quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Deutsche Bank soa alarme na Europa


Os dez hedge funds que, segundo a Bloomberg, desmontaram rapidamente suas posições e sacaram parte do capital alocado no Deutsche Bank fizeram soar o alarme no sistema financeiro europeu.

O Deutsche Bank, segundo maior banco de investimento da Europa, precisa pagar 14 bilhões de dólares ao governo norte-americano para que o Departamento de Justiça encerre um litígio civil acerca da negociação de títulos lastreados em hipotecas e atividades de securitização entre os anos de 2005 e 2007. Essas operações fraudulentas do Deutsche, assim como de outros bancos norte-americanos e estrangeiros, foram responsáveis pelo impressionante estouro da crise do subprime em 2008, que quase arrebentou com o sistema financeiro global.

Assim como os demais bancos envolvidos neste caso dos créditos subprime, o Deutsche provisionava em seu balanço certa quantia para que o processo fosse encerrado no Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acontece que a multa de 14 bilhões veio muito acima do valor esperado pelos alemães, que possuem cerca de 6 bilhões de dólares provisionados em seu balanço.

Inicialmente, os 14 bilhões não causaram muito alarde no mercado, pois a multa é negociável e os governos, normalmente, jogam o máximo para cima (neste caso, os 14 bilhões de dólares equivalem ao valor de mercado do Deutsche Bank), para, posteriormente, terem uma boa margem para ceder desconto e fechar acordo.

Acontece que o receio no mercado aumentou depois que o jornal alemão Die Zeit afirmou que o governo da Alemanha tinha um plano já estruturado para resgatar o Deutsche Bank. Num primeiro momento, o Deutsche Bank seria forçado a vender ativos no mercado, que receberiam garantias do Estado. Caso fosse necessário, num segundo momento, o governo alemão iria comprar 25% do Deutsche Bank e colocá-lo em rota de fusão com o outro gigante financeiro alemão, o Commerzbank (onde o governo já detém 15% de participação).

Se o governo da Alemanha tem um plano de resgate para o Deutsche Bank, certamente o buraco é muito mais em baixo do que uma multa altamente negociável de 14 bilhões de dólares ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Desde a crise da dívida soberana na periferia da zona do euro, especula-se no mercado que alguns bancos do sistema financeiro europeu estão insolventes.

Ainda neste ano, os impactos do Brexit sobre a União Europeia criaram pânico no mercado interbancário europeu, com rumores relacionados aos supostos acúmulos de créditos duvidosos nos balanços dos bancos italianos, sendo o Monte dei Paschi di Siena (o terceiro maior banco do País), o mais afetado. O temor foi abafado pelas autoridades europeias, apesar de as dúvidas ainda permanecerem.

Se existe suspeita em relação à solvência de alguns bancos na Europa, o Deutsche Bank certamente é o olho desse furacão invisível. Cabe ressaltar que no final do mês de junho deste ano, o FMI (Fundo Monetário Internacional) emitiu um relatório apontando que o Deutsche Bank é a instituição financeira que apresenta maior risco à estabilidade financeira mundial.

A notícia do Die Zeit foi rapidamente negada pelo ministro de Finanças alemão. Outras autoridades políticas no País também reforçaram o coro, rechaçando qualquer possibilidade de resgate. O problema é que, logo em seguida, o Commerzbank veio ao mercado anunciar suspensão do pagamento de dividendos e demissão de nada menos do que 9.600 empregados, levantando suspeita de que o banco já está se preparando para a fusão com Deutsche Bank.

O plano do governo alemão, portanto, parece realmente existir, apesar das negativas por parte das autoridades políticas. Como se não bastasse, existe outro problema ainda mais grave: o plano, para funcionar, não poderia ter vazado pela mídia.

Com as novas leis da União Europeia, defendidas rigorosamente pela Alemanha, ficou mais difícil para os governos salvarem os bancos. A segunda parte do plano de resgate do governo alemão (compra de 25% do Deutsche Bank), implicará, justamente, no acionamento de uma resolução que poderá prejudicar detentores de bônus e depositantes do Deutsche Bank.

Com a resolução acionada, detentores de bônus do Deutsche Bank, no valor de 100 mil euros ou mais por titular, e clientes do Deutsche Bank, com saldo superior a 100 mil euros ou mais por titular, correm o risco de serem forçados a participarem do programa de resgate, podendo perder dinheiro com parte de seus recursos sendo utilizado para recapitalizar o banco.

Ainda que os correntistas alemães possam contar com o Fundo de Garantia de Depósitos (semelhante ao FGC brasileiro), não está descartado o risco de uma corrida de saques ao primeiro sinal de possível intervenção do governo alemão no banco, o que acionaria a resolução.

Por este motivo, os dez hedge funds que desmontaram posições no Deutsche Bank fizeram soar o alarme no mercado, pois transmitiram sinais de que estão desconfiados com o banco alemão ou mesmo identificaram riscos de serem acionados pela resolução da União Europeia. Até então, ninguém contava com essa possibilidade.

As autoridades alemãs e europeias estão preocupadas e devem agir nos próximos dias na tentativa de acalmar os ânimos, pois os movimentos destes hedge funds podem influenciar uma corrida de saques entre correntistas do Deutsche Bank e, consequentemente, contaminar rapidamente o sistema financeiro europeu.

O mercado acionário alemão tombou nesta quinta-feira, mas ainda assim não houve tempo suficiente para repercutir a notícia vinculada pela Bloomberg, deixando terreno aberto para novas quedas nos próximos dias.


Com aumento da tensão no mercado, o dólar voltou a subir contra uma cesta de principais moedas globais, mantendo-se dentro de uma tendência de alta de curto prazo. Para os europeus, o dólar é uma das poucas opções de fuga segura.


Os principais índices de Wall Street repercutiram a notícia da Bloomberg, ainda de forma tímida, até porque os investidores norte-americanos estão aguardando a reação do mercado europeu nos próximos dias. O índice S&P500 voltou a fechar abaixo da linha central de bollinger.


