quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Banco Central apresenta chuva de interrogações para intensificar os cortes


O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu nesta quarta-feira cortar novamente a taxa básica de juros em 0,25 p.p., para 13,75% ao ano. A decisão não surpreendeu o mercado, mas o comunicado emitido após a reunião de Comitê decepcionou.

O Banco Central fez uma série de alterações na nota à imprensa divulgada na tarde desta quarta-feira comparada com a última nota emitida após a reunião de outubro (marcada pelo início do ciclo de afrouxamento monetário), mas não clareou o cenário para a próxima reunião de Comitê a ser realizada nos dias 10 e 11 de janeiro do próximo ano.

As duas principais alterações se referem ao possível fim do período de interregno benigno para economias emergentes e retomada da atividade econômica doméstica mais demorada e gradual que a antecipada previamente.

O fim do interregno benigno para os mercados emergentes ocorreu com a vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, fato que provocou rali do dólar e do rendimento das treasuries (títulos do Tesouro norte-americano). Já a decepção com o nível da atividade doméstica foi reforçada hoje com a divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre, apontando retração de 0,8% sobre o trimestre anterior, marcando o sétimo trimestre seguido de contração.

Além disso, o Banco Central considera que o processo de desinflação está mais difundido e que os passos para aprovação das reformas fiscais tem sido positivos, dois pontos de peso dovish no comunicado e que poderiam sinalizar espaço para intensificação dos cortes na taxa Selic de 0,25 p.p. para 0,50 p.p.

Entretanto, a parte do texto em que a autoridade monetária destaca os fatores que permitirão intensificar o ritmo de flexibilização monetária foi totalmente alterada, acrescentando mais dúvidas e uma série de possibilidades que podem resultar em conclusões subjetivas.

No comunicado do mês de outubro, o Comitê considerava que (i) os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica retomem claramente uma trajetória de desinflação em velocidade adequada e (ii) que o ritmo de aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia contribuam para uma dinâmica inflacionária compatível com a convergência da inflação para a meta.

A evolução desses dois fatores era crucial para que os membros do Comitê pudessem enxergar espaço para intensificar os cortes na taxa Selic. Nenhum deles apresentou alterações positivas desde o Copom de outubro e dificilmente esse quadro irá mudar até a próxima reunião de janeiro.

Caso essas condições tivessem sido mantidas no fim do comunicado emitido nesta quarta-feira, a orientação estaria mais ancorada para um novo corte de 0,25 p.p. na próxima reunião de Comitê.

Mas as condicionantes foram retiradas e, agora, o Banco Central afirma que a intensificação do ritmo de afrouxamento monetário dependerá das projeções e expectativas de inflação, da evolução de uma série de fatores de risco (interregno benigno, pausa no processo de desinflação de alguns componente do IPCA, ritmo de aprovação e implementação dos ajustes, atividade econômica mais fraca e inflação favorável no curto prazo) e de um ambiente externo adequado (para permitir aceleração no processo de desinflação).

Com tantas interrogações, a única solução será aguardar novas declarações da diretoria do Comitê nas próximas semanas a fim de buscar informações mais concretas. O próximo Relatório de Inflação, a ser divulgado no fim de dezembro, também deve ser mais objetivo e clarear o cenário para o Copom de janeiro.

Inicialmente, considerando o peso de cada um dos fatores de risco levantados pela autoridade monetária, ainda não parece haver espaço para intensificação do ritmo de corte de 0,25 p.p. para 0,50 p.p. Outro detalhe importante é que a decisão Copom de janeiro ocorrerá apenas nove dias antes da posse de Donald Trump nos Estados Unidos, onde o clima de incerteza no mercado, relacionado à nova gestão e ao primeiro pronunciamento como presidente, tende a manter a tensão elevada, não abrindo espaço, portanto, para um escorregão na estratégia de política monetária.

No mercado de capitais, o índice Bovespa subiu 1,51% no pregão desta quarta-feira, recuperando parte das perdas sofridas no pregão anterior, mas sem apresentar novidade.


As commodities continuam sendo o principal driver do momento para o mercado local. Embora as matérias-primas continuem despencando na China, a forte disparada do preço do barril de petróleo dominou as atenções do dia, influenciando os negócios na Bovespa.

Os países da Opep concordaram na reunião desta quarta-feira em cortar a produção em 1,2 milhão de barris por dia a partir de janeiro do ano que vem, contrariando os boatos circulados ontem nas mesas de operações. Tanto no barril do tipo Light, quanto no barril do tipo Brent, as posições vendidas na commodity foram dizimadas pela mercado de forma traumática, resultando numa forte elevação dos preços.


Congresso está pronto para a reforma da previdência


Mesmo com a turbulência política exacerbada nos últimos dias, o governo Michel Temer mostrou força novamente ao conseguir obter mais uma vitória arrasadora no Congresso. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que limita o crescimento dos gastos públicos por 20 anos foi aprovada por 61 votos a favor e apenas 14 contra.

Para obter vitória em primeiro turno no Senado, o governo precisava que ao menos 49 dos 81 senadores votassem a favor da PEC. O resultado ficou praticamente dentro da margem elástica que a equipe de Michel Temer projetava para a votação no Senado. Com os números a favor, o governo terá tranqüilidade para vencer as votações dos destaques e concluir os trâmites no segundo turno da Casa, projetado para ocorrer entre os dias 12 e 13 de dezembro.

Na Câmara dos Deputados, a PEC foi aprovada no primeiro turno por 366 votos a favor e 111 contra. No segundo turno, 359 deputados votaram a favor e 116 contra. O governo precisava que ao menos 308 deputados votassem a favor da proposta para obter vitória na Casa.

A larga margem de vantagem numa proposta altamente impopular demonstra que a base do governo Michel Temer, tanto na Câmara, quanto no Senado, é a mais forte já presenciada no Congresso em vários anos. Michel Temer está provando ser o líder que o País tanto precisava: um articulador nato capaz de fazer o Congresso trabalhar.

