quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O contra-ataque de Janet Yellen


Duramente criticada por Donald Trump durante a campanha eleitoral dos Estados Unidos, Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), não se acuou perante o Congresso nesta quinta-feira, aproveitando as perguntas dos parlamentares para passar alguns recados ao seu novo colega da Casa Branca.

Logo na primeira oportunidade, a chair do FED afirmou que em qualquer circunstância deixará seu cargo antes do fim de seu mandato de cinco anos (termina em janeiro de 2018), colocando um fim às especulações em torno de sua permanência no comando da instituição.

Yellen não perdeu tempo e logo em seguida passou outro recado a Donald Trump e seus assessores: “tenham cuidado com as políticas de estímulos à economia”. A chair do FED lembrou que os Estados Unidos estão se aproximando do pleno emprego e a inflação está aumentando, sugerindo espaço limitado para o afrouxamento fiscal.

O FED irá monitorar muito de perto as novas ações do governo, acrescentando-as em seu cenário base quando se tornarem mais claras. A partir de então, o Comitê avaliará o impacto dessas medidas no emprego e inflação e, se houver necessidade, a estratégia de política monetária terá de ser ajustada. Em outras palavras, a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros dos Estados Unidos) poderá abandonar sua trajetória ascendente extremamente gradual e subir num ritmo mais rápido.

O fato de Yellen ter mostrado que o FED está pronto para responder às mudanças na política econômica (se houverem) deixa Trump com menos liberdade para colocar em prática suas propostas polêmicas da forma como propôs na campanha. Um aumento mais rápido da FFR poderá causar impacto relevante no mercado e frear (ou mesmo reverter) a trajetória de recuperação do crescimento, o que seria um mau negócio para Trump e sua busca pela popularidade.

Como era de se esperar, Yellen defendeu veementemente a independência do FED, afirmando que os bancos centrais são mais eficazes quando podem tomar decisões táticas livres de pressão política. Caso contrário, segundo ela, um banco central comprometido com a política pode levar à alta da inflação, hiperinflação ou mesmo uma deflação.

Em seu discurso, Yellen destacou os resultados econômicos terríveis em países onde os bancos centrais ficaram sujeitos à pressão política. Não citou explicitamente quais foram esses países, mas é um caso perfeitamente adaptável à impressionante desarrumação macroeconômica ocorrida no Brasil anos atrás.

A chair do FED foi mais além e também defendeu o duplo mandato da autoridade monetária norte-americana (promover condições para o máximo emprego e inflação na meta), ressaltando que esses dois objetivos costumam estar em conflito em algumas situações.

Com relação à lei Dodd-Frank (principal resposta do governo norte-americano frente à terrível crise de 2008), Yellen frisou a necessidade de preservá-la. Parlamentares republicanos querem desmantelar a Dodd-Frank para aliviar as regras de capital e liquidez, favorecendo os grandes bancos de Wall Street, o que seria um grande retrocesso.

Ratificando o comunicado da autoridade monetária após a última reunião de Comitê, Yellen confirmou a expectativa de elevação da meta para a FFR em 0,25 p.p., de 0,25% a 0,50% ao ano, para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano, no próximo encontro a ser realizado no mês de dezembro.

O pronunciamento da chair do FED nesta quinta-feira ficou marcado por um tom visivelmente mais hawkish, incomum a economistas de viés reconhecidamente dovish.  Refletindo o contra-ataque de Janet Yellen, a taxa de juros da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) alcançou 2,29% ao ano, revelando manutenção da elevada pressão vendedora.


O comportamento da Treasury continua contaminando prêmios dos títulos da dívida pública em outras praças, principalmente emergentes. No Brasil, mesmo com a pressão compradora dos leilões de NTN-F do Tesouro Nacional, as taxas de juros futuros seguem relutantes em ceder, mostrando grande volume vendedor no mercado.

O índice Bovespa voltou a ceder nesta quinta-feira, interrompendo o alívio dos dois últimos pregões. Mercado permanece vendido no curto prazo, próximo da importante linha de suporte localizada na faixa dos 56,5k.


Por outro lado, os principais índices acionários de Wall Street continuam em rali de alta, colados nas máximas históricas. Juntamente com o dólar, as ações da bolsa de Nova York figuram entre os principais destinos do fluxo vendedor de Treasuries desde a eleição de Donald Trump.
  

Ainda nesta quinta-feira, o Banxico (Banco Central do México) elevou a taxa básica de juros em 0,50 p.p., para 5,25% ao ano, na tentativa de dar suporte ao câmbio local muito depreciado nos últimos dias e acalmar o mercado. A decisão decepcionou investidores e analistas locais, que esperavam uma alta de pelo menos 0,75 p.p. A menor ousadia da autoridade monetária mexicana pode ser explicada pelo fato de várias outras moedas estarem realizando movimento semelhante ao peso mexicano.

9 comentários:

  1. Muito bom essas matérias, sigo sempre, parabéns pelo trabalho.

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  2. FI,

    É o mercado animado agora é ode renda fixa! rsrsr quem diria ..

    Abs,

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    1. Sim, mas esses movimentos são normais, faz parte da dinâmica do mercado de renda fixa.
      Abs,

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  3. Excelente post!
    Vc não acha o sistema eleitoral dos EUA medieval?

    Abraço!

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    1. Obrigado!
      Com certeza. Deveria ser mais simplificado para todos os cargos, além de parecer injusto quando o candidato é eleito pelo colégio eleitoral, mas perde no voto popular. Não é a primeira vez que isso acontece. Outro ponto é a demora na apuração dos votos, até alguns dias atrás ainda tinham algumas cadeiras na Câmara indefinidas, aguardando apuração.
      Abs,

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    2. Creio que o sistema americano de colégios eleitorais foi escolhido para garantir que todos os estados tenham chances iguais de influenciar nas eleições federais, e não apenas os mais populosos (claro que isso é apenas na teoria, pois na prática, as eleições americanas sempre ficam focadas nos "estados pêndulos"). Isso, aliado ao fato de que os americanos não confiam em poderes muitos centralizados (como acontece na maioria dos países latinos, em que o poder se concentra na esfera federal), faz com que haja pouca disposição em mudar o sistema atual. Os estados americanos não abrem mão de sua independência. Note que há até códigos penais diferentes entre estados (como a instituição ou não de pena de morte), algo impensável para nós.

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  4. Nosso sistema eleitoral não é muito melhor: podemos ter eleições diretas, mas temos mais de 30 partidos sem coesão ideológica e sem confiança alguma da população, vide o alto índice de abstenção na última eleição, só interessados no $$ do fundo partidário e nas regalias dos cargos.

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