No Brasil, o índice Bovespa seguiu o tom de Nova York. Notícia perigosa, mas impacto relativamente tímido. O Ibovespa testou e respeitou a linha de resistência localizada na faixa dos 59,5k, fechando ligeiramente abaixo da linha central de bollinger, o que leva a nova perspectiva de teste sobre a primeira linha de suporte da zona de congestão localizada na região dos 57,5k.
  


Destaque para o relatório do FMI sobre o cenário econômico brasileiro. A instituição afirmou que o País pode voltar a crescer em 2017, desde que o Congresso aprove as medidas propostas pelo governo com rapidez. O FMI também recomendou que a política monetária se mantenha apertada até que as expectativas de inflação (do mercado) se convirjam mais claramente para o centro da meta.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Banco Central vence mais uma batalha, mas ainda não conquistou o mercado


O Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta terça-feira mostrou que o Banco Central venceu mais uma importante batalha na guerra de perspectivas para a inflação brasileira. Apesar de os números terem melhorado, o GAP de projeções entre o cenário de referência e o cenário de mercado ainda pode ser considerado elevado, o que releva necessidade de manutenção do rigor na estratégia de política monetária do Banco Central.

As projeções do cenário de referência (feitas pela autoridade monetária) apontam para uma inflação de 7,3% em 2016 (0,4 p.p. acima do valor considerado no Relatório de Inflação de junho de 2016). Em 2017, projeção de inflação do Banco Central recua para 6,2% no primeiro trimestre, desloca-se para 5,2% e 4,5% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, e encerra o ano em 4,4%. Em 2018, a projeção para o primeiro trimestre é de 4,2%, deslocando-se para 4,0% no segundo e terceiro trimestres, e encerrando o ano em 3,8%.

Comparando com o Relatório de Inflação anterior, a projeção de inflação subiu do terceiro trimestre de 2016 ao primeiro trimestre de 2017. As novas projeções passam a recuar apenas a partir do terceiro trimestre de 2017.

Neste cenário, a autoridade monetária supõe manutenção da taxa Selic em 14,25% ao ano e taxa de câmbio em R$ 3,30 durante todo o horizonte de previsão. Além disso, o Banco Central considera a evolução da política fiscal, isso significa que a conta do cenário de referência envolve o encaminhamento das importantes reformas propostas pelo atual governo.

Já as projeções do cenário de mercado (apuradas pela pesquisa Focus) mostram inflação de 6,2% no primeiro trimestre de 2017, deslocando-se para 5,4% e 4,9% no segundo e terceiro trimestres, respectivamente, encerrando o ano em 4,9%. Em 2018, a projeção de inflação encontra-se em 4,9% no primeiro trimestre, recua para 4,7% no segundo e terceiro trimestres, encerrando o ano em 4,6%.

Também comparando com o Relatório de Inflação anterior, a dinâmica da trajetória ficou semelhante à observada no cenário de referência até o primeiro trimestre de 2017. A partir do segundo trimestre de 2017, a projeção no cenário de mercado apresenta uma maior queda em relação aos valores apresentados no Relatório de Inflação de junho de 2016, muito em função de uma expectativa de menor ritmo de queda da taxa Selic no curto prazo.

Neste cenário, as expectativas para a evolução da taxa de câmbio média recuaram para 2016 (de R$3,58 para R$3,28), 2017 (de R$3,80 para R$3,45) e 2018 (de R$ 3,90 para R$ 3,58), em comparação aos valores divulgados no Relatório de Inflação anterior. No que se refere à evolução da taxa Selic, as expectativas para o quarto trimestre de 2016 saltaram de 13,44% a.a. para 14,08% a.a. e, para o final de 2017, deslocaram-se de 11,25% a.a. para 11,00% a.a. Para o final de 2018, as expectativas mantiveram-se em 10,50% a.a.

A comparação entre as expectativas de inflação do Banco Central (cenário de referência) com as expectativas de inflação do mercado (pesquisa Focus) ainda mostram GAP relativamente expressivo em 2017. O Banco Central quer entregar inflação na meta (4,5%) já em 2017, mas o mercado só enxerga essa ancoragem no fim de 2018, mostrando que a política monetária, apesar de agradar os agentes, precisa conquistar mais confiança do mercado para garantir a conclusão de seus objetivos.

No Relatório de Inflação, a autoridade monetária mostrou satisfação com a transição da queda nos preços de alimentos no atacado para o varejo, o que derruba a primeira incerteza levantada na ata da última reunião de Comitê: “(i) que a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação fosse limitada”.

Entretanto, o Banco Central afirma que ainda há sinais inconclusivos quanto à velocidade de desinflação em direção à meta, o que mantém o ponto de interrogação sobre a segunda barreira que inviabiliza o início do processo de afrouxamento monetário: “(ii) que os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica indicassem desinflação em velocidade adequada”.

Em relação à terceira (e talvez mais importante) barreira: “(iii) que ocorresse redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal e seus respectivos impactos sobre a inflação”, o Banco Central considera que há sinais positivos em relação ao encaminhamento e apreciação das reformas fiscais. Entretanto, o processo de tramitação ainda está no início e as incertezas quanto à aprovação e implementação dos ajustes necessários permanecem.

Portanto, entre as três principais incertezas da autoridade monetária para o balanço de riscos, duas ainda permanecem abertas, necessitando de sinais positivos para que os membros do Comitê se sintam mais confiantes em cortar a taxa básica de juros.

O Banco Central avaliará a evolução da combinação desses fatores, ou seja, nenhum dos três itens, por si só, serão determinantes para as futuras decisões de política monetária. Entretanto, o fato de existir incerteza em dois itens (incluindo o de supostamente maior peso – fiscal), transmite sinal de que é necessário esperar um pouco mais de tempo ante de se iniciar o ciclo de afrouxamento monetário.