Esbanjando gordura de sobra no Congresso, o governo tende aproveitar o bom momento para apresentar logo a sua proposta de reforma da previdência e iniciar os trabalhos de discussão e articulação com os parlamentares já no início do próximo ano. A reforma da previdência é essencial não só para o quadro fiscal, mas para a própria eficácia do limite de crescimento dos gastos públicos.

O currículo de vitórias do governo abre boa perspectiva para que a reforma da previdência seja aprovada no primeiro trimestre do ano que vem. O calendário é propício para que a votação seja agilizada, pois nesta época do ano o brasileiro normalmente está focado nas suas férias e/ou no carnaval, o que pode reduzir o potencial de número de manifestantes, além de reportagens sensacionalistas na mídia.

No mercado de capitais, o índice Bovespa despencou no pregão desta terça-feira, influenciado pela correria para fechamento de posições compradas de investidores chineses no minério de ferro. A commodity derreteu 4,37% no porto de Qingdao, emitindo um alerta de possível fim de festa no mercado, após uma forte onda compradora constatada nas últimas semanas.

O barril de petróleo também despencou nesta terça-feira devido às especulações sobre o resultado da importante reunião da Opep a ser realizada amanhã. Os países tentam alcançar um acordo para reduzir o ritmo de produção da commodity a fim de influenciar os preços no mercado. Boatos de que o Irã não estaria disposto a aceitar os cortes de produção se espalharam pelas casas de investimentos mundo afora, provocando queda acentuada do preço do barril de petróleo.

É sempre importante ressaltar que essas informações “não oficiais” são perigosas e costumam surgir para favorecer abertura de posições de determinado grupo. Com a queda desta terça-feira, o barril de petróleo do tipo light voltou a se aproximar da média móvel simples de 200 períodos diária, consagrado ponto de compra dos últimos meses.


A referida média é o principal ponto de apoio, justamente onde players de petróleo costumam abrir compras. O histórico dos últimos meses também mostra que sempre quando a commodity visitou a faixa dos 43 aos 41 dólares/barril conseguiu reverter a trajetória descendente rapidamente, voltando a subir, revelando um excelente ponto de entrada.

Com o tombo do minério e do petróleo, o Ibovespa trabalhou formação de topo descendente na região dos 62.9k, exatamente no ponto onde passa a LTB dos 65.3k. Por mais que o marubozu de baixa desta terça-feira configure surgimento de força vendedora relevante, a virada do mercado (de compra para venda no curtíssimo prazo) ainda precisa de confirmação com manutenção da dominância vendedora nos próximos dias, ameaçando romper o patamar de sustentação localizado na região dos 58,3k.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou o pregão em leve alta, repercutindo a revisão do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre deste ano de 2,8% para 3,2%, no ritmo mais forte desde o terceiro trimestre de 2014. O aumento no ritmo de recuperação da economia norte-americana é mais um respaldo para o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) subir a Fed Funds (taxa básica de juros) em 0,25 p.p. no próximo mês.
  

Ao contrário do se comentou hoje, o resultado positivo do PIB não é suficiente para indicar possibilidade de nível de taxa juros mais elevado do que o projetado pelo FED no futuro. Apesar da aceleração no ritmo de crescimento, a inflação continua mostrando-se muito comportada, sem ameaça de rompimento ascendente da meta, mesmo no horizonte relevante para a política monetária. Com a inflação sob controle, a Fed Funds permanecerá abaixo do patamar considerado neutro por mais um longo período.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Mercado não engoliu tempestade em copo d’agua


Uma nova crise política exacerbada pela mídia nacional abalou a imagem do governo Michel Temer neste último final de semana. A temperatura subiu forçadamente no ambiente político quando o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, deixou o cargo sob acusação de usar a estrutura do governo para defender interesses privados.

Geddel é acusado pelo ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, de fazer pressão sobre uma obra de um prédio em Salvador do interesse de Geddel. O empreendimento está suspenso pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e Temer teria arbitrado o conflito entre os dois ex-ministros.

O caso foi escandalizado nos últimos dias, atingindo proporções incompatíveis à sua relevância, levando até mesmo um partido da oposição a protocolar na Câmara dos Deputados um pedido de impeachment contra o presidente Michel Temer.

O pequeno imbróglio se transformou numa tremenda e desnecessária confusão. As atenções, até então concentradas nas necessárias reformas estruturais, foram, infelizmente, desviadas para uma crise política, o que pode atrasar ou mesmo atrapalhar o ritmo das discussões e articulações do governo para avançar nas reformas.

Apreciar tamanho escândalo por conta de um empreendimento imobiliário em Salvador causa espanto aos investidores que investem ou tem interesse de investir no Brasil. Existe uma série de problemas mais sérios que merecem discussão no País, uma agenda importante, que definirá o nosso futuro, está curso e o que se vê são chuvas de reportagens de intrigas políticas, mesmo em mídias especializadas no mercado financeiro.

O ponto positivo é que o governo não perdeu seu foco no meio de todo esse estardalhaço. De acordo com o senador Romero Jucá, a PEC do teto dos gastos será votada no Senado nesta terça-feira, onde deverá ser aprovada em primeiro turno por uma margem confortável de 62 a 65 votos. Já a reforma da Previdência (considerada fundamental) parece estar engatilhada e pronta para ser enviada ao Congresso.

O mercado também não engoliu a tempestade em copo d’água. A resposta foi uma disparada de 2,11% do índice Bovespa nesta segunda-feira, com superação da linha central de bollinger e teste sobre a LTB dos 65,3k com boa possibilidade de rompimento ascendente, que conta com impulso de um pivot de alta de curtíssimo prazo e formação de um novo marubozu de alta.


