quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os ajustes impostos pelo mercado


Os membros do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) encerraram a reunião de política monetária nesta quarta-feira sem apresentar novidades relevantes, optando por sinalizar ao mercado que a próxima elevação da FFR (Federal Funds Rate) ainda não está no radar.

O comunicado emitido após a reunião da autoridade monetária norte-americana revela que o quadro global não apresenta os mesmos riscos constatados nas reuniões anteriores. Por outro lado, a situação econômica interna ainda preocupa o FED. O documento demonstra descontentamento dos membros do Comitê com a inflação baixa e com os recentes sinais de desaceleração da atividade econômica.

Além disso, não houve qualquer menção a uma iminente elevação da FFR, o que reforça a manutenção de uma postura bastante cautelosa por parte do FED, seguindo a estratégia bem sucedida dos últimos anos. Com isso, não há expectativa de elevação da taxa básica de juros para a próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de junho.

Do ponto de vista da estratégia de comunicação, junho é o mês propício para, talvez, iniciar os trabalhos de condução do mercado para uma próxima alta da FFR no terceiro trimestre deste ano, já que nesta reunião serão divulgados uma série de projeções do FED que poderão dar respaldo aos movimentos futuros de política monetária.

Confortado pela cautela do FED, o Banco Central do Brasil decidiu nesta quarta-feira manter a taxa Selic inalterada em 14,25%, numa decisão unânime (diferente das últimas três reuniões), que acaba sinalizando possibilidade de futuros cortes.

Reforça essa expectativa o reconhecimento, no comunicado, dos avanços alcançados no combate à inflação. Apesar de ressaltar não haver espaço para flexibilização monetária em função do nível elevado da inflação em doze meses e das expectativas de inflação distantes dos objetivos do regime de metas, o conjunto da obra nesta reunião parece estar mais dovish.

A trajetória da inflação é o ponto-chave para uma mudança (ou não) do quadro macro brasileiro, independente da variável política, já que a manutenção de um movimento descendente (desinflação) abrirá espaço para um ajuste relevante nas condições monetárias.

Com um sistema financeiro operando taxa Selic de 14,25% desde julho do ano passado e taxa Selic de dois dígitos desde novembro de 2013, pode-se estimar que exista uma quantia relevante de capital empossado em papéis no sistema financeiro aguardando o melhor momento para retornar à economia real através de investimentos.

Esse momento poderia vir com uma melhora nas expectativas para a economia nos próximos anos ou simplesmente com uma queda significativa dos rendimentos conservadores no mercado financeiro (efeito dos cortes na taxa Selic).

O simples fato de não existir mais as elevadas pressões inflacionárias do passado, inevitavelmente contribuirá para melhorar o clima de otimismo, estimulando o consumo e retorno dos investimentos, o que recolocará a economia numa trajetória ascendente.

Juntamente com a inflação (até então elevada demais), a taxa de desemprego (até então artificialmente baixa demais) era uma das grandes responsáveis pela baixa produtividade da indústria brasileira. Esse, também, é outro ajuste que está sendo imposto pelo mercado e que independe da novela política.

Com a taxa de desemprego atingindo dois dígitos, a competição no mercado de trabalho aumenta, o que força, inevitavelmente, queda real dos salários. Com menos custos de mão de obra e mais demanda, já está contratado um importante aumento de produtividade na economia brasileira.

Apesar de estranhamente não ser considerado nas análises de especialistas/economistas, também haverá um importante ajuste na parte fiscal, caso a taxa Selic inicie trajetória descendente. Cerca de 719 bilhões de reais (24,92%) da dívida interna brasileira é remunerada por taxa flutuante, que são as famosas LFTs (ou Tesouro Selic).

As LFTs são títulos pós-fixados que pagam ao investidor a taxa Selic diária. Isso significa que quando o Banco Central corta a taxa Selic, os juros a serem pagos pelo Tesouro Nacional aos credores desses papéis reduzirão na mesma proporção. Ao pagar menos juros aos investidores, a trajetória de endividamento do governo brasileiro perderá força ascendente. O grau de alívio na dívida dependerá dos futuros patamares da taxa básica de juros.

Outro fato relevante refere-se a anistia fiscal, aberta no dia 4 de abril, com duração de seis meses. A Global Financial Integrity estima que os brasileiros acumularam pouco mais de 400 bilhões de dólares em contas no exterior entre 1960 e 2012.

