quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Mais um golpe ao establishment


O sentimento anti-establishment, visto no referendo do mês de junho no Reino Unido, desembarcou com força em outra potência mundial. Tal como os eleitores britânicos, os norte-americanos não se intimidaram com a forte campanha pela manutenção do status quo.

Travando uma dura batalha contra Hillary Clinton, mas também desafiando o maciço apoio da mídia, instituições, empresas e até de Wall Street à candidata do partido Democrata, Donald Trump fez história nesta última terça-feira ao conquistar a Casa Branca de forma emocionante, contrariando as pesquisas eleitorais.

Bombardeado em todas as direções do establishment, Trump se não se intimidou na defesa, partiu para o ataque quando teve a oportunidade, mesmo em situações de desvantagem. Sua espontaneidade nos discursos transmitiu a sinceridade de seus pensamentos, diferentemente de Hillary, que pareceu ensaiar demais suas falas e expressões faciais nos debates. Não por acaso, muitos eleitores norte-americanos consideram Hillary uma grande mentirosa.

Atônitos com a vitória de Donald Trump, analistas não sabem explicar o que ocorreu nos Estados Unidos, mesmo que a resposta esteja escancarada à frente. Trump teve seus méritos na campanha por ter encarado batalhas difíceis em vários fronts, mas o que pesou para quebra do status quo foi a opção do outro lado.

Apesar da experiência na política, Hillary teve uma atuação considerada desastrosa, mesmo deixando de lado os escândalos dos e-mails. O colapso de países como Síria, Líbano e Egito, por exemplo, além da ascensão de diversos grupos terroristas, em especial o estado islâmico, ocorreram justamente quando Hillary ocupava o cargo de Secretária de Estado no governo Obama.

Suspeitas de corrupção também arranharam a imagem da candidata do partido Democrata. Estima-se que a Fundação Clinton tenha recebido cerca de impressionantes 2 bilhões de dólares em doações ao longo da última década. Tamanha generosidade das contribuições das grandes empresas norte-americanas vai muito além das “causas nobres” apoiadas pela Fundação Clinton, onde, por sinal, as despesas com viagens e salários de funcionários (incluindo a filha do casal) superam enormemente os dispêndios com programas sociais. As doações são indício de que essas empresas querem aumentar sua influência sobre Washington ou, em outras palavras, fazer lobby.

Hillary também tem inegável boa relação com o sistema financeiro norte-americano, fato confirmado através das doações volumosas para a campanha presidencial de 2016. Quando disputava as prévias para o partido Democrata, Hillary chegou a propor taxar negociadores de alta freqüência na bolsa de valores e fundos de investimentos não-bancários. Antes mesmo de entrar na campanha, Hillary teria recebido 20 milhões de dólares entre 2013 e 2014 para proferir palestras. Grandes players de Wall Street estão entre seus principais clientes.

Além disso, Hillary Clinton não aparenta ser confiável, transparente e honesta. Seus discursos contra a política externa, desigualdade de renda e o poder de Wall Street, por exemplo, vão justamente na direção oposta de suas atuações no passado.

De maneira geral, os Democratas foram arrasados em 2016. As eleições para Câmara e o Senado também surpreenderam o quadro traçado pelas pesquisas eleitorais. Os Democratas ficaram apenas com 47 assentos no Senado e os Republicanos estão, agora, ocupando 51 cadeiras, exatamente a quantidade necessária para obter a maioria. Na Câmara, os Republicanos reafirmaram maioria absoluta, ocupando 236 assentos contra 191 dos Democratas. Para obter maioria na Câmara, são necessários 218 votos.

Portanto, os Republicanos conquistaram não só a presidência dos Estados Unidos, mas também reafirmaram o importante controle do Congresso, contrariando as expectativas dos analistas. A comprovação da força do partido Republicano será importante para impedir que as propostas populistas de Trump ganhem força durante seu mandato, já que muitas delas vão contra os ideais do próprio partido.

O próprio discurso de vitória de Donald Trump mostrou um tom bem diferente daquele adotado durante a campanha. O novo presidente dos Estados Unidos destacou que pretende curar as divisões provocadas pela campanha e encontrar o meio termo.

