quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O vício da nova matriz econômica


Duramente criticada por diversos economistas, a nova matriz econômica, apontada como uma das grandes responsáveis pelo desastre macroeconômico dos últimos anos parece estar voltando com uma nova roupagem.

As intervenções no mercado de câmbio foram retomadas pelo Banco Central. O ciclo de afrouxamento monetário, em curso, está prestes a ser intensificado. A economia vai receber uma nova (e potente) injeção de crédito, mesmo com a contínua deterioração dos indicadores fiscais.

Mais crédito, intervenções no câmbio e afrouxamento monetário. Depois de tudo que passamos nos últimos anos, voltamos a cair no vício da nova matriz econômica.

Em termos práticos, o Relatório de Inflação, divulgado pelo Banco Central na manhã desta quinta-feira está defasado, pois logo em seguida o presidente Michel Temer anunciou uma medida com potencial de injetar 30 bilhões de reais na economia, o que equivale a 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Mesmo com uma inflação acumulada de 6,99% nos últimos 12 meses, histórico desfavorável e projeção do cenário de mercado ainda ligeiramente distante da ancoragem da inflação no centro da meta em 2017, o Banco Central parece decidido a intensificar o ritmo de cortes da taxa Selic na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de janeiro.

A intensificação de cortes na taxa Selic, portanto, sinaliza ser mais um desejo do que uma abertura sustentada pelo quadro macroeconômico e balanço de riscos.  Até mesmo a estimativa de inflação acumulada dos últimos 12 meses do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de 5,42% para fevereiro de 2017, revela certa distância da ancoragem na meta. Para quem, possivelmente, não tem receio de cortar a taxa Selic de forma mais agressiva com este cenário, 0,5% de PIB a mais na economia não deve fazer diferença. O desejo está se impondo aos fundamentos.

Para injetar 30 bilhões de reais na economia, o governo vai liberar o saque de contas do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) inativas até dezembro de 2015. Segundo o presidente Temer, cerca de 10,2 milhões de trabalhadores serão beneficiados, podendo sacar todo o valor disponível em sua conta.

A medida é uma tentativa de reaquecer a economia, já que os recursos poderão ser utilizados livremente. Como o nível de educação financeira é extremamente baixo no País e a maior parte das contas inativas tem saldo de menos de um salário mínimo, é de se esperar que parte relevante deste fluxo seja queimada em consumo, o que provocará um impulso artificial na economia e, como conseqüência, criar nova pressão inflacionária.

Além disso, Temer anunciou que pretende cortar mais da metade os juros do cartão de crédito a partir do primeiro semestre do ano que vem, o que também, se confirmado, será um importante mecanismo de impulso ao consumo. Apesar de ser uma ação louvável, não há detalhes concretos de como uma redução dessa magnitude será feita, o que gera certa desconfiança do ponto de vista estrutural, até porque não foi mencionado nada a respeito dos juros do cheque especial, tão absurdamente abusivos quanto os do cartão de crédito.

Foi apresentada, também, uma espécie de reforma trabalhista, com uma série pequenas alterações não tão expressivas. O Programa de Proteção ao Emprego, que terminaria no fim deste ano, mudará de nome (passará a se chamar Programa Seguro-Emprego) e será prorrogado.

A combinação de política de afrouxamento monetário (prestes a se tornar agressiva) com intervenções no câmbio, mercado de trabalho e impulso ao consumo acrescentará artificialismo à economia, o que colabora para manter a desconfiança dos agentes, empresários e investidores elevada, inviabilizando a necessária retomada dos investimentos.

Em meio à baixa popularidade, está sendo difícil para governo resistir aos encantos de curto prazo da nova matriz econômica. É uma rota muito mais fácil de ser seguida e de ampla aceitação popular. Pode criar resultados positivos no curto prazo, mas definitivamente não é o caminho que permite destravar os investimentos, principal base de um crescimento sustentado.

Assim como não se houve mais falar sobre o tripé macroeconômico, as críticas construídas no passado em função de medidas semelhantes adotadas não estão sendo replicadas nesta nova gestão, que começou bem, mas está desandando. O mesmo pode ser observado através do ressurgimento da proposta de criação do polêmico e perigoso depósito remunerado. Nada mais inquietante do que um profundo silêncio.

20 comentários:

  1. Olá FI!

    Infelizmente estão seguindo pela mesma linha da Dilma...

    Triste...

    Abraço!

