quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

FED impõe choque de realidade ao mercado


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) decidiu nesta quarta feira subir a meta para a Fed Funds (taxa básica de juros norte-americana) do intervalo de 0,25% a 0,50% ao ano para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano. Este é o segundo aumento desde o início do ciclo de aperto monetário, em dezembro de 2015.

Em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, os membros do FED destacaram que os ganhos de emprego tem sido sólidos nos últimos meses, acrescentando que as medidas de compensação inflacionária com base no mercado haviam subido consideravelmente.

A nova avaliação da autoridade monetária sobre as condições do mercado de trabalho sinaliza que a economia norte-americana está se aproximando do quadro de pleno emprego, o que pode ser traduzido por uma taxa de desemprego possivelmente em 4,5% ou levemente abaixo desse patamar.

O FED opera sobre duplo mandato de máximo emprego e estabilidade de preços. Com o espaço limitado para ganhos adicionais significativos no mercado de trabalho e a inflação deslocando-se para a meta de 2% ao ano, o Banco Central norte-americano tende a se tornar mais hawkish, acelerando o ritmo de normalização das condições monetárias.

Em entrevista concedida após a reunião de Comitê, a chair do FED, Janet Yellen, evitou comentar sobre os planos do presidente eleito, Donald Trump, mas alertou que com uma taxa de desemprego de 4,6% não há necessidade de se criar estímulo fiscal para empurrar a economia para uma situação de pleno emprego.

Yellen também afirmou que a decisão do FED é um voto de confiança no considerável progresso feito pela economia até o presente momento e não incorpora as expectativas de mercado relacionadas à nova gestão de Donald Trump. Isso significa que, caso os estímulos propostos por Trump se tornem realidade no próximo ano, o FED deverá responder com mais agressividade no ciclo de aperto monetário.

A decisão, portanto, de subir novamente a Fed Funds, amplamente esperada, não surpreendeu os investidores. Mas o tom do comunicado, juntamente com as novas projeções da instituição, pode impor um choque de realidade ao mercado, que até pouco tempo atrás se relutava acreditar na aceleração do processo de aperto monetário, mesmo a longo prazo.

A mediana das projeções entre os membros do Comitê para o PIB ficou praticamente inalterada, tal como a mediana das estimativas para a inflação e para o núcleo de inflação. A expectativa para o PIB se mantém em torno de 2% para os próximos anos, enquanto a projeção de inflação oficial e do núcleo se aproxima do centro da meta de 2% em 2017. A mediana de projeções para a taxa de desemprego também permaneceu praticamente inalterada, aos 4,5% nos próximos anos.

Já a mediana das estimativas para a meta da Fed Funds subiu de 1,1% para 1,4% ao fim de 2017, de 1,9% para 2,1% ao fim de 2018, de 2,6% a 2,9% ao fim de 2019 e de 2,9% para 3,0% no longo prazo.


As expectativas de aumentos para a Fed Funds são consideráveis, já que as estimativas para o PIB, inflação e taxa de desemprego ficaram praticamente inalteradas, o que revela uma postura mais hawkish por parte da autoridade monetária norte-americana. Há também uma mudança simbólica de inflexão na curva de projeções do FED, com início de um ciclo de revisões ascendentes para a Fed Funds.

O mercado reagiu à mudança agregando pressão ao atual (e significativo) movimento vendedor em Treasurys (títulos do Tesouro norte-americano). A taxa de juros da Treasury com vencimento em 10 anos disparou para 2,54% ao ano, superando a máxima de 2015, trabalhando movimento semelhante ao choque de 2013, responsável por abalar ativos no mundo inteiro e causar fuga de capitais de praças mais vulneráveis.


A taxa de juros da Treasury de 5 anos superou uma forte barreira de resistência localizada na região dos 1,90%, mostrando que o mercado já está pagando um prêmio mais elevado do que o baque de 2013 aos títulos com menor duration.


Na Treasury de 2 anos, o rendimento está na máxima, em nível vermelho, muito superior ao teto psicológico de 2013.


O aumento no rendimento das Treasurys está atraindo fluxo de ativos mais arriscados de praças emergentes para a segurança dos ativos nos Estados Unidos. Entretanto, o desmonte de posições em juros futuros de várias praças, inclusive no Brasil, não ocorre na mesma proporção das Treasurys.

O contrato de juros futuros com vencimento em 2019 opera perto da mínima do ano, pagando uma taxa de 11,54%, ainda dentro de uma tendência principal de baixa. Esse descasamento macroeconômico revela uma aposta dos investidores numa forte queda do juro real brasileiro.