Parte relevante de analistas, por sua vez, enxergam sinais de início do ciclo de aperto monetário na próxima reunião de Comitê a ser realizada no mês de outubro. Essa expectativa foi criada em função da projeção de inflação de 4,4% no fim de 2017 e 3,8% em 2018, ambas no cenário de referência, fato que deveria abrir espaço técnico para corte na taxa Selic.

Porém, neste momento, a projeção de maior relevância ao Banco Central é o cenário de mercado (pesquisa Focus), que ainda mostra inflação de 4,9% no fim de 2017 e 4,6% em 2018. A autoridade monetária segue travando seguidas batalhas contra as expectativas do mercado e precisa que esses números melhorem (ou seja, apontem para ancoragem da inflação na meta) para declarar vitória na guerra da retomada da confiança.

O pessimismo embutido nas projeções de mercado ainda é reflexo dos inúmeros erros cometidos no passado. Ao demonstrar rigor no combate à inflação, o Banco Central tem conseguido reduzir esse pessimismo do mercado, presente nas expectativas de inflação em trajetória descendente. A retomada da confiança, portanto, é um processo importante, mas que ainda está em curso. Cortes precipitados na taxa básica de juros podem colocar em risco parte da confiança recuperada nestes últimos meses.

A ansiedade do mercado para o Banco Central iniciar logo o ciclo de afrouxamento monetário pode ser explicada pela suposta combinação de pressões do próprio governo, de grupos empresariais e, principalmente, de gestores de fundos/tesoureiros brasileiros que entraram relativamente atrasados nos títulos pré-fixados, depois de fundos hedge estrangeiros terem abocanhado as taxas mais elevadas do passado recente.

O contrato de juro futuro com vencimento em 2018 mostra que a pressão está funcionando, ao romper para baixo uma longa congestão. A expectativa de corte na taxa Selic já no mês de outubro é cada vez mais forte.


A bolsa brasileira trabalhou novo ponto de apoio, na região dos 57,5k. O mercado, portanto, entra numa congestão de curto prazo, pressionado por duas zonas de resistência (60,3k e 59,5k) e duas zonas de suporte (56,5k e 57,5k).


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão desta terça-feira em alta de 0,64%, refletindo o desempenho positivo da candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton (queridinha de Wall Street), no primeiro debate presidencial. Hillary se mostrou mais preparada e não só se comunicou melhor, como conseguiu jogar seu adversário do Partido Republicano, Donald Trump, em posições defensivas diversas vezes.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Dupla surpresa


A quarta-feira mais importante do mês de setembro encerrou apresentando duas grandes novidades dos principais banqueiros centrais mundiais.

O Comitê de Política Monetária do BoJ (Bank of Japan - autoridade monetária japonesa) anunciou uma mudança abrupta no seu foco de atuação no mercado, reformulando significativamente sua estrutura de política monetária.

A principal taxa de juros foi mantida em -0,1%. O BoJ também continuará a comprar títulos do governo num ritmo em que o balanço de sua carteira aumente em 80 trilhões de ienes por ano (cerca de 781 bilhões de dólares).

Entretanto, a meta para a base monetária está oficialmente abandonada, o que significa que o volume de compras poderá se reduzir no futuro. Além disso, a autoridade monetária japonesa decidiu adotar uma meta para a taxa de juros futura (novidade).

A partir de agora, o BoJ vai ajustar sua estratégia de compras no mercado. O principal objetivo é forçar o deslocamento das taxas de juros dos títulos públicos de longo prazo para zero ou um pouco acima disso, impedindo, portanto, manutenção dos juros futuros em campo negativo por tempo prolongado.

Portanto, o BoJ vai controlar não só os juros de curto prazo, mas também (agora) os de longo prazo, exercendo intervenção no mercado sem precedentes na história. Os japoneses acreditam que ao perseguirem dupla meta para os juros, reduzirão com mais eficiência os custos de empréstimo, ao mesmo tempo em que permitirão alta nos rendimentos mais longos (esse, com objetivo claro de ajudar o balanço dos bancos e permitir que as seguradoras possam dar aos pensionistas melhores retornos de investimento).

A reformulação da política monetária é uma reação do BoJ frente ao tombo da taxa de juros do título soberano japonês de 10 anos para -0,28% durante o mês de julho. Pouco depois deste grande escorregão, Haruhiko Kuroda (presidente do Banco Central) alertou que a política monetária seria revisada na reunião de Comitê do mês de setembro. Dito e feito.


Nos Estados Unidos, o FED (Federal Reserve - autoridade monetária local) também decidiu manter a meta para sua taxa básica de juros inalterada entre 0,25% e 0,50%, mas revisou drasticamente suas projeções de longo prazo.

Ao contrário das últimas revisões negativas para a meta da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros), os membros do Comitê, desta vez, cortaram bem mais do que o de costume.

A mediana das projeções para a FFR em 2016 caiu de 0,9% para 0,6% em 2016. Para 2017, a projeção despencou de 1,6% para 1,1%. Em 2018, a estimativa derreteu de 2,4% para 1,9%. A primeira projeção divulgada para 2019 aponta FFR em apenas 2,6%. Para o longo prazo (além de 2019), a FFR tende atingir pico em 2,9%.


A redução drástica pode ser explicada pela expectativa de manutenção da inflação no centro da meta (2%) no horizonte relevante para a política monetária. Os membros do FED esperam que a inflação termine esse ano em 1,3%. Em 2017, a mediana de estimativas aponta inflação em 1,9%. Entretanto, a partir de 2018, a inflação para de subir e tende a se manter em 2% em todo o horizonte de projeções. O mesmo quadro ocorre nas estimativas para o núcleo de inflação.

Sem enxergar sinais de ruptura ascendente do centro da meta de inflação, nem no longo prazo, os membros do FED estão cada vez mais dovish para o futuro da FFR, o que significa elevado tom gradualista no processo de normalização da política monetária, com um aumento de 0,25 p.p. esperado para este ano e apenas dois aumentos de 0,25 p.p. para o ano que vem.