O movimento na Bovespa foi respaldado pela recuperação das commodities e dos preços de ativos de praças emergentes mundo afora. O índice de commodity CRB Jefferies Reuters fechou mais um pregão em alta, superando levemente a máxima da semana anterior.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Referendo na Itália pode ser o golpe de misericórdia sobre o euro


No próximo dia 4 de dezembro será realizado um referendo sobre a importante e complicada reforma constitucional proposta pelo atual primeiro ministro italiano Matteo Renzi. A reforma constitucional é considerada a mais importante do País desde a Segunda Guerra Mundial. Se for aprovada pela população, ocorrerão mudanças profundas no sistema político da Itália.

O principal ponto da reforma está na eliminação do bicameralismo partidário com dissolução do Senado. Caso a maioria dos italianos vote “sim” no referendo do dia 4, o poder será concentrado na Câmara dos Deputados que continuará exercendo o papel de aprovar leis e votar a confiança ao governo.

Já o Senado não terá mais poder para empossar nem derrubar governos, será profundamente transformado em algo de difícil entendimento. Os atuais 315 senadores serão substituídos por 74 conselheiros regionais (cargo semelhante ao do deputado estadual no Brasil), 21 prefeitos representando cada região do País e mais 5 membros nomeados pelo presidente da República. Nenhum dos parlamentares do Senado receberá salário. Um prefeito escolhido para o Senado, por exemplo, receberá apenas o honorário competente ao seu cargo no município.

O objetivo do referendo é justamente concentrar o poder na Câmara dos Deputados para agilizar as reformas e trazer estabilidade política ao País. Pelo atual sistema, as duas Casas do Parlamento tem poderes equivalentes, principal razão, segundo analistas políticos italianos, pela grande demora na aprovação de leis, já que há necessidade de aval das duas Casas exatamente nos mesmos termos, estendendo o processo por anos. Além disso, a Itália teve 63 governos desde a Segunda Guerra Mundial, sendo que nenhum deles teve poder suficiente para terminar o mandato de 5 anos.

As pesquisas de intenção de voto mostram empate técnico entre o “sim” e o “não” à reforma constitucional, mas parte não desprezível da população ainda se considera indecisa e sem condições de entender com clareza as propostas de mudança, fato que aumenta o risco para uma vitória do "não" no dia 4 de dezembro.

Uma crise de potencial devastador poderia se desencadear na zona do euro com a vitória do “não” no referendo italiano, já que o primeiro ministro Matteo Renzi se comprometeu a renunciar caso a reforma não fosse aprovada no referendo. Mesmo se o ministro voltar atrás em sua decisão, não haverá condições políticas para se permanecer no poder.

Com a renuncia de Renzi, um dos três principais partidos de oposição na Itália terá chance considerável de alcançar o poder. Todos esses três partidos (Movimento Cinco Estrelas, Força Itália e Liga do Norte) são anti-establishment e favoráveis à saída da Itália da zona do euro.

O Movimento Cinco Estrelas, criado pelo comediante Beppe Grillo, é o grande destaque na Itália. O partido está em forte crescimento, conseguindo captar o sentimento nacionalista (tendência global) e já ocupa prefeituras importantes, como em Turim e Roma.

Por este motivo, portanto, a vitória do “não” deixará a Itália com um pé fora da zona do euro. Ainda perdidos pelo baque do Brexit, líderes europeus terão muita dificuldade para proteger o euro contra uma ruptura na Itália, já que uma crise no mercado interbancário seria desencadeada, colocando em risco a solvência de alguns bancos europeus, principalmente aqueles com elevada exposição em títulos italianos.

Nesta quinta-feira, o BCE (Banco Central Europeu) emitiu um relatório alertando para novos riscos à estabilidade financeira na zona do euro. O documento apresenta um tom negativo incomum e revela que o referendo italiano pode provocar fluxos repentinos de capital e acrescentar volatilidade ao mercado, agravando as dificuldades para um bloco já debilitado pelo fraco crescimento.

Diferentemente das projeções exageradamente negativas traçadas por instituições, economistas e analistas no Reino Unido (Brexit) e Estados Unidos (Trump), desta vez o risco é real. A Itália é o quarto maior PIB (Produto Interno Bruto) da Europa, seus títulos estão espalhados pelo continente e seus bancos locais estão com excesso de ativos podres.

Mesmo que o Movimento Cinco Estrelas consiga assumir o poder após uma suposta vitória do “não” no referendo italiano e, posteriormente, mude de idéia em relação à zona do euro (decida ficar) com uma força-tarefa persuasiva das lideranças europeias, ainda assim os riscos tendem a permanecer no próximo ano. Uma reversão política na Itália tende a influenciar as eleições que se aproximam na França e Alemanha, com partidos populistas e anti-Europa ganhando força cada vez maior.

Os mercados europeus não estão incorporando os riscos do referendo italiano e a transmissão de seus efeitos para outros países do bloco. Muito pelo contrário, o clima é positivo, com os principais índices acionários próximos das máximas do ano.

Na Alemanha, o índice DAX trabalha dentro de uma congestão de curto prazo, apoiado pela média móvel simples de 200 períodos diária, sem demonstrar retorno da dominância de pressão vendedora ocorrida em meados de 2015.


Quadro semelhante ocorre na praça francesa, com o índice CAC colado na máxima do ano.


Na Inglaterra, o índice FTSE também trabalha em congestão de curto prazo, mas com distância considerável sobre a média móvel simples de 200 períodos diária, com desempenho melhor em 2016 comparado aos pares alemão e francês.


Na Itália, o índice MIB está em congestão de curto prazo, entretanto operando abaixo da média móvel simples de 200 períodos diária e semanal, com perdas significativas acumuladas desde 2015. A perda do patamar de suporte localizado na região dos 15k poderá sinalizar maturação técnica de um ciclo de bear market, formado pelo topo duplo em julho do ano passado.


No Brasil, o índice Bovespa fechou o pregão desta quinta-feira em leve baixa, marcando o terceiro toque sobre a linha central de bollinger sem concretizar rompimento, o que pode atrair retorno de operações vendidas, dificultando a recuperação de preços iniciada aos 58,3k.
 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Euforia de Wall Street desembarca no mercado de commodities


A onda positiva que empurra os principais índices acionários de Wall Street para novas máximas recordes desembarcou de vez no mercado de commodities. Surpreendendo as previsões dos analistas e economistas, os investidores continuam comprando ativos de risco, confiantes na nova administração Trump.