Com a lei de anistia, aprovada em janeiro deste ano, parte desses recursos irão regressar legalmente ao Brasil mediante pagamento de impostos, melhorando a arrecadação do governo. A operação é considerada uma baita janela de oportunidade aqueles que possuem aplicações não declaradas no exterior.

Executivos de private bankings tem relatado que a demanda tem sido tão forte a ponto de fomentar um mercado entre bancos e escritórios de advocacia. O histórico de seis moedas em circulação desde a década de 1970 pra cá, hiperinflação dos anos 1980 e confisco da poupança durante o governo Collor estimulou a evasão fiscal.

Hoje o quadro é bastante diferente, as instituições brasileiras estão mais sólidas e oferecem um bom leque de produtos. Os sistemas financeiros globais também estão mais interligados, reduzindo o cerco aqueles que estão na ilegalidade.

Por fim, e não menos relevante, ocorre, nesse momento, um ajuste imposto pelo mercado de commodities favorável à economia brasileira. De maneira geral, os preços estão em recuperação, levando a crer que a fase mais crítica de derretimento constatada em 2014 e 2015 chegou ao fim.


A linha de tendência de baixa foi rompida, dando origem a formação, na sequência, de um pivot de alta, provocando, consequentemente, reversão da tendência de mercado.

Os ativos no mercado financeiro nacional permanecem em suas tendências, sem apresentar novidades.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O que o mercado está dizendo e, você, provavelmente não prestou atenção


O processo de impeachment continua roubando atenção dos investidores, operadores, gestores, economistas, analistas e repórteres da mídia local. Apesar de ser um evento importante do ponto de vista político brasileiro, pouco importa, ao Sr. Mercado, qual será o seu desfecho.

O mercado financeiro global continuará seguindo com muita atenção às políticas monetárias dos principais bancos centrais. Poucos parecem ter notado, mas são elas (políticas monetárias) o principal driver para os preços dos ativos nesta década.

Não é pra menos. Pouco depois do estouro da crise financeira internacional, o mundo assistiu o início de um perigoso processo de perda de força das lideranças políticas regionais. Ficou mais difícil governar em qualquer País do planeta, pois novos instrumentos e tecnologias facilitaram a mobilização e atuação de ativistas sociais, imprensa, entidades, partidos de oposição, pequenos grupos organizados, etc.

A crise política brasileira é só um reflexo desse fenômeno. A fragmentação do poder deixou sequelas em diversos países da África, Oriente Médio, Ásia e Europa. Desembarcou na América Latina e já está batendo na porta dos Estados Unidos, com o surgimento de figuras como Donald Trump.

Em função das enormes dificuldades de governar encontradas pelos líderes políticos regionais e, consequentemente, tocar uma agenda econômica forte o suficiente para garantir o crescimento sustentado no médio e longo prazo, banqueiros centrais se viram forçados assumir a responsabilidade para, ao menos, fazer o possível para manter a roda da economia girando, mesmo que em velocidade baixa.

Os acontecimentos desta semana foram marcantes, pois abrem espaço para manutenção da flexibilização monetária em praças importantes ao funcionamento do sistema financeiro global.

Em seu relatório de Perspectiva Econômica Global, o FMI (Fundo Monetário Internacional) cortou a projeção de crescimento global para 2016 pela quarta vez consecutiva, agora caindo de 3,4% para 3,2%. A entidade alertou para o risco de estagnação generalizada e que o crescimento mais fraco pode deixar a economia global mais vulnerável a choques, tais como depreciações cambiais ou agravamento de conflitos geopolíticos.

O FMI voltou a pedir às autoridades globais que tomem ações coordenadas para impulsionar a demanda com reformas estruturais, estímulos fiscais (onde for possível) e política monetária expansionista.

Das exigências do FMI, duas delas dependem de força política (fiscal e reformas). Uma delas não (política monetária). O que tem funcionado no mundo pós-crise é justamente a exigência do FMI que não depende de força política.

Com o aval do FMI, os bancos centrais continuarão confiantes em manter políticas monetárias no campo flexível e os mercados, portanto, continuarão respondendo a esses movimentos.