O rendimento da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) caiu nesta quarta-feira para 1,66%, atingindo ponto decisivo para retomada de mercado bullish.


O índice S&P500 também apresentou retomada consistente do volume comprador neste pregão, voltando a testar a linha central de bollinger, confirmando suporte de curto prazo na região dos 2,1k.


No Brasil, o índice Bovespa também reagiu para cima, trabalhando teste na linha central de bollinger, distanciando-se do principal suporte de curto prazo localizado na faixa dos 56,5k.
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

BoE aponta para novo corte na taxa básica de juros


Diferentemente da sinalização traçada pelos seus pares na Europa (BCE – Banco Central Europeu) e no Japão (BoJ – autoridade monetária local), o BoE (Bank of England – Banco Central britânico) se mostrou mais dovish na reunião de Comitê deste mês de setembro, encerrada hoje.

O Banco Central do Reino Unido vai continuar mantendo seu agressivo programa de compra de títulos públicos (no total de 435 bilhões de libras), além de manter seu novo plano de compra de 10 bilhões de libras em títulos corporativos.

A taxa básica de juros foi mantida na mínima história de 0,25% ao ano. Entretanto, em comunicado divulgado após a reunião de Comitê, o BoE afirmou ser provável que ocorra um novo corte na taxa básica de juros (para algo pouco acima de zero) ainda neste ano.

Mesmo considerando o impacto inicial do Brexit sobre a economia britânica como menos grave do que se esperava, os nove membros do BoE decidiram criar expectativa no mercado para mais afrouxamento monetário, mostrando uma postura mais agressiva do que se esperava da autoridade monetária britânica, fato que, definitivamente, não desagrada os investidores/operadores.

O BoE pode ter se incomodado com a forte desvalorização das Gilts (títulos do Tesouro Britânico) no curto prazo. O rendimento do título de 10 anos saiu de uma mínima de 0,52% ao ano no mês passado para 0,91% ao ano nesta semana. O aceno para novo corte na taxa básica de juros colabora para suavizar o movimento vendedor nas Gilts, ou mesmo forçar uma reversão na trajetória de curto prazo.


A bolsa de Londres reagiu favorável à decisão do BoE, subindo de forma expressiva, interrompendo a sequência de quedas nesta quinta-feira.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 também subiu forte nesta quinta-feira, mostrando reequilíbrio de forças no curtíssimo prazo.


No Brasil, o índice Bovespa subiu no pregão desta quinta-feira, acompanhando o movimento global. Mercado definiu ponto de apoio de curtíssimo prazo na faixa dos 56,5k. A manutenção dos preços acima dessa região nos próximos dias retira força da tendência de baixa de curto prazo iniciada na faixa dos 60,3k.
 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Mercado teme ascensão de Trump na corrida eleitoral


A menos de dois meses da eleição presidencial americana, a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, queridinha de Wall Street, passa mal num evento recebendo diagnóstico de pneumonia.

O mercado foi pego de surpresa, pois estava confortável com a vantagem que Hillary tinha nas pesquisas sobre o seu oponente do Partido Republicano, Donald Trump. Pior, os questionamentos relacionados à saúde de Hillary, até então abafados pela sua estratégia de campanha, vieram à tona, fato que pode reduzir a vantagem de Hillary e deixar a disputa muito acirrada até o último dia de campanha.

Diagnosticada com pneumonia, Hillary terá que repousar mais e trabalhar menos no curto prazo, justamente num momento onde a campanha pede mais gás dos candidatos, com os debates esquentando.

Donald Trump está aproveitando a oportunidade para aparecer mais e atacar sua adversária. No mês passado o candidato do Partido Republicano já havia afirmado que sua adversária não tem força física e mental para lutar contra o Estado Islâmico e outros adversários. O diagnóstico de Hillary, divulgado somente dois dias depois de feito pela médica, acabou reforçando a tese de Trump. Vale ressaltar que a segurança está entre os principais pontos avaliados pelos eleitores norte-americanos.

Em Wall Street, casas de investimentos já começam a fazer conta sobre até que ponto Trump pode subir nas pesquisas ou mesmo passar na frente de Hillary. É bem possível que os primeiros resultados dessas especulações na corrida eleitoral tenham impactado o mercado nesta terça-feira.

Trump tem feito repetidos ataques à política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) e, como se não bastasse, suas políticas protecionistas, de corte de impostos e deportação de imigrantes desagradam enormemente o mercado.

A Oxford Economics, empresa britânica independente de pesquisa econômica, divulgou um estudo nesta terça-feira afirmando que a economia dos Estados Unidos pode ficar 1 trilhão de dólares menor do que seria de se esperar para 2021 caso Trump seja o vencedor na eleição de novembro.

O risco Trump não se restringe aos Estados Unidos. O mundo segue muito dependente do desempenho da economia norte-americana e qualquer choque adverso tem capacidade de provocar uma crise a nível global.

O noticiário local atribuiu o movimento de queda vertiginosa dos preços ao deslocamento do barril de petróleo. De fato, o barril do tipo light fechou em forte queda nesta terça-feira, influenciado pelo relatório da AIE (Agência Internacional de Energia), apontando demanda fraca no terceiro trimestre de 2016.


Entretanto, conforme se pode constatar no gráfico acima, mesmo com a queda desta terça-feira, o preço do barril de petróleo está acima das mínimas atingidas neste mês de setembro e, ainda, muito distante dos 39,19 dólares registrados no mês passado.

O temor do mercado, neste momento, não é com o petróleo, mas sim com o aumento dos riscos políticos (Estados Unidos) e financeiros (políticas monetárias dos banqueiros centrais de países desenvolvidos). O deslocamento do preço do petróleo, assim como dos demais ativos no mercado, é apenas uma conseqüência desta mudança de ambiente, mais tenso e imprevisível.