Com o índice Dow Jones puxado no curto prazo, superando a incrível marca dos 19.000 pontos nesta terça-feira, conforme pode ser constatado no gráfico abaixo, os investidores estão analisando outras opções interessantes de compra disponíveis na prateleira do mercado financeiro.


As commodities entraram no foco do mercado em função do preço, das condições técnicas favoráveis e do raciocínio predominante nas mesas de operações com as propostas de investimentos em infraestrutura nos Estados Unidos impulsionando os preços das matérias-primas.

O índice de commodity CRB Jefferies Reuters voltou a mostrar sinal de força compradora relevante nos últimos dias após o teste sobre a média móvel simples de 200 períodos diária, que acabou demonstrando novamente fraqueza da força vendedora para tirar os compradores de commodites do mercado.


A referida média é o principal ponto de sustentação das commodities e divisor de água para definição de tendência. Com o mercado voltando a demonstrar força compradora nas commodities, os investidores enxergaram espaço para aproveitar o movimento ascendente, com expectativa de alcançar as máximas registradas em 2016.

O índice Bloomberg de commodity confirma a forte retomada do movimento comprador no mercado, em condições técnicas idênticas às apresentadas no índice CRB Jefferies Reuters, respaldando a reversão do viés a nível global.


Os investidores chineses também estão contribuindo para retomada do fôlego no mercado de commodities. Apesar de os gestores das bolsas de Xangai, Dailan e Zhengzhou terem agido para combater a enxurrada de compras das últimas semanas (característico de formação de bolha), especialmente no mercado de minério de ferro e aço, os preços voltaram a subir forte nesta terça-feira.

Com a puxada das commodities, o índice Bovespa encontrou força para voltar subir com consistência, já realizando teste sobre a linha central de bollinger. Além disso, o suporte formado na região aleatória dos 58,3k está consolidado, oferecendo apoio para a ponta comprada do mercado brigar pela manutenção do importante patamar psicológico dos 60k.
  

Na agenda local, destaque para a sinalização do Banco Central de interrupção das intervenções no mercado de câmbio a partir desta quarta-feira, ao não anunciar novos contratos de swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares. O Tesouro Nacional não está mais interferindo no mercado de títulos públicos com seus leilões de compra desde segunda-feira.

O clima no mercado local voltou a ficar positivo, até porque Wall Street está em euforia. A medida que os índices ficam puxados demais (no curto prazo) nas praças desenvolvidas, os investidores automaticamente passam a procurar novas oportunidades em praças emergentes.

Além disso, o acordo do governo federal com os governadores para um ajuste fiscal em troca da divisão da multa do projeto de repatriação soa positivo para o mercado. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem conseguido manter uma posição relativamente dura do governo federal frente à situação caótica de alguns estados e, ao mesmo tempo, conseguido avançar nos acordos.

Em troca da ajuda do governo federal (considerada insuficiente), os estados deverão limitar o crescimento dos gastos equivalente à inflação do ano anterior, reduzir em 20% em relação a 2015 os gastos com pessoal não concursado (cargos comissionados, temporários e gratificações), além de uma série de outras medidas de ajuste fiscal específicas.

Com recuo de Trump, China aumentará sua influência no Pacífico


O atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bem que tentou, mas não conseguiu avançar no Congresso para buscar aprovação da TPP (Parceria Trans-Pacífico). O trabalho de ratificar (ou não) o importante tratado comercial na região do Pacífico ficou para a articulação do próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Entretanto, nesta segunda-feira, Trump afundou de vez a TTP. Em um vídeo citando as ações a serem tomadas em seu primeiro dia de governo na Casa Branca (20/01/2017), o futuro presidente dos Estados Unidos confirmou que vai retirar os Estados Unidos da TTP.

Atualmente, a TTP possui como signatários os Estados Unidos e outras 11 economias da região da Ásia-Pacífico, entre elas, Chile, México e Peru. A China ainda não faz parte da TTP, mas tem pretensão de entrar para o bloco e aumentar sua influência nesses mercados e roubar o espaço de grande protagonista exercido hoje pelos Estados Unidos.

Com a negativa de Trump sobre a TTP, a China encontrará o espaço que sempre buscou para aumentar seus negócios em toda a região da Ásia-Pacífico, que representa quase 60% da economia mundial e 40% da população global.

A China e outros 20 países participaram da reunião de cúpula da Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico em Apec, no Peru, neste último final de semana. Os líderes se comprometeram avançar no acordo comercial, que tende a ser o maior do mundo.

Os chineses já se firmaram como líderes deste novo acordo e dizem que mais nações estão buscando se juntar ao bloco. Atualmente, a China está propondo a FTAAP, uma zona de livre comércio na região da Ásia-Pacífico, conectada à RCEP, uma associação econômica integral regional, que inclui até mesmo a Índia, mas não os Estados Unidos.

Steven Ciobo, ministro de Comércio da Austrália, vê com bons olhos as propostas deste novo bloco que está se desenhando na região, afirmando que seu país está disposto a incorporar as propostas respaldadas pela China.

O jogo das relações comerciais está mudando rapidamente. As duas maiores potências mundiais já mostraram suas cartas e apostam em cenários bem diferentes. Os demais países estão alinhando suas estratégias para este novo quadro, mas o Brasil ainda continua perdido e obsoleto, sem condições de competir ou abrir demais suas portas ao mercado global.

Com ou sem ajuste fiscal a economia brasileira continuará fraca, vulnerável e crescendo abaixo do potencial. O governo tentou emplacar o discurso da reconquista da confiança para tentar atrair os investimentos de volta com uma reforma fiscal pouco convincente.

