quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Enxugar gelo pode sinalizar desespero


Bastou o primeiro choque externo enfrentado por Ilan Goldfajn, como presidente do Banco Central, aparecer para o discurso bonito relacionado às intervenções da autoridade monetária no mercado de câmbio cair por terra.

As afirmações favoráveis ao câmbio flutuante combinadas com interferências parcimoniosas, quando houver necessidade, não estão condizentes com as operações realizadas pelo Banco Central no mercado de câmbio nesses últimos dias.

A venda líquida de 10 mil contratos de swap cambial tradicional (equivalente à venda futura de dólares), além da oferta de todos os 20 mil contratos para rolagem de swaps que vencem em 01/12/2016 não parece ser uma estratégia para apenas fornecer hedge e liquidez aos agentes, mas sim uma tentativa de frear a valorização do dólar contra o real.

A forte atuação do Banco Central no mercado cambial ganhou reforço da artilharia do Tesouro Nacional, que não só suspendeu os leilões de venda de LTN e NTN-F desta semana como também anunciou leilões diários de compra de Notas do Tesouro da Série F (NTN-F) até sexta-feira.

O motivo apresentado pelo Tesouro é oferecer suporte e liquidez aos agentes, já que nos últimos dias houve rápido desmonte de posições compradas. Na prática, a intervenção do Tesouro parece ter objetivo de frear a recente arrancada dos juros futuros brasileiros, na tentativa de acalmar os ânimos dos investidores e dar respaldo à taxa de câmbio.

A atuação conjunta em peso do Tesouro Nacional e Banco Central é destaque entre as principais praças financeiras mundiais e sinaliza que nossos líderes estão mais temerosos do que a média global desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. 

É possível que esse temor esteja relacionado à manutenção da fraqueza dos fundamentos domésticos, com indicadores recentes derrubando a expectativa de retomada satisfatória do crescimento projetado pelo governo, além da complexidade fiscal e dificuldade de provocar ancoragem da inflação ao centro da meta.

Entretanto, as atuações do Tesouro Nacional e Banco Central possuem mero apelo psicológico e podem, até mesmo, revelar certo desespero das autoridades brasileiras, já que as intervenções não são capazes de maquiar uma condição de mercado desencontrada com a realidade, principalmente contra a tendência global.

A contragosto do governo, o dólar reverteu a tendência contra o real (de baixa para alta) ao romper a LTB da máxima do ano localizada na região dos R$ 4,17. Fortalece o movimento de reversão a formação de fundo duplo na região dos R$ 3,10, combinado com a superação da linha central de bollinger do gráfico semanal pela primeira vez desde o início da tendência de baixa.


Tentar reverter essa tendência é a mesma coisa que enxugar gelo, até porque o movimento ocorre a nível global. O dólar contra uma cesta de principais moedas mundiais está num estágio até mais avançado do que a tendência de alta contra o real.

Contra a cesta de moedas globais, o dólar já está realizando teste sobre a máxima registrada em 2015 e 2016, principal zona de resistência, que por sinal está fragilizada pela perfeição de um canal de alta sinalizando intensificação de força compradora, configurando um desenho técnico clássico comum em rompimentos de resistências importantes.


O dólar também está acelerando a tendência de alta contra o euro, realizando movimento muito semelhante à cesta de principais moedas globais.


Até mesmo contra o franco suíço, muito procurado pelos investidores para proteção na Europa, o dólar está conseguindo se sobressair, aproximando-se da máxima registrada em 2015 e 2016.


Contra o rand sul-africano, o dólar trabalha clássico rompimento da LTB principal, já bastante desgastada após a recente e curta sequência de testes, confirmando nascimento da tendência de alta.


Contra o peso mexicano, o dólar já estourou a máxima deste ano, adicionando força à tendência principal de alta.


No Chile, o dólar também rompeu a LTB da máxima do ano, confirmando reversão da tendência de baixa de curto prazo para retorno à tendência principal de alta. O peso chileno sequer conseguiu se aproximar da média móvel simples de 200 períodos semanal.