O índice S&P500 permanece vendido no curto prazo, próximo de uma fraca região de suporte (antigo ponto de pivot), apresentando volatilidade elevada.


O índice Bovespa mergulha de ponta cabeça, já se aproximando da importante LTA dos 37k. Assim como nas demais praças mundiais, o mercado brasileiro experimenta forte aumento da volatilidade, com investidores desmontando posições em ativos de risco, incluindo moedas e títulos da dívida pública.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Bonds sofrem Ippon e contaminam mercado


Ippon, termo utilizado nas artes marciais japonesas para caracterizar um golpe perfeito ou inesperado, é a melhor forma de traduzir os importantes acontecimentos dos últimos dias no mercado financeiro mundial.

O ambiente positivo começou a se reverter no Japão ainda no início do mês passado quando o BoJ (Bank Of Japan – autoridade monetária japonesa) resolveu manter sua base monetária em 80 trilhões de ienes (cerca de 775 bilhões de dólares), sem aumentar o ritmo de compras de ativos.

Pouco tempo depois, na conferência anual de Bancos Centrais do mundo inteiro em Jackson Hole, a chair do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos), Janet Yellen, afirmou que a hipótese de aumento da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) tem ganhado força nos últimos meses devido à melhora no mercado de trabalho e às boas expectativas de crescimento econômico e da inflação.

Yellen deixou claro em seu discurso que a autoridade monetária norte-americana está com o dedo no gatilho para subir novamente a meta para a taxa básica de juros no curto prazo. Isso significa que se o aumento de 0,25 p.p. não vier na reunião de Comitê dos dias 20 e 21 de setembro, virá no encontro de outubro (pouco antes da eleição presidencial nos Estados Unidos) ou na reunião de dezembro deste ano.

Entretanto, o mercado criou uma falsa expectativa (adiamento do aumento da FFR para o próximo ano) com o último relatório de emprego divulgado sexta-feira passada, já que a criação de vagas (151 mil) veio abaixo do esperado (180 mil). Os economistas/analistas consideraram o número ruim, mas o fato é que o ritmo de 151 mil novos postos atende a necessidade do FED. Em Jackson Hole, Yellen frisou que os dados de emprego precisam apenas continuar confirmando a boa perspectiva e não, necessariamente, atingir níveis extraordinários para que a FFR possa ser elevada novamente.

Já nesta semana, o Comitê de Política Monetária do BCE (Banco Central Europeu) resolveu manter o calendário de seu programa de estímulos, sem apresentar novidade em matéria de política monetária. Os investidores esperavam que o programa de compra de ativos do BCE poderia ir além do previsto, mas o presidente da instituição, Mario Draghi, jogou um balde de água fria no mercado ao afirmar que uma prorrogação não foi discutida na reunião.

Mesmo com todos esses sinais hawkish (ou menos dovish) dos banqueiros centrais em suas respectivas políticas monetárias, os investidores, mal acostumados com a onda de estímulos, se relutavam em acreditar na mudança de tom.

O choque veio nesta sexta-feira com o discurso de Eric Rosengren, presidente da regional do FED de Boston, que apesar de ter sido feito no mesmo tom de Yellen em Jackson Hole, quebrou as falsas expectativas criadas pelos economistas/analistas com o relatório de emprego.

Tanto Eric Rosengren, quanto Janet Yellen, são conhecidos no mercado por terem inclinação dovish. O fato de membros votantes do Comitê, de viés dovish, sinalizarem para uma futura alta da FFR, por si só, é um forte indicativo de que o FED está realmente perto de subir a taxa básica de juros.

Lael Brainard, integrante do conselho do FED, com direito a voto e, também, com viés reconhecidamente dovish, vai discursar no Conselho de Temas Globais na próxima segunda-feira, no que será a última janela de oportunidade para pronunciamento de um membro do alto escalão antes do período de silencio que antecede a reunião de política monetária. Possivelmente Brainard vai tentar acalmar os ânimos no mercado, mas manterá o mesmo tom do discurso de Yellen em Jackson Hole.

O epicentro do clima de aversão ao risco começou nos mercados de bonds e se espalhou rapidamente pelos demais ativos financeiros. O rendimento da Treasury de 10 anos (título público do Tesouro norte-americano) disparou para 1,67% ao ano, máxima dos últimos dois meses e meio, mostrando forte movimento vendedor.


As Gilts (títulos do Tesouro Britânico), que haviam surfado a onda de otimismo criada pelos estímulos do BoE (Bank of England – autoridade monetária britânica), sofreram forte reversão nos últimos dias, voltando a pagar um rendimento de 0,86% no título com prazo de 10 anos.


O baque também atingiu os títulos públicos do governo alemão, marcando outro movimento histórico. Após ceder para -0,189% ao ano, o rendimento do título de 10 anos voltou aos 0,01%, pegando muitos gestores de fundos hedge de surpresa. O retorno do rendimento ao campo positivo teve forte apelo psicológico, soando o alarme no mercado.


O rendimento do título público de 10 anos do Japão está muito perto de retornar ao campo positivo, após registrar mínima em -0,287%. Mercado fortemente vendedor.


O ETF do JP Morgan para o índice EMB (Bonds de mercados emergentes) fechou em forte baixa pelo segundo dia consecutivo, mostrando desvalorização expressiva na cota (o que representa intenso movimento vendedor em títulos públicos de mercados emergentes).


O sell-off em bonds de emergentes é o mais forte desde que esses mercados surfaram uma forte onda compradora, iniciada em janeiro deste ano. A sinalização de topo no EMB, a princípio temporário, confirmou a divergência dos indicadores nos últimos dois meses, se tornando numa forte ameaça à linha de sustentação de preços.

As bolsas de valores do mundo inteiro foram rapidamente contaminadas pelo pânico no mercado de bonds, alimentando o clima de aversão ao risco. Nos Estados Unidos, o índice S&P500 confirmou expectativa de um desfecho traumático ao sair de uma congestão de curto prazo detonando para baixo, mostrando correria para fechamento de posições compradas de curto prazo.