O País precisa mesmo é de uma reforma de privilégios. O superávit primário dos sonhos existe e está fácil de alcançar no curto prazo: chama-se bolsa empresário. Empresas e grupos fortes continuam dominantes no mercado sob a proteção do governo. Em muitos casos são produtos obsoletos e negócios pouco lucrativos que estão tomando o lugar da inovação, dificultando o surgimento da concorrência e sugando parte relevante do crédito que circula na economia.

O ambiente continua impróprio para negócios não só por conta dos problemas estruturais, que por sinal são comuns em outros países, mas principalmente porque grande parte de empresários e empreendedores que não fazem parte do grupo dos privilegiados não querem se arriscar num ambiente de competição injusta e desleal.

No mercado de capitais, a semana começou com alívio aos ativos de risco no mundo inteiro. O índice Bovespa fechou o pregão desta segunda-feira em alta, mostrando que ainda há intensa briga no mercado pelo importante patamar psicológico dos 60.000 pontos.


Nos Estados Unidos, o índice S&P500 fechou mais um pregão em alta, sem apresentar novidades, renovando máxima histórica.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O contra-ataque de Janet Yellen


Duramente criticada por Donald Trump durante a campanha eleitoral dos Estados Unidos, Janet Yellen, presidente do FED (Federal Reserve – Banco Central norte-americano), não se acuou perante o Congresso nesta quinta-feira, aproveitando as perguntas dos parlamentares para passar alguns recados ao seu novo colega da Casa Branca.

Logo na primeira oportunidade, a chair do FED afirmou que em qualquer circunstância deixará seu cargo antes do fim de seu mandato de cinco anos (termina em janeiro de 2018), colocando um fim às especulações em torno de sua permanência no comando da instituição.

Yellen não perdeu tempo e logo em seguida passou outro recado a Donald Trump e seus assessores: “tenham cuidado com as políticas de estímulos à economia”. A chair do FED lembrou que os Estados Unidos estão se aproximando do pleno emprego e a inflação está aumentando, sugerindo espaço limitado para o afrouxamento fiscal.

O FED irá monitorar muito de perto as novas ações do governo, acrescentando-as em seu cenário base quando se tornarem mais claras. A partir de então, o Comitê avaliará o impacto dessas medidas no emprego e inflação e, se houver necessidade, a estratégia de política monetária terá de ser ajustada. Em outras palavras, a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros dos Estados Unidos) poderá abandonar sua trajetória ascendente extremamente gradual e subir num ritmo mais rápido.

O fato de Yellen ter mostrado que o FED está pronto para responder às mudanças na política econômica (se houverem) deixa Trump com menos liberdade para colocar em prática suas propostas polêmicas da forma como propôs na campanha. Um aumento mais rápido da FFR poderá causar impacto relevante no mercado e frear (ou mesmo reverter) a trajetória de recuperação do crescimento, o que seria um mau negócio para Trump e sua busca pela popularidade.

Como era de se esperar, Yellen defendeu veementemente a independência do FED, afirmando que os bancos centrais são mais eficazes quando podem tomar decisões táticas livres de pressão política. Caso contrário, segundo ela, um banco central comprometido com a política pode levar à alta da inflação, hiperinflação ou mesmo uma deflação.

Em seu discurso, Yellen destacou os resultados econômicos terríveis em países onde os bancos centrais ficaram sujeitos à pressão política. Não citou explicitamente quais foram esses países, mas é um caso perfeitamente adaptável à impressionante desarrumação macroeconômica ocorrida no Brasil anos atrás.

A chair do FED foi mais além e também defendeu o duplo mandato da autoridade monetária norte-americana (promover condições para o máximo emprego e inflação na meta), ressaltando que esses dois objetivos costumam estar em conflito em algumas situações.

Com relação à lei Dodd-Frank (principal resposta do governo norte-americano frente à terrível crise de 2008), Yellen frisou a necessidade de preservá-la. Parlamentares republicanos querem desmantelar a Dodd-Frank para aliviar as regras de capital e liquidez, favorecendo os grandes bancos de Wall Street, o que seria um grande retrocesso.

Ratificando o comunicado da autoridade monetária após a última reunião de Comitê, Yellen confirmou a expectativa de elevação da meta para a FFR em 0,25 p.p., de 0,25% a 0,50% ao ano, para a faixa de 0,50% a 0,75% ao ano, no próximo encontro a ser realizado no mês de dezembro.

O pronunciamento da chair do FED nesta quinta-feira ficou marcado por um tom visivelmente mais hawkish, incomum a economistas de viés reconhecidamente dovish.  Refletindo o contra-ataque de Janet Yellen, a taxa de juros da Treasury de 10 anos (título do Tesouro norte-americano) alcançou 2,29% ao ano, revelando manutenção da elevada pressão vendedora.


O comportamento da Treasury continua contaminando prêmios dos títulos da dívida pública em outras praças, principalmente emergentes. No Brasil, mesmo com a pressão compradora dos leilões de NTN-F do Tesouro Nacional, as taxas de juros futuros seguem relutantes em ceder, mostrando grande volume vendedor no mercado.

O índice Bovespa voltou a ceder nesta quinta-feira, interrompendo o alívio dos dois últimos pregões. Mercado permanece vendido no curto prazo, próximo da importante linha de suporte localizada na faixa dos 56,5k.


Por outro lado, os principais índices acionários de Wall Street continuam em rali de alta, colados nas máximas históricas. Juntamente com o dólar, as ações da bolsa de Nova York figuram entre os principais destinos do fluxo vendedor de Treasuries desde a eleição de Donald Trump.
  

Ainda nesta quinta-feira, o Banxico (Banco Central do México) elevou a taxa básica de juros em 0,50 p.p., para 5,25% ao ano, na tentativa de dar suporte ao câmbio local muito depreciado nos últimos dias e acalmar o mercado. A decisão decepcionou investidores e analistas locais, que esperavam uma alta de pelo menos 0,75 p.p. A menor ousadia da autoridade monetária mexicana pode ser explicada pelo fato de várias outras moedas estarem realizando movimento semelhante ao peso mexicano.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Enxugar gelo pode sinalizar desespero


Bastou o primeiro choque externo enfrentado por Ilan Goldfajn, como presidente do Banco Central, aparecer para o discurso bonito relacionado às intervenções da autoridade monetária no mercado de câmbio cair por terra.

