quarta-feira, 2 de novembro de 2016

FFR deve subir em dezembro, mas ciclo tende a continuar muito gradual


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) confirmou as expectativas de aumento de 0,25 p.p. na meta para a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) no próximo encontro a ser realizado no mês de dezembro deste ano.

O comunicado divulgado após a reunião de Comitê na tarde desta quarta-feira apresentou termos clássicos utilizados pela autoridade monetária norte-americana em momentos que antecedem mudanças na política monetária.

O destaque ficou por conta do seguinte trecho: “o Comitê considera que o argumento para uma subida da taxa de juro continuou a se fortalecer, mas, por enquanto, decidiu esperar para que haja mais algumas evidências de que continua a progredir em direção aos seus objetivos.”

A declaração representa uma mudança frente ao texto apresentado na reunião anterior, realizada no mês de setembro. Naquela época, o FED esperava mais evidências para tomar uma decisão. Agora, a autoridade monetária norte-americana precisa apenas de mais algumas evidências, ou seja, boa parte dos indicadores econômicos já sinalizam necessidade de nova elevação da FFR.

A decisão de subir os juros poderia até mesmo ser tomada nesta reunião de novembro. Entretanto, o Banco Central dos Estados Unidos continua determinado a fazer alterações na política monetária apenas nas reuniões de Comitê que são acompanhadas por divulgações de projeções e entrevista coletiva do(a) chair. Essa tática é utilizada para aumentar o potencial de sucesso da comunicação da instituição com o mercado, sendo bem sucedida desde 2013.

A segunda passagem importante do comunicado foi a confirmação de que a inflação, apesar de ligeiramente mais elevada desde o início deste ano, continua abaixo do objetivo de 2% a ser perseguido pela autoridade monetária no longo prazo.

Nos últimos dados apresentados ao mercado em setembro, a mediana das projeções de membros do FED apontava para uma inflação de 1,3% em 2016, 1,9% em 2017 e 2% a partir de 2018, tanto no núcleo de inflação, quanto no índice oficial. Isso significa que o Banco Central dos Estados Unidos não enxergava e continua não enxergando risco de rompimento ascendente da inflação à meta.

Com a inflação sem dar sinais de aceleração, o FED tende a aumentar a meta da FFR em dezembro deste ano para 0,50% a 0,75% ao ano, mas mantendo o ciclo de aperto num ritmo extremamente gradual.

O gradualismo passa a ideia de que ainda vai demorar alguns bons anos para a FFR se deslocar ao nível considerado normal pelo FED. Somente a partir deste nível que a política monetária tende a entrar numa nova fase, a da desalavancagem financeira. Esse sim, evento de alta imprevisibilidade, preocupação e impacto para o mercado.

Enquanto a FFR não atingir patamar considerado normal, o FED continuará mantendo uma política monetária altamente flexível com a manutenção dos ativos lastreados em hipotecas e títulos do Tesouro no seu balanço, bem como reinvestimento dos juros recebidos em novas compras de ativos.

No Japão, a inflação baixa continua dando muita dor de cabeça ao BoJ (Bank of Japan – autoridade monetária local). A reunião de Comitê encerrada na última terça-feira apresentou novo adiamento nas projeções para cumprimento da meta de inflação.

O Banco Central do Japão prorrogou o prazo para atingir a meta de 2% em torno do ano fiscal de 2018, admitindo que a meta não será atingida antes de terminar o mandato de Haruhiko Kuroda, atual presidente da instituição, em abril de 2018.

Em coletiva à imprensa, Kuroda desabafou ao afirmar que está levando uma quantidade significativa de tempo para erradicar a mentalidade deflacionária que tem assolado a economia durante 15 anos de deflação.

Apesar das novas projeções decepcionantes, o BoJ não alterou sua estratégia, mantendo a atual base de estímulo monetário, a taxa básica de juros em -0,1% e meta de rendimento do título do governo japonês de 10 anos em torno de zero.

Muito possivelmente, o BoJ não quer aumentar seus estímulos já considerados altamente agressivos, para não ser pego no contrapé com o FED. O mundo inteiro está preparado para uma nova subida na FFR, que apesar de o efeito prático ser considerado insignificante, o fator psicológico acaba acrescentando tensão ao mercado. Portanto, aumentar os estímulos nesse momento pode sinalizar fragilidade no quadro doméstico, induzir os investidores ao pânico e causar impacto na moeda local.

No mercado de capitais, investidores do mundo inteiro continuam vendendo ativos de risco, receosos com a corrida presidencial nos Estados Unidos. O índice S&P500 caiu novamente nesta quarta-feira, aproximando-se da média móvel simples de 200 períodos diária. O último teste nesta importante média móvel foi realizado no mês de junho. A diferença é que, desta vez, os preços chegaram à média com uma perna de baixa mais consolidada, detalhe técnico favorável às posições vendidas.


Com o risco Trump tomando conta dos pregões, os investidores continuam evitando o dólar como fuga para segurança, até porque o epicentro ocorre justamente nos Estados Unidos. A moeda norte-americana despencou novamente contra uma cesta de principais moedas globais, perdendo a linha central de bollinger.


Com o dólar fora do radar, o ouro se firma como a principal opção de fuga para a segurança. Após o deslize registrado em setembro, o metal conseguiu se sustentar acima da média móvel simples de 200 períodos diárias e LTA da tendência principal de alta iniciada em dezembro do ano passado. A reversão da trajetória de curto prazo (de baixa para alta) ocorreu justamente no momento em que Hillary Clinton começou perder sua larga vantagem para Donald Trump nas pesquisas de intenções de voto.


5 comentários:

  1. FI,

    Hehehe muito interessante .... se ficar o bicho pega ..se correr o bicho come ..

    Abs

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  2. Cenário complicado, caso o Trump vença acho que os índices vão dar uma derretida, o que é justo, principalmente, com o Ibov que subiu demais ao meu ver até então. Contanto, acho que seria uma descida no curto prazo. Não vejo grandes diferenças entre Trump e Hillary, seria mais " o medo " do desconhecido(do novo). Mas no frigir dos ovos, nada muda substancialmente para alterar o mercado. Posso estar enganado, mas vejo desta forma.

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    1. Essa é a unanimidade do momento. E como sabemos bem, o mercado adora surpreender a unanimidade rs.. No mundo inteiro se comenta cenário adverso com uma vitória de Trump, bolsa derretendo, juros futuros estourando pra cima, etc... Também acho que não é pra tanto, o impacto será puramente psicológico. O mercado teme as propostas de campanha de Trump, mas antes de colocar qualquer coisa em prática, terá que passar por cima do Congresso e superar a pressão do lobby das empresas. É possível que não vá mudar muita coisa. A única certeza é que ambos os candidatos são péssimos, os próximos 4 anos tendem a ser mais decepcionantes do que a administração Obama.

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  3. Tenho muito medo de haver um sell off assim como ocorreu final do ano passado/início desse ano após o FED ter aumentado os juros.

    Mas vamos ver, porque como dizem "o futuro a Deus pertence".

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    1. Na verdade o sell off começou bem antes de o FED subir os juros, naquele momento o mercado brasileiro estava sentindo a pressão das perspectivas extremamente pessimistas com a economia local. Falava-se em calote da dívida, novos rebaixamentos no rating e para completar o governo Dilma estava isolado, sem conseguir fazer praticamente nada. Quando o FED decidiu subir os juros em dezembro, o mercado deslizou mais um pouco, mas se recuperou logo no mês seguinte, contrariando as expectativas catastróficas esperadas pelos analistas/economistas na época.

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