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    1. I.Inglês, como o meu pai disse acertadamente para mim: "a mesma quadrilha continuou".
      Eu, e escrevi alguns textos na época, tinha sérias desconfianças que alguma coisa poderia ser feita. O F.I. nem comenta aqui neste artigo, mas o fato é que podemos estar gerindo algo diferente para 2018. Se vai ser para o bem, ou para o mal não sabemos, mas tendo em vista como as coisas estão indo, eu diria que a probabilidade maior é de termos algo funesto para a eleição.


      Mesmos as reformas, das quais eu acho que são essenciais como controlar o gasto-previdenciária, estão sendo feitas por um governo que é ilegítimo. Não há qualquer legitimidade popular e por causa disso quem não garante que pode haver contra-reformas de algum populista em 2018?

      Infelizmente, se o Temer, e a Dilma, tivessem dignidade, ambos teriam renunciados, e uma nova eleição para um governo de transição poderia ter sido feita. Lá, se poderia, já que seria apenas um governo de transição, ter alguém que apresentasse propostas ditas impopulares, mas que poderiam ser explicadas de antemão para população.

      Eu fiquei surpreso como alguém do quilate do gestor do fundo verde, numa entrevista a ETSaopaulo, dizendo que foi surpreendido com a deterioração do governo Temer. Ora, isso era extremamente provável, veja as pessoas que ele se cercou desde o começo, quantos já não foram implicados, e quantos que ainda são ministros não estão implicados?

      Pobre Brasil.

      Abraço

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    2. Então o governo do Itamar era ilegítimo? Não me venha com essa de chapa. É um processo distinto, ocorre no TSE, você deveria saber mais do que ninguém o que é um impeachment.

      Quando leio isso de ilegítimo, parece coisa panfletária. Desculpe.

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    3. A grande jogada de Temer e do PMDB foi ter lançado o "Ponte para o Futuro" no momento certo. É um programa tentador. Conseguiram ganhar o tão importante apoio do mercado, da mídia, etc. Esse pode ser um dos motivos para o silêncio que estamos observando hoje. O mercado quer o Ponte para o Futuro e aposta cegamente no Temer. Ultimamente, está parecendo mais uma "Ponte para o Passado". É bem possível que o fiscal não vá melhorar até 2018, mesmo com PEC do teto dos gastos e aprovação da reforma da previdência, o que certamente abre espaço para candidatos contra-reformas ganharem terreno.

      Abs,

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    4. Ilegítimo o governo Temer não é. Impopular sim, mas ilegítimo não, pois quem votou na Dilma em 2014 votou na chapa Dilma-Temer (se não gostasse de um, então que não votasse na chapa). E a Constituição é bem clara na questão de sucessão presidencial em caso de impeachment.

      FI, há algumas dúvidas se essas medidas adotadas pelo governo podem repetir todo o efeito nefasto que a nova matriz econômica causou no passado:
      1) Quanto à permissão de saque do FGTS, como o governo já usa o fundo como fonte de dinheiro barato para vários de seus programas (ex.: MCMV), que na maioria das vezes visam apenas estimular consumo e não investimento, não creio que permitir que as pessoas saquem o dinheiro para gastarem como bem entenderem vá impactar de modo significativo na inflação. Afinal o governo já usa o FGTS indiretamente para estimular consumo mesmo. Apenas está cortando o intermediário.
      2) Quanto à redução dos juros do cartão, o que eu li é que os juros do rotativo irão incidir somente nos primeiros 30 dias após o início do parcelamento e depois entraria numa outra modalidade de financiamento, com juros mais baixos. Seria isso? De qualquer maneira, não creio que seja algo tão drástico como foi a redução dos juros "por decreto" da Dilma, senão a própria associação que representa as operadoras de cartão não estaria apoiando a medida. E se aumentar muito o risco, os próprios bancos simplesmente podem restringir o crédito para compensar a queda dos juros e o aumento da inadimplência.

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    5. Na verdade o FGTS é um dos principais mecanismos de investimento ao setor imobiliário. E é um investimento inteligente, pois cria empregos em cascata e, consequentemente, promove o crescimento sustentado. Com essa medida, o governo está abrindo mão de parte do investimento para queimar em consumo no curto prazo.
      Com relação aos juros do cartão, ainda está muito confuso. A princípio sim, mas qual será a taxa de juros dessa outra modalidade de financiamento? No fim das contas, é o rotativo mas com outro nome.

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  2. FI, porém com as reformas fiscais (uma já aprovada), o impacto dessas medidas tenebrosas não seriam irrelevantes? Digo, ano que vem com tudo aprovado, o país não vai tirar mais dinheiro da economia do que injetar?