Além do FMI, surgiram mais três sinais importantes nesta semana para manutenção da rota flexível no sistema financeiro global. O presidente do BoJ (Banco do Japão), Haruhiko Kuroda, disse que está pronto para expandir ainda mais os estímulos monetários se a recente fraqueza nas expectativas de inflação persistir. Kuroda reconheceu que as expectativas de inflação tem se enfraquecido nos últimos meses. Suas afirmações alimentaram expectativas de mais afrouxamento no Japão.

Já o BoE (Banco da Inglaterra), não querendo se descolar da trajetória flexível da zona do euro (lembrando que o BCE aumentou ainda mais a potência dos programas de flexibilização monetária no mês passado), mostrou em sua ata divulgada na semana que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia criará prolongada incerteza e provavelmente prejudicará a economia no curto prazo, com pressão da demanda para baixo. Esse foi o alerta mais duro dado pelo BoE desde o início das discussões. Os riscos levantados no documento reforçam expectativa de postura mais dovish na política monetária, impossibilitando projetar aumento na taxa básica de juros.

Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve - Banco Central do País) recebeu um indicador de peso nesta semana para manter sua postura altamente cautelosa na política monetária. O Departamento do Trabalho informou que seu índice de preços ao consumidor teve variação positiva de 0,1% em março, ficando abaixo das expectativas de aumento de 0,2%. Já o chamado núcleo de inflação, que elimina custos de alimentos e energia, também registrou avanço de 0,1% no mês anterior, após subir 0,3% em fevereiro.

Com inflação benigna e desacelerando, o FED terá motivos de sobra para manter a taxa básica de juros inalterada na próxima reunião de Comitê, sem se sentir forçado em preparar o mercado para a próxima alta.

Com indicações de manutenção de posturas dovish por parte dos principais banqueiros centrais mundiais, o clima nas principais praças financeiras tende a se manter ameno, o que pode permitir manutenção das tendências iniciadas no final do mês de janeiro.

Operando abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária, o dólar contra cesta de principais moedas globais permanece esboçando clima de otimismo renovando mínimas do ano. Apesar da sinalização de esgotamento na pressão de curtíssimo prazo, que provocou repique da moeda, a tendência principal segue descendente, sem ameaça de reversão.


Bolsas de valores no mundo inteiro seguem tendência principal de alta. A semana foi marcada pelo acionamento de pivots em várias praças, o que só reforça a tendência. Nos Estados, o índice S&P500 já se aproxima da máxima histórica.


A bolsa de Bombay, na Índia, que não estava conseguindo acompanhar, na mesma intensidade, o rali constatado em várias praças financeiras, acionou pivot de alta nesta semana, armando formação técnica relevante para romper a média móvel simples de 200 períodos diária.


Reação importante também ocorreu na bolsa australiana, que estava mais pressionada em função do peso em commodities. O mercado trabalhou formação de fundo ascendente, movimento confirmado por dois candles de força relevante e que favorece futuro rompimento ascendente da média móvel simples de 200 períodos diária.
  
  
Em Londres, o mercado já opera acima da média móvel simples de 200 períodos diária. O pivot de alta armado nessa semana reforça o movimento expressivo de recuperação de preços na praça inglesa.


Já o mercado brasileiro trabalhou fundo ascendente acima da média móvel simples de 200 períodos diária, interrompendo movimento corretivo de curtíssimo prazo. A formação de um pivot de alta sob a base de candles de força relevante, em ponto superior à importante faixa psicológica dos 50.000 pontos, numa tendência que já acumula alta superior a 40% desde o seu início, mostra um mercado de touro bufante, fato novo importante.


Além da questão relacionada à força da tendência de alta iniciada na faixa dos 37k, existe, também, a relevância técnica em torno da faixa dos 50k. Nos últimos três anos, essa importante região atuou como divisor de águas no mercado. Retomadas ascendentes consagraram mercado comprador, ao passo em que estouros descendentes consagraram mercado vendedor.

Outra característica interessante está relacionada ao aumento da importância psicológica formada por esta zona de preço. Nas primeiras batalhas pela faixa dos 50k, o divisor de águas consagrou tendências, porém em tempos mais curtos. Com o passar do tempo, a referida zona de preço foi ganhando ainda mais relevância e, consequentemente, as tendências passaram a ter maior durabilidade.

A última pernada de baixa responsável por jogar o Ibovespa na faixa dos 37k em janeiro deste ano, nasceu aos 58,7k em maio do ano passado. Quase um ano de mercado dominado por vendas maciças. Acontece que o troco dos touros está vindo em compras pesadas ainda mais intensas. As agressividades das tendências, e dos candles que a compõe, podem sinalizar esgotamentos de ciclos.

