quarta-feira, 27 de julho de 2016

Cauteloso, FED não sinaliza momento de nova elevação da FFR


O Comitê de Política Monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) decidiu nesta quarta-feira manter a FFR (Federal Funds Rate – Taxa básica de juros) inalterada entre 0,25% a 0,50% ao ano, numa decisão amplamente esperada pelo mercado.

O comunicado divulgado após o encerramento da reunião de Comitê também não apresentou sinalização de quando uma nova alta de 0,25 p.p. na FFR ocorrerá. Embora a autoridade monetária norte-americana tenha considerado nesta reunião que os riscos de curto prazo à perspectiva econômica estão diminuindo, as expectativas de inflação continuam, no geral, pouco inalteradas em relação aos meses anteriores.

A mediana das projeções de inflação dos membros do FED divulgada no mês de junho aponta para uma alta de 1,4% em 2016. Para 2017 e 2018, as projeções de inflação estão em 1,9% e 2%, respectivamente. As estimativas para o núcleo de inflação em 2016 estão em 1,7%. Para 2017 e 2018, a mediana das perspectivas para o núcleo de inflação é de 1,9% e 2%, respectivamente.

Portanto, a ancoragem da inflação na meta a ser perseguida (2% ao ano), tanto no índice oficial, quanto no núcleo, ocorrerá somente entre 2017 e 2018, o que não justifica aumento imediato da FFR na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de setembro.

Passada a reunião de setembro, o próximo encontro ocorrerá em novembro, uma semana antes da eleição para presidente dos Estados Unidos. A disputa entre Donald Trump x Hillary Clinton tende a ser um processo traumático devido ao baixo nível dos candidatos e das bases que os sustentam. Num quadro de indefinição e risco político elevado, os membros do FED evitarão o máximo possível subir a FFR em novembro.

O clima no mês de dezembro (última reunião de Comitê em 2016) deverá estar mais favorável para uma nova alta de 0,25 p.p. na FFR, caso as projeções de inflação continuem apontando movimento ascendente, rumo à ancoragem na meta nos próximos 12 meses.

É sempre importante relembrar que o momento da próxima alta na FFR permanece irrelevante, assim como ocorreu na primeira vez, em dezembro do ano passado. O mais importante, na prática, é a comunicação do FED com o mercado (que por sinal tem sido perfeita nos últimos 2 anos) e o deslocamento das taxas de juros das Treasuries.

O rendimento dos títulos públicos norte-americanos permanece significativamente baixo, em mínimas históricas, não apresentando ameaça de fuga aos capitais alocados em mercados de risco mais alto, como os emergentes.

O rendimento da Treasury de 10 anos fechou nesta quarta-feira aos 1,52% ao ano, patamar extremamente baixo e muito longe da zona de perigo traçada na casa dos 3% (responsável por chacoalhar mercados de dívida soberana em todo o mundo e provocar fugas de capitais em 2013).


Com o FED cauteloso e mostrando poucas novidades relevantes, as atenções dos investidores/operadores recairão sobre as decisões de política monetária do BCE (Banco Central Europeu) e BoJ (Banco Central do Japão), justamente os banqueiros centrais que, atualmente, operam programas de estímulos monetárias mais agressivos no mundo.

As bolsas de valores permanecem trabalhando coladas em máximas históricas ou anuais, embora nos últimos dias sinais de esgotamentos em tendências de alta de curto prazo tem sido mais freqüentes.

Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou mais um pregão de lado, acumulando 10 dias de pregões irrelevantes, praticamente estagnado.


No Brasil, o índice Bovespa também segue trabalhando movimento lateral, mostrando excesso de dojis em ponto de sobrecompra, o que pode sinalizar esgotamento na força compradora de curtíssimo prazo. Apesar de a tendência principal permanecer altista, sem ameaça de interrupção, o mercado dá sinais favoráveis para abertura de operações vendidas nos próximos dias.
 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Ciclo de afrouxamento monetário ainda não está no radar


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) encerrou a reunião de dois dias nesta quarta-feira sem apresentar novidades em relação à direção de curto prazo da taxa básica de juros.