As afirmações favoráveis ao câmbio flutuante combinadas com interferências parcimoniosas, quando houver necessidade, não estão condizentes com as operações realizadas pelo Banco Central no mercado de câmbio nesses últimos dias.

A venda líquida de 10 mil contratos de swap cambial tradicional (equivalente à venda futura de dólares), além da oferta de todos os 20 mil contratos para rolagem de swaps que vencem em 01/12/2016 não parece ser uma estratégia para apenas fornecer hedge e liquidez aos agentes, mas sim uma tentativa de frear a valorização do dólar contra o real.

A forte atuação do Banco Central no mercado cambial ganhou reforço da artilharia do Tesouro Nacional, que não só suspendeu os leilões de venda de LTN e NTN-F desta semana como também anunciou leilões diários de compra de Notas do Tesouro da Série F (NTN-F) até sexta-feira.

O motivo apresentado pelo Tesouro é oferecer suporte e liquidez aos agentes, já que nos últimos dias houve rápido desmonte de posições compradas. Na prática, a intervenção do Tesouro parece ter objetivo de frear a recente arrancada dos juros futuros brasileiros, na tentativa de acalmar os ânimos dos investidores e dar respaldo à taxa de câmbio.

A atuação conjunta em peso do Tesouro Nacional e Banco Central é destaque entre as principais praças financeiras mundiais e sinaliza que nossos líderes estão mais temerosos do que a média global desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos. 

É possível que esse temor esteja relacionado à manutenção da fraqueza dos fundamentos domésticos, com indicadores recentes derrubando a expectativa de retomada satisfatória do crescimento projetado pelo governo, além da complexidade fiscal e dificuldade de provocar ancoragem da inflação ao centro da meta.

Entretanto, as atuações do Tesouro Nacional e Banco Central possuem mero apelo psicológico e podem, até mesmo, revelar certo desespero das autoridades brasileiras, já que as intervenções não são capazes de maquiar uma condição de mercado desencontrada com a realidade, principalmente contra a tendência global.

A contragosto do governo, o dólar reverteu a tendência contra o real (de baixa para alta) ao romper a LTB da máxima do ano localizada na região dos R$ 4,17. Fortalece o movimento de reversão a formação de fundo duplo na região dos R$ 3,10, combinado com a superação da linha central de bollinger do gráfico semanal pela primeira vez desde o início da tendência de baixa.


Tentar reverter essa tendência é a mesma coisa que enxugar gelo, até porque o movimento ocorre a nível global. O dólar contra uma cesta de principais moedas mundiais está num estágio até mais avançado do que a tendência de alta contra o real.

Contra a cesta de moedas globais, o dólar já está realizando teste sobre a máxima registrada em 2015 e 2016, principal zona de resistência, que por sinal está fragilizada pela perfeição de um canal de alta sinalizando intensificação de força compradora, configurando um desenho técnico clássico comum em rompimentos de resistências importantes.


O dólar também está acelerando a tendência de alta contra o euro, realizando movimento muito semelhante à cesta de principais moedas globais.


Até mesmo contra o franco suíço, muito procurado pelos investidores para proteção na Europa, o dólar está conseguindo se sobressair, aproximando-se da máxima registrada em 2015 e 2016.


Contra o rand sul-africano, o dólar trabalha clássico rompimento da LTB principal, já bastante desgastada após a recente e curta sequência de testes, confirmando nascimento da tendência de alta.


Contra o peso mexicano, o dólar já estourou a máxima deste ano, adicionando força à tendência principal de alta.


No Chile, o dólar também rompeu a LTB da máxima do ano, confirmando reversão da tendência de baixa de curto prazo para retorno à tendência principal de alta. O peso chileno sequer conseguiu se aproximar da média móvel simples de 200 períodos semanal.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

FED vai ter que lutar pela sua independência


O republicano Paul Ryan, atual presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, foi reeleito por unanimidade nesta terça-feira por seus correligionários para continuar no cargo a partir de janeiro de 2017.

Ryan precisará obter ao menos 218 votos em janeiro para se confirmar na presidência da Câmara. A votação em plenário será um mero trâmite legal, já que os republicanos terão pelo menos 239 cadeiras a partir do ano que vem, garantindo margem suficiente para cobrir dissidências no partido, se houverem.

A aprovação de forma unânime colocou fim aos rumores de uma possível divisão dentro do partido republicano após a vitória de Donald Trump. Ryan é um político conservador de velha guarda do partido e tende a ser um dos grandes nomes, ao lado de Trump, na formulação e articulação para aprovação de algumas propostas polêmicas.

Dentre as importantes mudanças propostas por Trump, possivelmente endossadas pelo seu partido (de maioria no Congresso), estão cortes de impostos e aumento de gastos com programas de infraestrutura, fatores que afetam diretamente a estratégia de política monetária do FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos).

Mas antes de responder às possíveis mudanças na política econômica e fiscal, o FED terá de lutar pela sua independência. Cerca de um ano atrás, Ryan defendeu um projeto de lei absurdo que procura diminuir os poderes do FED e forçar que a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros) seja determinada por uma fórmula matemática, com a necessidade de o (a) chair se explicar ao Congresso caso decida se desviar dela. A medida foi votada e aprovada na Câmara, mas não prosperou em função da forte oposição dos democratas no Senado. O presidente Barack Obama também havia indicado sua intenção de vetar o projeto.

Agora o jogo virou contra o FED. Além da maioria no Congresso, os republicanos terão o apoio do futuro presidente para atacar a independência da autoridade monetária. Trump criticou duramente o Banco Central durante sua campanha e se mostrou contra a política monetária altamente expansionista.

Os republicanos afirmam que o FED criou uma bolha financeira com suas políticas de estímulos monetários e que afetou o poder aquisitivo dos poupadores com a drástica redução das taxas de juros.