Desde 2011, quando o mercado brasileiro realizou teste na região da máxima histórica (reforçando a zona de topo), não se via uma onda compradora tão forte como a atual. Forças expressivas como essa, contrárias ao movimento anteriormente predominante, são incomuns.

Mais do que isso, esse tipo de força, incomum, sempre surge descolada dos fundamentos macroeconômicos e/ou do noticiário, momento no qual onde se pode constatar, também, unanimidade nas opiniões de diversas pessoas, dentro e fora do mercado.

O conjunto de todos esses sinais pode não resultar em nada para definição de novo ciclo no mercado brasileiro, mas o fato é que, pela primeira vez nesta década, eles começaram aparecer.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Políticas heterodoxas estão ganhando força no mundo


Insatisfeitos com o crescente descompasso entre política fiscal e monetária, banqueiros centrais de importantes economias mundiais jogaram lenha na fogueira do debate fiscal.

Desde o estouro da crise do subprime, em 2008, autoridades monetárias de vários países tentaram estimular suas respectivas economias através de agressivos programas de estímulos monetários. Por outro lado, os líderes políticos se viram forçados a cortar gastos para conter o avanço dos elevados níveis de suas dívidas públicas.

Há algum tempo esse descompasso entre impulso monetário e freio fiscal tem afetado a imagem de alguns banqueiros centrais, sob acusação de exercerem políticas ineficazes (o que afeta a credibilidade da autoridade monetária), já que as economias continuam apáticas.

O caso mais clássico ocorre na zona do euro. Nos últimos anos, Mario Draghi, presidente do BCE (Banco Central Europeu), tem cobrado insistentemente das lideranças políticas locais mais suporte fiscal para retomada do crescimento.

As primeiras cobranças de Draghi sequer ganhavam repercussão no mercado. Mas na medida em que as políticas de ajuste fiscal, implementadas por vários países na zona do euro, começaram a desapontar em matéria de crescimento, a heterodoxia passou a ocupar perigosamente mais espaço nos debates econômicos.

Hoje, vários diretores de bancos centrais de países desenvolvidos adotam o viés de Draghi. Querem que suas lideranças políticas aumentem os gastos públicos para ajudar a autoridade monetária tirar a economia do marasmo.

Até mesmo nos Estados Unidos, a chair do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), Janet Yellen, se mostra mais inclinada à heterodoxia. Yellen afirmou recentemente que a política monetária nos Estados Unidos e em muitos outros países avançados está substancialmente sobrecarregada e não tem recebido muita ajuda da política fiscal. Ainda segundo a chair do FED, com as taxas baixas de hoje, políticas fiscais orientadas para o investimento se justificam.

Atualmente, o governo norte-americano (combinação dos níveis local, estadual e federal) investe apenas 17,6% do PIB (Produto Interno Bruto), o que representa o menor nível dos últimos 66 anos. Esse quadro não é uma característica isolada dos Estados Unidos, muito pelo contrário. É possível constatar na maioria dos países quedas vertiginosas dos investimentos.

A pressão por mais fiscal já é o principal tema discutido na agenda dos países do G-20 e deve pegar fogo na próxima reunião do FMI (Fundo Monetário Internacional) a ser realizada essa semana em Washington.

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, alertou que a entidade vai cortar novamente suas projeções para o crescimento em diversos países. Na avaliação de Lagarde, as perspectivas já modestas para a economia global vão cair ainda mais a não ser que as autoridades tomem ações mais fortes para impulsionar o crescimento.

Ainda segundo a diretora-gerente do FMI, a recuperação da crise financeira global de 2007 a 2009 continua muito frágil e os riscos à sua durabilidade estão aumentando. Por conta disso, cobrou das autoridades atuação conjunta (ou seja, política fiscal e monetária na mesma direção), como condicionante para criação de efeitos positivos sobre a confiança e, consequentemente, para a economia global.

Lagarde foi mais além e aconselhou os Estados Unidos a elevarem o salário mínimo, a Europa a aperfeiçoar o treinamento de empregados e as economias emergentes a cortarem subsídios de combustíveis e aumentarem os gastos sociais.

