quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Referendo na Itália pode ser o golpe de misericórdia sobre o euro


No próximo dia 4 de dezembro será realizado um referendo sobre a importante e complicada reforma constitucional proposta pelo atual primeiro ministro italiano Matteo Renzi. A reforma constitucional é considerada a mais importante do País desde a Segunda Guerra Mundial. Se for aprovada pela população, ocorrerão mudanças profundas no sistema político da Itália.

O principal ponto da reforma está na eliminação do bicameralismo partidário com dissolução do Senado. Caso a maioria dos italianos vote “sim” no referendo do dia 4, o poder será concentrado na Câmara dos Deputados que continuará exercendo o papel de aprovar leis e votar a confiança ao governo.

Já o Senado não terá mais poder para empossar nem derrubar governos, será profundamente transformado em algo de difícil entendimento. Os atuais 315 senadores serão substituídos por 74 conselheiros regionais (cargo semelhante ao do deputado estadual no Brasil), 21 prefeitos representando cada região do País e mais 5 membros nomeados pelo presidente da República. Nenhum dos parlamentares do Senado receberá salário. Um prefeito escolhido para o Senado, por exemplo, receberá apenas o honorário competente ao seu cargo no município.

O objetivo do referendo é justamente concentrar o poder na Câmara dos Deputados para agilizar as reformas e trazer estabilidade política ao País. Pelo atual sistema, as duas Casas do Parlamento tem poderes equivalentes, principal razão, segundo analistas políticos italianos, pela grande demora na aprovação de leis, já que há necessidade de aval das duas Casas exatamente nos mesmos termos, estendendo o processo por anos. Além disso, a Itália teve 63 governos desde a Segunda Guerra Mundial, sendo que nenhum deles teve poder suficiente para terminar o mandato de 5 anos.

As pesquisas de intenção de voto mostram empate técnico entre o “sim” e o “não” à reforma constitucional, mas parte não desprezível da população ainda se considera indecisa e sem condições de entender com clareza as propostas de mudança, fato que aumenta o risco para uma vitória do "não" no dia 4 de dezembro.

Uma crise de potencial devastador poderia se desencadear na zona do euro com a vitória do “não” no referendo italiano, já que o primeiro ministro Matteo Renzi se comprometeu a renunciar caso a reforma não fosse aprovada no referendo. Mesmo se o ministro voltar atrás em sua decisão, não haverá condições políticas para se permanecer no poder.

Com a renuncia de Renzi, um dos três principais partidos de oposição na Itália terá chance considerável de alcançar o poder. Todos esses três partidos (Movimento Cinco Estrelas, Força Itália e Liga do Norte) são anti-establishment e favoráveis à saída da Itália da zona do euro.

O Movimento Cinco Estrelas, criado pelo comediante Beppe Grillo, é o grande destaque na Itália. O partido está em forte crescimento, conseguindo captar o sentimento nacionalista (tendência global) e já ocupa prefeituras importantes, como em Turim e Roma.

Por este motivo, portanto, a vitória do “não” deixará a Itália com um pé fora da zona do euro. Ainda perdidos pelo baque do Brexit, líderes europeus terão muita dificuldade para proteger o euro contra uma ruptura na Itália, já que uma crise no mercado interbancário seria desencadeada, colocando em risco a solvência de alguns bancos europeus, principalmente aqueles com elevada exposição em títulos italianos.

Nesta quinta-feira, o BCE (Banco Central Europeu) emitiu um relatório alertando para novos riscos à estabilidade financeira na zona do euro. O documento apresenta um tom negativo incomum e revela que o referendo italiano pode provocar fluxos repentinos de capital e acrescentar volatilidade ao mercado, agravando as dificuldades para um bloco já debilitado pelo fraco crescimento.

Diferentemente das projeções exageradamente negativas traçadas por instituições, economistas e analistas no Reino Unido (Brexit) e Estados Unidos (Trump), desta vez o risco é real. A Itália é o quarto maior PIB (Produto Interno Bruto) da Europa, seus títulos estão espalhados pelo continente e seus bancos locais estão com excesso de ativos podres.

Mesmo que o Movimento Cinco Estrelas consiga assumir o poder após uma suposta vitória do “não” no referendo italiano e, posteriormente, mude de idéia em relação à zona do euro (decida ficar) com uma força-tarefa persuasiva das lideranças europeias, ainda assim os riscos tendem a permanecer no próximo ano. Uma reversão política na Itália tende a influenciar as eleições que se aproximam na França e Alemanha, com partidos populistas e anti-Europa ganhando força cada vez maior.

Os mercados europeus não estão incorporando os riscos do referendo italiano e a transmissão de seus efeitos para outros países do bloco. Muito pelo contrário, o clima é positivo, com os principais índices acionários próximos das máximas do ano.

Na Alemanha, o índice DAX trabalha dentro de uma congestão de curto prazo, apoiado pela média móvel simples de 200 períodos diária, sem demonstrar retorno da dominância de pressão vendedora ocorrida em meados de 2015.


Quadro semelhante ocorre na praça francesa, com o índice CAC colado na máxima do ano.


Na Inglaterra, o índice FTSE também trabalha em congestão de curto prazo, mas com distância considerável sobre a média móvel simples de 200 períodos diária, com desempenho melhor em 2016 comparado aos pares alemão e francês.