Apesar de existir margem considerável para queda do juro real, o espaço parece não ser tão grande quanto os economistas esperam, já que a manutenção de déficits elevados tende a impor um piso para a Selic.

Além disso, caso o Banco Central volte a falhar na ancoragem da inflação à meta (4,5%) em 2017, num cenário em que a intensificação da política de afrouxamento monetário provoque o deslocamento do juro real a um patamar possivelmente inferior a 4%/4,5%, os contratos de juros futuros podem voltar a estourar.

Investidores comprados em títulos pré-fixados devem ficar atentos, portanto, ao deslocamento do juro real dentro de um quadro macro a ser desenhado no próximo ano.

O desmonte de posições na bolsa de valores tem sido maior. O Ibovespa mergulhou para a principal linha de suporte de curto prazo localizada aos 58k. A perda deste importante patamar de sustentação acionará um pivot de baixa relevante, criando condições para aumento da pressão vendedora na bolsa.
 

13 comentários:

  1. O BC dos EUA é totalmente independente do poder politico? Qual a principal diferença para o daqui? E quais os principais motivos que as taxas de juros aqui no BRasil são extratosféricas?

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    1. Sim, o FED é exemplo de autoridade monetária independente para o mundo inteiro. A principal diferença para o Banco Central brasileiro, além da independência, é o duplo mandato do FED (máximo emprego e estabilidade de preços). Já o Banco Central do Brasil só trabalha, na teoria, em cima de uma meta, os 4,5% no IPCA. O principal motivo das taxas exorbitantes no Brasil é a grande destruição dos fundamentos macroeconômicos provocadas pelo governo anterior, que contou inclusive com a colaboração do Banco Central.

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    2. kkk. E os juros altos também não tem haver com a alta concentração do sistema financeiro brasileiro? E se tivéssemos um sistema muito mais pulverizado...

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    3. Tanto a taxa básica de juros, quanto os juros das operações de crédito são considerados exorbitantes. O crédito sempre foi caro no Brasil, porque o custo de captação dos recursos no mercado sempre foi elevado. Hoje os juros das operações de crédito são tão altos quanto a 15 anos atrás, quando os bancos eram menores e havia mais concorrência.

      A questão é que as taxas de algumas linhas de crédito, como rotativo do cartão de crédito e cheque especial, fogem muito da realidade e são realmente absurdas. Mas creio que esse não é um problema único e exclusivamente da "maldade" dos bancos, mas sim de ignorância financeira de quem as utiliza. Os bancos oferecem linhas de crédito muito mais baratas, que podem substituir a necessidade de usar o rotativo do cartão ou entrar no cheque especial, mas as pessoas desconhecem ou não procuram se informar e acabam pagando o preço.

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  2. Sobre o pleno emprego citado no post:
    É paradoxal a eleição de Trump concomitantemente ao pleno emprego americano.
    Diz-se que um dos principais motivos (se não o principal) de eleição do Trump foi a insatisfação dos americanos com os postos de trabalho perdidos para os asiáticos e mexicanos.
    Ora, se os EUA estão no pleno emprego, por que os eleitores do "cinturão da ferrugem" votaram no Trump? Não são poucos, pois diz-se que foram essenciais na eleição dele.
    Se há pleno emprego, desempregados certamente não devem estar. A menos que lá, como aqui, quem desistiu de procurar emprego não seja considerado desempregado. Será então que estão insatisfeitos com os salários e/ou funções de seus novos empregos?

    FI, corrija-me se minhas lembranças estiverem erradas:
    Quando Obama tomou posse, após a crise de 2008, os EUA tinham um desemprego relativamente severo. Ele tentou implementar reformas fiscais para reanimar a economia, típica solução keynesiana, mas o Congresso republicano não deixou passar. Aí ele só contou com a colaboração do FED no afrouxamento monetário, que foi manobrando até chegar-se a esta situação relativamente folgada de crescimento e pleno emprego atual.
    Pois bem! Agora vão desbalançar o lado fiscal, com menos impostos? Como vão equilibrar a equação: gastando menos (como? demitindo empregados; menos forças armada por menor presença militar no mundo? Em suma: gestando o estado mínimo?) ou emitindo mais títulos?