No Brasil, o índice Bovespa trabalhou formação de topo, a princípio temporário, na região psicológica dos 60k. Mercado virou fortemente para venda, caracterizado pela formação de um marubozu de baixa apoiado pela sinalização de divergência emitida pelos indicadores técnicos. As regiões de suporte de curto prazo são fracas, o que poderá facilitar teste na LTA dos 37k.


domingo, 4 de setembro de 2016

Panorama macro global


Os Bancos Centrais continuam sobrecarregados desde o dramático estouro da crise do subprime em 2008. Enquanto os governos insistirem em relutar a dividir o trabalho pesado com as autoridades monetárias, os problemas econômicos diversos continuarão se acumulando, contribuindo para manutenção de um ambiente global instável e perigoso.

São mais de 9 trilhões de dólares em títulos da dívida soberana com rendimento negativo. A enxurrada de liquidez no mercado da dívida pública (patrocinada pelas políticas monetárias de banqueiros centrais de economias desenvolvidas) já está se transbordando para o mercado de dívida corporativa. Somente na Europa, são mais de 500 bilhões de dólares em títulos de empresas com grau de investimento e rendimento abaixo de zero.

Bom seria se esse fosse o único grande problema a ser enfrentado pelas autoridades europeias no futuro. A zona do euro continua se arrastando num quadro desolador de crescimento apático, baixa inflação, desemprego elevado e déficits fiscais ainda excessivos. Os agressivos programas de estímulos do BCE (Banco Central Europeu) continuam não dando resposta adequada à economia, apenas sustentam o status quo no mercado.

O sistema financeiro na Europa também continua uma incógnita. Alguns bancos, inclusive de porte expressivo, permanecem em situação delicada, atolados em crédito podre. Numa situação de normalidade, o sistema financeiro europeu já teria sido atingido por outra severa crise de confiança. O BCE aprendeu muito com a crise de 2011 e, portanto, tem conseguido evitar episódios de estresse.

A manutenção do status quo no mercado é importante para que se possa transmitir a falsa idéia de que a situação macro local é confortável. O BCE é o principal protagonista dos mais 13 anos de bull market do mercado acionário alemão. Os 3 fundos ascendentes (2009, 2011 e 2014) foram marcados por anúncios de fortes pacotes de estímulos monetários.


O impacto no mercado da dívida soberana alemã também é brutal. O excesso de liquidez no sistema, juntamente com os agressivos programas de compras de títulos e, mais recentemente, a adoção de juros negativos aos bancos que depositarem dinheiro nos cofres do BCE, derrubaram as taxas de juros futuros para níveis nunca atingidos na história. O rendimento do título público de 10 anos do governo alemão permanece em território negativo, neste momento aos -0,04% ao ano.
  
   
Vale ressaltar que parte relevante deste fluxo comprador tem objetivo de especular na curva de juros futuros e não carregar os títulos até o vencimento. Muitos gestores de fundos hedge estão buscando aproveitar o direcional do fluxo. Caso as taxas continuem cedendo, os títulos soberanos vão se valorizar ainda mais, abrindo ganho de posição na liquidação antecipada.

Na Inglaterra, o BoE (Bank of England - autoridade monetária britânica) não atingiu o mesmo nível de agressividade do BCE no mercado, mas segue intensificando seus programas de estímulos.

Prova da força da autoridade monetária no mercado está no deslocamento da taxa de juros do título soberano de 10 anos do governo britânico. A atuação do BoE em resposta ao Brexit (evento de alto potencial de impacto econômico) acelerou o movimento comprador na dívida soberana local, jogando o rendimento dos títulos para mínimos históricos. Investidores comprados em dívida soberana britânica no pré-Brexit administram ganhos ao redor de 50% no valor da posição no pós-Brexit, o inverso do que os analistas esperavam.


Insatisfeitos também não estão os novos holders de Londres. O principal índice do mercado acionário inglês dobrou sua pontuação desde que o BoE começou atuar para responder ao subprime. Mais recentemente, o índice é impulsionado pelo rali do Brexit. Por sinal, com duas grandes oportunidades abertas na década passada, Londres continua entre as melhores praças globais para holders se posicionarem no pós-crash com baixo risco de mercado.


Nova York é a cereja do bolo. Numa praça onde o investidor tem o respaldo do Banco Central mais poderoso do mundo e da impressora da principal moeda de troca global, o mercado acionário continuará sendo objeto de desejo pelos gestores do mundo inteiro.

Mesmo com a interrupção dos programas de quantitative easing e reversão na trajetória da FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana), o mercado acionário é de touro bufante.


É de interesse do FED (Federal Reserve - Banco Central dos Estados Unidos) que o status quo no mercado seja mantido até que se resolva o que fazer com os mais de 4 trilhões de dólares em ativos acumulados no balanço da autoridade monetária resultante das compras dos programas de Quantitative Easing e Operação Twist (principalmente Treasuries - títulos do Tesouro americano - e hipotecas).

Um forte revés no mercado de juros futuros norte-americano poderia, portanto, alimentar especulações de quebra no balanço do FED. Investidores que compram Treasuries estão no mesmo barco do Banco Central, apostando na eficácia da política monetária.

É por este motivo que o deslocamento da taxa de juros da Treasury de 10 anos, em 2013, para cerca de 3% ao ano, por um “simples” comentário de Bernanke (então presidente da autoridade monetária), gerou grande tremor no mercado financeiro global.


O episódio de 2013 forçou o FED a ser mais cauteloso em sua comunicação com o mercado, adotando uma estratégia de antecipar movimentos futuros com bastante antecedência e gradualismo, conseguindo, assim, evitar ocorrência de novos choques.