O temor com uma vitória de Donald Trump provou ser mais uma questão de excesso de sensacionalismo da mídia (majoritariamente pró-Hillary) do que possibilidade real de mudanças econômicas significativas. A política do medo instaurada nos Estados Unidos, exportada para o resto do mundo, se assemelha às previsões catastróficas lançadas aos britânicos antes de votarem no referendo. São infundadas e revelam desespero pela manutenção do status quo. O abuso foi tão forte que acabou criando desconfiança entre os eleitores.

Assim como no pós-Brexit, o mercado de capitais global reagiu, mais uma vez, contrariando a totalidade das expectativas dos analistas. Ao contrário do pânico esperado nas praças financeiras, os investidores estão comprando ativos de risco.

O índice S&P500 acumula bom desempenho positivo nesta quarta-feira, emplacando mais um candle de alta relevante, aproximando-se da máxima história.


Na Europa, a bolsa de Londres fechou o pregão em alta de 1%, aos 6.911 pontos. A bolsa de Frankfurt, na Alemanha, subiu 1,56%, atingindo 10.646 pontos. Na Fraça, a bolsa de Paris avançou 1,49%, recuperando boa parte das perdas sofridas nas últimas semanas.

No Brasil, o índice Bovespa opera em leve baixa, ainda que muito acima do patamar registrado na abertura do pregão. O candle desta quarta-feira não altera o quadro técnico do mercado, mantendo-o em ponta comprada, próximo da máxima do ano.


7 comentários:

  1. "O temor com uma vitória de Donald Trump provou ser mais uma questão de excesso de sensacionalismo da mídia (majoritariamente pró-Hillary) do que possibilidade real de mudanças econômicas significativas."

    O mercado parece que corroborou esta tese, tanto que fechou no azul por lá. Aqui tentou acompanhar mas fraquejou no final da tarde voltando para o negativo. Agora é aguardar os próximos capítulos. Tirando a reunião do FOMC mês que vem acho que o ano 'mercadológio' já acabou.

    Abraço!

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    1. Acho que não, o BCE está sob pressão para prorrogar o programa de compras de títulos de 80 bilhões de euros por mês. Vai ter que mostrar seu plano para o ano que vem na próxima reunião de política monetária. Na Inglaterra, o BoE vai ter que traçar uma estratégia de redução dos estímulos ou mesmo alta dos juros, para defender a meta de inflação. E no Japão, o BoJ está perdendo a corrida para alcançar a meta de inflação mais uma vez, os estímulos não estão funcionando. Três problemas em três big bankers. Só o FED está mais tranquilo, até agora, tudo está funcionando do jeito que a Yellen quer.
      Abs,

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    2. Realmente ainda tem muita agua pra passar debaixo da ponte, rs

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  2. FI, parabéns pela dedicação!

    O "sentido aranha" insiste na proximidade de uma queda mais severa no mercado; este, segue uma trajetória ascendente e passou, praticamente, incólume aos eventos do Brexit e a eleição de Trump faz um ensaio similar. Assim, seguimos ao som dos violinos, pois, os baixos prêmios oferecidos pelos "Bonds" seguem alimentando o apetite ao risco.
    O gráfico(LP) do VIX segue respeitando uma LTB, no entanto, o ouro interrompeu sua trajetória de queda, em breve, cenas dos próximos capítulos.

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    1. Obrigado! Sim, o foco continua nos banqueiros centrais, são eles os principais responsáveis pelas condições do sistema financeiro mundial.

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  3. Muito coerentes as causas levantadas para a vitória de Trump. Obrigado! Você acredita que a alta do dolar (5% hoje 10/11 bem maior que em 9/11) é devida à crença na alta dos juros nos EUA?

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    1. Obrigado! Não, dólar contra real está reagindo à suspensão das intervenções do Banco Central no mercado cambial. Parece que a preocupação maior é realmente com a ancoragem da inflação na meta já no próximo ano. Como está difícil alcançar esse objetivo via Selic, o Banco Central quer que o câmbio colabore (ou seja, que o dólar não se valorize). Por conta disso, suspenderam os leilões.

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