A taxa Selic permaneceu inalterada aos 14,25% ao ano, confirmando as expectativas do mercado. Num comunicado que faz lembrar o excelente padrão adotado por banqueiros centrais de economias de primeiro mundo, o Copom apresentou claramente os motivos que sustentaram sua decisão:

(i) a inflação acima do esperado no curto prazo, em boa medida decorrente de preços de alimentos, pode se mostrar persistente;

(ii) incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia permanecem;

(iii) um período prolongado com inflação alta e com expectativas acima da meta pode reforçar mecanismos inerciais e retardar o processo de desinflação;

(iv) os ajustes na economia podem ser implementados de forma mais célere, permitindo ganhos de confiança e reduzindo as expectativas de inflação;

(v) o nível de ociosidade na economia pode produzir desinflação mais rápida do que a refletida nas projeções do Copom.

Pode-se notar que os motivos (i), (ii) e (iii) são negativos para a inflação, justificando uma análise mais hawkish dos membros do Comitê. Já os motivos (iv) e (v) são positivos para a inflação, justificando uma análise mais dovish dos membros do Comitê.

Somente pela matemática (3 riscos desfavoráveis ao cenário básico para a inflação e 2 riscos favoráveis) a decisão de não só manter a taxa básica de juros inalterada, mas também de não preparar o mercado para futuros cortes no curto prazo, é justificada.

Além disso, o fator da imprevisibilidade está mais presente nos riscos negativos (i), (ii) e (iii) para que eles desapareçam ou sejam reduzidos no futuro, já os riscos positivos (iv) e (v) parecem demonstrar menor carga de imprevisibilidade, em função dos dados econômicos recentes.

Portanto, o Copom precisa esperar mais para que o peso da parte negativa do cenário básico para a inflação seja reduzido antes de iniciar o ciclo de afrouxamento monetário. A decisão foi acertada, o racional é perfeitamente justificável e as perspectivas estão mais transparentes. Mais um ponto para a nova gestão de Goldfajn no Banco Central.

Por fim, com todas as explicações claras e objetivas, não será mais necessário aguardar a divulgação da ata (que também sofreu alteração, de quinta-feira para terça-feira seguinte à reunião) para procurar pistas inseridas em longos parágrafos que justifiquem e indiquem a direção da política monetária.

No cenário externo, destaque para tentativa fracassada de golpe militar na Turquia. O episódio caiu no colo do presidente  Turquia, Tayyip Erdogan, que se fortalecerá politicamente e aproveitará para passar por cima do Parlamento na aprovação de leis. O estado de emergência foi decretado nesta quarta-feira.

Inevitavelmente os turcos, de maneira geral, serão prejudicados, não só por mostrarem ao mundo o renascimento de ideias atrasadas para países que carregam o status de emergente, mas também pelas futuras consequências a serem geradas pela concentração de poder nas mãos de Erdogan.

Esses dois fatores deverão reduzir a atratividade da Turquia no mercado global, que até então conseguia competir diretamente com mercados emergentes em ascensão na Ásia ou mesmo membros do BRICS.

A partir de agora, a Turquia é praticamente uma carta fora do baralho no curto prazo, fato que abre espaço para países como o Brasil (que competia diretamente com a Turquia) receberem mais recursos estrangeiros.

A bolsa de valores brasileira permanece comprada, trabalhando dentro de uma forte tendência de alta iniciada na região dos 37k, reforçada recentemente pela superação da resistência localizada na faixa dos 55k.


No gráfico semanal, pode-se notar a formação de um pivot de alta no mesmo ponto de rompimento de um importante e longo canal de baixa iniciado em 2010. Apesar de sobrecomprada no curto prazo, a bolsa de valores está reforçando os sinais de ciclo bullish.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Surpresa com BoE não abala o mercado


A reunião do Comitê de Política Monetária do BoE (Bank of England) terminou nesta quinta-feira sem apresentar nenhuma medida adicional em resposta ao Brexit, contrariando fortemente as expectativas do mercado.

A ampla maioria de analistas e economistas estava convencida de que a taxa básica de juros britânica seria reduzida de 0,50 p.p. para 0,25 p.p. na reunião de Comitê da autoridade monetária encerrada hoje. Entretanto, a taxa básica de juros permaneceu inalterada em 0,50 p.p.

A decisão sinaliza que os membros do BoE estão confortáveis com a reação do mercado frente ao resultado inesperado do referendo britânico, permitindo que a autoridade monetária possa esperar mais e, consequentemente, colher mais dados, antes de agir.

Em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, o BoE se comprometeu em adotar algum estímulo na reunião do mês seguinte, quando terá em mãos as projeções de inflação e dados mais consistentes do impacto de curto prazo na economia causado pelo Brexit.