Portanto, o FED quer que as taxas de juros futuros permaneçam em níveis baixos, para deixar seu balanço no azul, e com volatilidade reduzida, para manter os mercados estáveis. 3% ao ano na Treasury de 10 anos continua sendo ponto de estresse, mas com o aprendizado do passado, a autoridade monetária norte-americana deve agir rapidamente a qualquer sinal adverso no mercado ou muito antes de as taxas futuras se aproximarem deste patamar.

A chair do FED, Janet Yellen, mostrou na conferência em Jackson Hole que o Banco Central tem bala suficiente para fazer o que for preciso, esboçando alternativas que vão muito além da política monetária convencional.

Tratando exclusivamente sobre a FFR, o último relatório de emprego divulgado na sexta-feira passada alimentou falsas expectativas no mercado de que o FED poderia adiar o aumento de 0,25 p.p., para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano. A criação de vagas no mês passado somou 151 mil, número que veio abaixo do esperado (180 mil).

Apesar do resultado considerado decepcionante pelo mercado (influenciado pela forte criação de vagas no mês de junho e julho), o indicador não foi capaz de alterar as expectativas do FED. A criação de vagas teria que cair abaixo de 100 mil para ascender o sinal vermelho. John Williams, presidente regional do FED de São Francisco, declarou recentemente que são necessárias 80 mil novas vagas mensais para atender o aumento do número de americanos dispostos a trabalhar.

Também em Jackson Hole, Yellen afirmou que os dados de emprego precisam apenas continuar confirmando a boa perspectiva. Isso significa que, ao FED, basta que os dados continuem sólidos (e não necessariamente em níveis extraordinários, como os observados em junho e julho) para que a FFR possa ser elevada novamente.

Ultimamente, o mercado tem emitido sinais de que está testando até onde os Bancos Centrais são capazes de chegar. Ainda existe ceticismo com relação à capacidade de respostas às novas crises ou deslizes. Ao contrário do que os chefes de autoridades monetárias dizem, muitos acreditam que os banqueiros centrais já estão se aproximando do limite.

É possível que os Bancos Centrais tenham a oportunidade de mostrar suas novas ferramentas até o final desta década. Além das complicações na zona do euro, a Ásia está mais perigosa. A desaceleração do crescimento na China veio no pior momento para o mercado de crédito local. A economia opera com elevada capacidade ociosa e inflação baixa, fato que combinado com o excesso de endividamento de baixa qualidade contribui para alimentar o temor entre os investidores.

Neste ano, o governo chinês se viu forçado a queimar parte de sua gigantesca reserva para conter um surto de fuga de capitais. A atuação foi bem sucedida, mas não elimina riscos de novos choques.

O aumento da volatilidade na bolsa de Xangai reflete a tensão no mercado local. Nos últimos dois anos a bolsa de valores chinesa passou por um momento de extrema euforia seguido por um crash que relembrou o terror de 2008.


Xangai não contaminou o mundo por conta da rápida atuação conjunta dos banqueiros centrais (incluindo o Banco do Povo da China, que aumentou a força de suas intervenções e políticas de estímulos).

Já o mercado indiano continua funcionando como o grande alarme da Ásia. Se os problemas da China afetarem significativamente as negociações no mercado financeiro indiano, será um sinal de “toque de recolher”, pois a crise estará se espalhando pelo sistema global.

Apesar do susto em 2015, a bolsa de Bombay continua bullish, bem acima da máxima do pré-subprime e próxima do novo topo histórico formado em 2014.


Tóquio começa incomodar o BoJ (Bank of Japan - autoridade monetária japonesa). Apesar de dobrar as compras de ETFs no início do mês passado, o BoJ resolveu manter sua base monetária em 80 trilhões de ienes (cerca de 775 bilhões de dólares), assim como o ritmo de compras de ativos, incluindo títulos do governo japonês, a fim de rever os impactos da taxa de juros negativa e dos programas de estímulos.

Os investidores se decepcionaram, pois esperavam adoção de medidas mais audaciosas, como aumento no ritmo de compras de títulos públicos. A taxa de juros do título do Tesouro japonês de 10 anos está muito perto de retomar o patamar de juros positivo, após atingir -0,28% ao ano, mostrando intensa força vendedora nas últimas semanas.


Nikkei também pisou forte no freio pela primeira vez desde o incrível rali iniciado em 2012, fazendo movimento de reteste na LTB da máxima registrada em 1996.


O mercado japonês está visivelmente pressionando o BoJ, já que a reunião de Comitê deste mês de setembro trará o resultado de revisão da política monetária. Os investidores querem que o BoJ continue muito agressivo em suas políticas de estímulos. As vendas das últimas semanas são um sinal do que poderá ocorrer caso o BoJ alivie suas intervenções no mercado. Provavelmente a autoridade monetária japonesa vai ceder à pressão.

O México também enfrenta seus problemas, o principal deles é o mais delicado e difícil de contornar: o das expectativas frustradas. Uma onda de otimismo atingiu o País em 2012, fato que jogou o mercado acionário de volta à máxima de 2007.


Entretanto, problemas comuns, típicos de mercados emergentes desorganizados, voltaram a pipocar em 2013, abrindo um novo ciclo bearish no México. O tombo do petróleo ajudou empurrar a bolsa para baixo, mas o fator determinante para o atual ciclo foram as frustrações com o quadro macro local.

O México é um bom lembrete ao Brasil, onde atualmente vive um clima de expectativas positivas ainda não correspondidas pelos indicadores econômicos domésticos. Existe uma linha de corte entre as expectativas e dados concretos. Isso significa que em determinado momento os investidores irão exigir que os indicadores justifiquem suas posições de risco no mercado.

Essa linha ainda não foi atingida no Brasil, o que abre espaço para manutenção do clima positivo. Ainda assim, estima-se que esses sinais devem ser enviados ao mercado ainda este ano, mais especificamente o governo precisa avançar em algumas reformas estruturantes.

