sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pânico na Treasury acende sinal para fuga de capitais


O discurso de vitória de Donald Trump em tom conciliador e a reunião com o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foram suficientes para acalmar os ânimos no mercado. Ao contrário da sensação de tranqüilidade transmitida ontem pelas principais praças financeiras mundiais, a quinta-feira foi de correria e desespero para fechamento de posições de risco.

O mercado mostrou, inclusive, que a minha opinião presente no post de quarta-feira está errada. Existem, sim, riscos não desprezíveis relacionados à administração Trump que infelizmente passaram desapercebidos. O principal deles atinge diretamente e espinha dorsal do sistema financeira mundial: a treasury (título público do Tesouro norte-americano).

Após se reunir com Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados e político de alta influência no partido, Trump afirmou a repórteres que vai, realmente, reduzir os impostos. A afirmação do novo presidente dos Estados Unidos demonstrou que os Republicanos estão alinhados com a proposta de redução da carga tributária que, por sinal, é uma velha bandeira levantada pelo partido.

O corte de impostos implicará numa política fiscal expansionista, com alto poder de impacto sobre a inflação. Portanto, caso a proposta vá adiante, o governo Trump deve experimentar aceleração dos índices de preço. Nesse quadro, o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) será obrigado abandonar sua estratégia extremamente gradual de aperto das condições monetárias para defender a ancoragem da inflação na meta de 2% a ser perseguida. Isso significa que a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) pode subir mais rápido do que se esperava anteriormente.

O principal fator responsável por manter as taxas de juros das treasuries comportadas em zona de baixo rendimento é justamente o excesso de gradualismo por parte do FED. Uma simples perspectiva de mudança na velocidade de aperto tem potencial para provocar choques ascendentes nos rendimentos das treasuries.

Com as treasuries pagando taxas de juros melhores, os investidores tendem a fechar operações de carry-trade com mercados que de alto risco e alto rendimento, para retornar a um mercado de baixo risco e rendimento mais elevado do que o de costume.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos saltou para 2,15% ao ano, muito acima da média em torno de 1,60% praticada durante todo este ano e bem superior à mínima de 2016 registrada aos 1,37%.


A atual arrancada do rendimento da Treasury de 10 anos, referência global, é a mais forte dos últimos dois anos. O ritmo de alta já provocou rompimento da LTB que parte do pico de 3% registrado em 2014. Os investidores estão vendendo treasuries acreditando que juros futuros serão mais elevados no futuro, pois há expectativa no mercado de aumento no ritmo de alta da FFR em função da inflação a ser criada pelo expansionismo fiscal.

O FED tende a se manter cauteloso nos momentos de pânico no mercado, principalmente no curto prazo, podendo até mesmo evitar subir a FFR em dezembro na tentativa de acalmar os ânimos, se for necessário. Entretanto, diante de um cenário de aceleração da inflação não haverá outra alternativa a não ser subir a FFR no ritmo adequado.

Ainda é muito cedo para confirmar esse diagnóstico do mercado, mas o temor é justificável. O principal efeito colateral de uma política fiscal expansionista é justamente a aceleração da inflação, pois o capital é injetado de forma direta na economia, diferentemente das políticas de relaxamento quantitativo, onde boa parte capital fica represado no sistema financeiro.

No Brasil, os efeitos do pânico na Treasury foram potencializados pela atuação do Banco Central. Na última quarta-feira, a autoridade monetária anunciou a interrupção da oferta de leilões de swaps cambiais reversos, equivalentes à compra futura de dólares. O anúncio da medida mostrou ser um erro estratégico do Banco Central, pois acabou inflamando temor no mercado local.

A reação considerada tranqüila na quarta-feira frente ao resultado da eleição presidencial norte-americana pode ter emitido um falso sinal ao Banco Central de que o nível de tensão no mercado estava baixo, portanto, adequado para trabalhar mudanças na sua estratégia de atuação no câmbio.

Apesar da falta de reflexo sobre os preços, a tensão estava alta. Assim que o mercado abriu nesta quinta-feira, o dólar disparou contra o real. O candle de fechamento é forte o suficiente para sinalizar reversão na tendência principal de baixa para alta, já trabalhando rompimento da principal resistência localizada aos R$ 3,36.


