sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A perigosa pressão por cortes agressivos na taxa Selic


Antes mesmo de o Banco Central iniciar o ciclo de afrouxamento monetário em outubro deste ano, muitos participantes do mercado, entre eles economistas, analistas, gestores de fundos de investimentos e tesoureiros de instituições financeiras já estavam fazendo pressão para cortes agressivos na taxa básica de juros.

Desde então, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) se reuniu duas vezes anunciando cortes de 0,25 p.p. em cada encontro, a contragosto do mercado. Ainda que os membros do Copom continuem mostrando motivos mais do que suficientes para cortes moderados na taxa Selic, a pressão do mercado persiste e está cada vez mais forte.

O apelo para cortes mais agressivos na taxa básica de juros pode ser justificado pelo possível atraso no posicionamento de players nacionais em contratos de juros futuros e/ou títulos soberanos pré-fixados, proporcionando ganhos inferiores ao que se esperava no passado recente. Uma queda mais agressiva da taxa Selic no curto prazo poderia acabar com a agonia dos players nacionais e aumentar o ganho de suas respectivas posições.

O Banco Central não pode ceder à pressão do mercado, em função do grande interesse que está em jogo. Mas a insistência está ganhando significativa força emocional e pode acabar atropelando a razão, o que provocaria novo surto inflacionário nos próximos anos.

Apesar da euforia carnavalesca que se criou em torno da baixa inflação registrada em setembro (0,08%) e outubro (0,26%), não há motivo para tanta festa. As aparências podem enganar. Ao contrário do pensamento dominante, a inflação não está sob controle, pois o quadro macroeconômico permanece desregulado.

Com a economia ainda desordenada, a inflação corre sério risco de voltar apresentar sinais de aceleração a qualquer momento. Dados apresentados pela pesquisa do IHS Markit sobre a atividade econômica brasileira mostraram que os custos médios de insumos para as empresas continuaram a subir, atingindo recorde de alta dos últimos três meses.

A pesquisa também revelou que algumas empresas estão tentando aumentar seus preços de venda para protegerem suas margens de lucro, mas 81% das companhias entrevistadas relataram ter mantido seus preços cobrados inalterados em função de um ambiente mais competitivo e de baixa demanda.

A desinflação em curso, portanto, parece estar sendo tocada, em grande parte, pela redução das margens de lucro das empresas. Existe um espaço de tempo limitado para que as companhias possam trabalhar com margens reduzidas no mercado, caso contrário o negócio pode afundar. Isso significa que, ao primeiro sinal de reaquecimento da demanda, as empresas vão subir os preços para recuperar suas respectivas margens de lucro, voltando a criar pressão inflacionária.

Outro destaque é a esperança (do Banco Central) de que a atividade econômica mais fraca possa produzir desinflação mais rápida que a refletida nas projeções já otimistas do cenário de referência. A autoridade monetária projeta uma inflação de 4,4% em 2017 e 3,6% em 2018.

Passou da hora de essa esperança cair por terra. Conforme demonstrado no gráfico abaixo, o Índice Gerente de Compras trabalha trajetória de desaceleração desde 2010, passando a emitir sinais de manutenção de contração da atividade manufatureira a partir de 2013.


Mesmo com a atividade industrial indo para trás durante todo esse período o País continuou criando pressão inflacionária, o que revela elevado nível de desorganização macroeconômica. Com uma política fiscal expansionista e níveis extremamente baixos de investimentos, dificilmente haverá condições para ancoragem da inflação à meta.

Para que o Banco Central possa encontrar condições favoráveis a cortes agressivos na taxa Selic, o governo já deveria estar tocando uma política fiscal verdadeiramente contracionista, buscando superávit primário convincente (sem receitas recorrentes) de 3% do PIB (Produto Interno Bruto) em até três anos. Essa meta é perfeitamente possível de ser alcançada com a revisão das ineficientes desonerações tributárias implementadas pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Além disso, o Banco Central precisa aguardar a retomada dos investimentos na economia para que, assim, o aumento do nível de oferta ocorra no mesmo momento em que a demanda passará a ser mais intensa, evitando criar desequilíbrios.