A atual presidente do FED, Janet Yellen, falará no Congresso na próxima quinta-feira para discutir a economia. O clima no Comitê tende a ser tenso e dominado por discussões relacionadas à independência da autoridade monetária.

Yellen já se posicionou contra a proposta aprovada na Câmara no ano passado e o tom de seu discurso revelará se existem forças para que a autoridade monetária possa defender e garantir sua importante e necessária soberania frente ao Congresso. Diferentemente da postura cautelosa, grande marca desde sua posse, em janeiro de 2014, Yellen deve partir para o ataque e ser mais ativa no ambiente político.

Especulações com a nova gestão Trump sobre a política monetária do FED estão começando a extrapolar nos noticiários, impactando mercados mais vulneráveis. Alguém precisará aparecer para colocar ordem na casa e Yellen terá essa oportunidade na próxima quinta-feira.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pânico na Treasury acende sinal para fuga de capitais


O discurso de vitória de Donald Trump em tom conciliador e a reunião com o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não foram suficientes para acalmar os ânimos no mercado. Ao contrário da sensação de tranqüilidade transmitida ontem pelas principais praças financeiras mundiais, a quinta-feira foi de correria e desespero para fechamento de posições de risco.

O mercado mostrou, inclusive, que a minha opinião presente no post de quarta-feira está errada. Existem, sim, riscos não desprezíveis relacionados à administração Trump que infelizmente passaram desapercebidos. O principal deles atinge diretamente e espinha dorsal do sistema financeira mundial: a treasury (título público do Tesouro norte-americano).

Após se reunir com Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados e político de alta influência no partido, Trump afirmou a repórteres que vai, realmente, reduzir os impostos. A afirmação do novo presidente dos Estados Unidos demonstrou que os Republicanos estão alinhados com a proposta de redução da carga tributária que, por sinal, é uma velha bandeira levantada pelo partido.

O corte de impostos implicará numa política fiscal expansionista, com alto poder de impacto sobre a inflação. Portanto, caso a proposta vá adiante, o governo Trump deve experimentar aceleração dos índices de preço. Nesse quadro, o FED (Federal Reserve – Banco Central dos Estados Unidos) será obrigado abandonar sua estratégia extremamente gradual de aperto das condições monetárias para defender a ancoragem da inflação na meta de 2% a ser perseguida. Isso significa que a FFR (Federal Funds Rate – taxa básica de juros norte-americana) pode subir mais rápido do que se esperava anteriormente.

O principal fator responsável por manter as taxas de juros das treasuries comportadas em zona de baixo rendimento é justamente o excesso de gradualismo por parte do FED. Uma simples perspectiva de mudança na velocidade de aperto tem potencial para provocar choques ascendentes nos rendimentos das treasuries.

Com as treasuries pagando taxas de juros melhores, os investidores tendem a fechar operações de carry-trade com mercados que de alto risco e alto rendimento, para retornar a um mercado de baixo risco e rendimento mais elevado do que o de costume.

A taxa de juros da Treasury de 10 anos saltou para 2,15% ao ano, muito acima da média em torno de 1,60% praticada durante todo este ano e bem superior à mínima de 2016 registrada aos 1,37%.


A atual arrancada do rendimento da Treasury de 10 anos, referência global, é a mais forte dos últimos dois anos. O ritmo de alta já provocou rompimento da LTB que parte do pico de 3% registrado em 2014. Os investidores estão vendendo treasuries acreditando que juros futuros serão mais elevados no futuro, pois há expectativa no mercado de aumento no ritmo de alta da FFR em função da inflação a ser criada pelo expansionismo fiscal.

O FED tende a se manter cauteloso nos momentos de pânico no mercado, principalmente no curto prazo, podendo até mesmo evitar subir a FFR em dezembro na tentativa de acalmar os ânimos, se for necessário. Entretanto, diante de um cenário de aceleração da inflação não haverá outra alternativa a não ser subir a FFR no ritmo adequado.

Ainda é muito cedo para confirmar esse diagnóstico do mercado, mas o temor é justificável. O principal efeito colateral de uma política fiscal expansionista é justamente a aceleração da inflação, pois o capital é injetado de forma direta na economia, diferentemente das políticas de relaxamento quantitativo, onde boa parte capital fica represado no sistema financeiro.

No Brasil, os efeitos do pânico na Treasury foram potencializados pela atuação do Banco Central. Na última quarta-feira, a autoridade monetária anunciou a interrupção da oferta de leilões de swaps cambiais reversos, equivalentes à compra futura de dólares. O anúncio da medida mostrou ser um erro estratégico do Banco Central, pois acabou inflamando temor no mercado local.

A reação considerada tranqüila na quarta-feira frente ao resultado da eleição presidencial norte-americana pode ter emitido um falso sinal ao Banco Central de que o nível de tensão no mercado estava baixo, portanto, adequado para trabalhar mudanças na sua estratégia de atuação no câmbio.

Apesar da falta de reflexo sobre os preços, a tensão estava alta. Assim que o mercado abriu nesta quinta-feira, o dólar disparou contra o real. O candle de fechamento é forte o suficiente para sinalizar reversão na tendência principal de baixa para alta, já trabalhando rompimento da principal resistência localizada aos R$ 3,36.


Os investidores reagiram ao anúncio da medida na noite de quarta-feira como identificação do Banco Central para uma alta potencial do dólar, o que acabou criando uma intensa correria para fechamento de posições vendidas.

Com o mercado reagindo de forma bem diferente do que o Banco Central esperava, uma nova ação foi anunciada na noite desta quinta-feira. A autoridade monetária voltará rolar contratos de swaps cambiais tradicionais, o que equivale a uma venda de dólares no mercado futuro.

Desta vez, o Banco Central quer fazer pressão pra moeda subir com menos intensidade, ou mesmo voltar a cair. Uma arrancada do dólar prejudicará a estratégia de ancoragem da inflação ao centro da meta no próximo ano. O não cumprimento desse objetivo será ruim para recuperação da credibilidade perdida no passado e dificultará a ancoragem futura da inflação à meta.