Os investidores reagiram ao anúncio da medida na noite de quarta-feira como identificação do Banco Central para uma alta potencial do dólar, o que acabou criando uma intensa correria para fechamento de posições vendidas.

Com o mercado reagindo de forma bem diferente do que o Banco Central esperava, uma nova ação foi anunciada na noite desta quinta-feira. A autoridade monetária voltará rolar contratos de swaps cambiais tradicionais, o que equivale a uma venda de dólares no mercado futuro.

Desta vez, o Banco Central quer fazer pressão pra moeda subir com menos intensidade, ou mesmo voltar a cair. Uma arrancada do dólar prejudicará a estratégia de ancoragem da inflação ao centro da meta no próximo ano. O não cumprimento desse objetivo será ruim para recuperação da credibilidade perdida no passado e dificultará a ancoragem futura da inflação à meta.

O deslize do Banco Central bateu com força no mercado de ações local. O Ibovespa tombou novamente, voltando a se aproximar da zona de suporte psicológico localizada na região dos 60k. O retorno maciço das vendas pela segunda fez consecutiva num curto espaço de tempo tende a enfraquecer a referida linha de suporte.


11 comentários:

  1. Ótima análise. Trump pode acabar com a festa monetária se usar em demasia a política fiscal e resultar em inflação.

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    1. Exato. O que mais chamou a atenção foi a rápida reaproximação de Trump com Paul Ryan. Parece que o partido Republicano está pronto para trabalhar com Trump, inclusive em algumas propostas polêmicas como na área da saúde e corte de impostos.

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  2. Tudo que vem ocorrendo na bovespa, a queda de algmas empresas, serve pra deixar bem claro o quão especuladores são muitos que se intutulam analistas.
    Muitos analistas cravaram um balanço positivo da Petrobras e veja o que ocorreu, um prejuízo acachapante.

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    1. Sempre desconfie de qualquer pessoa que se propõe adivinhar o futuro. Isso não existe. Foque na construção de sua estratégia operacional e esqueça os "gurus".

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  3. FI,

    E eu vendido no dólar .... hahah .. que fase!

    Abs,

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    1. Se a posição foi aberta hoje, você está dentro do jogo. Caso contrário, pode ser um indicativo de que sua estratégia ainda não está adaptada ao mercado cambial.
      Abs,

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  4. Tudo bem quando somos aconselhados a focar na estratégia.Mas, toda estratégia passa por algumas análises racionais e até irracionais.Ex.: o aumento do DI nos últimos 2 dias foi pelo fenômeno Trump. Mas, não teve também o risco doméstico, acentuado pelo cheque nominal a Temer, Lava Jato e os ruins fundamentos econômicos? Como focar numa estratégia num cenário de incertezas?

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    1. Olá acionista25,
      A incerteza sempre existirá no mercado. Ela é, inclusive, fundamental para o fechamento dos negócios, pois permite que os participantes tenham opiniões diferentes. A Estratégia eficiente não pode embutir o fator emocional. Para isso, o processo de tomada de decisão (comprar, vender, manter ou ficar de fora) precisa ser praticamente automático, ou seja, ao verificar preço de determinado ativo, o investidor já tem a resposta de seu sistema operacional. Isso permite que, independente do que ocorrer no futuro e independente do motivo ou do que está sendo comentado no momento, o investidor saberá o que fazer no mercado.
      Abs,

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  5. Caro Finanças Inteligentes,
    Novamente mto. obr. pela nova postagem.
    Poderia entrar um pouco na explicação do motivo pelo qual o gráfico do DI acompanha tão intimamente o do dólar, sendo que ambos plotaram doji ontem depois da intervenção do BACEN? Qual deles lidera? Parece que ambos fizeram topo... Obr.!!

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    1. Olá,
      Não existe correlação exata entre contratos de juros futuros e dólar. Em alguns momentos os movimentos de ambos serão bem semelhantes, em outros momentos serão bem diferentes. Observe, por exemplo, que os contratos de juros futuros se aproximaram da mínima de 2014, enquanto o dólar sequer chegou perto da mínima de 2015. Entretanto, como ativos de risco, dólar e juros futuros tendem a se deslocar na mesma direção frente às mudanças de humor do mercado.
      Abs,

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