O quadro técnico no Ibovespa permanece bullish. Mercado continua mostrando força compradora relevante, acumulando superações de resistências importantes num curto espaço de tempo. Os preços já começam a se distanciar do principal símbolo do ciclo bearish (canal de baixa iniciado em 2010, rompido no mês de julho de 2016).


Depois de apanhar muito nos últimos anos (destaque ao crash de 2013), o ouro mostra recuperação, em reação, ainda tímida, ao aperto na taxa básica de juros norte-americana. O deslocamento do ouro versus FFR é clássico no mercado.


O ouro foi a primeira commodity importante no mundo a entrar em colapso fruto das políticas monetárias ultra frouxas. Logo no início de 2016, as perspectivas de longo prazo se reverteram, com a sinalização de nascimento de um novo ciclo bull.

O tombo do petróleo foi postergado o máximo possível pelos principais produtores da commodity. Apesar de o crash ter começado em 2014, a violência não foi menor. Pelo contrário, o mercado corrigiu preços de forma dramática, o que também permitiu atingir ponto de esgotamento mais rapidamente (26,05 dólares no barril do light).


A Rússia, um dos principais produtores de petróleo do mundo, trabalha com cenário base de 40 dólares por barril no seu orçamento de 2017 a 2019.

De forma geral, o mercado de commodities se recupera de um intenso sell-off que dominou o segmento nos últimos quatro anos. O Bloomberg Commodity Index esboça fundo registrado no início deste ano, mas com uma recuperação ainda tímida.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Aumenta incômodo com estagnação econômica global


A nova rodada de medições da atividade manufatureira das principais economias globais voltou a decepcionar os investidores. O levantamento feito pelo Instituto Markit continua mostrando dados fracos na Ásia, Europa e América, sem qualquer sinalização de retomada.

A grande preocupação continua sendo a China. O Índice Gerente de Compras do gigante asiático recuou de 50,6 pontos no mês de julho para 50,0 pontos no mês de agosto, indicando nova desaceleração sobre uma tentativa de retomada de fôlego da atividade manufatureira.

Na zona do euro, o Índice Gerente de Compras do Instituto Markit recuou de 52,0 pontos em julho para 51,7 pontos em agosto, mostrando perda no ritmo de expansão da atividade industrial. A pesquisa também revelou que as empresas estão oferecendo ainda mais descontos para vender seus bens, fato que contribui para manter a inflação muito abaixo da meta de 2% ao ano. Esse quadro desfavorável também adiciona pressão sobre o BCE (Banco Central Europeu), já que sua política monetária, muito agressiva, continua não surtindo efeito desejado.

Outra economia que continua enfrentando problemas, mesmo com violenta atuação por parte da autoridade monetária local, é a japonesa. O Índice Gerente de Compras subiu de 49,3 pontos no mês de julho para 49,5 pontos no mês de agosto, mas ainda se acomodando em território de contração da atividade industrial.

A atividade manufatureira norte-americana também derrapou no mês de agosto. Após registrar 52,9 pontos em julho, o índice recuou para 52,0 este mês, mostrando desaceleração inesperada no ritmo de expansão.

Acompanhando a tendência global, a atividade manufatureira brasileira também escorregou no mês de agosto. A diferença é que escorregamos de um ponto incrivelmente baixo, o que continua sendo fator preocupante. Depois de registrar 46,0 pontos no mês de julho, mostrando perda no ritmo de contração comparado ao mês de junho, o índice voltou a travar no mês de agosto, recuando para 45,7 pontos.


A pesquisa do Instituto Markit mostra que a pressão negativa sobre o setor industrial brasileiro continua muito forte, marcando o décimo nono mês seguido de contração relevante. Nos últimos meses, o setor vem sentindo os efeitos da valorização do real. O volume de novos pedidos provenientes do exterior voltou a cair no mês de agosto, num ritmo mais forte do que em julho.

Com a decepção generalizada nesta rodada de medições, a economia global permanece patinando, sem perspectiva de melhora. O gráfico do JP Morgan Global Manufacturing PMI abaixo demonstra claramente o estado de paralisia da economia. Índice praticamente estagnado na faixa neutra (50 pontos) nos últimos dois anos.


A diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Christine Lagarde, afirmou que reduzirá novamente a previsão de crescimento global para 2016, em função da demanda fraca, queda no comércio global, redução dos investimentos e aumento da desigualdade social.

Lagarde vai aproveitar o encontro do G20 para focar na defesa da globalização e cobrar dos líderes mais ações nessa direção. O que tem ocorrido nos últimos meses/anos é justamente o oposto, um ressurgimento de políticas protecionistas.

Sem poder contar com o respaldo dos fundamentos macro, o bom ânimo dos investidores/operadores, responsável por levantar preços dos ativos nas principais praças financeiras mundiais, está sob ameaça de interrupção.

Os mercados ainda não sinalizaram reversão na tendência principal, mas o grau de vulnerabilidade à eventos adversos está alto. Ou seja, apesar de o fluxo ser dominante comprador, o risco está mais alto para abertura de novas posições na ponta comprada.

Nos Estados Unidos, o índice S&P500 permanece congestionado numa estreita faixa de preços. Bandas de bollinger muito apertadas normalmente significam perigo. Acúmulo de negócios feitos em determinada região de preço, por tempo prolongado, costuma ter um desfecho traumático quando o mercado define um direcional. Inicia-se uma correria.


No Brasil, o mercado também segue congestionado, apesar de não tão curto quanto o norte-americano. Ainda assim, os ativos brasileiros tendem a ser contaminados quando as pancadas começarem nos Estados Unidos, definindo o direcional do mercado.
  

Destaque para o recuo não desprezível das taxas de juros futuros no pregão desta quinta-feira, refletindo expectativas precipitadas de corte da taxa Selic no mês de outubro. Conforme destacado na análise anterior, as condicionantes traçadas pelo Copom para flexibilização da política monetária são difíceis de alcançar no curto prazo.