Assim, a autoridade monetária britânica deixa praticamente contratada nova (s) medida (s) de estímulo (s) a ser (em) divulgada (s) no mês seguinte, fato que aliviou o mercado e permitiu manutenção do clima positivo nas principais praças financeiras mundiais. O único ponto de incerteza está relacionado à dosagem a ser utilizada na artilharia do BoE.

Variável importante ao BoE, ainda desconhecida, são os impactos causados pela forte desvalorização da libra. No gráfico abaixo podemos notar que, ao contrário dos demais ativos, a libra contra o dólar não se recuperou do tombo provocado pelo Brexit:


O mesmo quadro pode ser observado no deslocamento da libra contra o euro:
  

O impacto provocado pelo tombo da libra pode criar pressão inflacionária adicional, mas também facilitar a competição das empresas inglesas no mercado externo. A princípio, o ponto negativo (inflação) desta equação terá menor relevância, comparado ao ponto positivo (exportações), nas futuras decisões de política monetária do BoE, já que a média de preços permanece abaixo do centro da meta.

Além disso, declarações da nova primeira-ministra britânica, Theresa May, e do novo ministro das finanças, Philip Hammond, alinhadas em fazer o necessário para manter a economia nos trilhos, inclusive com uma abordagem menos agressiva para as finanças públicas (menor rigor fiscal), estão mantendo os investidores mais calmos.

No Brasil, destaque para a entrevista de Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, ao renomado jornal inglês Financial Times (apreciado por investidores do mundo inteiro). Goldjafn confirmou que o governo está elaborando uma proposta de emenda constitucional a ser enviada ao Congresso ainda esse ano para garantir a autonomia do Banco Central.

A emenda é extremamente positiva, pois reduzirá a percepção de interferências políticas nas ações da autoridade monetária, fato que aumentará a credibilidade no mercado e a própria eficácia da política monetária.

O presidente do Banco Central também disse que a trajetória de inflação é descendente e a conversão para a meta em 2017 está “completamente ao nosso alcance”. Com a inflação ancorada na meta (4,5%), Goldfajn defenderá uma meta menor para os anos seguintes.

Com relação ao câmbio, Goldfajn afirmou que um de seus objetivos é reduzir o estoque de swaps cambiais, atualmente em cerca de 60 bilhões de dólares, para zero. O novo presidente do Banco Central argumentou que o uso desse instrumento gera percepção de maior vulnerabilidade à depreciação cambial, além da sensação de que a autoridade monetária intervém muito no mercado.

Por fim, Goldfajn defendeu que o Brasil conte mais com as reservas internacionais (atualmente ao redor de 370 bilhões de dólares) para oferecer confiança aos mercados. É possível que o presidente do Banco Central tenha arrancado lágrimas de felicidade de alguns investidores estrangeiros interessados no Brasil. É uma nova abordagem, um novo Banco Central.

A bolsa de valores brasileira permanece comprada, já trabalhando teste sobre a principal linha de resistência (fragilizada) localizada na faixa dos 55k. A superação deste patamar reforçará a tendência principal de alta, iniciada no início deste ano, aos 37k.


sábado, 9 de julho de 2016

Corrida por títulos soberanos aumenta insanidade no mercado


A insanidade crescente, principal característica encontrada no processo de formação de bolha nos preços dos ativos, está presente no mercado de dívida soberana. O movimento é global, mas ocorre com mais intensidade em países desenvolvidos, consideradas praças mais seguras.

A corrida por títulos soberanos se acentuou de forma significativa nos últimos dias/semanas, impulsionadas pelo resultado do referendo britânico. O fato transmite uma falsa ideia de que os investidores estão preocupados (apenas) com os desdobramentos do Brexit. Na verdade, a preocupação atinge as principais economias desenvolvidas e emergentes do mundo, cada uma com seus problemas particulares difíceis de serem revolvidos, onde a maioria dos governos não consegue fazer mais do que prorrogar soluções para o futuro.

O baixo crescimento global, combinado com propagação de deflação, em meio ao maior processo de injeção monetária da história proporcionado por diversos banqueiros centrais, deixa os investidores receosos com futuro, vulneráveis a qualquer espirro no mercado. Existe algo de muito errado nessa equação que não fecha e, por conta disso, posições defensivas vão ocupando cada vez mais espaço nos portfólios.

As opções preferidas dos investidores e gestores de fundos são os títulos da dívida soberana. Alguns entram por falta de opções seguras disponíveis no mercado, outros entram para surfar a onda (posições de curto prazo abertas na direção da inclinação da curva).