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    1. Sim, é paradoxal. Trump bateu muito forte na questão do desemprego durante sua campanha, sendo que o mercado de trabalho já se aproximava do quadro de pleno emprego. Entretanto, existe sim insatisfação dos americanos com os novos postos de trabalho. Yellen já abordou sobre essa questão em meados desse ano, dizendo que a qualidade (e remuneração) do emprego precisa melhorar, além de confirmar que muitos americanos simplesmente desistiram de procurar trabalho e, portanto, não entram na estatística. O FED monitora isso muito de perto, mas abandonou esse tom negativo ao mercado de trabalho. Parece que agora os membros do Comitê estão mais confiantes de que os salários irão subir, o que aumentará o consumo e criar mais pressão inflacionária. O aperto monetário, portanto, é uma ação preventiva. Estão subindo a Fed Funds muito antes de a inflação alcançar a meta, para evitar movimentos bruscos no futuro.

      Está certo. A crise do subprime provocou rápida aceleração da taxa de desemprego. Os Estados Unidos saíram de um quadro de pleno emprego no pré-subprime para um quadro de taxa de desemprego de 10% no fim de 2009. Na verdade Obama conseguiu conseguiu implementar medidas heterodoxas, mesmo com o Congresso barrando temporariamente a elevação do teto do endividamento (marcou o mercado na época). No final das contas Obama saiu vitorioso. Conseguiu manter o afrouxamento fiscal, se comprometendo a fazer ajustes no futuro, num ritmo muito gradual e praticamente inexpressivo para a trajetória de endividamento. A dívida dos Estados Unidos disparou entre 2008 a 2011. Os Republicanos do Tea Party só conseguiram frear o ritmo da trajetória. A partir de 2012, a dívida continuou crescendo, mas numa intensidade menor.

      Não sei responder sua última pergunta rs... Aliás, estou esperando a equipe do Trump ser definida para explicarem melhor como vão implementar os planos de campanha. O fiscal já está desbalançado. Não há espaço para mais afrouxamento. A trajetória do endividamento segue ascendente, se o Trump cortar impostos como prometeu, vai provocar nova explosão da dívida.

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  3. o negócio agora é comprar dollar... deve disparar ano que vem, li que o FED considera elevar a taxa no minimo 3x em 2017...

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    1. Está no post: "Já a mediana das estimativas para a meta da Fed Funds subiu de 1,1% para 1,4% ao fim de 2017, de 1,9% para 2,1% ao fim de 2018, de 2,6% a 2,9% ao fim de 2019 e de 2,9% para 3,0% no longo prazo."

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  4. Grande FI,

    Gosto de ler teus posts, comecei ha pouco tempo acompanhar e analisar dados de fora e aproveito pra me atualizar e aprender por aqui ... continue o bom "trabalho" por ai ...

    Até que enfim veio a queda que eu estava esperando vendido no win .. heheh ..

    Abs,

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    1. Obrigado! Que bom que está aprendendo, o blog é pra isso mesmo.
      Abs,

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  5. FI,
    Concordo com sua visão de que a curva de juros brasileira fechou demais.
    Acho que é uma aposta na piora da recessão aqui, o que permitiria o Banco Central reduzir mais forte os juros.
    Acho que a tendência para o dólar é de alta. Ainda mais se o Trump fizer a
    política fiscal expansionista que ele prometeu num cenário de pleno emprego.

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    1. O Banco Central tem espaço sustentado para o ciclo de afrouxamento monetário, só não precisa ir com sede demais ao pote, o risco não compensa. É melhor mostrar força para garantir a ancoragem da inflação na meta, do que perder a oportunidade de acabar com o problema de inflação no País.

      A inflação acumulada de 12 meses tende a recuar mais nos próximos meses, especialmente em dezembro, janeiro e fevereiro. Ano passado, o IPCA de dezembro bateu em 0,96%. Janeiro/16 fechou em 1,27% e fevereiro/16 em 0,90%. Se o IPCA dos próximos três meses alcançar 50% do que foi registrado nos mesmos meses do ano anterior, será muito. Então até fevereiro/17 teríamos uma grande abertura do juro real, capaz de comprar a confiança dos agentes e liquidar o mandato do BC, desde que os cortes na Selic se mantenham moderados. O choque de juro real tem efeito psicológico relevante. Como o Banco Central quer intensificar os cortes, o juro real permanecerá alto até fevereiro/17, mas não tão escancarado, o que reduz o efeito do choque. Mesmo considerando o cenário de maior risco (intensificação dos cortes já no próximo mês), o juro real ainda será considerado elevado e o mercado tende a responder com manutenção da tendência principal de baixa nos contratos de juros futuros.

      Dólar está em tendência de alta. É um movimento que ocorre a nível global, mas com diferença de intensidade para cada moeda. A valorização do dólar ocorre com mais força contra o euro, yen, libra, iuan, moedas asiáticas no geral. Já contra real e o rand sul-africano, por exemplo, o ganho do dólar é mais tímido.

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