Na Itália, o índice MIB está em congestão de curto prazo, entretanto operando abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária e semanal, com perdas significativas acumuladas desde 2015. A perda do patamar de suporte localizado na região dos 15k poderá sinalizar maturação técnica de um ciclo de bear market, formado pelo topo duplo em julho do ano passado.


No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa, marcando o terceiro toque sobre a linha central de bollinger sem concretizar rompimento, o que pode atrair retorno de operações vendidas, dificultando a recuperação de preços iniciada aos 58,3k.
 

13 comentários:

  1. Parabéns pelo excelente trabalho! O ritmo "frenético" de produção indica algum presságio para o mercado!? A economia mundial com perspectivas adversas: união européia em xeque pela escala ascendente de movimentos nacionalistas; crise bancária européia; bolha de commodities,bolha de "Bonds" e bolha imobiliária chinesa. E, o mercado bursátil em máximas históricas na matriz.
    O ouro no cenário de tamanhas incertezas deveria retomar uma trajetória altista, não obstante, sofre com o fortalecimento do dólar pela possível política econômica adotada no governo Trump (expansionismo fiscal) que implicaria em inflação mais alta e um maior ajuste na FFR pelo FED. Enfim, o quebra-cabeça está fácil de montar! Todavia, parece-me que existe uma assimetria se formando na cotação do ouro face a este cenário.

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    1. Obrigado!
      Sim, as condições macro estão ficando favoráveis para retomada do ciclo de bull market no ouro. A retomada verificada no início deste ano tem característica de reversão na tendência principal, apesar da brecada dos últimos meses. Os investidores estão olhando muito para o dólar, o que é natural porque ainda há trauma da queda abrupta dos últimos anos.

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  2. Olá FI!

    Será que estamos presenciando a ruptura dos blocos? (Mercosul (esse nem sei se existe ainda...) Euro)


    Abs

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    1. Ruptura generalizada não, mas enfraquecimento certamente sim. É uma tendência global já alertada alguns anos pelas instituições (inclusive FMI), que se fortaleceu e ficou evidente neste ano. Na zona do euro a situação é dramática, o que acontecer na Itália nos próximos meses, ou mesmo na França e Alemanha no próximo ano, pode definir o futuro do euro.
      Abs,

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  3. Pra mim o Euro está com os dias contados. Os países que compõem a Uniã Européia tem problemas, necessidades e posturas políticas muito diferentes entre si.
    Essas diferenças em algum momento se tornam insustentáveis.
    A Alemanha num certo momento quiz liderar o bloco "impondo" suas regras o que obviamente descontentou muita gente.
    Fora a crise econômica na Itália, Espanha, Prtugal e Grécia e também a questão dos imigrantes.
    A Europa passa por um momento complexo da história moderna. Creio que de médio a longo prazo o continente Europeu perderá boa parte de sua importância política e economica em termos globais.

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    1. Está complicado. Não há mais clima para necessária austeridade fiscal na Europa, os países atingiram o limite. A única forma de os atuais governos terem uma chance de impedir o forte crescimento dos partidos nacionalistas e anti-Europa é justamente fazer o que esses partidos estão propondo, avançar no populismo. Parece um beco sem saída.

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  4. Apesar de o cenário na Itália poder abalar fortemente o Euro eu acredito que a moeda comum só entrara em colapso no momento que a Alemanha começar a flertar com a saída da zona do euro.

    Isso porque não vamos nos esquecer que a criação do Euro só foi possível graças a chantagem francesa feita sobre a Alemanha, exigindo o abandono do poderoso Marco Alemão e adesão ao Euro, e em troca disso a França não faria qualquer empecilho à reunificação alemã (a União Soviética havia acabado de implodir).

    A maior parte da força do Euro é devida a força que possuía o Marco Alemão. Se a Alemanha pensar em sair do Euro aí sim é definitivamente game over.

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    1. Exato, não por acaso a zona do euro beneficia muito mais a Alemanha do que os países da periferia. O problema está no contágio via mercado financeiro com uma eventual ruptura com a Itália. Há uma série de problemas que tendem a ser desencadeados em função do elevado endividamento do País (132,6% do PIB), dos ativos italianos espalhados no sistema financeiro europeu e da fragilidade dos bancos locais. Muito possivelmente o BCE aumentaria o volume de suas injeções no mercado para tentar proteger os bancos na zona do euro a qualquer custo, mas seria difícil salvar todos com um potencial de contágio tão forte vindo dos ativos italianos no sistema.

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    2. Os problemas da zona do Euro não são "apenas" econômicos, há questões políticas que vão além de dinheiro.

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    3. Com certeza. Embora essas outras questões (não menos importantes) surgiram a partir de um problema econômico que se tornou visível após o crash do subprime em 2008.

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  5. FI,

    Que beleza.. mundo vai continuar animado então .. é esses países q nem portugal... espanha... italia ... vamos ver até qd os bancos vão sem abrir o bico ..

    Abs,

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    1. Sim. Emoção é o que não vai faltar nos próximos anos rs..

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  6. Excelente o seu blog, um nível muito elevado os seus artigos.

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