Independente do motivo de cada investidor, o fato é que o forte movimento comprador em títulos da dívida soberana está jogando o valor dos papéis para máximas históricas de forma muito rápida, fazendo as taxas, consequentemente, caírem para as mínimas históricas, em patamares que se distorcem dos fundamentos, revelando insanidade no mercado.

Na Inglaterra, a taxa de juros do título soberano de 10 anos caiu para a mínima histórica de 0,74% ao ano, numa queda bastante agressiva (praticamente vertical), rumo a taxas ainda menores no futuro.


A taxa de juros do título soberano do governo alemão também continua despencando, fechando essa semana em -0,19% ao ano. Ou seja, os investidores que carregarem esses títulos até a data de vencimento (daqui a 10 anos) perderão 0,19% ao ano por emprestar dinheiro ao governo da Alemanha.


No Japão, a taxa de juros do título soberano de 10 anos continua avançando com rapidez ao território negativo, renovando novo recorde, aos -0,28% ao ano.


A Treasury de 10 anos (título soberano do governo norte-americano) também renovou mínima recorde nesta semana ao atingir 1,37% ao ano. O patamar é considerado uma aberração, já que a cerca de dois anos atrás a taxa oscilava na faixa de 2,8% a 3% ao ano.


O movimento comprador de treasuries americanas também é muito forte. Como se não bastasse, esse movimento está “descasado” com o deslocamento do mercado de ações. O índice S&P500 renovou a máxima do ano nesta semana, trabalhando formação técnica para romper a máxima história aos 2.134 pontos.


Ralis no mercado de títulos soberanos acompanhado pelo mercado de ações são incomuns e podem demonstrar outra grave distorção no sistema. Indica que o mercado financeiro está sugando demais o capital que deveria correr pelas vias da economia real. Os investidores querem “mais papéis e menos tijolos ou máquinas”. Não por acaso o crescimento da economia global permanece apático mesmo com os maciços programas de estímulos monetários.

Governos e bancos centrais tentam atuar a favor da economia real, mas suas ações estão, na verdade, defendendo a insanidade no mercado de capitais. Como ainda não surgiu outra solução aos problemas criados desde o estouro da crise do subprime, a bolha tende a permanecer inflada e crescente.

No Brasil, apesar da queda expressiva das taxas de juros dos títulos da dívida soberana nos últimos meses, o movimento comprador regional está muito longe de atingir níveis insanos, semelhantes aos praticados no mercado global.

No gráfico abaixo podemos observar que a curva das NTN-Fs (semelhante aos títulos de 10 anos de outros países) é compradora há poucos meses, ainda pagando 12% ao ano, apresentando, portanto, muita gordura para ser queimada, mesmo quando comparada aos pares emergentes.
  

O ciclo de bull market das taxas brasileiras durou até o fim do ano passado, quando máximas foram cravadas. A inclinação da curva logo mudou no início de 2016, mostrando força compradora relevante, fato que culminou, recentemente, na reversão do ciclo principal.

Pela primeira vez desde o último ciclo desastroso de afrouxamento monetário do Banco Central, responsável por levar a taxa Selic para mínima histórica de 7,25% ao ano em 2012, o mercado de juros futuros brasileiro entra oficialmente em ciclo de bear market.

A LTA formada pelo fundo de 2012 foi rompida de forma clássica, seguida de um pullback (com pequeno trap) e formação de novo pivot de baixa.

O ciclo de bear market para as taxas brasileiras opera apenas com o respaldo técnico. O casamento com os fundamentos ainda não ocorreu em função de a inflação permanecer distante do centro da meta (4,5%) e acima do teto da meta (6,5% até 2016 e 6% em 2017 e 2018).

Entretanto, indicadores de inflação recentes mostram importante manutenção do processo de desinflação, abrindo perspectivas de ancoragem da inflação na meta já no final do próximo ano. Melhor do que o IPCA de 0,35% do mês de junho é a perspectiva de inflação abaixo de 0,45% para os próximos meses, ritmo compatível com a meta.

Caso Ilan Goldfajn, atual presidente do Banco Central, consiga, enfim, cumprir o principal objetivo da autoridade monetária (as chances são boas), o Brasil terá mais condições para entrar de vez na festa global dos títulos da dívida soberana.

Ao padrão brasileiro, NTNF de 9%, ou NTNB de 5%, poderia representar uma festa, mas não em níveis insanos. Isso significa que existe um abismo às taxas brasileiras para seguir a insanidade do mercado global.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Brexit acende barril de pólvora na Itália


Enquanto as instituições internacionais insistem em atacar os britânicos por tomarem a difícil decisão de votarem pela saída da União Europeia, focos de tensão surgem sem muito alarde da mídia em algumas economias europeias.