Além disso, o processo de globalização literalmente emperrou no mundo, o que inevitavelmente abre espaço para adoção de medidas protecionistas. Um dos poucos pontos de consenso entre candidatos democratas e republicanos à presidência dos Estados Unidos está justamente na avaliação (de viés negativo) de que a globalização provocou inundação de bens importados baratos no país e perdas de empregos.

Segundo estimativas do Banco Mundial, a fatia do comércio na produção econômica global, que havia saltado de 20% em 1992 para 30% em 2008, se mantêm estável. Isso significa que o forte ritmo de crescimento das décadas passadas pode ter atingido ponto de esgotamento em função do agravamento da crise financeira mundial.

Reforça esse quadro a nova pesquisa de Gary Hufbauer e Euijin Jung, do Instituto Peterson para a Economia Internacional, que revela que desde 2008 mais de 3.500 medidas protecionistas foram introduzidas no mundo todo. Muitas dessas medidas não são tarifas, mas leis que obrigam os governos a comprarem bens locais ou impõe excesso de exigências com objetivo de dificultar o comércio.

Traçar todo esse panorama global é importante, pois no Brasil a situação é inversa. O impulso é fiscal enquanto o freio é monetário. Da mesma forma que a ortodoxia falhou em várias economias globais nos últimos anos, a heterodoxia falhou no Brasil. Parece claro que para atingir níveis desejados de eficiência econômica, as políticas fiscal e monetária precisam se deslocar na mesma direção.

Essa percepção tem ganhado força no mundo, mas, infelizmente, no Brasil, a ficha ainda não caiu para as lideranças políticas nem para os economistas e intelectuais, em função do ambiente altamente polarizado e de baixo nível.

É bem possível que os líderes globais encontrem formas de assumir, gradativamente, uma postura fiscal mais flexível via aumento dos investimentos, cedendo às pressões de entidades e autoridades monetárias. A janela de oportunidade para esses países está nos juros baixos praticados pelos bancos centrais.

Já no Brasil, essa janela de oportunidade não existe. Com Selic a 14,25% ao ano, o aumento do endividamento, mesmo que para financiar investimentos, é praticamente proibitivo. Entretanto, o recente recuo não desprezível da inflação poderá criar uma faísca de otimismo.

O Banco Central continua reafirmando que não trabalha com hipótese de redução da taxa Selic para transmitir seriedade no combate à inflação e tentar recuperar um pouco a confiança perdida aos agentes econômicos, estratégia que, se funcionar, pode acentuar o processo de desinflação.

O fato é que a autoridade monetária brasileira não vai esperar a inflação recuar ao centro da meta para realizar cortes na taxa Selic. Assim que o processo de desinflação atingir nível de otimismo no mercado desejado pelo Banco Central, a taxa Selic começará a recuar, mesmo que as projeções apontem para inflação ainda desancorada da meta.

Foi o que fez o Banco Central da Índia nesse mês ao surpreender o mercado com um corte de 0,25 p.p. na taxa básica de juros, deslocando-a para 6,5% ao ano (menor nível em mais de cinco anos), adotando uma linguagem no comunicado de que mais cortes poderão surgir pela frente. A inflação na Índia não está ancorada na meta, o objetivo é fazê-la recuar para 5% em 2017, mas a autoridade monetária enxerga mudança na trajetória em direção à meta e, por conta disso, resolveu adiantar o processo e começar a cortar os juros.

É possível que as próximas atas do Banco Central brasileiro cheguem ao mercado com tom cada vez mais dovish, guiando as expectativas para futuros cortes na taxa básica de juros.

Parte desse afrouxamento já está sendo esperado pelo mercado, com boa aceitação, não por conta do quadro macro doméstico, mas pelo clima de otimismo presente não só no Brasil, mas em várias praças financeiras globais, inflamado pelas políticas monetárias dos bancos centrais.

No curtíssimo prazo, entretanto, bolsa e juros futuros seguem trabalhando repiques, corrigindo parte da euforia constatada nos últimos meses.

O Ibovespa emitiu seu segundo candle de esgotamento, a princípio temporário, na faixa dos 51k. Mercado segue trabalhando fraco movimento corretivo de curtíssimo prazo, ainda sem ameaçar alteração do curso principal.


Já no câmbio o otimismo está mais forte. O dólar contra real voltou muito rápido para a venda, após o repique do início do mês de abril, renovando mínima do ano.