que isso ficou mais visível quando compraram o Infomoney. Essas aquisições, juntamente com a expectativa de IPO e transformação para um banco múltiplo parecem mostrar que o objetivo da XP é se tornar um player regional. No mercado de bolsa, estão ampliando os negócios para além dos conhecidos escritórios afiliados regionais, aumentando significativamente sua carteira de clientes. Depois da aquisição Rico, acho que agora vão partir para se transformarem em banco múltiplo, entrando no mercado para oferecer operações de crédito e financiamentos.
      No que se refere à concorrência, é um pouco preocupante. Nas condições atuais, é praticamente impossível uma corretora de pequeno ou mesmo médio porte conseguir sobreviver. O mercado ainda é muito fraco com giro de investidores PFs e os custos impostos pela BM&FBovespa são incrivelmente altos para as corretoras. Então só mesmo uma corretora com caixa reforçado (maximizando corte de custos) ou com carteira relevante de clientes para conseguir sobreviver e crescer no mercado de bolsa. Considero esse problema grave, pois a BM&FBovespa praticamente monopoliza o mercado, conseguindo impedir o necessário surgimento da concorrência.

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    2. PS: O mercado sempre foi difícil para o investidor iniciante, despreparado ou mesmo aqueles que não se dedicam a estudar. Mas as discussões e informações no ambiente doméstico parece que realmente caíram muito de nível. É algo de impressionar.

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  3. FI,

    Que acha dessa rally das commodities ai? Não te parece meio doido? Eu vi alguns analistas comentando que os chineses tiveram outra grande ideia ... no começo do ano eles pegaram emprestimos e entraram na bolsa com uns pls.. 200 . 300 ... levaram fumo ... ai entenderam que ações não dá dinheiro .... e agora estao colocando essa grana em commodities (!!!)

    Eu to esperando a volta da sanidade ... achar que as obras do trump vao consumir o estoque de aço da china ... é esperar o papai noel rs .

    Abs,

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    1. Sim, isso ocorre na China porque há poucas opções de investimento rentáveis. Praticamente não há retorno em renda fixa, então o investidor tem que buscar outras opções.

      http://www.financasinteligentes.com/2016/11/disparada-descasada-do-minerio-de-ferro.html

      Abs,

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