Apesar da pouca ligação entre o referendo britânico e o sistema financeiro italiano, uma (nova) crise de confiança está sacudindo a terceira maior economia do bloco, ameaçando espelhar rapidamente a outros mercados da zona do euro.

As ações de bancos nas bolsas europeias já marcavam desempenho ruim no ano, por (velha) suspeita de que algumas instituições estão insolventes. Mas as vendas aceleraram de forma significativa desde o resultado do referendo britânico. O índice acionário do setor bancário da Itália caiu 30% desde 23 de junho (data do referendo), acumulando perdas de 57% no ano. O índice de ações do setor bancário da zona do euro caiu 22% desde o dia 23 de junho e 37% no acumulado do ano.

O motivo do pânico instaurado nas ações de bancos europeus está relacionado aos 360 bilhões de euros em créditos potencialmente podres na Itália. Esse número já era discutido pelo mercado antes do referendo, entretanto, faltava um catalisador para impulsionar o clima de pessimismo na Europa, que veio com o Brexit.

O Monte dei Paschi di Siena, terceiro maior banco da Itália, e o mais antigo do mundo, acumula maior parcela de créditos duvidosos. O BCE (Banco Central Europeu) exigiu que o banco reduza sua carteira de crédito podre em 40% no prazo de até 3 anos.

O Monte Paschi não tem condições de cumprir nem de perto a determinação do BCE e precisa ser recapitalizado no curto prazo para se manter solvente. Apesar do caráter de urgência, divergências dentro do bloco estão impedindo uma ação rápida de governos e instituições, fomentando o clima de tensão no mercado.

O governo italiano quer o sinal verde da União Europeia para poder ajudar suas instituições financeiras sem que sejam acionadas regras de resgate, que forçariam acionistas e detentores de bônus a repartir algumas das perdas. Alguns líderes europeus são contra a flexibilização das regras, mesmo em casos mais graves, como o atual.

A demora na falta de consenso dentro do bloco pode arrastar a Itália para recessão e causar uma nova crise no sistema financeiro. Para complicar, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi prometeu demitir-se caso saia derrotado de um referendo em outubro sobre a reforma constitucional. Pesquisas apontam que Renzi deve perder por grande margem.

A crise bancária na Itália precisa ser contida pelas lideranças europeias o mais rápido possível a fim de se evitar, também, um contágio sobre o mercado da dívida soberana. Apesar de algumas medidas de austeridade fiscal adotadas nos últimos anos, alguns integrantes da zona do euro (incluindo a Itália), permanecem operando com excesso de endividamento.

O índice FTSE da bolsa de Milão, na Itália, segue pressionado na venda, trabalhando colado na mínima do ano.


Na Alemanha, o índice DAX voltou a encostar na mínima do mês passado, mostrando manutenção da força vendedora.


Curiosamente, a bolsa de Londres, na Inglaterra, apesar de mostrar pequeno domínio de pressão vendedora nos últimos dias, opera comprada, colada na máxima do ano.


O mesmo quadro pode ser observado em outras praças fora da Europa. O impacto, portanto, está restrito aos mercados do bloco europeu, o que não significa que o contágio a nível global está descartado. Os investidores fora da Europa estão apenas mais confiantes numa atuação rápida das lideranças europeias.

domingo, 3 de julho de 2016

Encruzilhada no câmbio


O mês de junho foi marcado pelo tombo de mais de 11% do dólar contra real, registrando a maior desvalorização mensal em 13 anos. O movimento abrupto no câmbio, agora descendente, cria fatores positivos e negativos ao ambiente doméstico. Bom para acelerar o importante processo de desinflação, ruim para as exportações, única válvula de escape para muitas empresas brasileiras.


O fato de o Banco Central ter adotado um tom mais duro no último Relatório de Inflação publicado no dia 28 de junho demonstra que o fator negativo do deslocamento descendente do câmbio está pesando mais para a economia brasileira.

A projeção de inflação da autoridade monetária no cenário de referência (manutenção da taxa de câmbio em R$ 3,45 e meta para a taxa Selic em 14,25%) mostra significativo processo de desaceleração da inflação entre o final deste ano e início do ano que vem, justamente no momento em que a economia estará absorvendo os benefícios (sob o ponto de vista da inflação) do atual deslocamento da taxa de câmbio.