10 comentários:

  1. FI, teria como explicar melhor a intervenção do Tesouro comprando prés?
    Qual a razão de ser? Quem tá comprado, se quiser, vende no secundário, não?
    E segurar a taxa para que? Se o Governo acha que tá alta, basta não vender pré, ou não é bem assim ?

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    1. Sim, o investidor poderia se desfazer das posições compradas em pré-fixado no mercado secundário. No entanto, há muito fluxo vendedor e pouco fluxo comprador para títulos pré no Brasil no momento, fato que pode ser constatado também nas demais praças financeiras mundiais. Com a dominância das vendas no mercado, as taxas pré-fixadas sobem, provocando desvalorização do título, pois quem quer se desfazer das posições precisa buscar preço mais em baixo para encontrar a liquidez necessária. Para frear esse rápido avanço das taxas pré, o Tesouro Nacional entrou no mercado oferecendo leilões de compra (também conhecido como leilões de resgate antecipado). Com esse instrumento, O Tesouro Nacional adquire títulos públicos em circulação no mercado, pagando com recursos próprios. Assim, os investidores conseguem liquidez para a venda de suas posições sem a necessidade de buscar preço mais em baixo no mercado secundário. Além disso, com os leilões o Tesouro tenta frear o avanço das taxas pré. Taxas muito altas alimentam a tensão no mercado e prejudicam a imagem do governo. Importante ressaltar que esses leilões ocorrem exclusivamente no sistema eletrônico do Banco Central (Selic), onde bancos, corretoras e fundos atuam comprando e vendendo títulos da dívida pública federal. Não existem leilões no sistema Tesouro Direto, que é voltado para atender a demanda de investidores pessoas físicas, onde todas as operações são feitas diretamente com o Tesouro Nacional, mas seguem as mesmas taxas praticadas no mercado.

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    2. FI,

      Muito bom cara .... desde o começo ... o mercado estava bem fanfarrão ... só o Temer lá .e já projetaram selic em 9% ... calma cocada ... um país que não para de fazer déficit de mais de 100 milhões ...

      Agora Trump está dando uma "mãozinha" hehehe .. vamos ver se o BC do PMDB não está mais pro BC do PT do que pro BC dos sonhos ..

      Abs,

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    3. Essas projeções servem mais como termômetro do mercado do que para qualquer outra coisa rs... Creio que esse exagero nas projeções de Selic a 1 dígito no médio prazo ocorreu devido às entradas atrasadas de gestores de fundos/tesoureiros brasileiros nos títulos pré-fixados. Fundos estrangeiros foram mais espertos e abocanharam as taxas mais elevadas do passado recente. Como os players nacionais entraram depois, não conseguiram retorno aproximado obtido pelos estrangeiros nos juros futuros. Daí surgiu a ansiedade para tentar fazer com que o mercado acelere a queda dos contratos de juros futuros, refletindo nas projeções muito otimistas para inflação, Selic e, inclusive, numa leitura desvirtuada dos comunicados do Banco Central. Essa é a minha opinião.
      Abs,

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  2. excelente análise, meus parabéns pelo altíssimo nível de suas colocações. é preciso cautela neste momento, pois o caldo pode entornar.

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  3. Muito bom FI!

    Eu que estava começando a aportar nos Eua, vou esperar esse dolar cair (se é que cairá)

    Abraços

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  4. Oi FI, acompanho sem comentários até agora o seu trabalho. E digo que é um belo trabalho com muito conteúdo e precisão de informações.
    Com a declaração do FED hoje você acredita que em um aumento mais intenso do dólar e das taxas do TD. Pelo menos neste curto-prazo? Obrigado!! José Augusto

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    1. Obrigado!
      Não há sinal de interrupção no fluxo vendedor em Treasuries e comprador em dólar (contra outras moedas), o que reflete aqui também. Yellen foi bem hawkish no seu pronunciamento, estou achando que ela pressionou Trump, mandando um recado: "se vc acionar o botão turbo do fiscal, eu aperto o botão turbo da taxa de juros" rss.. Pode ser que ela esteja blefando sendo dura demais, mas o risco é maior para o Trump pagar pra ver.
      Abs,

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