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    1. Não. A projeção do FMI é que o Brasil só voltará a fazer superávit primário a partir de 2020. Mesmo com PEC do teto dos gastos e aprovação da reforma da previdência, o fiscal tende a se manter em terreno expansionista. Ainda existe uma aglomeração de privilégios na economia que infelizmente não estão sendo atacados e dificultam o crescimento sustentado. São esses privilégios que mais pressionam o fiscal. Estima-se que só com o chamado bolsa empresário o governo vai gastar 224 bilhões de reais em 2017.

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    2. FI,

      Eu acredito mais no FMI.. .rs ...

      Abs,

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  3. concordo que estao começando a abrir as pernas, mas ao mesmo tempo comparar o que esta acontecendo com o que aconteceu ainda me parece forçar a barra.

    o fato eh que a crise esta foda, e se nao houvessem medidas de curto prazo o governo pode ruir com a delação da odebrech no ano que vem.

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    1. Se o governo acha que a economia seria capaz de inocentá-lo, se for necessário, acho que está enganado. Além do mais, essas medidas não provocarão melhora significativa no curto prazo, servem para segurar a barra por um curto espaço de tempo. Infelizmente a estratégia é a mesma, a diferença é apenas na forma de aplicação em alguns casos, como o do incentivo ao consumo e injeção de crédito na economia. No que se refere aos depósitos remunerados, é a mesma proposta feita no governo Dilma. Uma outra curiosidade, o ciclo de afrouxamento monetário que levou a taxa Selic para 7,25% ao ano começou justamente quando a inflação acumulada dos últimos 12 meses estava aos 6,88%, muito perto do número que temos hoje. O Banco Central também previa na época ancoragem da inflação à meta no horizonte relevante para a política monetária.

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  4. Parece-me que a ordenha dos juros altos seguirá de forma perene. Assim, faz-se um ajuste pontual e seguimos estes ciclos monetários que fortalecem os grandes bancos brasileiros. Pois, manteremos o custo/Brasil, a baixa produtividade e a inflação continuará resiliente o que implica sempre no ajuste dos juros. Não existem investimentos em infraestrutura, educação e tecnologia e continuaremos, essencialmente, exportadores de commodities. Como investir em atividade produtiva num país de juros escorchantes, com entraves burocráticos e tributários? A solução é aquela utilizada pela Odebrecht!
    Infelizmente, a República das Bananas seguirá como alcunha de nossa terra e a síndrome de vira-lata persistirá no DNA de mais algumas gerações.

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  5. Não acho que este governo seja ilegítimo.Quem votou em Dilma votou em Temer também.E tanto o Senado como a Câmara foram eleitos pelo povo,ou não?.Concordo plenamente com o Anônimo das 20:03.Retiraram o conteúdo nacional da petro e estão tentando melhorar a gestão das estatais,Não estão segurando preços, não estão intervindo em setores estratégicos como Energia,as concessões não terão preços módicos,Não estão mais tão comprometidos com as bolsas assistencialistas,etc.Sem contar que estamos numa forte recessão e desemprego nas alturas,diferentemente do governo anterior que muitas destas medidas foram tomadas no tal pleno emprego e demanda muito aquecida.Poderia resumir tudo em uma questão de visão:Pensamento arcaico da esquerda X Pensamento Liberal...O que para mim já é muita coisa.E infelizmente a política não tem o mesmo time da economia...

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  6. E os juros reais estão subindo com uma inflação que está sim convergindo para meta.A inflação dos últimos 3 meses tá rodando a 3-3,5%.Para mim já está passando da hora de ser mais agressivo na redução da Selic.Além de que uma redução em 0,5% abateria em cerca de 10 a 20 bilhões da dívida pública,melhorando este importante indicador econômico que é a relação Div/PIB

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    1. O custo da dívida é consequência das atitudes tomadas no passado. O governo pode se esquivar do pagamento dessa conta no curto prazo praticando uma queda forçada dos juros, mas é impossível evitá-la e o custo, no futuro, será ainda maior.

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  7. Olá fi. Por que voce considera isso como uma injeçao de dinheiro. Esse valor do fgts nao representa a fração dos salarios dos trabalhadores, que foi criado a partir de uma riqueza real?

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    1. Não sou eu quem considero injeção de dinheiro (apesar de concordar), é o próprio governo.