Conforme pode-se notar na tabela acima, extraído do Relatório de Inflação, a projeção central de inflação da autoridade monetária parte de 8,8% no segundo trimestre de 2016, recua para 8,2% no trimestre seguinte e encerra o ano em 6,9%. Em 2017, a projeção para o primeiro trimestre é de 5,9%, desloca-se para 5,2% e 5,0% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,7%. Em 2018, a projeção para o primeiro trimestre é de 4,4%, deslocando-se para 4,2% no segundo trimestre.

O documento, o primeiro sob a gestão do atual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, ressaltou o compromisso com a inflação no centro da meta em 2017 (4,5%) sem considerar hipótese de flexibilização das condições monetárias.

A mensagem quebrou as expectativas dovish do mercado em relação à nova gestão de Goldfajn. Mesmo com o refresco no câmbio, o Banco Central optou por não conduzir as expectativas do mercado para um futuro ciclo de afrouxamento monetário, talvez porque, neste momento, o dólar muito baixo incomodará mais do que uma taxa Selic muito alta.

Prova dessa suspeita está presente no último relatório de atividade industrial do Instituto Markit. O Índice Gerente de Compras registrou 43,2 pontos no mês de junho, frente aos 41,6 pontos registrados no mês de maio. Apesar de a pontuação indicar perda de força no processo de desaceleração da atividade manufatureira, ainda assim encontra-se num patamar de contração acentuada. A pesquisa mostrou que o volume de negócios para exportação caiu pela primeira vez desde novembro do ano passado e de modo significativo em mais de quatro anos e meio.

O único aspecto animador ao setor industrial nos últimos meses está agora ameaçado pelo deslocamento do câmbio. Com o ambiente doméstico cada vez mais deteriorado pela desastrosa política econômica do passado, o nível de câmbio propício para as indústrias brasileiras competirem no exterior continua aumentando.

O relatório do Instituto Markit sinaliza que a encruzilhada no câmbio está na faixa dos R$ 3,40. Ou seja, com o dólar abaixo desse patamar a indústria brasileira sente dificuldade para exportar seus produtos.

Importante ressaltar que esse patamar de câmbio poderia ser reduzido caso a inflação de custos fosse menor. Portanto, é perfeitamente justificável ao Banco Central manter a taxa Selic elevada por mais algum tempo, para não perder a janela de oportunidade de redução significativa da inflação nos próximos seis meses, e, assim, poder iniciar cortes relevantes e sustentáveis na taxa básica de juros com o apoio do câmbio já no início do ano que vem.

O mercado aprovou a comunicação do Banco Central no Relatório de Inflação, reascendendo o clima de otimismo no ambiente de negócios. Juros futuros voltaram para as mínimas do ano e a bolsa de valores voltou a subir.

O Ibovespa fechou a semana rompendo para cima uma pequena zona de congestão (entre 48,2k e 51,8k), armando condições técnicas para atacar com força a zona de congestão principal, cuja resistência está localizada na faixa dos 55k.


No cenário externo os preços dos ativos também reagem para cima, devolvendo as perdas registradas pelo Brexit. Entretanto, riscos de novos abalos continuam elevados por conta de notícias não tão boas vindas de dois grandes players globais: União Europeia e China.

Os bancos italianos enfrentam sérios riscos de não passarem nos testes de estresse, cujo os resultados vão sair em 29 de julho. As instituições estão sobrecarregadas de empréstimos ruins e o governo está em conversas com a Comissão Europeia para recapitalizar os bancos mais fracos, a fim de impedir propagação de uma crise de liquidez no sistema financeiro num momento delicado para a União Europeia.

Além disso, Espanha e Portugal correm risco de serem multados por não tomarem medidas suficientes para corrigirem seus respectivos déficits fiscais. Uma potencial sanção aparentemente inexpressiva pode virar uma tremenda dor de cabeça aos líderes europeus, pois a saída do Reino Unido deixou o debate mais caloroso dentro do bloco. O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, saiu abertamente em defesa de Portugal e Espanha na semana passada. Já o presidente do banco central alemão, Jens Weidmann, contra atacou pedindo que a União Europeia não relaxe suas regras fiscais.

Na China, voltaram a surgir sinais de desaceleração do crescimento, o que pode forçar o governo atuar novamente no mercado de câmbio ou adotar mais estímulos para tentar impulsionar a economia. O Índice Gerente de Compras do Instituto Markit recuou de 49,2 pontos em maio para 48,6 pontos em junho, registrando aumento no ritmo de contração da atividade industrial.