O passado já nos mostrou que os cortes agressivos na taxa básica de juros, descasados com os fundamentos macroeconômicos, resultam numa conta muito alta a ser paga por toda a sociedade. Cair novamente nessa armadilha seria uma tremenda estupidez.

No mercado de capitais, o clima permanece tenso nas principais praças financeiras mundiais, com investidores zerando posições em ativos de risco. O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) fechou em alta pela quarta semana consecutiva, renovando nova máxima anual. A superação da média móvel simples de 200 períodos semanal não está sendo acompanhada por briga intensa entre compradores x vendedores no papel, caracterizada por sequências de candles de alta e de baixa como em 2014 e 2015, o que mostra possível reversão de ciclo.


O índice Bovespa fechou o pregão desta sexta-feira em alta, numa reação totalmente técnica. A linha de suporte localizada nos 58.3k foi testada e respeitada. A distância para o topo descendente localizado em 62.9k ainda pode favorecer as vendas nos próximos pregões, embora a consolidação da tendência de baixa só ocorrerá com o rompimento descendente do suporte em 58.3k.
 

20 comentários:

  1. Se a selic cair 3% nada muda pra inflacao. A selic e usada apenas pelo mercado financeiro e nao na economia real.

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    1. A eficácia da taxa básica de juros é indiscutível. Em alguns momentos o efeito sobre a economia pode ser maior ou menor, a depender de outras variáveis, como a política fiscal. Quanto maior a dificuldade para causar o efeito desejado na economia real, maior a carga necessária de juros.

      A principal causa da inflação elevada no Brasil é justamente provocada pela queda insustentada da taxa Selic na gestão anterior. Entre março de 2013 (quando a Selic atingiu 7,25% ao ano) até o mês de outubro de 2016, a inflação acumulada é de 30,03%.

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    2. Anônimo, sério que você acha isso? Complicado...

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    3. Creio que ele falou isso, por que já viu videos do ciro gomes, explicando uma alta no câmbio, alta na energia elétrica ou alta na gasolina afeta o IPCA e taxas de juros em nada poderia frear essa demanda de forma significativa. Poderia nos contra-argumentar e nos explicar?

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    4. Para contra-argumentar, preciso ver os argumentos que levaram a essa conclusão de que a taxa de juros não poderia frear a demanda, mesmo que de forma significativa.

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  2. Acho que o BC vai manter a estratégia, não cedendo às pressões. Minha maior preocupação, no momento, é a fragilidade atual do Congresso e as consequências nas reformas econômicas. Abraço!

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    1. Acho que o Temer não irá lançar a reforma da previdência sem condições de aprová-la. E parece que ela já está pronta pra ser enviada ao Congresso já na próxima semana. Apesar de todo o barulho na mídia, até agora não tivemos demonstração prática de perda da base. Até que se prove o contrário (derrota nas PECs), Temer continua com força no Congresso.
      Abs,

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  3. Cara, seus artigos são como um oásis de sensatez no meio do deserto da ignorância. Sério, quando entro nesses sites de notícias (G1, Folha...) para ler a respeito da última reunião do Copom, o que vejo de gente ignorante opinando nos comentários... é só coisas do tipo "este governo só beneficia banqueiro e rentista", "a Selic tem que ser zero para sermos desenvolvidos como EUA e Europa", "Temer golpista" etc etc.

    Tá cheio de "especialistas" dizendo para baixar o juro na marra, sem entender as condições macroeconômicas necessárias para fazê-lo (dupla Dilma-Mantega vem à mente?). Parecem desconhecer a necessidade do tão criticado ajuste fiscal, que por sinal é demonizado pelos mesmos que criticam os juros altos (ou seja, acham que dinheiro nasce em árvore). Até a colunista Thais Herédia, da qual eu sou leitor assíduo por sua sensatez econômica, começou a engrossar o coro dos que pedem corte mais agressivos na Selic. Sinceramente estou achando que deve ser por pressão destes 'players nacionais' que entraram atrasados no mercado pré-fixado, conforme dito no começo do artigo.

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    1. Ou eu que estou errado no meio de um oásis da sabedoria rsrs... Mas na minha opinião, existe uma pressão muito forte nessa direção. Falta de transparência e imparcialidade no mercado financeiro é relativamente comum, pois é um ambiente no qual há muito dinheiro em jogo. Para detectar nitidez de pressão (como nesse caso), basta observar os argumentos utilizados. Para atropelar a razão, a qualidade da argumentação precisa cair.