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  8. FI,

    Eu gosto de crises ... gosto que elas tem se tornado mais frequentes não só aqui no Brasil mas no mundo de uma maneira geral .. quando a gente pega o gráfico do DJ por ex, tinha uma época que só dava pancada de década .. é muito tempo ... tínhamos chegado até a ciclos de 4 em 4 anos ..

    Eu to esperando vendido ... tem commodities voando esperando que Trump consuma todo o aço do mundo ... tem China com imóveis valendo ouro, alto grau de alavancagem e taxas de juros querendo subir ... tem Europa com dívidas altas do pib, em um mundo rodando a taxa 0% mole lidar com dívidas e 90% do pib... e a 2%? Eua um pouco menos preocupante, mas SP500 e DJ nas máximas históricas sem que o aumento de lucros nas empresas estivessem crescendo .. vamos ver .

    Espero ansioso e vendido ...

    Abs,

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  9. 2016 está acabando... Mas reflitamos profundamente. Ano bom. Eis:


    Na música brasileira temos a baixa-cultura corroborada pelo PT nesses 13 anos. O atual lixo cultural do Brasil petista.

    DILMA é um produto a ser consumido e comprado (mesmo que sem dinheiro). Um produto tal qual um "Danoninho©", produto esse industrial, com sedutoras fotografias de suculentos morangos externos (naturalmente que não física e materialmente internos!). Pegando na real o consumidor pela imagem mítica e não pela realidade interna.

    «Coração-Valente©» (até Lula sabe! Não sejamos bobos): tal qual a frase mítica do Danoninho© que "vale por um bifinho", também a pupila de Lula utiliza-se de um simulacro mítico que não reflete o "interior do pote"; a saber: a incapacidade dela de governabilidade, péssima articulação política (Maquiavel), horroroso projeto econômico de fiasco a pino, e ineficácia republicana, fraude. ¿O que adianta, então, afinal, o mito publicitário engana-trouxa de «Coração-Valente©»? Adianta nada!

    E, complexando um pouco [não precisava...; mas vai aí], que discursa assim: «(...) não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.». Esse é o ver-da-dei-ro Coração-Valente© dos anos 60... Ponto final.

    Eis aí a utilização de clichês publicitários míticos para pegar o eleitor pelas VÍSCERAS: acertados, mas, verdadeiramente, engana-trouxa... A minoria escapa da artimanha, da burla e da ilusão petista.

    Verdadeiramente, a VIGARICE & picaretagem é a POPULARIDADE DE MITOS como a MITOLOGIA do «Coração Valente©,»… Um produto a ser vendido e comprado pelo eleitor, devido apenas ao vazio do mito.

    E, também, por outro lado, o problema é a SUAVE & disfarçada truculência do PeTê… Repare:
    É evidente que o Petismo se utiliza de técnicas das mais brilhantes de publicidade; brilhantes, mas embusteiras.

    ¡Jamais 1 Danoninho© vale por um bifinho!

    P.S.:
    ¿Como identificar um petista? Simples! Pela escrita. É singelo e sem enfeites. Veja:

    Amam o FHC (de maneira enrustida), a toda hora estão a falar no velho...

    E, mais singelo, amam o PSDB à distância -- não chegam perto, a longos 13 anos, falam sem parar no partidinho com rigor acadêmico, análise e tudo... São loucos inconscientes para ter como 2ª mulher ou amante o PSDB... Amor enrustido.


    [Obs.:
    Na música brasileira temos a baixa-cultura corroborada pelo PT nesses 13 anos. O atual lixo cultural do Brasil petista. A breguice, cafonice, baranguice e o kitsch do Petismo].

    = FIM =

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  10. Cara, só observar o movimento da SELIC não adianta, tem que observar também o comportamento da Inflação e a "taxa de juros real" considerando o imposto de renda das aplicações (afinal, a SELIC é balizador da dívida pública e do mercado de crédito em geral).
    A taxa de juros real pode SUBIR mesmo em um cenário de queda da SELIC. Basta que a inflação desacelere mais fortemente que a queda da SELIC.
    Por exemplo, em 31/08/2016 o COPOM manteve a SELIC em 14,25% ao ano enquanto o IPCA mostrava um acumulado nos últimos 12 meses de 8,97%, o que considerando um IR de 15%, dava uma "taxa de juros real" de 3,14%.
    Já em 30/11/2016, com a queda da SELIC pra 13,75% e IPCA acumulado em 12 meses de 6,98%, considerando IR de 15%, temos uma "taxa de juros real" de 4,7%.

    OU seja, a taxa de juros real AUMENTOU apesar da queda da SELIC. E é essa taxa real que realmente vale no fim das contas.

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