O deslize do Banco Central bateu com força no mercado de ações local. O Ibovespa tombou novamente, voltando a se aproximar da zona de suporte psicológico localizada na região dos 60k. O retorno maciço das vendas pela segunda fez consecutiva num curto espaço de tempo tende a enfraquecer a referida linha de suporte.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Mais um golpe ao establishment


O sentimento anti-establishment, visto no referendo do mês de junho no Reino Unido, desembarcou com força em outra potência mundial. Tal como os eleitores britânicos, os norte-americanos não se intimidaram com a forte campanha pela manutenção do status quo.

Travando uma dura batalha contra Hillary Clinton, mas também desafiando o maciço apoio da mídia, instituições, empresas e até de Wall Street à candidata do partido Democrata, Donald Trump fez história nesta última terça-feira ao conquistar a Casa Branca de forma emocionante, contrariando as pesquisas eleitorais.

Bombardeado em todas as direções do establishment, Trump se não se intimidou na defesa, partiu para o ataque quando teve a oportunidade, mesmo em situações de desvantagem. Sua espontaneidade nos discursos transmitiu a sinceridade de seus pensamentos, diferentemente de Hillary, que pareceu ensaiar demais suas falas e expressões faciais nos debates. Não por acaso, muitos eleitores norte-americanos consideram Hillary uma grande mentirosa.

Atônitos com a vitória de Donald Trump, analistas não sabem explicar o que ocorreu nos Estados Unidos, mesmo que a resposta esteja escancarada à frente. Trump teve seus méritos na campanha por ter encarado batalhas difíceis em vários fronts, mas o que pesou para quebra do status quo foi a opção do outro lado.

Apesar da experiência na política, Hillary teve uma atuação considerada desastrosa, mesmo deixando de lado os escândalos dos e-mails. O colapso de países como Síria, Líbano e Egito, por exemplo, além da ascensão de diversos grupos terroristas, em especial o estado islâmico, ocorreram justamente quando Hillary ocupava o cargo de Secretária de Estado no governo Obama.

Suspeitas de corrupção também arranharam a imagem da candidata do partido Democrata. Estima-se que a Fundação Clinton tenha recebido cerca de impressionantes 2 bilhões de dólares em doações ao longo da última década. Tamanha generosidade das contribuições das grandes empresas norte-americanas vai muito além das “causas nobres” apoiadas pela Fundação Clinton, onde, por sinal, as despesas com viagens e salários de funcionários (incluindo a filha do casal) superam enormemente os dispêndios com programas sociais. As doações são indício de que essas empresas querem aumentar sua influência sobre Washington ou, em outras palavras, fazer lobby.

Hillary também tem inegável boa relação com o sistema financeiro norte-americano, fato confirmado através das doações volumosas para a campanha presidencial de 2016. Quando disputava as prévias para o partido Democrata, Hillary chegou a propor taxar negociadores de alta freqüência na bolsa de valores e fundos de investimentos não-bancários. Antes mesmo de entrar na campanha, Hillary teria recebido 20 milhões de dólares entre 2013 e 2014 para proferir palestras. Grandes players de Wall Street estão entre seus principais clientes.

Além disso, Hillary Clinton não aparenta ser confiável, transparente e honesta. Seus discursos contra a política externa, desigualdade de renda e o poder de Wall Street, por exemplo, vão justamente na direção oposta de suas atuações no passado.

De maneira geral, os Democratas foram arrasados em 2016. As eleições para Câmara e o Senado também surpreenderam o quadro traçado pelas pesquisas eleitorais. Os Democratas ficaram apenas com 47 assentos no Senado e os Republicanos estão, agora, ocupando 51 cadeiras, exatamente a quantidade necessária para obter a maioria. Na Câmara, os Republicanos reafirmaram maioria absoluta, ocupando 236 assentos contra 191 dos Democratas. Para obter maioria na Câmara, são necessários 218 votos.

Portanto, os Republicanos conquistaram não só a presidência dos Estados Unidos, mas também reafirmaram o importante controle do Congresso, contrariando as expectativas dos analistas. A comprovação da força do partido Republicano será importante para impedir que as propostas populistas de Trump ganhem força durante seu mandato, já que muitas delas vão contra os ideais do próprio partido.

O próprio discurso de vitória de Donald Trump mostrou um tom bem diferente daquele adotado durante a campanha. O novo presidente dos Estados Unidos destacou que pretende curar as divisões provocadas pela campanha e encontrar o meio termo.

O temor com uma vitória de Donald Trump provou ser mais uma questão de excesso de sensacionalismo da mídia (majoritariamente pró-Hillary) do que possibilidade real de mudanças econômicas significativas. A política do medo instaurada nos Estados Unidos, exportada para o resto do mundo, se assemelha às previsões catastróficas lançadas aos britânicos antes de votarem no referendo. São infundadas e revelam desespero pela manutenção do status quo. O abuso foi tão forte que acabou criando desconfiança entre os eleitores.

Assim como no pós-Brexit, o mercado de capitais global reagiu, mais uma vez, contrariando a totalidade das expectativas dos analistas. Ao contrário do pânico esperado nas praças financeiras, os investidores estão comprando ativos de risco.

O índice S&P500 acumula bom desempenho positivo nesta quarta-feira, emplacando mais um candle de alta relevante, aproximando-se da máxima história.


Na Europa, a bolsa de Londres fechou o pregão em alta de 1%, aos 6.911 pontos. A bolsa de Frankfurt, na Alemanha, subiu 1,56%, atingindo 10.646 pontos. Na Fraça, a bolsa de Paris avançou 1,49%, recuperando boa parte das perdas sofridas nas últimas semanas.

No Brasil, o índice Bovespa opera em leve baixa, ainda que muito acima do patamar registrado na abertura do pregão. O candle desta quarta-feira não altera o quadro técnico do mercado, mantendo-o em ponta comprada, próximo da máxima do ano.