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  4. Eu estou bastante receoso desse forte aumento nos juros das treasurys, mas acho estranho isso não estar gerando uma queda no mercado de ações americano.

    Até porque deve ter bastante gente perdendo com essa disparada dos juros. Você tem alguma idéia de até quando o mercado de ações aguentaria continuar subindo se as treasurys continuarem esse rally?

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    1. Não rs.. O mercado é soberano. O que está acontecendo é um redirecionamento do fluxo de capital. Muitos fundos hedge estavam comprados a favor da curva de juros futuros, dando mais peso às posições em bonds do que para posições em ações ou em moedas. Com a recente reversão na trajetória dos juros, houve correria para fechamento de posições compradas, provocando rali no rendimento dos títulos. Boa parte desse fluxo foi redirecionada para o dólar e uma pequena parte para as ações na bolsa de Nova York. Os players tendem a continuar mantendo distância do mercado da dívida soberana, já que o rali dos juros não chegou ao fim. Mas devem voltar quando a situação se estabilizar.

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  5. Para mim não tema mais polêmico em economia do que taxas de juros.Concordo que esta pressão e baixar juros por decreto não é bom.Também sabemos que o papel do BC é somente controle da inflação, embora em outros países levam em consideração outros fatores como desemprego, recessaõ,etc.Mas,além de algumas medidas que você citou que são mais para o longo prazo, o quê fazer de mais imediato para conter essa brutal recessão que preocupa o Brasil inteiro?Eu já vislumbro um corte de 0,5% nas próximas reuniões do Copom. Nós meio que já nos acostumamos à uma redução gradualista. Há momentos que determinadas economias faziam cortes bem mais bruscos.Inclusive é o que a escola austríaca defende. Abraços!

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    1. Acabar com a recessão depende mais do governo do que do Banco Central. O ideal é que ambos tomem ações conjuntas na mesma direção, mas não é o que está ocorrendo. Se o Banco Central fizer sua parte sozinho (cortes agressivo na taxa Selic), a demanda vai crescer mais rápido do que a oferta, criando nova onda de pressão inflacionária. Na minha opinião, o Banco Central precisa aguardar a retomada dos investimentos na economia para que a oferta consiga acompanhar o crescimento da demanda. Para os investimentos voltarem à economia, o governo precisa acabar com determinados privilégios (desonerações) e fazer superávit primário.
      Abs,

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  6. FI,

    Apenas com o fim das desonerações tributárias concedidas pelo Mantega já seria possível atingir 3% de superávit primário?
    Ou essa seria apenas a medida principal?

    Abs,

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    1. Seria a media principal, pois há muita coisa a ser feita. Mas só com o fim das desonerações, seria possível fazer 3% de superávit primário. O Marcos Lisboa lançou lançou um estudo e chegou numa conta de 270 bilhões para o bolsa empresário.
      Abs,

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  7. FI,

    Pois é ... essa mídia fica noticiando as coisas de um lado só .. e muita gente entra em coro ... cai selic! cai selic! calma cocada ... a selic é uma taxa básica pra remuneração dos títulos do governo... significa que isso é taxa de retorno de financiamento.. o governo está constantemente em deficit.. cada vez devendo uma parcela do pib maior .. obviamente.. pra emprestar dinheiro pra alguém que está cada vez mais endividado vai se cobrar cada vez mais ... ou se a remuneração não for adequada, simplesmente ninguém vai querer financiar isso ..

    Obviamente há mais variáveis envolvidas nisso .. mas ..é melhor ser prudente sinalizar isso pro mercado .. do que fazer igual a Dilma .. que empurrou isso lá nos 7%.. e depois isso explodiu pra cima de volta .. .rs

    Abs,

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  8. Combustível subindo de novo. Esqueçam redução de juros rs

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    1. Sem dúvida é mais uma pressão contra o afrouxamento monetário. Mas no Brasil, não se descarta de nada rs.. As coisas mais impressionantes acontecem.

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  9. VAI SUBIR A INFLAÇÃO POIS QUEM VAI QUERER ESPRESTAR SEM GANHAR NADA

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